A Boca Maldita

(Betto Gasparetto)

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Quem chega pela primeira vez ao centro de Curitiba logo ouve alguém dizer:

— Você já passou na Boca Maldita?

Quem não conhece imagina um lugar perigoso.

Alguns pensam tratar-se de uma lanchonete famosa.

Outros acreditam ser uma antiga lenda da cidade.

Mas basta caminhar pela Rua das Flores para descobrir que a Boca Maldita é muito mais do que um ponto turístico.

É um ponto de conversa.

Logo pela manhã, o aroma do café recém-passado já toma conta da calçada.

Os copos fumegantes circulam de mão em mão.

Alguns preferem sentar.

Outros permanecem em pé.

E há aqueles que parecem frequentar o lugar apenas para ouvir.

Ali se encontram aposentados, comerciantes, jornalistas, estudantes, funcionários públicos, turistas e curiosos.

Não existe convite.

Quem chega acaba participando.

Naquela manhã, um casal de visitantes do interior observava tudo com curiosidade.

— Por que esse lugar está sempre cheio? — perguntou a mulher.

O dono da cafeteria sorriu enquanto servia dois cafés.

— Porque aqui o café esquenta a conversa.

Antes que ela pudesse responder, um senhor de boina aproximou-se da roda.

— Bom dia! Já ficaram sabendo?

Ninguém respondeu.

Era justamente isso que todos esperavam.

— A exposição nova do museu abriu ontem.

Dizem que está excelente.

Outro comentou:

— E a feira gastronômica da praça vai até domingo.

Uma senhora completou:

— A floricultura da esquina recebeu mudas lindas de hortênsias.

Um rapaz interrompeu:

— O trânsito na região sul está complicado por causa das obras.

As notícias mudavam de assunto com a mesma rapidez que os goles de café.

Falava-se de cultura.

De esporte.

Do frio que chegaria à noite.

De um concerto gratuito.

Da padaria que havia mudado de endereço.

Da livraria que reabrira depois da reforma.

Um turista cochichou para a esposa:

— Parece um jornal falado.

O senhor da boina ouviu.

Virou-se sorrindo.

— Melhor.

Aqui a notícia pode fazer perguntas de volta.

Todos riram.

Pouco depois, uma estudante pediu licença.

— Alguém sabe onde fica o antigo Paço Municipal?

Três pessoas responderam ao mesmo tempo.

Cada uma indicando um caminho diferente.

Depois de alguns segundos de discussão, chegaram a um consenso.

A jovem agradeceu.

Antes de sair, ouviu mais um conselho:

— Vá caminhando devagar.

Curitiba revela mais quando a gente anda sem pressa.

Ela seguiu sorrindo.

O movimento continuava.

Ninguém parecia dono da conversa.

As rodas se formavam e se desfaziam naturalmente.

Alguns permaneciam cinco minutos.

Outros passavam a manhã inteira.

Ao meio-dia, o casal do interior terminou o café.

Antes de ir embora, o homem comentou:

— Achei que viria conhecer um ponto turístico.

Acabei conhecendo um jeito de a cidade conversar consigo mesma.

O atendente enxugou uma xícara e respondeu:

— Os monumentos contam a história de uma cidade.

Mas são as pessoas que a mantêm viva.

Enquanto caminhavam novamente pela Rua das Flores, o casal percebeu que a Boca Maldita não era famosa pelas discussões, nem pelos comentários espirituosos, nem mesmo pelo excelente cafezinho servido nas redondezas.

Era conhecida porque ali as notícias ganhavam voz, as novidades encontravam ouvintes e desconhecidos descobriam que uma boa conversa ainda é uma das formas mais simples de aproximar pessoas.

Talvez seja esse o verdadeiro encanto daquele pequeno espaço no coração de Curitiba.

Não importa de onde alguém venha.

Sempre haverá uma roda aberta, uma cadeira disponível e um café quente esperando para acompanhar mais uma boa história.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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