Um Frio Olhar se Distancia no Vazio
Crônica romântica em duas partes — Entre as promessas do amor e a melancolia das despedidas
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
I — O ÚLTIMO INVERNO DAS PROMESSAS
Há despedidas que principiam muito antes da partida. Nascem de um silêncio prolongado, de uma palavra que se perde entre duas vontades ou de um olhar que, outrora tão generoso, começa a procurar horizontes onde já não conseguimos reconhecer nosso lugar. E talvez não exista sofrimento mais discreto do que perceber, ainda nos braços de quem amamos, que alguma distância desconhecida já se estabeleceu entre dois corações.
Naquela manhã de inverno, enquanto o trem atravessava os Alpes, compreendi que certas viagens não nos conduzem propriamente a algum destino. Levam-nos, antes, ao encontro daquilo que durante muito tempo procuramos evitar: a verdade de nossos sentimentos.
O vagão, revestido de madeiras nobres e iluminado por discretas luminárias de bronze, parecia pertencer a uma época em que as pessoas ainda encontravam tempo para contemplar a paisagem e escrever cartas. Sobre a pequena mesa repousavam uma xícara de café, algumas flores e uma fotografia antiga. Ao meu lado, o relógio de bolso que herdara de meu pai continuava a cumprir sua obrigação com uma fidelidade que, naquele momento, me pareceu quase cruel.
Lá fora, as montanhas erguiam suas faces cobertas de neve, indiferentes às inquietações humanas. Os pinheiros desapareciam sob o manto branco, e os trilhos, desenhando curvas entre precipícios e vales, conduziam a locomotiva por uma extensão de silêncio que nenhuma palavra seria capaz de interromper.
Segurava tua fotografia entre os dedos.
Nela, teu sorriso conservava a espontaneidade de nosso primeiro encontro. Recordei aquela tarde distante, quando te vi pela primeira vez numa pequena livraria, junto à praça de uma cidade que hoje me parece existir apenas na memória. Procuravas um volume de poemas antigos, e eu, por uma dessas coincidências que os homens costumam atribuir ao destino, estendera a mão para alcançar exatamente o mesmo livro.
Sorriste diante do embaraço. Pedi desculpas, embora secretamente desejasse que aquele pequeno acidente se prolongasse. Conversamos sobre literatura, viagens e sobre a estranha capacidade que certas palavras possuem de revelar sentimentos que jamais tivemos coragem de confessar.
Ao despedirmo-nos, disseste que algumas histórias mereciam ser lidas duas vezes.
Passei os dias seguintes perguntando a mim mesmo se aquela observação se referia ao livro ou ao nosso encontro.
Voltamos a nos ver. Primeiro, por acaso; depois, por uma vontade que nenhum de nós procurou disfarçar. Caminhamos por jardins, visitamos antigas galerias, atravessamos pontes iluminadas pelo crepúsculo e aprendemos, pouco a pouco, a reconhecer o significado dos menores gestos.
Havia em ti uma ternura que não exigia demonstrações grandiosas. Bastava-te que eu estivesse presente, que escutasse tuas inquietações e que soubesse distinguir, em teus silêncios, o que as palavras não conseguiam revelar.
Foi numa noite de outono que me confessaste teu medo de amar.
Perguntei-te por quê.
Respondeste que as coisas mais belas da existência eram também aquelas cuja perda mais nos assustava.
Na ocasião, julguei que meu afeto seria suficiente para dissipar semelhante temor. Prometi permanecer, não por obrigação ou conveniência, mas porque nenhuma perspectiva de futuro me parecia tão desejável quanto aquela em que tua presença acompanhasse meus dias.
Entretanto, a vida possui maneiras singulares de contrariar nossas certezas.
Vieram os compromissos, as viagens, os projetos adiados e as pequenas desatenções que, acumuladas, transformam a convivência num território de expectativas frustradas. Começamos a confundir o amor com a segurança de possuí-lo. Já não perguntávamos se o outro estava feliz; supúnhamos que a permanência bastava como resposta.
E assim, sem grandes discussões ou acontecimentos extraordinários, permitimos que a distância ocupasse os espaços antes reservados à ternura.
Recordo nossa última noite.
