Perfumes, Palavras e Paixões
Crônica romântica — Entre a sedução dos sentidos, a eloquência do silêncio e a eternidade de um beijo.
(Betto Gasparetto)

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I — O PERFUME DE UM AMOR QUE DESAFIOU A ETERNIDADE
Há perfumes que pertencem às flores, outros às estações, e alguns, tão raros quanto os encontros que transformam uma existência, parecem nascer da própria presença de quem amamos. Não se deixam aprisionar em frascos de cristal, tampouco obedecem às leis da memória. Permanecem suspensos entre aquilo que vivemos e o que desejamos viver novamente, como se a alma, incapaz de conservar o tempo, houvesse aprendido a guardar suas fragrâncias.
Foi numa tarde veneziana, quando o sol principiava a despedir-se das águas do Adriático, que compreendi a misteriosa soberania de um perfume. Não vinha das rosas dispostas em vasos de porcelana, nem dos jardins que ornamentavam os palácios. Era teu. Uma delicada combinação de jasmim, âmbar e flores brancas que, sem pedir licença, atravessou minha prudência e despertou sentimentos cuja existência eu desconhecia.
Encontramo-nos no salão de um antigo palácio, entre colunas de mármore, pinturas que celebravam glórias esquecidas e lustres de cristal que multiplicavam a claridade do entardecer. Vestias um magnífico traje azul, bordado com a paciência de mãos que pareciam compreender a beleza. Teus cabelos desciam em suaves ondulações, e havia em teus olhos uma luminosidade que nenhuma joia conseguiria imitar.
II — O PERFUME DE UM ENCONTRO QUE O DESTINO GUARDAVA
Não recordo quem primeiro pronunciou uma palavra. Talvez porque os acontecimentos decisivos raramente respeitem a ordem que a razão gostaria de lhes impor. Lembro-me, entretanto, de teu sorriso, de minha súbita incapacidade de sustentar uma conversa trivial e da estranha impressão de que, embora nos víssemos pela primeira vez, alguma parte de mim já te aguardava havia muitos anos.
Perguntaste se eu admirava as pinturas daquele salão. Respondi que sim, mas confessei, com uma sinceridade que me surpreendeu, que desde tua chegada deixara de observá-las. Riste delicadamente, sem a vaidade de quem se sabe admirada, mas com a graça de quem reconhece um sentimento antes mesmo que ele encontre palavras.
Caminhamos entre as galerias. Conversamos sobre música, poesia, viagens e sobre a inclinação humana de atribuir ao destino aquilo que talvez seja apenas a coragem de aproveitar um encontro. Tu defendias que o amor necessitava de liberdade para florescer. Eu sustentava que a liberdade, sem alguém com quem partilhar suas descobertas, poderia converter-se numa forma requintada de solidão.
Discordávamos com ternura. E cada divergência, longe de nos afastar, oferecia uma nova oportunidade de prolongar nossa companhia.
III — QUANDO OS OLHARES DISSERAM O QUE OS LÁBIOS CALAVAM
Quando chegamos à escadaria principal, a tarde havia adquirido aquela claridade dourada que antecede o crepúsculo. Pelas grandes janelas, as gôndolas atravessavam silenciosamente o canal, enquanto o reflexo dos palácios tremulava sobre as águas. O mundo parecia ocupado em preservar sua própria beleza, indiferente ao fato de que dois corações principiavam uma história.
Foi então que me ofereceste a mão.
O gesto era simples, quase cerimonial. Contudo, quando teus dedos tocaram os meus, senti que todas as palavras pronunciadas naquela tarde haviam sido apenas uma preparação para aquele instante. A proximidade de tua pele, a delicadeza de teu perfume e a serenidade de teu olhar despertaram em mim uma paixão que não se parecia com os entusiasmos passageiros da juventude.
Não era o desejo de possuir tua beleza, mas a vontade de conhecer tudo quanto nela permanecia invisível: teus receios, tuas esperanças, as lembranças que te faziam sorrir e aquelas que, por pudor, preferias conservar em silêncio.
