Rascunhos Cotidianos – 005

 Depois que Aprendemos a Nos Ouvir

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Desde cedo ouvimos opiniões sobre como devemos viver. Família, amigos, trabalho e sociedade apresentam caminhos, expectativas e modelos de sucesso. Muitas dessas orientações são úteis, mas nem todas combinam conosco.

Quando tentamos atender a todas as expectativas, nossa própria vontade pode ficar em segundo plano. Chega um momento em que precisamos distinguir aquilo que realmente queremos daquilo que apenas aprendemos a querer.

O que sentimos também informa

Sentimentos não são ordens, mas podem revelar muito sobre nós. Um incômodo constante pode indicar que alguma coisa precisa mudar. O medo pode mostrar insegurança, enquanto o entusiasmo pode apontar para algo que nos faz bem.

Isso não significa agir por impulso. Significa prestar atenção antes de ignorar o que sentimos. Às vezes, o corpo e as emoções percebem um desgaste antes de conseguirmos explicá-lo com palavras.

Ouvir a si mesmo também é aprender a reconhecer esses sinais.

A conversa que temos conosco

Existe uma grande diferença entre reconhecer um erro e transformar esse erro numa definição sobre quem somos. Podemos dizer “eu errei” sem concluir “eu sou um erro”.

A maneira como conversamos conosco influencia a forma como enfrentamos dificuldades. Uma cobrança permanente raramente melhora nossas escolhas; muitas vezes, apenas aumenta o medo de tentar novamente.

Ser compreensivo consigo mesmo não é procurar desculpas. É reconhecer falhas sem transformar cada uma delas numa condenação.

Quando dizer não deixa de ser culpa

Aprender a se ouvir também modifica nossa relação com os limites. Começamos a perceber que nem todo pedido precisa ser atendido e que recusar alguma coisa não significa rejeitar uma pessoa.

Durante muito tempo, podemos dizer sim apenas para evitar desentendimentos. O preço costuma aparecer depois, em forma de cansaço, irritação ou sensação de estar vivendo mais para corresponder aos outros do que para fazer escolhas próprias.

Um limite dito com respeito pode proteger uma relação melhor do que um sim oferecido com ressentimento.

Uma voz mais tranquila

Ouvir a si mesmo não significa ignorar conselhos. Outras pessoas podem enxergar coisas que não percebemos e oferecer experiências importantes. A diferença está em escutar sem entregar completamente a elas nossas decisões.

Com o tempo, aprendemos a reconhecer melhor nossos limites, desejos e contradições. Não teremos certeza sobre tudo, mas podemos tomar decisões mais conscientes quando sabemos por que estamos escolhendo determinado caminho.

Encontrar nossa própria voz não exige falar mais alto que os outros. Basta conseguir reconhecê-la no meio de tanto barulho.

(Betto Gasparetto – 2010-2015)

Nota de inspiração literária

Reflexão livre a partir de temas ligados à interioridade, à autopercepção e à busca de compreensão de si presentes na obra de Clarice Lispector. A aproximação é apenas temática. O texto é integralmente original e não reproduz trechos da escritora.

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