As Pétalas que a Noite Não Levou

Quatro movimentos entre a ausência, o silêncio e a esperança de um último reencontro.

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — O CAIS DAS PROMESSAS ESQUECIDAS

Sentei-me onde a noite encontra o mar,
E a brisa fria veio me envolver;
As luzes, sobre as águas, a bailar,
Pareciam ter saudades de te ver.
Trouxe comigo as rosas que me deste,
Mas suas pétalas caíram pelo chão;
Talvez o amor que um dia prometeste
Tenha perdido o rumo e a direção.
E enquanto a madrugada se aproxima,
Procuro entre as estrelas teu olhar;
Pois há uma dor que o próprio tempo estima:
A de esperar quem prometeu voltar.

II — O PERFUME DAS ROSAS PARTIDAS

O vento espalha pétalas vermelhas,
Qual cartas que ninguém ousou escrever;
E as águas, entre sombras tão antigas,
Recolhem o que não pude compreender.
Teu nome ainda repousa em minha boca,
Como um beijo que não chegou ao fim;
E a solidão, que lentamente me provoca,
Pergunta por que foste embora de mim.
Ah, se soubesses quanto custa a ausência,
Quando o amor se recusa a terminar;
Verias que até mesmo a paciência
Tem lágrimas que aprende a disfarçar.

III — QUANDO O SILÊNCIO CHAMA POR TI

Passaram barcos, vozes e viajantes,
E cada qual encontrou seu próprio cais;
Somente meus desejos, tão distantes,
Não sabem regressar de onde tu vais.
Guardei o teu lugar em minha vida,
Embora já não saibas onde estou;
E cada rosa, pela chuva consumida,
Recorda a primavera que passou.
Não te condeno pela despedida,
Nem peço que lamentes nosso amor;
Mas há uma parte em mim que ficou perdida
Na noite em que partiste sem rumor.

IV — A ÚLTIMA PÉTALA DA ESPERANÇA

Talvez amanhã o céu amanheça claro,
E o Sol encontre as rosas pelo chão;
Talvez descubra, neste instante raro,
Que a esperança sobrevive à solidão.
Se regressares por aquelas mesmas ruas,
Não trarei acusações em meu olhar;
Oferecerei as mãos, ainda tuas,
E tudo quanto não soube confessar.
Mas se teus passos nunca mais vierem,
Hei de aprender, aos poucos, a florescer;
Pois mesmo as rosas que no inverno morrem
Guardam na terra a promessa de renascer.

(Betto Gasparetto – 2011)

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