O Que Permanece Quando Tudo Passa (10/10)

Posted in Sem categoria on 9 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

A casa ficou menor com o tempo.
Não porque as paredes se moveram, mas porque a vida foi retirando excesso.
O que antes era “plano” virou “lembrança”.
O que antes era “amanhã” virou “agora”.
E o agora, quando é longo demais, ensina uma coisa que ninguém aprende jovem:
o essencial não faz ruído.

Capítulo X — Epílogo e o Que Restou

————————-Momento 1————————-

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Eles passaram a existir em uma espécie de silêncio compartilhado.
Não era um silêncio vazio.
Era um silêncio trabalhado.
Um silêncio feito de anos em que se escolheu não desistir.

A televisão em preto e branco falava para o cômodo,
mas nem sempre falava para eles.
Às vezes, era apenas um som para preencher o ar,
uma presença sem exigência,
uma companhia que não perguntava nada.

Najillah sentava devagar.
Não por fraqueza.
Por consciência do corpo.
O corpo, para ela, era um arquivo.
Tinha guardado o peso das filas,
as noites de apagão,
o medo em poeira dentro da garganta,
os tremores que nenhum médico viu,
porque eram tremores de lembrança.

Yahzzir ficava mais tempo olhando pela janela.
Não por hábito antigo.
Por instinto.
Durante anos, a janela tinha sido um posto avançado do mundo.
Agora, era apenas uma janela.
Mas o corpo não desaprende rápido o que aprendeu para sobreviver.
Ele observava o movimento da rua como quem mede perigo —
mesmo quando já não havia perigo.
A paz, para quem viveu o contrário,
sempre conserva um ruído invisível.

Eles não falavam muito sobre a guerra.
Não por pacto.
Por economia.
A guerra não precisava ser narrada:
ela já tinha sido incorporada em gestos.
Na forma como fechavam portas.
Na maneira como guardavam comida.
Na atenção exagerada a pequenos sons.
No cuidado com as luzes.
Na preferência por lugares onde se podia ouvir o próprio pensamento.

E ainda assim, a guerra estava presente,
não como evento,
mas como cicatriz.
Uma cicatriz não dói o tempo todo.
Mas informa: “isso aconteceu”.

Najillah, às vezes, pegava um envelope antigo,
já amarelado,
com cartas dobradas tantas vezes que pareciam feitas de tecido.
Ela não lia sempre.
Ela tocava.
O toque bastava.
Como se as palavras antigas fossem menos importantes
do que a prova física de que foram escritas.
Porque escrever, naquela época,
era a forma mais humana de dizer: “eu não desisti de você”.

Yahzzir não tinha orgulho de ter sobrevivido.
Ele nunca teve.
O orgulho é coisa de quem saiu inteiro.
E ele sabia que não saiu.
Saiu vivo — o que é diferente.
Vivo e cheio de ausências.
Vivo e com uma espécie de cansaço moral que não aparece no espelho,
mas aparece no modo de olhar.

Ele tinha aprendido a não se sentir merecedor de coisas boas.
A guerra educa mal a esperança.
E o pós-guerra, muitas vezes, não reeduca.
Apenas cobra.
Cobra que você seja normal imediatamente,
como se normalidade fosse um botão.

————————-Momento 2————————-

Najillah percebeu isso cedo.
E fez uma coisa difícil:
parou de exigir o homem de antes.

Ela não romantizou o trauma dele.
Não transformou sofrimento em ornamento.
Ela apenas entendeu que amor, depois de certo ponto,
é menos sentimento e mais decisão.
Decisão repetida.
Decisão de ficar.
Decisão de não usar a dor do outro como acusação.
Decisão de reconstruir o cotidiano com as mãos.

E foi assim que eles envelheceram juntos:
não como nos livros,
mas como na vida.

Houve dias em que ela pensou:
“Eu perdi a juventude esperando”.
E imediatamente sentia culpa por pensar isso,
porque ele voltou.
Porque ele estava ali.
Porque ela tinha o direito de tê-lo.

Mas a culpa não apagava o fato:
ela esperou.
Esperou por cartas.
Esperou por notícias.
Esperou por uma paz que demorou mais do que o anúncio oficial.
Esperou por um abraço que voltasse a ser simples.
Esperou por uma espontaneidade que a guerra roubou dos dois.

Ela nunca disse isso em voz alta.
Não para ele.
Porque havia um cuidado delicado na forma como ela amava:
ela sabia que certas verdades, quando ditas,
não libertam — esmagam.