Estávamos diante de uma janela aberta para a cidade. As luzes se acendiam lentamente, e a chuva começava a desenhar caminhos sobre os vidros. Perguntei-te se ainda acreditavas em nossas antigas promessas.
Demoraste a responder.
Quando finalmente voltaste o rosto para mim, percebi uma tristeza que jamais havia encontrado em teus olhos.
Disseste que ainda me amavas, mas já não sabias se conseguíamos fazer bem um ao outro.
Tua sinceridade feriu-me mais profundamente do que qualquer acusação.
Quis contestar, recordar nossos dias felizes, enumerar as razões pelas quais deveríamos continuar. Entretanto, compreendi que o amor não se sustenta apenas pela beleza do que foi vivido. Necessita também de cuidado no presente e de coragem para enfrentar aquilo que ameaça seu futuro.
Na manhã seguinte, partiste.
Não houve palavras ásperas, promessas de vingança ou despedidas teatrais. Apenas um abraço prolongado, desses em que duas pessoas procuram conservar, por alguns instantes, aquilo que já não conseguem proteger.
Desde então, aprendi que a ausência nem sempre começa quando alguém atravessa uma porta.
Às vezes, começa quando dois olhares deixam de encontrar a mesma esperança.
II — O OLHAR QUE O TEMPO NÃO CONSEGUIU ALCANÇAR

O trem avançava lentamente pela paisagem gelada, e eu permanecia diante da janela, como se nas montanhas pudesse descobrir alguma explicação para aquilo que nos acontecera.
Havia passado quase um ano desde nossa despedida.
Durante esse tempo, procurei preencher os dias com ocupações que me poupassem da companhia de minhas próprias lembranças. Trabalhei além do necessário, visitei cidades que desconhecia e aceitei convites que, em outras circunstâncias, teria recusado. Descobri, porém, que a distância geográfica pouco significa quando a memória insiste em conservar alguém nas regiões mais íntimas do pensamento.
Em cada estação ferroviária, havia uma mulher cujo perfil, por um instante, recordava o teu. Em cada livraria, meus olhos procuravam involuntariamente os volumes que costumavas admirar. E quando a noite chegava, trazendo consigo a serenidade que tantos desejam, eu experimentava aquela inquietação particular de quem possui muitas lembranças e nenhuma certeza.
Não era apenas tua presença que me fazia falta.
Sentia saudade da pessoa que eu havia sido ao teu lado.
Contigo, aprendera a contemplar a beleza de coisas que antes me pareciam insignificantes. Uma flor esquecida sobre a mesa, a música distante de um piano, o perfume da chuva sobre as pedras antigas ou o simples prazer de compartilhar o silêncio haviam adquirido significados que nenhuma riqueza poderia substituir.
Sem ti, o mundo não perdera sua beleza. Perdera, contudo, a cumplicidade com que eu costumava contemplá-la.
Foi então que compreendi uma verdade que meu orgulho demorara a aceitar: amar alguém não nos concede o direito de exigir sua permanência, assim como partir não apaga necessariamente a sinceridade de um sentimento.
Talvez tivéssemos sido felizes na medida de nossas possibilidades. Talvez nos faltasse maturidade para compreender que a paixão, por mais intensa, não dispensa a delicada disciplina do cuidado. Ou talvez a vida, em sua imprevisibilidade, nos houvesse colocado diante de caminhos que não soubemos percorrer juntos.
Não encontrei resposta definitiva.
E, pela primeira vez, deixei de procurá-la.
O trem atravessou um túnel, mergulhando o vagão numa breve escuridão. Meu reflexo surgiu sobre o vidro, sobreposto à imagem das montanhas que desapareciam. Observei aquele homem de expressão cansada, cabelos cuidadosamente penteados e mãos ainda ocupadas com uma fotografia que o tempo começava a amarelecer.
Perguntei-me quantas vezes confundira saudade com esperança.
A resposta não veio.
Quando a luz regressou, o vale se abriu diante de mim. Pequenas casas de telhados brancos repousavam entre árvores cobertas de neve, e uma igreja antiga erguia seu campanário acima da paisagem. Ao longe, um rio atravessava o silêncio da manhã, seguindo seu curso sem jamais exigir que as águas retornassem à nascente.
Pensei em ti.
