Entre as Colunas do Destino
Poema em três partes — O Encontro, a Ausência e o Reencontro
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I — O ENCONTRO SOB OS ARCOS DOURADOS
Naquele palácio, à beira do oceano,
Onde a tarde dourava os corredores,
Encontrei teu olhar, tão soberano,
Que fez calar meus íntimos temores.
Vestias o azul das águas mais profundas,
E o ouro resplandecia em teu vestir;
Tuas palavras, delicadas e fecundas,
Fizeram minha antiga dor partir.
Entre colunas de esplendor antigo,
Teu passo acompanhou meu caminhar;
E descobri, ao encontrar abrigo,
Que havia outro destino além do mar.
As fontes murmuravam brandamente,
Enquanto o sol beijava o teu perfil;
E o coração, até então descrente,
Sentiu nascer um sentimento gentil.
Não te ofereci coroas nem riqueza,
Nem prometi os reinos deste chão;
Ofereci-te apenas a certeza
De um amor sem orgulho ou condição.
E quando tua mão tocou a minha,
Sob os arcos de mármore e marfim,
Julguei que aquela tarde nos pertencia,
E que jamais teria algum fim.
II — O DESENCONTRO DAS MARÉS
Mas veio a noite, e trouxe a despedida,
Com seu cortejo de silêncio e solidão;
Partiste, sem ferir-me ou ser ferida,
Deixando-me o vazio de tua mão.
As embarcações cruzavam lentamente
As águas que separavam nosso amor;
E cada vela, ao longe, indiferente,
Levava um pouco mais do meu ardor.
Voltei àquele pátio de outras horas,
À fonte onde sorriste certa vez;
Mas nem as flores, antes tão sonoras,
Puderam devolver-me tua altivez.
Teu nome eu não gravei sobre a pedra,
Nem o entreguei às ondas por vingança;
Pois mesmo quando a primavera medra,
O inverno ainda habita alguma lembrança.
Perguntei aos navios que partiam
Se algum trouxera notícias de ti;
Mas as águas, que outrora nos uniam,
Não responderam quanto padeci.
E compreendi, na ausência prolongada,
Que amar não é possuir nem reclamar;
É conservar a porta destrancada,
Sem exigir de alguém o regressar.
III — O REENCONTRO ALÉM DO HORIZONTE
Passaram-se estações sobre as colinas,
E o mar mudou de cor ao entardecer;
As mesmas torres, fontes e campinas
Pareciam outro tempo conhecer.
Voltei ao grande salão de pedra clara,
Onde guardara o nosso último adeus;
E vi surgir, na luz que se encerrava,
Teu rosto entre os arcos e os véus.
Não houve acusações, nem juramentos,
Nem súplicas por tudo que passou;
Havia em nossos olhos sentimentos
Que a longa separação não apagou.
Teus passos hesitaram um momento,
E os meus também temeram avançar;
Até que, sem palavras ou lamento,
Tuas mãos vieram as minhas procurar.
Então senti que os anos de distância
Não tinham sido inteiramente em vão;
Pois há encontros cuja circunstância
Só ganha entendimento na separação.
Não te pedi que o mundo fosse eterno,
Nem que o destino houvesse de ceder;
Pedi que, entre o verão e o frio inverno,
Pudéssemos, enfim, permanecer.
E quando a noite envolveu o mar profundo,
Te abracei sem receio do porvir;
Pois se o amor não nos concede o mundo,
Concede-nos razões para existir.
E ali, sob os mosaicos da varanda,
Onde outrora aprendi a te perder,
Descobri que a esperança não demanda
Mais que dois corações dispostos a viver.
(Betto Gasparetto – 2020)

Deixe um comentário