Nossos Passos na Areia Nos Tatuaram

Poema em quatro movimentos para um amor que nem o mar conseguiu apagar

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — ONDE NOSSOS PASSOS COMEÇARAM

Caminhei contigo quando o céu chorava,
e cada gota parecia o mundo abençoar;
tua mão na minha fez pequena a tempestade,
pois quem ama encontra abrigo sem precisar parar.
Nossos passos escreviam sobre a areia
segredos que somente o mar podia decifrar;
e enquanto nossas sombras se tocavam nas águas,
meu coração aprendia teu nome a soletrar.
Não soube então que aquela breve caminhada
seria o primeiro passo de uma vida inteira a te amar.

II — A CHUVA SOBRE NÓS

Deixa chover, meu amor, que importa a tormenta,
se sob teu olhar encontro meu verão?
Que o vento roube os rastros de nossos pés,
mas jamais o caminho escrito no coração.
Aproxima-te mais, deixa que nossos ombros
aprendam juntos o peso da estação;
pois amar não é esperar que o céu se abra,
é caminhar sob a chuva na mesma direção.
E se o frio ousar alcançar nossos corpos,
hei de aquecer tua alma com o fogo de minha paixão.

III — A PÉROLA DO TEMPO

Há uma pérola escondida entre as pedras,
como um segredo que o oceano quis guardar;
talvez tenha nascido de uma antiga lágrima
que por amar demais aprendeu a cintilar.
Assim também meu coração te guarda:
ferido, fez da própria dor um modo de te amar.
Se um dia o Tempo nos cobrir de cabelos brancos,
voltaremos lentamente a este mesmo lugar;
e entre conchas, lembranças, ventos e marés,
descobriremos que envelhecer foi outra forma de nos apaixonar.

IV — A TATUAGEM QUE O MAR NÃO APAGA

Um dia o mar apagará nossas pegadas,
como apaga impérios, nomes e verão;
não temas, meu amor: aquilo que vivemos
não foi escrito na areia, mas no coração.
Cada passo teu deixou-se dentro de mim,
cada beijo meu em ti encontrou habitação;
e quando já não houver praia, chuva ou juventude,
ainda caminharemos pela mesma recordação.
Pois nossos pés apenas tocaram aquela areia —
foram nossas almas que, ao caminharem juntas, se tatuaram.

(Betto Gasparetto – 1995)

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