Archive for the Poesia Category

Encontros e Despedidas

Posted in 07 Redondilha Maior, Pensamentos, Poemas, Poesia on 31 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Neste vazio, pequei!
(Em) braços estranhos dormi!
Vida nem sabe porque…
Deram-me tanto de ti!

Curar as minhas feridas,
Milagres talvez tu faças!
Saio em silêncio da vida…
Estou perdido, sem graça!!!

Que se transborde a taça,
Com tudo que atrapalha,
A dor quer ser meu tormento…

Distante de qualquer praça,
Eu digo então cara-a-cara:
-“Não quero mais, sofrimento!”

(Jan: 30, 1982)

Em vão

Posted in 01 Monossílabo, Pensamentos, Poemas, Poesia on 31 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Brotam
Gotas
Todas
mortas…

Botas
Soltas
Tontas
Portas…

Outras
Bordam
Voltas!

Outras

jogam
Vidas!

(Set: 27, 1978)

Desacatamentoze

Posted in Crônicas, Pensamentos, Poemas, Poesia on 31 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

I
Não diga “por favor” que não te entendo!
É que as vezes surdo embora estou
Não te respondo com simples palavras
Ando procurando em dicionários
Outras palavras que te façam entender
Vasculho página por página, número por número…
E foi tudo em vão!

II
Não diga “por favor” que não te entendo!
Leio nos jornais várias notícias
Com esperança de encontrar teu nome.
Leio pois releio até que meus olhos se cansam
E tento com lembrança me animar
Com muros e consolações que já passaram…
E foi tudo em vão!

III
Não diga “por favor” que não te entendo!
Ouço nos passos transeuntes o nosso passeio
Como se fora ontem, éh! O ontem!
Rastros que se perdem com a multidão
E vão riscando todos os passos
Como farejando a tua procura,
E foi tudo em vão!

IV
Não diga “por favor” que não te entendo!
Hoje vai passando mais rapidamente
Parece que aquele pedestal está se correndo
Esfarelando o tempo em busca de refúgio,
Torno a repetir que meu vulto doentio
É sósia do passado, somente isso…
E foi tudo em vão!

V
Não diga “por favor” que não te entendo!
Que através de um sonho apenas
Não tive a chance de despertar-me inteiro
Ou por outro lado num pesadelo
Quis cegar meu quarto à velas
P’ra não te despertar…
E foi tudo em vão!

VI
Não diga “por favor” que não te entendo!
Fui fazer um corte em tua foto
Com uma moeda sem cara e sem coroa,
Mas foi a toa que eu quis cortar
Fazer retalhos com tua imagem
E montar um quebra-cabeça…
E foi tudo em vão!

VII
Não diga “por favor” que não te entendo!
Olhei em vão de cercas o teu vulto
Que parecia descansar em mastros
Em meio de tudo um tumulto,
Lavam-te de cores apenas cores…
P’ra que haja mais pureza…
E foi tudo em vão!

VIII
Não diga “por favor” que não te entendo!
Sempre perguntando: -“O quê?”
Precisando de algumas palavras simples
Que num retoque sem máscaras
Pudesse retocar o fundo de minh’alma…
Uma única saída que se possa ter…
E foi tudo em vão!

IX
Não diga “por favor” que não te entendo!
Remendo os trapos de cobertas
Que te cobriram toda naquele frio passado…
O sol ia sumindo no retrato
Lareiras chamuscadas de carvão,
A porta com a fechadura enferrujada, já sem chaves…
E foi tudo em vão!

X
Não diga “por favor” que não te entendo!
Grito, mas meu grito é todo surdo…
Olho, mas meus olhos olham no vazio…
Se calo, meu peito reclama
Se sonho, é um todo mesquinho,
Num tolo completo…
E foi tudo em vão!

XI
Não diga “por favor” que não te entendo!
O ouro nos teus olhos cegos
Não tinha valor sem teu brilho ofuscante!
A luz sempre está iluminando-te…
Vão brotando em mim, míseras lágrimas
Que nem um choro de abandono…
E foi tudo em vão!

