Entre as Rosas e o Temor do Adeus
Poema em duas partes — Paixão e Angústia
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I — O JARDIM DAS PROMESSAS
Sob as glicínias, quando a tarde ardia,
Teus olhos procuraram meu olhar;
E o sol, que lentamente se extinguia,
Pareceu por amor querer ficar.
Nas escadarias de um jardim florido,
Teu rosto se inclinou junto ao meu;
E tudo quanto houvera eu sofrido
Na doçura daquele instante se perdeu.
As fontes murmuravam seus segredos,
E as rosas perfumavam nosso chão;
Busquei, entre os teus dedos e meus dedos,
A paz que não conhecera o coração.
Não quis da eternidade a soberania,
Nem tronos que o destino concedeu;
Bastou-me aquela breve luz do dia
Para julgar que o próprio céu era meu.
Mas quando tua boca, tão formosa,
Se aproximou da minha com fervor,
Senti nascer, na tarde luminosa,
O primeiro pressentimento da dor.
Pois quem descobre a glória de um carinho
E nele encontra a razão de seu viver
Já teme, mesmo ao florescer do caminho,
Que o tempo venha um dia a lhe esquecer.
II — A ANGÚSTIA DO AMOR QUE PERMANECE
Por que, se em teus abraços tenho abrigo,
Meu peito ainda receia a solidão?
Por que, se o teu destino está comigo,
Pressinto uma despedida em cada estação?
Talvez porque a beleza seja breve,
E a vida não detenha seu passar;
Talvez porque o amor, quando se atreve,
Descubra quanto custa se entregar.
As flores que adornavam a varanda
Hão de perder, um dia, o seu fulgor;
E a brisa que entre os roseirais abranda
Não poderá guardar nosso esplendor.
Se alguma noite te afastar de mim,
E eu contemplar sozinho aquele lugar,
As fontes continuarão no jardim,
Mas quem lhes ensinará a murmurar?
Não hei de condenar-te pela ausência,
Nem reclamar ao céu o que perdi;
Guardarei, na mais profunda reverência,
A tarde em que meus olhos te escolhi.
E se a velhice vier, silenciosa,
Cobrir de inverno o nosso antigo ardor,
Hei de encontrar em tua face preciosa
A mesma primavera do amor.
Pois antes que o destino nos reclame,
E a última estrela abandone o firmamento,
Desejo que teu coração me chame
Para habitar contigo um só momento.
E quando a morte enfim cerrar meus dias,
Sem que eu possa impedir seu derradeiro véu,
Que reste, entre as lembranças mais tardias,
Teu beijo como a última luz do céu.
(Betto Gasparetto – 2020)
Deixe um comentário