Episódio I — A Casa Que Observa
Obra musical: Piano Sonata No. 14 “Moonlight” — Ludwig van Beethoven
(Betto Gasparetto)
Capítulo 2 — O Anfitrião e o Visitante

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O salão parecia maior do que antes, como se a simples presença de novas pessoas tivesse deslocado as proporções do espaço.
As paredes, revestidas de madeira escura, absorviam a luz e devolviam apenas um reflexo contido, quase disciplinado.
As velas, acesas em castiçais antigos, não iluminavam — vigiavam.
Alaric von Eichenwald caminhava à frente, conduzindo o visitante sem jamais voltar completamente o corpo.
Havia nisso uma sutileza de domínio: guiar sem conceder igualdade.
Émile Laurent o seguia com atenção silenciosa, absorvendo cada detalhe como quem não apenas observa, mas mede.
Ao lado, Helena Dubois mantinha-se alguns passos atrás, presença constante, quase estrutural.
Nada escapava ao seu campo de percepção, embora nada fosse comentado.
— Esta casa — disse Alaric, após alguns instantes — foi erguida sobre pedra antiga.
— Percebe-se — respondeu Émile.
A resposta não era elogio.
Nem crítica.
Era reconhecimento.
Passaram por uma sequência de retratos descobertos.
Homens de expressão austera.
Mulheres de olhar distante.
Crianças imóveis demais para parecerem vivas.
Émile deteve-se por um breve momento diante de um deles.
Um jovem de traços finos, vestido com formalidade excessiva, olhar fixo além do observador.
— Não permanece muito tempo diante desses — disse Helena, sem alterar o tom.
— Por quê? — perguntou Émile.
— Porque alguns olhares não gostam de ser devolvidos.
Ele sustentou o olhar mais alguns segundos antes de seguir.
Não por desafio.
Mas por necessidade.
Ao fundo do salão, uma porta dupla foi aberta.
O ambiente seguinte era menor, mais contido, mas não menos denso.
Ali, o jantar estava disposto.
A mesa, longa e perfeitamente alinhada, parecia preparada não para acolher, mas para organizar presenças.
Pratos, talheres e copos estavam dispostos com precisão quase matemática.
Amélie já estava sentada, observando o espaço com uma calma que inquietava.
Ao seu lado, Sophie von Eichenwald permanecia em silêncio, os dedos repousando sobre um pequeno caderno fechado.
Seus olhos se encontraram por um instante.
Nenhuma palavra foi trocada.
Mas algo foi reconhecido.
— Minha filha — disse Alaric, com suavidade controlada — Sophie.
A jovem inclinou levemente a cabeça.
Não sorriu.
— Senhor Laurent.
— Senhorita.
O diálogo foi breve.
Mas carregado de uma estranha familiaridade, como se ambos soubessem que aquele encontro não era inaugural.
Lukas von Eichenwald entrou logo depois.
Seus passos eram menos contidos, sua presença mais instável.
Ele observou Émile com interesse direto, quase imprudente.
Depois olhou para Amélie.
Ali, algo suavizou.
— Então o senhor finalmente veio — disse Lukas.
Alaric não respondeu.
Mas o ar entre pai e filho se alterou imediatamente.
— Não creio que “finalmente” seja a palavra mais adequada — disse Émile, com leve firmeza.
Lukas sorriu de lado.
— Talvez não para todos.
Helena aproximou-se da mesa e iniciou o serviço com precisão impecável.
Anika Petrov, a cozinheira, surgiu discretamente ao fundo, observando sem se expor.
Os pratos foram servidos.
Mas o alimento parecia secundário.
O que se consumia ali era outra coisa.
— A viagem foi longa? — perguntou Sophie, quebrando o silêncio.
— O suficiente para que algumas ideias mudassem — respondeu Émile.
— E mudaram?
Ele a olhou diretamente.
— Ainda não sei.
Amélie, até então quieta, apoiou os cotovelos na mesa — gesto que Helena observou, mas não repreendeu.
— A casa não gosta de mudanças — disse a menina.
O comentário atravessou o ambiente com precisão inesperada.
Lukas soltou um leve riso.
— Ela não gosta de muitas coisas.
— E vocês gostam dela? — perguntou Amélie.
Dessa vez, ninguém respondeu imediatamente.
Sophie abaixou os olhos.
Alaric manteve-se imóvel.
Lukas desviou o olhar.
Foi Helena quem respondeu.
— Algumas coisas não exigem gostar. Apenas permanência.
O jantar prosseguiu.
Mas a conversa já não era mais comum.
Havia perguntas que não seriam feitas.
Respostas que não seriam dadas.
E presenças que começavam a pesar mais do que deveriam.
Em determinado momento, Émile voltou-se para Alaric.
— Há partes da casa que permanecem fechadas?
A pergunta foi direta.
Demasiado direta.
Helena interrompeu o movimento por um instante mínimo.
Alaric repousou os talheres.
— Algumas portas não são abertas com frequência.
— Por escolha?
— Por necessidade.
O silêncio que seguiu foi mais denso do que qualquer resposta.
Amélie olhava para a lateral do salão.
Seus olhos fixavam um ponto invisível aos demais.
— Aquela porta não está vazia — disse ela.
Todos voltaram o olhar para o mesmo lugar.
Uma porta discreta.
Fechada.
Nada além disso.
— É apenas um corredor — disse Helena.
Amélie balançou a cabeça, devagar.
— Não. Tem alguém ali.
O relógio no salão principal marcou a hora.
Uma batida.
Depois outra.
O som percorreu a casa inteira.
E por um instante — apenas um — pareceu que algo respondeu.
Não um ruído claro.
Não um movimento visível.
Mas uma presença.
Émile percebeu.
Lukas também.
E Helena… já sabia.
O jantar terminou sem conclusão.
Como tudo naquela casa.
Alaric levantou-se primeiro.
— Amanhã teremos tempo para conversar melhor.
Mas não era uma promessa.
Era um aviso.
(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)
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