Rascunhos Cotidianos – 001

01 — Aquilo que Guardamos em Silêncio

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O que nunca chegou a ser dito

Todos guardamos palavras que não encontramos coragem, oportunidade ou necessidade de dizer. Pode ser um pedido de desculpas, uma gratidão, uma mágoa ou simplesmente algo que sentimos e não conseguimos explicar naquele momento.

Nem todo silêncio nasce do medo. Às vezes, ainda não entendíamos o que estava acontecendo dentro de nós. Em outras situações, percebemos que falar poderia aumentar um conflito. Fizemos o que conseguíamos com a maturidade e os recursos que tínhamos naquela época.

O silêncio também guarda memória

A memória conserva mais do que acontecimentos. Guardamos um olhar, o jeito de alguém falar, uma despedida, uma conversa interrompida ou uma situação que parecia comum e depois ganhou outro significado.

Com os anos, essas lembranças também mudam. Aquilo que parecia enorme pode perder importância, enquanto um pequeno gesto pode adquirir um valor que antes não percebíamos. O passado continua o mesmo, mas nós já não somos as mesmas pessoas que o viveram.

As versões de nós que escondemos

Existem partes da nossa história que poucas pessoas conhecem. Medos, inseguranças e momentos difíceis muitas vezes ficaram escondidos atrás da aparência de que estava tudo bem.

Quando olhamos para trás, é fácil julgar quem fomos. Perguntamos por que demoramos tanto para tomar determinada decisão ou por que aceitamos situações que hoje não aceitaríamos. Mas existe uma diferença importante: naquela época, ainda não sabíamos aquilo que a própria vida nos ensinaria depois.

Reconhecer nossos erros é necessário. Transformar o passado numa acusação permanente contra nós mesmos, não.

Nem todo silêncio precisa ser quebrado

Algumas conversas ainda merecem acontecer. Um agradecimento pode ser feito, uma desculpa pode ser oferecida e uma palavra de carinho não precisa esperar por uma ocasião especial.

Outros silêncios, porém, podem permanecer onde estão. Nem toda história precisa ser reaberta, nem toda discussão merece uma continuação. Há momentos em que falar aproxima; em outros, apenas devolve vida a conflitos que já perderam sua importância.

Saber a diferença também faz parte do amadurecimento.

Aprender a tratar o que sentimos com delicadeza

Não precisamos contar tudo a todos, mas também não precisamos esconder tudo de todos. Ter alguém com quem possamos conversar sem representar força o tempo inteiro pode tornar mais leve aquilo que carregamos.

Algumas coisas encontrarão palavras. Outras permanecerão como lembranças de uma pessoa, de uma época ou de quem fomos. O mais importante é que aquilo que guardamos em silêncio não continue governando nossa vida.

Podemos reconhecer nossa história sem viver presos a ela. Quando aprendemos a olhar para o passado com mais compreensão e menos dureza, o silêncio deixa de ser apenas esconderijo e pode finalmente tornar-se paz.

(Betto Gasparetto – 2010-2015)

Nota de inspiração literária

Reflexão livre a partir de temas ligados à interioridade, à memória e às diferentes dimensões da identidade presentes na obra de Fernando Pessoa. A aproximação é apenas temática. O texto é integralmente original e não reproduz trechos do escritor.

Deixe um comentário