Yahzzir, por sua vez, carregava outra culpa:
a culpa de ter voltado diferente.

Ele percebia o esforço dela em criar rituais,
em propor passeios,
em tentar reerguer o mundo pelas bordas,
como se reerguesse um tecido rasgado.
Ele via.
E isso o comovia,
mas também o constrangia.
Porque havia dentro dele uma parte que não conseguia reagir com a mesma leveza.
Uma parte que ainda vivia em alerta,
como se alegria fosse uma distração perigosa.

————————-Momento 3————————-

Com o tempo, porém, aconteceu algo silencioso:
o amor deles mudou de função.

No começo, o amor foi promessa.
Depois, foi âncora.
Depois, foi sobrevivência.
Por fim, tornou-se transmissão.

Sem perceber, eles começaram a ensinar.
Não por discursos.
Por presença.

Quando jovens passavam pela casa,
eles viam duas pessoas que não tinham brilho teatral,
não tinham romance excessivo,
não tinham frases perfeitas.
Mas tinham algo raro:
um pacto que resistiu ao mundo.

E isso, para quem olha de fora,
pode parecer pouco.
Mas é enorme.

Porque o mundo ensina ruptura.
Ensina troca.
Ensina descarte.
Ensina pressa.
Ensina que tudo precisa ser novo para ser válido.

E eles eram o oposto disso:
eram prova de que o tempo pode ser suportado em dois.
E que a liberdade, quando proibida pelas circunstâncias,
pode existir por dentro,
na escolha diária de continuar.

Houve uma surpresa final que ninguém registrou em documentos oficiais.
Foi pequena.
E foi o suficiente para abalar tudo.

Numa tarde comum, anos depois,
Najillah encontrou, no fundo de uma gaveta,
um objeto que não lembrava mais ter guardado:
um broche antigo,
de metal gasto,
com a inscrição “BG” quase apagada.

Ela ficou olhando aquilo como quem olha uma palavra que já não usa.
Não era nostalgia simples.
Era uma espécie de choque:
“Eu ainda sou aquela pessoa que guardou isso?”

Ela chamou Yahzzir.
Ele veio devagar,
olhou o broche por tempo demais
e respirou fundo, como se o objeto tivesse peso real.

Ele disse, sem teatro:
“Eu levei isso comigo quando parti.
Eu devolvi sem te contar.
Porque eu tive medo de que, se eu dissesse,
você percebesse o quanto eu tremia por dentro.”

Najillah segurou o broche e entendeu, de uma vez: ERA APENAS UMA SUPRESA!,
ele não tinha apenas sobrevivido a bombas e ordens —
tinha sobrevivido ao medo de não ser digno de voltar para ela.

————————-Momento 4————————-

E foi ali que o epílogo deles se tornou mais cruel e mais bonito:
não era sobre guerra,
era sobre a intimidade invisível do pós-guerra.

Sobre as coisas que não se contam para não ferir.
Sobre os medos que não se confessam para não parecer fraco.
Sobre a coragem de continuar sem garantias.

Najillah então fez algo que nunca tinha feito com facilidade:
ela falou de si sem se esconder.

Disse, com a voz baixa e firme:
“Eu não esperei para ser recompensada.
Eu esperei para não me trair.
Porque, se eu tivesse desistido,
a guerra teria vencido dentro de mim.”

Yahzzir não respondeu com frase bonita.
Ele apenas segurou a mão dela.
E segurou como se fosse a primeira vez,
mas com o peso de todas as outras.

A televisão continuou falando ao fundo.
Um anúncio qualquer.
Uma música qualquer.
Uma comédia sem importância.
O mundo sempre segue indiferente ao que é realmente grande.

E, naquele instante, a grandeza foi simples:
dois seres humanos em silêncio,
aceitando que não foram salvos pelo romance,
mas pela insistência.

Eles envelheceram juntos.
Não como planejado.
Mas como possível.

E o que restou não foi uma história perfeita.
Foi uma lição amarga e luminosa:

que amor não é apenas encontro —
é permanência.

Que liberdade não é sempre poder fazer —
às vezes é poder não abandonar.

E que o tempo, quando é longo,
não pergunta se você sente.
Pergunta se você fica.

E eles ficaram.

————————-Momento ??————————-

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

Decassílabos em Notas Ausentes

Posted in Sem categoria on 8 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No velho couro, o corpo se reclina;
o blues ecoa dentro do cristal.
O vinho, qual navalha, me domina
no amargo desta noite de vendaval.

