O Varal do Quintal
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Quem passava pela rua quase nunca prestava atenção.
No fundo do quintal, esticado entre um pé de goiaba e o muro dos fundos, havia um varal antigo.
Dois fios de aço.
Alguns pregadores de madeira.
Nada mais.
Mas dona Margarida dizia que aquele varal contava histórias.
Não com palavras.
Com roupas.
Durante muitos anos, o quintal amanhecia cheio de uniformes escolares.
Camisetas pequenas.
Calças de moletom.
Meias desencontradas.
Toalhas de banho coloridas.
Os meninos atravessavam o quintal correndo, derrubando pregadores e levando bronca antes mesmo do café da manhã.
— Não puxem a toalha molhada!
— Esperem secar a camisa!
— Quem mexeu no lençol?
Era um barulho bom.
Daqueles que fazem parte da casa.
Com o passar dos anos, as camisetas começaram a crescer.
Os uniformes infantis desapareceram.
No lugar deles vieram calças jeans, moletons universitários e camisetas de academias.
As manhãs ficaram mais silenciosas.
Um sábado, dona Margarida percebeu que havia apenas duas roupas no varal.
Olhou para a casa.
O filho mais velho havia se mudado para outra cidade por causa do trabalho.
A filha passava a semana inteira na faculdade.
O caçula começara um estágio e saía antes do nascer do sol.
Ainda havia gente morando ali.
Mas a rotina já era outra.
Alguns meses depois, surgiram roupas muito pequenas.
Macacõezinhos.
Fraldas de pano.
Cobertores delicados.
A vizinha perguntou pelo muro:
— Receberam visitas?
Dona Margarida sorriu.
— Não.
Recebemos um neto.
O quintal voltou a ter risadas.
Carrinho de bebê.
Brinquedos esquecidos na grama.
Chinelos minúsculos espalhados pela varanda.
O velho varal parecia mais cheio do que nunca.
Os anos continuaram passando.
Numa manhã de inverno, havia apenas camisas sociais, uma blusa de lã e duas toalhas brancas.
Seu Alberto já estava aposentado.
Os filhos visitavam aos domingos.
O neto aparecia nas férias.
Enquanto estendia as roupas, dona Margarida ficou alguns instantes olhando para os pregadores.
Ainda havia um azul desbotado.
Outro vermelho, rachado pelo tempo.
Reconheceu cada um.
Alguns estavam ali havia mais de vinte anos.
Naquele momento, o portão se abriu.
O neto entrou correndo.
Atrás dele vinha a filha carregando uma cesta de roupas.
— Mãe, a máquina de lavar lá de casa estragou. Posso usar o seu varal?
Dona Margarida riu.
— Claro.
Sempre cabe mais um.
Pouco tempo depois, o quintal voltou a se encher.
Peças grandes.
Peças pequenas.
Uniforme da escola.
Roupinhas de bebê.
Toalhas coloridas.
Meias sem par.
Seu Alberto observou a cena da varanda.
— Engraçado…
O varal nunca ficou velho.
Só foi acompanhando a idade da família.
Dona Margarida terminou de prender o último lençol.
O vento começou a balançar todas as roupas ao mesmo tempo.
Pareciam acenar umas para as outras.
Ela sorriu.
As fotografias costumam guardar os rostos.
Os documentos registram datas.
Mas, às vezes, é um simples varal no quintal que revela, sem dizer uma única palavra, tudo o que mudou na vida de uma família.
E, enquanto houver roupas secando ao vento, sempre haverá alguma história continuando dentro daquela casa.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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