IV — ENTRE COLUNAS DE MÁRMORE, NASCEU A PAIXÃO
Aproximei-me devagar. Não desejava precipitar um gesto que merecia nascer de nossa vontade comum. Tu permaneceste diante de mim, com uma das mãos repousando sobre meu peito, enquanto a outra se conservava entre meus dedos. Nossos rostos se aproximaram, e por um breve momento tive a impressão de ouvir o próprio coração disputando espaço com a música distante.
Beijei-te.
Não houve naquele beijo a impaciência dos que confundem paixão com conquista. Houve, antes, a entrega de duas pessoas que reconheciam, uma na outra, a possibilidade de uma felicidade até então apenas imaginada. Teus lábios encontraram os meus com uma ternura que não diminuía o ardor, mas lhe conferia uma profundidade extraordinária.
E quando nos afastamos ligeiramente, permanecemos abraçados, como se a distância de alguns centímetros já fosse excessiva para quem acabara de descobrir a alegria de pertencer, por escolha, ao mesmo instante.
V — O PRIMEIRO BEIJO E A ETERNIDADE DE UM INSTANTE
Recordo que me perguntaste, com um sorriso quase imperceptível, se eu sempre encontrava tantas palavras para falar de amor.
Respondi que, antes de conhecer-te, acreditava possuir alguma habilidade com elas. Agora, porém, todas me pareciam insuficientes.
Tu sorriste novamente e aproximaste os lábios de meu ouvido.
Disseste que talvez o amor começasse justamente onde a linguagem reconhecia seus limites.
Nunca esqueci essa observação.
Com o passar dos meses, descobri que tua presença não se restringia à beleza dos encontros. Havia paixão nas manhãs em que partilhávamos o café, nos passeios sem destino, nas cartas que escrevíamos durante breves ausências e até nas discussões em que aprendíamos a distinguir a firmeza de uma convicção da vaidade de querer vencer.
Amar-te não significava viver continuamente sob o encantamento de um primeiro beijo. Significava descobrir, em cada novo dia, razões diferentes para desejar tua companhia. Era admirar tua inteligência quando defendias uma ideia, reconhecer tua sensibilidade diante da dor alheia, respeitar os momentos em que preferias o silêncio e compreender que a intimidade mais preciosa não nasce da ausência de mistérios, mas da confiança necessária para revelá-los.
VI — A DOCE ALQUIMIA DOS DESEJOS E DAS CONFISSÕES
Houve noites em que dançamos até que os músicos encerrassem suas partituras. Noutras, permanecemos junto à janela, contemplando a chuva sobre o canal, enquanto conversávamos sobre os anos que ainda desejávamos compartilhar. Algumas vezes, bastava-nos a leitura de um livro, a música de um piano ou a presença tranquila de nossas mãos entrelaçadas.
E, no entanto, a paixão não envelhecia.
Transformava-se.
O deslumbramento inicial adquiria a profundidade do conhecimento; a ansiedade dos encontros convertia-se na alegria do regresso; e o desejo, longe de desaparecer sob o peso da familiaridade, encontrava novas formas de manifestar-se na delicadeza de um abraço, na cumplicidade de um olhar ou na espontaneidade de um beijo inesperado.
Certa noite, regressamos ao palácio onde nos conhecêramos. O salão estava iluminado por centenas de pequenas luzes, e os mesmos lustres de cristal resplandeciam sobre a escadaria. As flores haviam sido renovadas, as pinturas permaneciam em seus lugares, e as águas continuavam a refletir a arquitetura veneziana.
Tudo parecia semelhante àquela primeira tarde.
Tudo, exceto nós.
VII — QUANDO A PAIXÃO APRENDEU A CHAMAR-SE AMOR
Já não éramos dois desconhecidos encantados pela promessa de um sentimento. Conhecíamos nossas imperfeições, havíamos atravessado inquietações e aprendido que nenhuma união se preserva apenas pela intensidade de seus momentos felizes. Era necessário escolher, reiteradamente, a gentileza quando o orgulho nos convidava à aspereza, a escuta quando desejávamos responder e a reconciliação quando seria mais fácil conservar o ressentimento.
