O Anel que Tu me Destes
(Betto Gasparetto)

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O anel era simples.
Prata antiga.
Sem pedras preciosas.
Por dentro, uma pequena inscrição já quase apagada pelo tempo:
“O anel que tu me destes…”
O restante da frase havia desaparecido.
Ninguém sabia quem o mandara gravar.
Nem para quem.
Tudo começou quando dona Cecília o encontrou sobre um banco da Praça Osório.
Esperou alguns minutos.
Olhou em volta.
Perguntou a quem passava.
Ninguém reclamou o objeto.
Levou-o até a administração da praça.
Passaram-se trinta dias.
Nenhum dono apareceu.
A funcionária devolveu o anel.
— Pela lei, agora pertence à senhora.
Cecília sorriu.
— Não gosto de usar anéis.
Guardou-o em uma gaveta.
Meses depois, resolveu presentear a neta no aniversário de dezoito anos.
— Não vale muito.
Mas talvez carregue uma boa história.
A jovem agradeceu.
Usou o anel durante algum tempo.
Até o dia em que terminou um namoro.
Ao olhar para a pequena inscrição incompleta, achou que aquilo parecia ironia.
Guardou-o novamente.
Anos mais tarde, durante uma mudança, encontrou a pequena caixa esquecida.
Decidiu vendê-la em um antiquário.
O dono examinou a peça.
— Curioso…
O valor não está na prata.
Está no mistério.
Dias depois, um professor de História apaixonou-se pelo objeto.
Comprou-o.
Não pela beleza.
Pela frase interrompida.
Mostrava o anel aos alunos.
— Vejam como uma história incompleta desperta mais perguntas do que muitas respostas.
Após sua morte, os filhos doaram parte dos objetos pessoais para um bazar beneficente.
O anel voltou a circular.
Uma atriz o comprou para usar em uma peça teatral.
Um ourives o restaurou.
Um colecionador quase o levou para outro país.
Mas desistiu na última hora.
Décadas se passaram.
O pequeno anel conheceu bolsos, cofres, vitrines, gavetas e dedos diferentes.
Foi símbolo de amor.
De saudade.
De superstição.
De sorte.
De simples decoração.
Cada dono inventava uma explicação.
Nenhuma igual à anterior.
Certo sábado, um menino entrou em um antiquário acompanhado do avô.
Enquanto observava objetos antigos, apontou para o anel.
— Quem foi que perdeu isso?
O vendedor sorriu.
— Talvez ninguém.
Talvez todo mundo.
O avô pegou a peça.
Leu lentamente a inscrição.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois a devolveu.
— Engraçado…
O anel nunca mudou.
Quem mudou foram as pessoas que passaram por ele.
Saíram da loja de mãos dadas.
O anel permaneceu na vitrine.
Esperando o próximo dono.
Ou melhor…
A próxima história.
Porque os objetos raramente transformam as pessoas.
São as pessoas que depositam neles seus medos, afetos, esperanças e arrependimentos.
Talvez por isso uma sociedade não seja construída apenas por leis, documentos ou papéis.
Ela é feita de lembranças compartilhadas, gestos silenciosos e histórias que passam de mão em mão.
Assim como aquele velho anel.
Que nunca encontrou definitivamente seu dono.
Mas encontrou, ao longo do caminho, um pouco da humanidade de cada um que o segurou.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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