Ser ou Não Ser Tão Ser
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Durante vinte e sete anos, Helena escolhera quem entrava.
Na filial brasileira de uma empresa europeia, começara como assistente administrativa, passara por treinamento, folha de pagamento, recrutamento e desenvolvimento de pessoas até chegar à gerência de Recursos Humanos. Conhecia os diretores pelo primeiro nome, lembrava quais gestores detestavam entrevistas às segundas-feiras e sabia identificar, antes mesmo da reunião terminar, quando uma vaga já tinha candidato escolhido.
Aos cinquenta e quatro anos, tinha uma sala envidraçada, duas especializações, inglês fluente, conhecimento suficiente da empresa para contar sua história sem consultar arquivos e uma certeza que, durante muito tempo, parecera razoável: experiência ainda valia alguma coisa.
Até começarem as mudanças.
Primeiro chegou um novo diretor europeu, doze anos mais jovem que ela. Depois vieram expressões que se multiplicaram pelas reuniões: transformação digital, inteligência de dados, automação, people analytics, competências emergentes.
Helena anotava tudo.
Em casa, pesquisava o que não conhecia.
Foi assim que descobriu que algumas das ferramentas exigidas nas novas vagas de RH simplesmente não existiam quando concluíra sua última especialização.
Numa terça-feira, durante uma videoconferência, ouviu o diretor comentar:
— Precisamos atualizar o perfil estratégico da área.
A frase não mencionava seu nome.
Mesmo assim, Helena passou a noite inteira ouvindo-o.
Na semana seguinte, surgiu uma vaga para especialista sênior em gestão de pessoas. O novo profissional trabalharia diretamente com ela.
Os currículos começaram a chegar.
Helena abriu o primeiro.
Trinta e dois anos. Mestrado. Inglês, alemão e espanhol. Certificação internacional. Experiência com análise de dados aplicada a recursos humanos.
Abriu outro.
Trinta e seis anos. Duas pós-graduações. Projetos internacionais. Conhecimento avançado de ferramentas que Helena ainda aprendia a utilizar.
O terceiro parecia pior.
Ou melhor.
Dependia do ponto de vista.
Fechou o sistema.
Naquela noite, perguntou ao marido:
— Você acha que eu estou velha para o mercado?
Ele tirou os olhos do jornal.
— Aconteceu alguma coisa?
— Fiz uma pergunta.
— E eu fiz outra.
Helena não respondeu.
No escritório, passou a ler os currículos de outra maneira.
Antes procurava competências.
Agora procurava ameaças.
Um candidato tinha excelente formação, mas pouca permanência nas empresas anteriores.
Instabilidade profissional.
Outra apresentava experiência internacional e domínio tecnológico superior ao exigido.
Perfil possivelmente acima da posição.
Um terceiro tinha quarenta e oito anos, longa experiência executiva e formação recente em gestão de dados.
Helena permaneceu alguns minutos diante daquele currículo.
Era quase sua própria trajetória, com atualizações que ela não possuía.
Clicou:
Não aderente.
No início, justificava cada exclusão.
Depois ficou mais fácil.
Currículos impressos para discussão com a equipe começaram a desaparecer na fragmentadora. Os digitais recebiam observações suficientes para impedir que avançassem.
Nada grosseiro.
Nada obviamente irregular.
Helena conhecia RH demais para deixar uma decisão parecer pessoal.
Nas entrevistas presenciais, tornou-se ainda mais cuidadosa.
— Onde você se vê daqui a cinco anos?
— Como lida com conflitos?
— Por que deseja sair da empresa atual?
As perguntas eram convencionais. As conclusões, nem sempre.
Uma candidata de trinta e nove anos chamou sua atenção.
Marina tinha formação sólida, experiência internacional e domínio de sistemas recentes. Falava sem exagerar realizações e admitia quando desconhecia alguma coisa.
Helena tentou encontrar uma falha.
— Seu currículo mostra muitas qualificações para esta posição. Não teme ficar desmotivada?
— Não. Quero trabalhar justamente numa empresa em que eu ainda tenha o que aprender.
Helena anotou:
Risco de baixa permanência.
Na saída, Marina agradeceu.
— Gostei muito da entrevista.
— Nós entraremos em contato.
Era a frase mais eficiente já inventada para encerrar esperanças sem assumir compromisso.
Dois dias depois, Helena reprovou sua candidatura.
Na sexta-feira seguinte, recebeu uma convocação do diretor.
Reunião às dez.
Assunto: Estrutura de Pessoas – Próximo Ciclo.
Seu estômago apertou.
