O Sapato Engraxado

(Betto Gasparetto)

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Seu Anselmo engraxava sapatos havia tanto tempo que dizia reconhecer uma profissão antes mesmo de olhar para o rosto do freguês.

Sapato preto, muito brilhante, chegando cedo?

— Advogado ou gerente de banco.

Bota coberta de poeira?

— Pedreiro, eletricista, alguém que trabalha onde a cidade ainda está sendo construída.

Sapato caro, mas com o salto gasto?

— Esse está trabalhando mais do que gostaria de admitir.

Tênis velho?

Aí ele não arriscava.

— Tênis engana demais.

Seu pequeno ponto ficava numa galeria do centro. Uma cadeira alta, uma caixa de madeira, escovas, panos e latinhas de graxa organizadas com um cuidado que não combinava com a bagunça do corredor.

Toda manhã passavam por ele centenas de pés.

Alguns apressados.

Outros cansados.

Poucos paravam.

Numa sexta-feira, apareceu um homem de terno impecável.

Relógio elegante.

Pasta de couro.

Sapatos tão bem cuidados que seu Anselmo pensou que nem precisavam de serviço.

O homem sentou.

— Capricha. Tenho uma reunião importante.

Enquanto trabalhava, o engraxate ouviu o cliente falar ao telefone.

— Não quero saber. Manda embora.

Silêncio.

— Se está doente, problema dele. Empresa não é instituição de caridade.

Desligou.

Seu Anselmo continuou passando a escova.

Não comentou nada.

Recebeu o pagamento.

O homem nem esperou o troco.

— Fica para você.

Saiu com os sapatos brilhando.

Pouco depois chegou outro freguês.

Calça simples.

Camisa desbotada.

Nos pés, um par de sapatos marrons castigados pelo tempo.

— Quanto fica?

Seu Anselmo disse o preço.

O homem contou algumas moedas.

Faltavam dois reais.

— Deixa para outro dia.

— Pode fazer assim mesmo?

— Senta aí.

Enquanto engraxava, uma senhora passou carregando duas sacolas pesadas.

Uma delas rasgou.

Laranjas rolaram pelo corredor.

O freguês levantou imediatamente.

Abaixou-se.

Recolheu uma por uma.

Depois pegou uma sacola vazia que carregava na mochila e entregou à senhora.

— Leve nesta. Aguenta mais.

— Mas e o senhor?

— Tenho outra em casa.

Voltou para a cadeira.

Seu Anselmo terminou o serviço.

O homem olhou para os próprios sapatos.

— Parece até outro par.

— Sapato é fácil — respondeu o engraxate. — Um pouco de graxa resolve.

O freguês riu e foi embora.

No fim da tarde, seu Anselmo guardava as escovas quando um menino que trabalhava numa loja vizinha perguntou:

— É verdade que o senhor descobre como a pessoa é olhando para o sapato?

Ele ficou pensando.

Durante muitos anos acreditara nisso.

Conhecia o executivo pelo couro.

O operário pela poeira.

O trabalhador cansado pela sola.

Mas naquele dia havia visto sapatos impecáveis levando embora um homem incapaz de oferecer compreensão.

E sapatos quase vencidos pelo uso pararem no meio do caminho para recolher laranjas de uma desconhecida.

Fechou a última lata de graxa.

— Não, menino.

— Então o sapato não conta nada?

Seu Anselmo sorriu.

— Conta por onde a pessoa andou.

Quem ela é, só dá para saber quando ela encontra alguém caído pelo caminho.

Apagou a luz da pequena banca e foi embora.

No corredor vazio, ainda permanecia uma laranja esquecida debaixo de um banco.

E talvez estivesse justamente ali a diferença que nenhuma graxa conseguiria esconder.

Sapatos podem revelar a estrada.

Nunca o tamanho de quem caminha dentro deles.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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