Imaginei que talvez estivesses diante de outra janela, contemplando uma paisagem diferente. Quem sabe tivesses encontrado a serenidade que tanto procuravas. Talvez um novo amor houvesse despertado teu sorriso, ou talvez preferisses a tranquilidade de uma existência sem promessas que precisassem ser cumpridas.
Pela primeira vez, essa possibilidade não despertou ressentimento.
Desejei apenas que fosses feliz.
Não porque tivesse deixado de te amar, mas porque começava a compreender que o amor, quando verdadeiramente generoso, não transforma a felicidade alheia numa ofensa à própria solidão.
Aproximei a fotografia da luz.
Teus olhos permaneciam os mesmos. Havia neles uma alegria que o papel conservara intacta, embora nossas vidas tivessem seguido caminhos diferentes. Passei delicadamente o polegar sobre a borda envelhecida e recordei uma frase que certa vez me disseste, enquanto caminhávamos sob as árvores de um jardim:
“Há pessoas que não permanecem em nossa vida, mas continuam presentes na maneira como aprendemos a viver.”
Na ocasião, considerei tuas palavras excessivamente melancólicas.
Agora, compreendia sua delicada sabedoria.
Guardei a fotografia no bolso interno do paletó, junto ao coração. Não desejava destruí-la, tampouco continuar consultando-a como quem procura numa imagem a promessa de um regresso. Bastava-me reconhecer que aquele amor fizera parte de minha existência e que sua lembrança não precisava transformar-se numa condenação.
O relógio de bolso marcou o meio-dia.
Pela janela, avistei uma pequena estação ferroviária, cercada de montanhas e pinheiros. Algumas pessoas aguardavam na plataforma, protegidas por casacos pesados. Entre elas, um casal de idosos permanecia abraçado, partilhando um único guarda-chuva apesar de a neve já ter cessado.
Observei-os com inesperada ternura.
Talvez tivessem atravessado muitos invernos juntos. Talvez conhecessem as dores que eu apenas começava a compreender. Ou talvez sua felicidade fosse simplesmente a consequência de incontáveis escolhas discretas, renovadas ao longo dos anos.
Sorri.
Não com a alegria despreocupada de outrora, mas com a serenidade de quem finalmente admite que a vida continua oferecendo beleza mesmo depois de uma perda.
Quando o trem retomou a viagem, deixei a fotografia guardada.
Já não precisava contemplá-la para reconhecer teu lugar em minha história.
As montanhas recuavam lentamente, e o céu começava a adquirir uma luminosidade suave. O café esfriara sobre a mesa, as flores permaneciam imóveis no pequeno vaso, e o relógio continuava sua marcha indiferente.
Pensei que, se algum dia voltássemos a nos encontrar, gostaria de olhar-te sem acusações, sem cobranças e sem o desejo de recuperar aquilo que o tempo havia transformado. Talvez pudéssemos conversar como duas pessoas que se conheceram profundamente e que, apesar de tudo, conservaram respeito pela história compartilhada.
E, se esse encontro jamais acontecesse, ainda assim desejaria agradecer-te.
Pelos dias luminosos, pelas noites de confidências, pelas descobertas que fizemos juntos e até pela tristeza que me ensinara a distinguir o amor da necessidade de possuir.
Encostei a cabeça na poltrona e fechei os olhos por alguns instantes.
O trem seguia para uma cidade onde ninguém conhecia nossa história. Havia compromissos à minha espera, ruas que eu ainda não percorrera e talvez encontros que o futuro reservava com sua habitual discrição.
Quando tornei a olhar pela janela, a paisagem já era outra.
Compreendi então que não era teu olhar que se distanciava no vazio. Era o meu que, durante tanto tempo, permanecera preso ao lugar de tua partida.
E enquanto os Alpes desapareciam lentamente atrás de nós, senti que a saudade, embora ainda presente, começava a perder sua aspereza.
Não havia esquecido teu rosto, nem renegado nosso amor.
Apenas descobrira que algumas despedidas não exigem o esquecimento para encontrar seu desfecho.
Porque há amores que não regressam, mas deixam em nossa alma uma claridade que nem o mais rigoroso inverno consegue extinguir.
(Betto Gasparetto – 2020)

Deixe um comentário