O Homem que Restou (1/3)
(Betto Gasparetto)
Monólogo 01 — Quando Parei de Me Reconhecer

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I ATO — O Estranho Atrás do Meu Rosto
Não me reconheço, e não digo isso porque o tempo tenha trabalhado sobre meu rosto, porque meus olhos tenham afundado um pouco mais ou porque os anos tenham decidido escrever sua passagem sobre minha pele. Essas alterações pertencem à matéria, e a matéria sempre soube que perderia essa disputa.
Falo de outra coisa. Existe alguém atrás do meu rosto que durante muito tempo respondeu pelo meu nome, utilizou minhas mãos, pronunciou minhas palavras, recebeu meus afetos e ocupou tranquilamente minha existência, e eu já não sei quem é. Talvez nunca tenha sabido.
Passei anos acreditando que um homem pudesse conhecer a si mesmo apenas porque carregava consigo a própria memória. Que ingenuidade. A memória é uma funcionária corrupta: arquiva aquilo que nos favorece, extravia aquilo que nos acusa e modifica discretamente os documentos para que consigamos continuar admirando o criminoso que mora conosco.
Eu me admirei durante muito tempo, e essa é uma confissão repugnante.
Considerava-me decente porque havia homens piores. Considerava-me generoso porque algumas vezes ofereci aquilo que não me fazia falta. Considerava-me fiel porque minhas traições nem sempre envolveram corpos. Considerava-me honesto porque nunca roubei dinheiro, embora tenha roubado tempo, confiança, esperança e pedaços inteiros da serenidade de pessoas que acreditaram em mim.
Que extraordinária contabilidade inventamos para permanecer inocentes. Somamos nossas pequenas virtudes, escondemos as crueldades nas casas decimais e depois apresentamos o resultado ao mundo como prova de que somos homens dignos, corretos e respeitáveis.
Tenho náusea dessa última palavra: respeitável.
Quantos miseráveis aprenderam a parecer respeitáveis? Quantas mãos apertamos sem saber aquilo que fizeram quando ninguém estava olhando? E quantas mãos apertaram a minha?
Não responda.
Tenho medo de que a resposta me inclua.
II ATO — O Julgamento que Sempre Adiei

Durante anos desejei conhecer a verdade sobre os outros. Queria saber quem mentia, quem fingia, quem me procurava por interesse, quem sorria diante de mim e me desprezava depois que eu saía. Hoje compreendo que fiz a pergunta errada.
Eu deveria ter perguntado quantas vezes fui exatamente aquilo que condenava.
É uma pergunta muito menos confortável.
O homem possui uma paixão extraordinária pelos defeitos alheios porque eles funcionam como cortinas. Enquanto apontamos para a podridão do outro, ninguém percebe o cheiro vindo de nossa própria casa.
Eu fiz isso. Julguei, condenei, desprezei, e cada sentença que pronunciei contra alguém serviu para manter meu próprio processo adiado.
Até que fiquei sozinho comigo.
Não existe companhia mais inconveniente.
Podemos fugir de uma mulher, de um amigo, de uma cidade ou de uma família inteira. Podemos mudar de endereço, trocar o número do telefone, atravessar oceanos, fechar portas e desaparecer durante anos, mas existe um passageiro que embarca conosco sem comprar passagem: nós mesmos.
Que castigo engenhoso é carregar por toda parte justamente aquele de quem gostaríamos de escapar.
Às vezes penso que a vida possui um senso de ironia quase ofensivo. Ela nos concede décadas para construirmos uma personagem e depois permite que envelheçamos o suficiente para assistir à maquiagem escorrer.
Primeiro perdemos a juventude, depois algumas pessoas, depois certas certezas e, por fim, a arrogância de acreditar que ainda existe tempo suficiente para corrigir tudo.
Então sobra isto: um homem diante de si, sem plateia, sem testemunhas e sem necessidade de parecer bom.
É nesse instante que começa o verdadeiro julgamento.
III ATO — A Honestidade da Morte

Não temo tanto a morte. Temo chegar até ela carregando intactas todas as mentiras que contei sobre mim.
A morte, pelo menos, possui uma honestidade que raramente encontramos entre os vivos. Ela não promete permanecer, não jura fidelidade, não pede que confiemos nela e não se apresenta como amiga para depois desaparecer. Ela apenas existe no limite, silenciosa e inegociável.
Talvez por isso a humanidade tenha tanto medo dela, porque estamos acostumados a negociar tudo.
Negociamos princípios, amizades e fidelidade. Negociamos o amor quando aparece oportunidade melhor e negociamos até nossa consciência, desde que o preço pareça suficientemente vantajoso.
Mas o fim não negocia.
E essa impossibilidade nos humilha.
Há noites em que penso na quantidade de coisas que terminarão comigo. Meu nome deixará de ser pronunciado, minha voz desaparecerá da memória, os objetos que considerei importantes irão parar nas mãos de desconhecidos e as fotografias perderão contexto.
Alguém encontrará uma imagem minha dentro de uma caixa e perguntará:
“Quem é esse?”
Talvez ninguém saiba.
Estranhamente, isso não me entristece tanto quanto deveria. O que me entristece é outra possibilidade: que alguém saiba.
Que alguém olhe minha fotografia e se lembre de uma humilhação, de uma ausência, de uma mentira ou de uma promessa que fiz sem intenção suficiente para cumpri-la.
Talvez essa seja nossa verdadeira permanência: não aquilo que construímos, mas aquilo que ferimos.
Há pessoas mortas há décadas que continuam doendo dentro de alguém.
Que espécie terrível de eternidade é essa?
Não quero essa eternidade. Prefiro o esquecimento. Prefiro desaparecer completamente a permanecer na memória de alguém como a razão pela qual deixou de confiar.
IV ATO — Tudo Aquilo que Pedimos Tarde Demais

