Por Tudo Que Pensei em Te Dizer que Amei
Sete movimentos de um amor contido além-mar...
(Betto Gasparetto)

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I — ANTES QUE O MAR NOS SEPARE
Parto, e contudo deixo a alma em teu cais,
pois corpo algum governa o coração;
o mar poderá levar-me para longe,
não levará de mim tua recordação.
Guardei palavras por temer dizê-las,
como quem teme ao fogo confessar;
agora sei: pior que a despedida
é ter amado e não saber contar.
II — AS PALAVRAS NA BAGAGEM
Entre vestidos, cartas e lembranças,
levei comigo o que não pude abrir:
mil confissões dobradas no silêncio,
mil frases desejando conseguir sair.
Se abrisses minha antiga bagagem,
não encontrarias ouro ou esplendor;
somente aquilo que jamais te disse:
um coração inteiro envolto em amor.
III — DIANTE DA JANELA
Contemplo o mar pela janela extensa,
enquanto a tarde aprende a declinar;
cada horizonte que diante de mim nasce
parece outro motivo para te recordar.
As ilhas passam como antigos sonhos,
o Sol escreve ouro sobre o mar;
mas nenhuma paisagem me consola,
pois toda beleza me ensina a te buscar.
IV — O QUE MEU SILÊNCIO ESCONDEU
Perdoa-me as palavras não nascidas,
os gestos que o pudor fez recuar;
houve ternuras presas em meus olhos
que apenas tua alma poderia decifrar.
Eu te amei nos instantes mais pequenos,
no modo de chegares e sorrir;
amei até teus passos quando partias,
porque deixavam esperança de tornar a vir.
V — SE EU PUDESSE REGRESSAR
Se esta embarcação voltasse os seus caminhos
e o tempo consentisse em regressar,
eu desceria antes mesmo do porto
somente para aos teus braços retornar.
Diria sem receio: “Eis minha vida;
não tenho outro segredo para te oferecer.”
Pois quem demora em declarar o afeto
arrisca-se a perder o que desejava viver.
VI — O BRINDE À DISTÂNCIA
Ergo esta taça ao horizonte ausente,
não para celebrar nossa separação,
mas para que a distância seja breve
e nunca maior que a força da afeição.
Bebo por ti, pelas manhãs futuras,
pelo reencontro que desejo merecer;
e deixo ao vento uma promessa simples:
onde eu estiver, hei de te pertencer.
VII — POR TUDO QUE AMEI
Por tudo que pensei em te dizer que amei,
pelas palavras que deixei adormecer,
pelos instantes que guardei comigo
e pelos sonhos que ainda quero viver;
se algum dia encontrares meu silêncio,
não julgues que deixei de te querer:
há sentimentos grandes demais para a voz —
e eu te amei em tudo que não soube dizer.
(Betto Gasparetto – 2014)

Trilha Sonora: Fado da Janela
Na janela antiga teu rosto surgiu,
O vento sereno lembrança traduziu.
E o peito cansado ganhou claridade,
Ao ver no teu riso tanta saudade.
As ruas de pedra guardavam teus passos,
Lisboa suspira no eco dos laços.
E a lua brilhava qual estrela acesa,
Guardando em silêncio tua beleza.
Fado da janela, canto de amar,
No brilho dos olhos começo a sonhar.
Saudade que chora não pode calar,
É voz da esperança que insiste em ficar.
No abraço tão leve o tempo sorriu,
E o beijo guardado depressa se abriu.
A vida mostrou-se mais clara e singela,
No fado que canta da tua janela.
Agora que somos ternura e destino,
O tempo nos guia em caminho divino.
E o fado se enche de amor e emoção,
Na janela da vida, só um coração.
(Betto Gasparetto – 2016)
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