O Menino Que Viu o Super-Homem

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Miguel tinha oito anos e enxergava o mundo de muito perto.

Para ler, aproximava o rosto das páginas. Para reconhecer alguém à distância, procurava primeiro a voz, o jeito de andar, a cor da roupa ou algum detalhe que tivesse aprendido a guardar. Sua baixa visão transformara coisas aparentemente simples em pequenas negociações diárias com o mundo.

Isso nunca o impedira de gostar de histórias em quadrinhos.

Pelo contrário.

Tinha dezenas de gibis organizados numa estante baixa do quarto. Conhecia personagens, uniformes, poderes, planetas, inimigos e histórias que o pai já desistira de acompanhar. Também colecionava miniaturas. Algumas eram baratas, outras tinham sido presentes de aniversário e duas haviam sido compradas depois de meses juntando moedas.

A preferida ficava sobre a escrivaninha.

Super-Homem.

Miguel gostava da capa.

— É estranho — dizia o pai. — Você gosta de um herói que usa a cueca por cima da roupa.

— Pai!

— Estou apenas analisando o uniforme.

— Você não entende nada de super-herói.

Nisso Miguel provavelmente tinha razão.

Num sábado de manhã, a família decidiu visitar um grande parque de entretenimentos que passava pela cidade. Havia brinquedos, apresentações, jogos, personagens fantasiados e uma área especialmente preparada para crianças.

Miguel soube da existência dos super-heróis dois dias antes.

A partir daí, perguntou aproximadamente quarenta vezes a que horas sairiam de casa.

No sábado acordou antes de todos.

Escolheu uma camiseta azul com o símbolo do Super-Homem.

A mãe encontrou-o vestido às sete da manhã.

— Miguel, o parque abre às dez.

— Eu sei.

— Então por que já está pronto?

— Para não atrasar.

— São sete horas.

— Justamente.

Às dez e quinze, estavam na entrada.

O estacionamento já estava cheio. Crianças corriam de um lado para outro, pais conferiam ingressos no celular e funcionários tentavam organizar filas que pareciam possuir vontade própria.

Miguel segurava a mão da mãe.

O excesso de pessoas dificultava ainda mais sua orientação. O pai caminhava do outro lado, avisando sobre pequenos degraus e obstáculos.

— Tem uma placa na frente.

— Vi.

— Cuidado com a criança correndo.

— Essa eu não vi.

— Nem a mãe dela, aparentemente.

Miguel riu.

Quando chegaram perto da entrada principal, ouviu uma menina gritar:

— Olha o Super-Homem!

Miguel parou.

— Onde?

A mãe procurou.

— Perto do portão.

Ele apertou os olhos.

Via uma figura alta, predominantemente azul e vermelha, mas não conseguia distinguir o rosto.

— É ele?

— É.

Miguel soltou a mão da mãe e deu dois passos.

— Espera — disse ela.

— Quero chegar perto.

O funcionário vestido de Super-Homem chamava-se André.

Tinha vinte e nove anos, estudava Educação Física à noite e trabalhava em eventos nos fins de semana para completar a renda. Naquela manhã, sua principal função era receber as crianças, tirar fotografias e ajudar a organizar a entrada.

Gostava do trabalho, embora vestir aquela roupa durante horas não fosse exatamente um superpoder.

Já havia ouvido de tudo.

Crianças perguntavam se ele voava.

Se conhecia o Batman.

Se a capa era verdadeira.

Se conseguia levantar um carro.

Um menino certa vez perguntara onde ele estacionara a nave espacial.

André aprendera a responder sem destruir a fantasia.

— Super-Homem! — chamou Miguel.

André olhou.

Viu um menino pequeno usando uma camiseta com o mesmo símbolo de seu uniforme.

Abaixou-se.

— Ora, ora. Parece que temos outro membro da equipe por aqui.

Miguel aproximou-se até ficar muito perto dele.

A mãe começou a explicar:

— Desculpe, ele tem baixa…

Miguel interrompeu:

— Posso chegar mais perto?

André percebeu.

— Claro.

O menino aproximou o rosto.

Observou o símbolo no peito.

Tocou de leve a capa.

Depois olhou para o rosto do funcionário.

André permaneceu imóvel.

— Gostou do uniforme?

Miguel não respondeu imediatamente.

Continuou examinando-o.

Então sorriu.

— Eu sei quem você é!

André congelou.

A mãe levou a mão à boca para esconder uma risada.

O pai esperou.

André imaginou que o menino tivesse percebido a fantasia. Talvez tivesse reconhecido alguma costura, a maquiagem ou simplesmente concluído que aquele Super-Homem não poderia ser verdadeiro.

Entrou na brincadeira.

— Sabe?

Miguel confirmou com a cabeça.

— Sei.

— Então não conta para ninguém.

O menino aproximou-se mais.

André perguntou:

— Quem eu sou?

Miguel respondeu sem hesitar:

— Você é o homem que deixa as crianças felizes.

André perdeu a resposta.

Não estava preparado para aquilo.

Havia decorado frases engraçadas. Sabia fazer poses para fotografias, imitar a postura do personagem e responder perguntas sobre kryptonita.

Mas ninguém lhe ensinara o que fazer quando uma criança atravessava o uniforme e encontrava a pessoa lá dentro.

— Como você sabe? — perguntou.

Miguel apontou para seus próprios olhos.

— Eu não enxergo muito bem.

Fez uma pausa.

— Mas isso eu consigo ver.

A mãe virou o rosto.

O pai abaixou a cabeça por alguns segundos.

André permaneceu agachado diante do menino.