Mas talvez eu esteja pedindo tarde demais.
Nós sempre pedimos tarde demais. Pedimos perdão depois que a ferida aprendeu nosso formato, companhia depois que transformamos presença em obrigação, confiança depois de ensinar alguém a desconfiar e tempo quando finalmente percebemos quanto desperdiçamos.
Quando todas essas súplicas já não encontram destinatário, começamos a pedir mais alguns anos à própria vida.
Mais alguns.
Para quê?
Para corrigir?
Talvez.
Ou apenas para adiar o encontro com aquilo que sabemos?
Não sei.
Há alguma coisa profundamente miserável no homem que passa a juventude comportando-se como se fosse eterno e chega à velhice negociando desesperadamente cada manhã.
Eu também sou esse homem.
Por isso não quero consolo. O consolo frequentemente é apenas uma maneira delicada de impedir que alguém termine um pensamento doloroso.
Quero terminá-lo.
Quero olhar até o fim e retirar, uma por uma, todas as desculpas com que revesti minha existência, para descobrir aquilo que permanece quando nenhuma justificativa consegue mais proteger-me.
Talvez não reste muita coisa. Talvez reste apenas vergonha, arrependimento ou um homem que finalmente compreendeu que passou boa parte da vida exigindo dos outros uma dignidade que oferecia somente quando lhe era conveniente.
Isso seria terrível.
Mas seria verdadeiro.
E neste momento a verdade me interessa mais do que qualquer absolvição.
V ATO — A Vida que não Vivemos

Comecei a suspeitar que a maior tragédia não seja morrer, porque morrer pertence à condição de todos.
A verdadeira tragédia talvez seja atravessar uma existência inteira sem jamais ter vivido honestamente dentro de si: amar sem amar, permanecer sem estar, prometer sem pretender, sorrir sem sentir, perdoar sem esquecer, pedir desculpas sem arrepender-se e chamar toda essa sucessão de representações de vida.
Se for isso, então não é a morte que deveria explicar-se diante de nós.
Somos nós que deveríamos explicar-nos diante da vida.
Explicar por que recebemos tanto tempo e gastamos uma parte dele ferindo. Por que desejamos tanto ser amados e tratamos com desprezo quem nos amou. Por que exigimos verdade enquanto aperfeiçoávamos nossas próprias mentiras. Por que reclamamos da solidão depois de expulsarmos, uma por uma, as pessoas que tentaram aproximar-se.
Não tenho respostas.
Finalmente não tenho.
E talvez essa seja a primeira coisa verdadeiramente honesta que digo há muitos anos.
Passei uma existência procurando culpados porque o culpado precisava morar fora de mim. Era mais fácil acusar o mundo, as circunstâncias, as pessoas que me decepcionaram e tudo aquilo que não aconteceu conforme desejei.
Talvez eu tenha transformado minhas próprias feridas em licença para ferir.
E existe algo repugnante nisso.
Sofremos e acreditamos que o sofrimento nos torna automaticamente melhores, quando algumas vezes ele apenas nos oferece novas maneiras de sermos cruéis.
Não quero mais essa desculpa.
VI ATO — O Homem Sem Máscaras

Agora posso olhar novamente para aquele rosto.
Não para perdoá-lo. Ainda não. Talvez algumas versões de nós não mereçam perdão tão rapidamente.
Olho porque preciso reconhecer quem esteve aqui durante todo esse tempo.
Eu.
Não o mundo, não os outros, não as circunstâncias.
Eu.
E se algum dia chegar o instante inevitável em que meus olhos precisem fechar-se definitivamente, espero ao menos não levar comigo a última das minhas farsas.
Não desejo uma absolvição fabricada às pressas pelo medo do fim, nem quero inventar virtudes tardias para ornamentar aquilo que fui. Quero apenas chegar diante desse limite sem precisar continuar defendendo a personagem que durante tanto tempo carregou meu nome.
Quero que a morte encontre um homem sem máscaras, mesmo que encontre muito pouco de homem debaixo delas.
Talvez essa seja minha última possibilidade de dignidade: não exigir que o passado seja inocentado, não modificar minhas lembranças para morrer em paz e não chamar arrependimento de reparação quando já não existe ninguém a quem devolver aquilo que retirei.
Porque talvez seja isso que reste depois que todas as nossas representações terminam: não os elogios que recebemos, não a reputação que cuidadosamente construímos, não aquilo que conseguimos convencer os outros de que éramos.
Resta aquilo que sabemos.
E diante disso já não existe plateia para enganar.
Quando finalmente chegar a hora de abandonar este rosto que durante tantos anos respondeu pelo meu nome, não quero perguntar se fui importante, admirado ou lembrado.
Quero somente saber se, antes que o tempo terminasse, tive coragem suficiente para encontrar aquele homem escondido atrás de mim.
E reconhecê-lo.
Não aquilo que dissemos ser, mas aquilo que tivemos coragem de reconhecer antes que já não houvesse tempo para mudar.
(Betto Gasparetto – 2002)
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