Às nove e cinquenta e cinco, entrou na sala.
O diretor estava acompanhado da vice-presidente regional, recém-chegada da Europa.
— Helena, sente-se.
Sobre a mesa havia uma pasta.
Ela reconheceu o logotipo do departamento jurídico.
Pensou imediatamente na rescisão.
Vinte e sete anos resumidos numa pasta azul.
A vice-presidente começou:
— Estamos reorganizando a gestão de Recursos Humanos na América Latina.
Helena manteve as mãos sobre o colo para que ninguém percebesse que estavam frias.
— Entendo.
— A sede decidiu centralizar parte dos processos de recrutamento.
Pronto.
A palavra seguinte seria agradecimento.
Depois trajetória.
Contribuição.
Nova etapa.
Helena conhecia o vocabulário. Ajudara a escrevê-lo para outras pessoas.
O diretor abriu a pasta.
— Queremos que você assuma a coordenação regional de transição.
Helena demorou a reagir.
— Eu?
— Você conhece esta operação melhor do que qualquer pessoa da equipe.
A vice-presidente continuou:
— Mas precisamos modernizar alguns processos. Principalmente seleção e análise de competências.
Helena sentiu um alívio tão grande que quase doeu.
Então veio a segunda parte.
— Por isso contratamos uma consultoria externa para revisar os últimos processos seletivos.
O alívio desapareceu.
A vice-presidente retirou algumas folhas da pasta.
— Encontramos índices de reprovação muito acima do padrão nos candidatos mais qualificados.
Helena não respondeu.
— Há justificativas inconsistentes e alguns currículos que constavam como recebidos, mas desapareceram do processo.
O silêncio dentro da sala ficou desconfortavelmente profissional.
— Você sabe o que aconteceu?
Helena poderia culpar o sistema.
Poderia falar em critérios subjetivos.
Poderia citar adequação cultural, aderência comportamental ou qualquer uma das expressões que durante anos aprendera a usar com precisão.
Mas, pela primeira vez, nenhuma delas pareceu suficientemente boa.
— Sei.
O diretor esperou.
Helena respirou fundo.
— Fui eu.
A vice-presidente fechou a pasta.
— Por quê?
Essa pergunta era mais difícil que todas as anteriores.
Helena olhou através da parede de vidro. Do lado de fora, funcionários circulavam com notebooks, conversavam diante da máquina de café e entravam em salas de reunião. Reconhecia alguns que ela mesma havia contratado muitos anos antes.
— Eu achei que estavam procurando alguém para me substituir.
O diretor franziu a testa.
— Ninguém estava.
Helena soltou uma pequena risada sem humor.
— Agora eu sei.
A reunião durou mais de uma hora.
Não houve promoção.
Também não houve demissão imediata.
A investigação interna continuaria. Os candidatos prejudicados seriam contatados novamente, e Helena seria afastada temporariamente dos processos seletivos enquanto a empresa analisava sua conduta.
Ao sair, encontrou sua própria equipe trabalhando.
Na mesa que costumava ocupar durante as entrevistas havia uma pilha de currículos recuperados do sistema.
No alto estava o de Marina.
Helena sentou em sua sala e abriu o computador.
Havia um e-mail novo.
Assunto: Processo seletivo – revisão extraordinária.
A lista trazia onze candidatos.
Onze pessoas que talvez tivessem recebido um “não” por razões que jamais imaginariam.
No fim da tarde, enquanto guardava seus objetos, encontrou numa gaveta o currículo que enviara à empresa vinte e sete anos antes.
Duas páginas.
Datilografadas.
Sem pós-graduação internacional.
Sem certificações.
Sem idiomas além do inglês intermediário que possuía na época.
Sem analytics.
Sem competências digitais.
No canto superior, alguém havia escrito à caneta:
“Pouca experiência. Vale entrevistar.”
Helena leu duas vezes.
Não reconheceu a letra.
Ficou tentando imaginar quem, quase três décadas antes, decidira não descartá-la.
Na segunda-feira, Marina voltou à empresa para uma nova entrevista.
Dessa vez, Helena não participou.
Cruzaram-se no corredor.
Marina parou.
— Bom dia.
Helena respondeu.
— Bom dia.
Nenhuma das duas acrescentou nada.
Marina entrou na sala de entrevistas e a porta se fechou.
Helena permaneceu alguns segundos no corredor com seu antigo currículo debaixo do braço.
Depois seguiu para outra sala, onde uma comissão a esperava.
Naquela manhã, pela primeira vez em vinte e sete anos, ela não sabia de que lado da mesa terminaria o processo.
(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

Deixe um comentário