Ao redor deles, o parque continuava funcionando. Funcionários chamavam visitantes, crianças corriam, celulares fotografavam e uma música alta anunciava o início de alguma atração.

André estendeu a mão.

— Posso te contar um segredo?

Miguel aproximou-se.

— Pode.

— Às vezes quem está aqui dentro também esquece disso.

Miguel olhou para ele.

— Do quê?

— De fazer alguém feliz.

O menino pensou.

— Então eu lembrei você.

André sorriu.

— Lembrou.

A fila continuava crescendo.

Um colega fez sinal indicando que precisavam liberar a entrada.

André levantou-se.

— Você veio conhecer o parque?

— Vim conhecer os heróis.

— Todos?

— Quase todos.

— Qual é o seu preferido?

Miguel olhou para o símbolo da própria camiseta.

— Precisa perguntar?

— Só estava verificando.

André pegou o rádio preso ao cinto.

Falou rapidamente com alguém da organização.

A mãe de Miguel percebeu.

— Está acontecendo alguma coisa?

— Nada grave. Assunto de super-herói.

Poucos minutos depois, uma funcionária apareceu e conduziu a família até uma área lateral.

Miguel não entendeu.

— A gente não vai entrar?

— Vai — respondeu André. — Mas primeiro preciso de ajuda.

— Com quê?

— Reunir minha equipe.

Um a um, outros personagens começaram a aparecer.

Uma heroína.

Um homem com capa escura.

Outro carregando um escudo cenográfico.

Mais dois personagens que Miguel reconheceu pela voz e pelos detalhes dos uniformes quando se aproximaram.

André havia pedido que não ficassem longe.

Cada um chegou perto.

Deixaram Miguel tocar os símbolos, sentir a textura das capas e observar os rostos na distância que lhe permitia enxergar melhor.

Ninguém teve pressa.

— Esse escudo é pesado? — perguntou Miguel.

— Quer descobrir?

Colocaram o objeto em suas mãos.

— Nossa!

— Herói também faz musculação.

Miguel riu.

A mãe começou a fotografar.

Depois abaixou o celular.

Percebeu que estava assistindo àquele momento pela tela e decidiu vê-lo diretamente.

André chamou Miguel.

— Falta uma coisa.

— O quê?

— Todo grupo precisa de mais um herói.

Entregou-lhe uma pequena capa vermelha usada nas atividades infantis.

Miguel ficou parado.

— É para mim?

— Temporariamente.

— Quanto tempo?

André pensou.

— Até você decidir devolver.

Miguel vestiu a capa.

Fez uma pose.

As fotografias começaram.

Uma criança que passava apontou:

— Olha! Outro Super-Homem!

Miguel imediatamente endireitou os ombros.

— Viu, pai?

— Vi.

— Agora tem dois.

O pai respondeu:

— Estou começando a achar que tem mais.

Passaram o restante da manhã no parque.

Miguel entrou em brinquedos, perdeu duas vezes num jogo de argolas, ganhou do pai numa disputa de pontaria e comeu uma quantidade de algodão-doce que a mãe considerou incompatível com qualquer organismo humano.

Mas voltou três vezes à entrada.

Na primeira, apenas acenou para André.

Na segunda, levou uma garrafa de água.

— Minha mãe falou que você deve estar com calor aí dentro.

— Sua mãe entende de super-heróis.

Na terceira vez, pouco antes de ir embora, tirou a capa vermelha.

— Tenho que devolver.

André pegou-a.

— Tem certeza?

— Outras crianças vão precisar.

André ficou olhando para ele.

— Provavelmente.

Miguel estendeu a mão.

André pensou que receberia um aperto.

Recebeu um abraço.

— Tchau, Super-Homem.

— Tchau, Miguel.

O menino se afastou com os pais.

Depois de alguns metros, virou-se.

— Ei!

André levantou a mão.

— O quê?

Miguel gritou:

— Não esquece quem você é!

Algumas pessoas próximas riram.

André também.

— Não vou esquecer!

A família desapareceu no estacionamento.

O evento continuou.

Outra criança chegou querendo fotografia.

Depois outra.

Um menino perguntou se ele realmente conseguia voar.

André respondeu:

— Só quando o chefe não está olhando.

O menino acreditou o suficiente para rir.

No fim do expediente, André entrou no vestiário.

Retirou as botas, a capa e o uniforme azul. Diante do espelho voltou a ser apenas um rapaz cansado depois de muitas horas de trabalho.

Pegou o celular.

Havia uma mensagem da organização do evento.

Uma fotografia.

Miguel aparecia no centro, usando a pequena capa vermelha, cercado pelos personagens.

Abaixo, alguém escrevera:

“O menino que conheceu os heróis.”

André olhou para a imagem durante alguns segundos.

Depois alterou a legenda antes de salvá-la:

“O menino que enxergou.”

Guardou o telefone.

Na manhã seguinte, Miguel colocou sua miniatura do Super-Homem sobre a escrivaninha.

Ao lado dela, colocou a fotografia impressa no parque.

O pai apareceu à porta.

— Qual dos dois é o verdadeiro?

Miguel olhou para a miniatura.

Depois para a fotografia.

— Esse aqui é personagem.

Apontou para André.

— Esse é de verdade.

O pai poderia ter explicado a diferença.

Não explicou.

Na fotografia, Miguel sorria usando uma capa vermelha grande demais para seu tamanho.

Atrás dele havia homens e mulheres fantasiados de pessoas capazes de realizar coisas impossíveis.

Curiosamente, nenhum deles estava voando.

(Betto Gasparetto – viii – mmxxv)

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