“Quatro Sonetos de como Perder um Grande Amor com um Talvez” e “Dois Poemas de Reconciliação do Talvez”

Uma história de encontros, paixão, hesitação e despedida, na qual uma única palavra ameaça desfazer aquilo que dois corações levaram tanto tempo para construir.

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, ViRD 4Z1Pro, Atomix XL v4 Lightning

I — O PRIMEIRO SONETO: QUANDO O DESTINO NOS FEZ DANÇAR

Naquela noite, ao som de uma canção,
Teus olhos me ensinaram a querer;
E a dança, em sua breve duração,
Fez todo o meu passado emudecer.

Teu rosto iluminou meu pensamento,
E a noite se esqueceu de anoitecer;
Guardei teu nome em cada sentimento,
Temendo que pudesses me esquecer.

Não quis saber que sorte nos guiava,
Nem quanto nos custaria tal ardor;
Bastou-me ver que tua mão ficava.

E quando a dança enfim perdeu o ardor,
Meu coração, que outrora se calava,
Descobriu no teu nome o próprio amor.

II — O SEGUNDO SONETO: O AMOR QUE APRENDEU A ESPERAR

Depois vieram dias de ventura,
De cartas, confidências e luar;
E em cada gesto teu havia a cura
Das dores que eu temia confessar.

Mas vi nascer a sombra da distância,
E ouvi tua voz principiar a tremer;
Teu coração, receoso da constância,
Já não sabia se devia permanecer.

Perguntei se ainda havia algum caminho
Por onde nosso amor pudesse andar;
Sorriste com tristeza e desalinho.

E quando te pedi para ficar,
Disseste, entre o silêncio e o carinho:
“Talvez… se o tempo nos deixar amar.”

III — O TERCEIRO SONETO: A CRUELDADE DE UM TALVEZ

Não foi um não que me feriu o peito,
Nem tua despedida sem razão;
Foi esse talvez, tão imperfeito,
Que fez da esperança uma prisão.

Se me dissesses não, compreenderia,
E aprenderia a suportar a dor;
Mas tua dúvida, cruel, me prometia
O que jamais se consumava em amor.

Fiquei entre o regresso e a partida,
Sem conhecer teu último querer;
E vi passar a primavera da vida.

Pois quem espera sem poder saber
Se ainda há lugar na alma tão querida
Aprende a amar, mas teme sobreviver.

IV — O QUARTO SONETO: O ADEUS QUE NÃO OUSOU DIZER SEU NOME

Voltei ao grande salão iluminado,
Onde teus braços foram meu lugar;
O mesmo lustre, outrora tão dourado,
Parecia entristecido ao me encontrar.

A música envolvia os convidados,
E outros amantes começavam a dançar;
Mas nossos passos, antes tão ligados,
Já não sabiam como regressar.

Encontrei-te entre as flores e os espelhos,
Com o mesmo olhar que me ensinou a amar;
E vi nascer a dor em teus conselhos.

Não te pedi promessas para ficar;
Apenas compreendi, nos teus olhos vermelhos,
Que até um grande amor pode acabar.

—–*——*—A Reconciliação do Talvez I/II—*——-*—–

O 1º Poema do Último Encontro: Entre o que Fomos e o que Não Seremos

Naquela noite, quando os violinos
Repetiam a valsa de outros dias,
Vi nossos sonhos, frágeis peregrinos,
Perderem-se entre antigas melodias.

Teu vestido guardava a mesma graça,
Teus olhos, a ternura de outrora;
Mas havia entre nós uma ameaça
Que não nascera ontem, nem agora.

Não era a falta de amor que nos feria,
Nem a ausência de um gesto de afeição;
Era o receio de que um novo dia
Nos exigisse inteira decisão.

Perguntei se desejavas minha vida
Ao lado da existência que era tua;
E tua voz, tão triste e comovida,
Buscou no céu a indiferença da lua.

Não quis prender-te ao peso de um juramento,
Nem reclamar teu coração por piedade;
Pois amar também requer discernimento
Para não confundir desejo e liberdade.

Mas como suportar a incerteza
De quem nos ama sem saber ficar?
Que nome dar à estranha natureza
De um sentimento que receia se entregar?

Tomei tua mão, já quase despedida,
E contemplei teu rosto uma vez mais;
Não te pedi que me entregasses tua vida,
Nem que negasses teus antigos ideais.

Disse-te apenas que o amor necessita
De mais que um sonho belo por viver;
Que a esperança, quando nunca se concretiza,
Pode ensinar o coração a padecer.

E quando os violinos se calaram,
E os convidados começaram a partir,
Nossos olhares ainda se encontraram,
Sem que soubéssemos que rumo seguir.

Deixei-te junto à escadaria,
Sob a luz dos candelabros do salão;
E enquanto a noite lentamente se extinguia,
Levei comigo a tua indecisão.

Não houve culpa, orgulho ou desventura
Que justificasse aquele triste adeus;
Houve somente a humana criatura
Que teme escolher os próprios sonhos seus.

E assim parti, sem ódio ou amargura,
Sem transformar saudade em acusação;
Pois mesmo quando o amor não se assegura,
Pode conservar intacta sua afeição.

Se algum dia te lembrares desta noite,
Não julgues que o silêncio foi desamor;
Foi somente a última defesa de um homem
Que não podia mais viver de um talvez de amor.

E se o destino perguntar por nossa história,
Direi que foi sincera, embora breve;
Pois nem toda paixão alcança a glória,
Nem todo coração suporta o que se deve.

Mas guardarei, na íntima lembrança,
O instante em que teus braços foram meus;
E aprenderei que a mais difícil esperança
É aquela que não sabe dizer adeus.

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—–*——*—A Reconciliação do Talvez II/II—*——-*—–

O 2º Poema Breve — Quando a Esperança Encontra Coragem.

Voltaste quando a noite já partia,
Sem prometer o que não podias dar;
E em teu olhar, que outrora se escondia,
Encontrei a coragem de ficar.

Não apagamos tudo quanto houve,
Nem fizemos da saudade uma razão;
Mas cada um, enfim, ao outro soube
Oferecer a própria decisão.

E o teu talvez, que tanto me feria,
Perdeu a antiga sombra de temor;
Pois quando tua mão buscou a minha,
Não prometeu certeza, mas amor.

E compreendi, ao ver-te regressar,
Que amar não é jamais ter hesitado;
É ter coragem de, apesar do medo, ficar
E escolher, livremente, ser amado.

(Betto Gasparetto – 2019)

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