Subimos lentamente os degraus de mármore.
Tu vestias novamente o azul, embora em outro tecido, com bordados que cintilavam discretamente sob a luz dos lustres. Teus cabelos estavam presos por um delicado ornamento, e o mesmo perfume de jasmim e âmbar acompanhava teus movimentos.
Parei diante de ti.
Perguntaste-me por que te observava daquela maneira.
Respondi que procurava compreender como uma única mulher podia reunir tantas versões da felicidade: a desconhecida que despertara minha curiosidade, a companheira que conquistara minha confiança, a amante que incendiara meus sentidos e a pessoa cuja presença tornara mais generosa minha maneira de compreender a vida.
Não respondeste imediatamente.
Apenas ergueste a mão até meu rosto, acariciando-o com uma delicadeza que me devolveu, por um instante, à emoção de nosso primeiro encontro.
Então me beijaste.
O salão, com toda a sua magnificência, pareceu recolher-se ao redor daquele gesto. Os lustres continuaram acesos, as fontes prosseguiram seu murmúrio e as embarcações mantiveram seus percursos. Nada extraordinário aconteceu ao mundo.
Mas dentro de mim, mais uma vez, tudo se transformou.
Compreendi, naquele instante, que a paixão ilimitada não consiste em prometer sentimentos superiores à própria condição humana. Consiste em descobrir que o amor pode aprofundar-se sem perder o encantamento, que a ternura não precisa extinguir o desejo e que a convivência, quando alimentada pelo respeito e pela admiração, pode tornar cada reencontro tão precioso quanto o primeiro.
VIII — O ÚLTIMO BEIJO DE UMA NOITE QUE NÃO QUERIA TERMINAR
Abracei-te junto à balaustrada, enquanto a noite descia sobre Veneza.
Teu perfume permaneceu entre nós, discreto e inconfundível. Procurei dizer alguma coisa que estivesse à altura daquela felicidade, mas novamente me faltaram palavras. Sorri de minha antiga pretensão de poeta, pois nenhum verso, por mais cuidadosamente elaborado, conseguiria traduzir a plenitude daquele momento.
Tu percebeste minha hesitação e perguntaste o que eu desejava confessar.
Olhei para as águas, para os palácios iluminados e para o céu onde surgiam as primeiras estrelas. Depois voltei-me para ti, reconhecendo que não precisava recorrer à eloquência dos grandes amantes para expressar uma verdade tão simples.
Disse apenas que, se me fosse concedido atravessar novamente todos os caminhos de minha existência, com suas alegrias, erros, incertezas e desencontros, não pediria uma vida sem sofrimento, nem riquezas que me poupassem das dificuldades. Desejaria somente conservar a possibilidade de encontrar-te outra vez, naquela mesma escadaria, e ter a coragem de oferecer-te meu coração.
Repousaste a cabeça sobre meu peito.
Permanecemos assim enquanto a música se dissolvia lentamente pelos corredores do palácio.
E foi ali que descobri a mais bela distinção entre perfumes, palavras e paixões: os perfumes se dispersam, as palavras podem ser esquecidas, e até os instantes mais intensos acabam entregues ao passado. Mas o amor que cultivamos com sinceridade permanece na maneira como tocamos a vida um do outro.
Porque a verdadeira paixão não é aquela que exige a eternidade para justificar sua grandeza. É aquela que torna extraordinário o tempo que nos foi concedido.
E se algum dia me perguntarem qual foi a mais bela poesia que conheci, não citarei versos, livros ou nomes ilustres. Direi que foi teu perfume ao aproximares-te, tua voz ao pronunciares meu nome e o beijo com que transformaste uma tarde comum na mais inesquecível declaração de amor de minha existência.
(Betto Gasparetto – 2019)
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