O Pretérito Imperfeito de Nós Dois
Cinco movimentos entre as cartas esquecidas, os amores interrompidos e as palavras que jamais aprenderam a despedir-se.
(Betto Gasparetto)

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I — O TEMPO CONJUGADO EM SAUDADE
Eu te amava quando a tarde adormecia,
E o céu vestia as sombras do arrebol;
Teu nome em minha boca florescia,
Qual rosa enamorada pelo Sol.
Mas veio o Tempo, em sua travessia,
Roubar de nossos dias o esplendor;
E o que era eterno em nossa fantasia
Tornou-se um verbo incompleto de amor.
II — AS CARTAS QUE O VENTO NÃO LEVOU
Guardei nas mãos a última missiva,
Que outrora prometia o teu voltar;
A tinta envelheceu, mas permanece viva
A voz que suas linhas fazem recordar.
Reli cada promessa fugitiva,
Buscando o que não pude decifrar;
E descobri, naquelas letras tão antigas,
Que há despedidas que não sabem terminar.
III — O JARDIM DOS VERBOS ESQUECIDOS
As flores que plantamos floresciam,
Enquanto nossas mãos sabiam se encontrar;
As águas do distante lago refletiam
Os sonhos que ousávamos guardar.
Agora as mesmas rosas me perguntam
Por que teus passos deixaram de chegar;
E eu respondo ao silêncio das montanhas:
Há sentimentos que continuam sem lugar.
IV — O IMPERFEITO DE NÓS DOIS
Eu te queria — e ainda te quereria,
Se o ontem consentisse em regressar;
Tu me dizias que jamais partirias,
E eu, tão feliz, não soube duvidar.
Amávamos como quem desconhecia
Que até o infinito pode se quebrar;
Mas entre o que vivíamos e o que sonhávamos,
Ficou um tempo que não soubemos conjugar.
V — QUANDO O AMOR NÃO ENCONTRA SEU PONTO FINAL
Se um dia estas palavras te alcançarem,
Não busques nelas súplica ou perdão;
São folhas que os outonos não levaram,
Guardadas no silêncio da estação.
Pois certos sentimentos, quando acabam,
Não encontram repouso na razão;
E aquilo que outrora foi presente
Permanece imperfeito no coração.
(Betto Gasparetto – 2011)

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