Amar Querer Ficar, Ficar Saber Amar

Poema em quatro movimentos — O encontro, o desejo, a permanência e a plenitude do amor.

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — QUANDO O DESTINO APRENDEU A NOS ENCONTRAR

Antes de ti, meus dias eram breves,
Embora longos fossem meus caminhos;
Trazia n’alma as esperanças leves
De quem procura abrigo entre espinhos.

Cruzava os mesmos campos, distraído,
Sem compreender a graça de uma flor;
E o coração, de tanto haver sofrido,
Julgava ser prudência o desamor.

Até que vi teus olhos numa tarde,
Quando o poente se inclinava sobre o mar;
E aquilo que em meu peito fora alarde
Calou-se, simplesmente, ao te encontrar.

Não houve voz dos céus, nem profecia,
Nem súbito milagre a nos unir;
Houve somente a luz daquele dia
E a tua mão buscando-me ao sorrir.

Teu rosto, em sua cândida beleza,
Não despertou somente admiração;
Trouxe-me a inesperada certeza
De haver encontrado um lar noutra estação.

E quando tua voz chamou meu nome,
Com a doçura de um afeto singular,
Senti morrer a solidão que consome
Os que desaprenderam a esperar.

Não quis saber que ventos nos trouxeram,
Nem quantas primaveras esperei;
Bastou-me compreender que os céus quiseram
Mostrar-me o que sozinho não encontrei.

Pois certos encontros, sem pedir licença,
Desfazem velhas mágoas ao chegar;
E tornam a mais tímida presença
Na mais sublime ousadia de amar.

II — O DESEJO QUE NÃO CONHECE FRONTEIRAS

Quis conhecer os mundos que escondias
Por trás do teu sorriso encantador;
As noites em que, a sós, entristecias,
E os sonhos que guardavas com pudor.

Quis ser a mão que ampara teus receios,
Sem reclamar o mérito de os vencer;
E descobrir, nos teus menores anseios,
Mil novas formas de te compreender.

Quando teus lábios procuraram os meus,
E o vento suspendeu seu caminhar,
Não invoquei os homens nem os céus
Para ensinar meu coração a te beijar.

Foi longo aquele beijo, e tão sereno,
Que o próprio ardor pareceu se enternecer;
O mundo, diante dele, era pequeno,
Mas nele havia um mundo por nascer.

Acariciei teus cabelos lentamente,
Enquanto repousavas junto a mim;
E compreendi que amar profundamente
Não significa desejar sem ter um fim.

É desejar-te livre e, ainda assim,
Encontrar em teus braços meu lugar;
É não fazer de ti extensão de mim,
Mas ter a graça de contigo caminhar.

Se as águas se erguessem sobre os montes,
E as estrelas perdessem seu fulgor,
Ainda encontraria novos horizontes
Na delicada imensidão do nosso amor.

Não te pediria a vida por tributo,
Nem tua liberdade em devoção;
Pois mesmo o mais ardente amor é diminuto
Se não respeita a escolha do coração.

E assim te quis, sem tronos ou domínio,
Sem confundir entrega com poder;
Pois descobri que o mais formoso desígnio
É amar-te sem deixar de te reconhecer.

III — FICAR, QUANDO PARTIR PARECE MAIS FÁCIL

Mas nem todas as tardes são douradas,
Nem toda primavera sabe florir;
Há noites pelas dúvidas marcadas
Em que até dois amantes pensam em partir.

Conhecemos o peso das palavras,
A dor de um gesto mal compreendido;
E quantas vezes, sem notar, deixavas
Meu coração por horas entristecido.

Também errei, por orgulho ou desatino,
Ao defender razões sem te escutar;
E quase permiti que nosso destino
Se perdesse na vaidade de acertar.

Foi quando vi teus olhos entristecidos,
Sem o fulgor que outrora me encantou,
Que reconheci os males cometidos
Pelo silêncio que entre nós se levantou.

Não te pedi que esquecesses num instante
Aquilo que meu gesto fez sofrer;
Aproximei-me, humilde e hesitante,
Disposto a reparar e compreender.

Tu me falaste, enfim, de tuas dores,
E eu te escutei sem procurar vencer;
Pois não há vencedores nem senhores
Quando dois corações deixam de se entender.

Ficar não é suportar qualquer tormento,
Nem transformar renúncia em servidão;
É cultivar respeito e entendimento
Sem sacrificar a própria condição.

É reconhecer que a paixão mais verdadeira
Não vive apenas de um beijo arrebatador;
Requer a mão sincera e companheira
Que ampara sem cobrar provas de amor.

E quando, novamente, me abraçaste,
Sem ocultar as lágrimas no olhar,
Não foi o mesmo amor que reencontraste:
Era um amor mais sábio a despertar.

Pois quem permanece por livre escolha
Não fica por temer a solidão;
Permanece porque o afeto ainda acolha
A esperança de uma justa comunhão.

IV — AMAR, QUERER FICAR; FICAR, SABER AMAR

Se os anos desenharem em teu rosto
Os sinais de uma vida que passou,
Hei de encontrar, no mais discreto gosto,
A mesma formosura que me conquistou.

Se a neve repousar sobre teus cabelos,
E o tempo enfraquecer nosso vigor,
Não diminuirão nossos desvelos,
Nem perderá sentido o antigo amor.

Quero as manhãs de simples companhia,
O pão à mesa, o riso ao despertar;
E aquela paz que nasce da alegria
De ter alguém com quem se pode conversar.

Quero escutar teus passos pela casa,
Teus pensamentos antes de dormir;
E conservar acesa a mesma brasa
Que nos ensinou a juntos prosseguir.

Não peço à vida uma estação eterna,
Nem que a tristeza deixe de existir;
Desejo apenas que a afeição fraterna
Nos dê coragem quando a dor surgir.

E se uma tarde a força me faltar,
Não te farei responsável por meu chão;
Mas aceitarei, se quiseres me amparar,
A generosidade de tua mão.

Também serei presença nos teus dias,
Não por dever que imponha algum senhor;
Mas pelo bem que livremente escolherias
Ao partilhar comigo o nosso amor.

E quando o derradeiro sol da tarde
Descer sobre os jardins que cultivamos,
Que nenhuma palavra em nós se guarde
Daquelas que por medo não falamos.

Direi que foste o encontro mais precioso
Entre os caminhos que me coube percorrer;
Não porque tudo tenha sido venturoso,
Mas porque ao teu lado aprendi a viver.

Se amar é oferecer sem exigir,
Querer é desejar sem aprisionar;
E se ficar é novamente consentir,
Saber amar é nunca deixar de respeitar.

Assim, não peço ao tempo a eternidade,
Nem faço do amanhã meu soberano;
Basta-me que, em inteira liberdade,
Nos escolhamos a cada novo ano.

E se alguém perguntar, ao fim da vida,
Que grandeza encontrei neste lugar,
Responderei, com a alma agradecida:
Amar foi querer ficar; ficar foi saber amar.

(Betto Gasparetto – 2017)

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