XII
Não diga “por favor” que não te entendo!
“Cordas de Aço” vão violentando os dedos
Trazendo aos poetas mais escrita
São somas de cada letra,
São letras para uma história…
Mas falta ler para se entender…
E continua tudo em vão?

(Ago: 05, 1981)

Bilhetes (Artiviciando Formas de Viver)

Posted in Crônicas, Pensamentos, Poemas, Poesia on 31 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

Vadio? Sou!
Como vago pelas ruas
Como o lixo ejaculado da cidade!

Vadio? Sou!
Tossindo com fumaça de bio-combustível,
Óleo diesel, lamparinas e passeatas…

Vadio? Sou!
Escrevendo pelos muros,
Fazendo motins em rabo-de-saia!

Vadio? Sou!
Praguejado e sem emprego,
Olheiras, chapéu de aba curta!

Vadio? Sou!
Uma bagana americana grande?
Hoje o dia é de sorte!

Vadio? Sou!
Vasculhando os cestos dos shoppings
Vejo as crianças masturbadas
Da grã-finada se artiviciando
Pelos fast-foods, e propagandas light!

Vadio? Sou!
Pois meu destino é este:
Um banco vazio numa praça qualquer,
Tem valor? Sim!
Só pra gente que são sabe o que é ter um leito!

Vadio? Sou!
Colecionador de palavras e palavrões,
Que se espanta com a ociocidez
Das pessoas…
Com o ser humanidade em declínio!

E a fome vai perseguindo a gente
Como um mata-borrão
Que borra toda a alma!

Vadio? Sou!
Sem mulher e sem filhos,
Graças a Deus!!!
Vadio? Sou!
Quero chorar,
Quando vejo uma fila
E não posso entrar!

Quero desejar,
Quando vendem tantas coisas
E não posso comprar!

Quero realizar,
Quando sonham tantos sonhos
E não posso dormir!

Quero encenar,
Quando escolhem coisas belas
E não posso alegrar!

Vadio? Sou!
Quero viver
Dignamente como um ser humano qualquer!

Vadio? Sou!
Tenho vida!
Pelo menos isso!
E dizem, que o barato sai caro!

Que pelo menos
Alguém passe e olhe pra mim
E me cumprimente!

Daí então,
Estenderia as mãos
E diria:

-“Hoje vai dar borboleta na cabeça, moço!”

(Dez: 03, 1980)

Apocalipsia

Posted in Crônicas, Pensamentos, Poemas, Poesia on 31 de janeiro de 2008 by Prof Gasparetto

I
Deixe que o sino se estronde mais uma vez,
E mesmo que esteja em silencio com o teu corpo,
Não há motivos de se caminhar em vão…
Pelas paredes, velhos retratos, vivi!

O nó se aperta na garganta ao fim do mês…
O dia se aproxima de amargurado desgosto,
Querendo exaltar todas as musas,
Então, num sopro breve. No qual eu sempre previ!

II
Meus olhos se cegueiam ao vulto etéreo
Que todo o respeito simulado rosto,
Disfarça em risos e sombras de meu chão…
… de estúpida vidência desta ausência em mim!

Os poros se dilatam em hemorragia,
Estilhaçando os ossos que me são inocentes;
No peito explode um simples rufar de tambores,
Que pára no tempo, para nunca parir!

III
Condenado em formação de carne, descreio:
Em todo que é sagrado: Pai, Mãe e até Filho…
O asfalto nem sentiu meus pés pisarem fortes!
E nem sequer tenho meu nome p’ra se ouvir…

E, quando aos goles de embriagantes tintos,
Era começo de um meio fio de abandono,
Quis gritar: -”Mamãe!…” Mas era tarde demais,
Desmaiei no colo de alguém que nunca vi!

Minha presença tornou-se inválida aqui…
Emudecendo sinos, desempilhando tijolos;
Seria ladrão se roubasse minha vida…
Não houve orações… nem cantigas… Dormiram-me, apenas!

(Set: 27, 1979)