O Profeta de Gibran
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Henrique encontrou o pacote sobre a mesa quando voltou do almoço.
Era pequeno, embrulhado em papel pardo e amarrado com um barbante fino. Não havia remetente, cartão ou qualquer indicação de quem o deixara ali. Apenas seu nome, escrito à mão.
— Chegou para mim?
Márcia, da recepção, levantou os olhos do computador.
— Deixaram pouco antes do meio-dia.
— Quem?
— Uma mulher.
— Que mulher?
— Se eu soubesse que haveria interrogatório, tinha pedido documento.
Henrique riu pela primeira vez naquele dia.
Não estava exatamente disposto a rir.
A manhã havia começado com o despertador ignorado duas vezes, café derramado na camisa e quarenta minutos de trânsito. Ao chegar ao escritório, encontrou uma mensagem da direção convocando-o para uma reunião no fim da tarde.
Não explicava o assunto.
Esse era justamente o problema.
A empresa atravessava uma reestruturação, palavra elegante que, nas últimas semanas, significara salas fechadas, conversas baixas e algumas mesas vazias de um dia para o outro.
Henrique tinha cinquenta e seis anos e trabalhava ali havia quase vinte.
Naquela manhã, calculou três vezes quanto tempo conseguiria pagar as contas se fosse dispensado.
Na terceira conta, desistiu.
Levou o pacote para sua mesa e abriu.
Era um livro.
O Profeta, de Khalil Gibran.
A edição não era nova. A capa apresentava pequenas marcas de uso e algumas páginas estavam ligeiramente amareladas. Henrique conhecia o título, naturalmente, mas nunca havia lido o livro inteiro.
Folheou.
Na primeira página havia uma dedicatória:
“Alguns livros chegam quando a gente os compra. Outros esperam a hora de encontrar a gente.”
Sem assinatura.
Henrique reconheceu a letra.
Ou achou que reconheceu.
Procurou o celular e abriu uma conversa antiga.
A última mensagem tinha quase oito meses.
Era de Laura, sua irmã.
Os dois haviam discutido depois da venda da casa da mãe. O motivo inicial fora uma cômoda antiga que ambos queriam guardar. Depois surgiram contas, documentos, lembranças, acusações guardadas havia anos e aquela extraordinária capacidade que as famílias possuem de transformar um móvel em inventário completo de ressentimentos.
A última mensagem dela dizia:
“Quando você quiser conversar sem precisar vencer, me procure.”
Henrique nunca respondeu.
Fechou o telefone.
Abriu o livro.
Começou a ler durante os minutos que ainda restavam do almoço. Encontrou páginas sobre amor, trabalho, filhos, liberdade, alegria, tristeza, amizade e tantas outras coisas que atravessavam vidas muito diferentes da sua e, ainda assim, pareciam estranhamente próximas.
Não encontrou respostas para a reunião das cinco.
Também não encontrou uma fórmula para resolver oito meses de silêncio com a irmã.
Ainda assim, continuou lendo.
Às duas, voltou ao trabalho.
Às três e vinte, discutiu com um colega sobre uma planilha.
Normalmente teria prolongado a discussão até provar que estava certo. Naquele dia, parou no meio.
— Quer saber? Vamos conferir juntos.
O colega estranhou.
— Você está bem?
— Por quê?
— Concordou comigo antes dos quinze minutos regulamentares.
— Não se acostume.
Continuaram trabalhando.
Às quatro e cinquenta, Henrique fechou o computador e caminhou até a sala da direção.
Entrou preparado para receber a notícia que ensaiara durante todo o dia.
A gerente pediu que sentasse.
— Henrique, precisamos conversar sobre sua função.
Ele sentiu o estômago apertar.
Ela continuou.
A empresa realmente reduziria alguns setores, mas queria que ele assumisse uma nova equipe. Precisavam de alguém experiente para acompanhar funcionários mais jovens durante a transição.
Henrique ouviu tudo.
Novo cargo.
Novas responsabilidades.
Mesmo salário durante os primeiros meses.
Treinamento.
Avaliação futura.
Quando saiu, não sabia se havia recebido uma promoção ou um problema com nome mais bonito.
Márcia perguntou:
— Sobreviveu?
— Parece que sim.
— Então comemora.
— Ainda estou decidindo.
Guardou suas coisas.
O livro permanecia sobre a mesa.
Antes de ir embora, abriu novamente a dedicatória.
Pegou o celular.
Ficou alguns segundos olhando para o nome da irmã.
Digitou:
“Foi você?”
A resposta chegou quando já estava no elevador.
“O quê?”
Henrique olhou para o livro debaixo do braço.
Talvez ela estivesse brincando.
Talvez realmente não soubesse.
Escreveu outra mensagem.
Apagou.
Tentou novamente.
“Nada. Como você está?”
Dessa vez a resposta demorou.
Henrique saiu do prédio, atravessou a calçada e entrou numa cafeteria. Pediu um café e escolheu uma mesa perto da janela.
O celular vibrou.
“Estou bem. Estranhei a pergunta.”
Ele sorriu.
“Eu também.”
Vieram três pontinhos na tela.
Desapareceram.
Voltaram.
“Quer tomar um café qualquer dia?”
Henrique olhou para a xícara que acabara de chegar.
“Quero.”
Guardou o telefone.
Do lado de fora, as pessoas atravessavam a rua apressadas. Um ônibus parou, deixou passageiros e seguiu. Um entregador quase esbarrou num homem distraído. Duas mulheres discutiam diante de uma vitrine. A cidade não apresentava qualquer sinal de ter participado daquele pequeno acontecimento.
Henrique abriu o livro novamente.
Ainda queria descobrir quem havia deixado o pacote.
Na manhã seguinte, perguntou ao segurança. Depois ao pessoal da limpeza. Márcia tentou lembrar melhor da mulher que fizera a entrega, mas sua descrição servia para algumas milhares de pessoas.
Ninguém soube dizer.
O livro passou a ficar na gaveta de Henrique.
Não escondido.
Guardado.
De vez em quando ele o levava para casa. Outras vezes lia algumas páginas durante o almoço. Meses depois, Laura percebeu o volume sobre a mesa da sala.
Pegou-o nas mãos.
— Você está lendo Gibran?
Henrique observou atentamente o rosto da irmã.
— Estou.
— Desde quando?
— Desde que alguém me deu.
Ela abriu a primeira página.
Leu a dedicatória.
— Bonita.
— Você reconhece a letra?
Laura examinou por alguns segundos.
— Não.
Devolveu o livro e foi buscar mais café.
Henrique permaneceu olhando para a dedicatória.
Ainda não tinha certeza.
Talvez nunca tivesse.
Fechou o livro.
Da cozinha, Laura gritou:
— Açúcar?
— Sem.
— Desde quando você toma sem açúcar?
Henrique levantou-se.
— Muita coisa aconteceu desde a última vez que você veio aqui.
— Percebi.
Ele foi até a cozinha.
O livro permaneceu sozinho sobre a mesa, com a dedicatória escondida entre a capa e a primeira página.
E o nome de quem o enviara continuou exatamente onde estava desde o começo:
em lugar nenhum.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)


Deixe um comentário