O Bondinho da Rua das Flores
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Quem visita Curitiba pela primeira vez quase sempre faz o mesmo caminho.
Sai da Praça Osório, entra na Rua XV de Novembro e, sem perceber, diminui o passo.
A Rua das Flores tem esse efeito.
Ali ninguém parece ter tanta pressa.
As vitrines chamam atenção.
Os artistas de rua dividem espaço com músicos, pintores, caricaturistas e vendedores de pipoca.
Os bancos vivem ocupados.
As crianças correm entre os canteiros.
Os mais velhos caminham devagar, como quem revisita um velho álbum de fotografias.
E, quase no meio desse corredor tão conhecido da cidade, está ele.
O Bondinho.
Há quem o fotografe de longe.
Há quem faça questão de encostar na madeira.
Há quem sente por alguns minutos apenas para descansar.
Outros nem sabem exatamente por que ele está ali.
Mas quase ninguém passa sem olhar.
Numa tarde de primavera, Eduardo fazia justamente isso.
Sentou-se em um dos bancos próximos ao Bondinho enquanto esperava um amigo que sempre chegava atrasado.
Olhava as pessoas passando.
Turistas.
Casais.
Crianças.
Executivos apressados.
Um senhor alimentando pombos.
Uma violinista enchia a rua de música.
Foi então que percebeu uma jovem tentando fotografar o Bondinho.
Ela esticava o braço.
Mudava de posição.
Tentava incluir toda a estrutura na imagem.
Sempre aparecia alguém passando na frente.
Eduardo levantou-se.
— Posso tirar a foto para você?
Ela sorriu.
— Vai salvar minha viagem.
Entregou o celular.
Ele fez uma fotografia.
Depois outra.
Mais uma.
Mudou o enquadramento.
Pediu que ela desse alguns passos para trás.
Esperou as pessoas passarem.
Fez uma última imagem.
Ela olhou a tela.
— Ficaram lindas.
Muito obrigada.
— Disponha.
Ela começou a ir embora.
Parou.
Voltou dois passos.
— Já que você fotografou tão bem… posso convidar para um café?
Eduardo olhou para o relógio.
O amigo continuava atrasado.
Sorriu.
— Acho que posso esperar um pouco mais.
Entraram na cafeteria instalada dentro do próprio Bondinho.
O café virou conversa.
A conversa virou caminhada.
A caminhada terminou na Praça Santos Andrade.
Trocaram telefones.
Prometeram se encontrar novamente.
E cumpriram.
Vieram outros cafés.
Outras caminhadas pela Rua das Flores.
Passeios aos domingos.
Cinema.
Aniversários.
Viagens.
Alguns anos depois, voltaram ao mesmo lugar.
Desta vez carregavam nos braços uma menina de cabelos cacheados que insistia em perguntar:
— Papai… por que a mamãe gosta tanto desse bondinho?
Eduardo olhou para Helena.
Ela respondeu antes dele.
— Porque foi aqui que um desconhecido resolveu ser gentil por alguns minutos.
E esses minutos mudaram a nossa vida.
A menina não entendeu completamente.
Sorriu mesmo assim.
Quis entrar no Bondinho para tomar chocolate quente.
Enquanto os três desapareciam entre as mesas, turistas continuavam chegando.
Fotografavam.
Observavam.
Comentavam a arquitetura.
Sentavam-se por alguns instantes.
Talvez muitos imaginassem que o encanto daquele lugar estivesse apenas na beleza de sua estrutura ou na história que representa para Curitiba.
Mas os lugares mais importantes de uma cidade raramente são feitos apenas de madeira, pedra ou ferro.
São feitos das histórias que começam ali.
O Bondinho da Rua das Flores continua recebendo milhares de visitantes todos os anos.
Para alguns, será apenas um belo cartão-postal.
Para outros, um ponto de encontro.
E, para pelo menos uma família, será para sempre o lugar onde uma fotografia se transformou em conversa, uma conversa virou companhia, e um simples gesto de gentileza deu início ao maior amor de suas vidas.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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