As gotas que a janela vão riscando
são lágrimas de um sangue tão rubro,
enquanto o disco as horas vai contando
no gosto morno que no peito nutro.

O olhar vagueia pela sala fria,
onde o meu eu se encontra anestesiado.
Não estou só, mas falta a companhia,
pois algo senta sempre ao meu lado.

Ocupa o espaço onde eu seria inteiro,
presença que me invade e me cativa.
Velha armadilha: o meu cativeiro,
numa memória que se mantém viva.

Aceita a taça que eu lhe ofereço,
no nevoeiro que a visão inunda.
No sono, enfim, de tudo me esqueço,
nesta penumbra mística e profunda.

(Brenda GG – viii-xxvi)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (09/10)

Posted in Sem categoria on 8 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Eles não foram exemplo histórico.
Foram exceção silenciosa.
Quando tudo ensinava a abandonar,
eles ficaram.
E isso, sem glória,
foi a maior vitória possível.

Capítulo IX — Depois e a Permanência

Najillah, a Musa — O Amor Sem Ilusão

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Anos passaram.
O mundo se reorganizou.
Ela não romantizava o passado.
Mas não o negava.
A guerra virou memória compartilhada.
Não fantasma constante.
Ela via nele marcas.
E aceitava.
Porque também carregava as suas.
O amor não era mais promessa.
Era presença.
Era rotina construída.
Era escolha reiterada.
Ela não precisava mais provar nada.
A vida seguia simples.
E isso era suficiente.


Yahzzir, o Menestrel— A Vida Possível

Ele aprendeu a rir novamente.
Não alto.
Mas verdadeiro.
Ele voltou a sentir prazer em coisas pequenas.
Caminhar.
Sentar.
Observar.
Ele não esqueceu.
Mas deixou de ser dominado.
O amor se transformou em território seguro.
Não perfeito.
Mas habitável.
Ele compreendeu que permanecer
foi o maior ato de coragem que realizou.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (08/10)

Posted in Sem categoria on 7 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Reconstruir não foi esquecer.
Foi decidir continuar
sem exigir pureza do passado.
O amor deixou de prometer
e passou a sustentar.

Capítulo VIII — Pós-Guerra e a Reconstrução

Najillah, a Musa — A Escolha Diária

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Com o tempo, ela parou de esperar milagres.
Passou a valorizar pequenas vitórias.
Um sorriso espontâneo.
Uma noite sem sobressaltos.
Um diálogo mais longo.
Ela ajustou expectativas.
Não por resignação.
Por maturidade.
Ela começou a propor novos rituais.
Caminhadas curtas.
Refeições simples.
Silêncios compartilhados.
Ela percebeu que o amor não precisava ser intenso.
Precisava ser constante.
Ela sentiu saudade de quem foi.
Mas não se perdeu nisso.
Ela se tornou mais firme.
Menos romântica.
Mais presente.
A juventude dela não desapareceu.
Apenas mudou de forma.
Ela aprendeu a amar sem exigir explicação.
A acolher sem invadir.
A ficar sem aprisionar.
Ela entendeu que reconstruir
era um ato político e íntimo.
Contra a guerra.
Contra o esquecimento.
Ela escolheu permanecer.
Não por dever.
Por sentido.


Yahzzir, o Menestrel— Reaprender a Viver

Ele começou a perceber mudanças.
Lentas.
Quase invisíveis.
O corpo relaxava aos poucos.
O sono vinha em blocos maiores.
O silêncio deixava de ameaçar.
Ele começou a confiar na repetição.
No cotidiano.
No gesto simples.
Ela estava ali.
Não cobrando.
Não exigindo.
Isso o ensinou mais do que qualquer terapia possível.
Ele percebeu que amar
não era voltar a ser quem foi.
Era aceitar quem se tornou.
Ele passou a falar mais.
Não tudo.
Mas o possível.
Ele começou a habitar o presente.
Sem tanta vigilância.
Sem tanta antecipação de desastre.
Ele entendeu que sobreviver
não era o fim da história.
Era o início de outra.
E isso exigia coragem diferente.
A coragem de permanecer vivo.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (07/10)

Posted in Sem categoria on 6 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Eles aprenderam que amar alguém ferido
é amar sem atalhos.
Sem pressa.
Sem exigir retorno imediato.
O amor virou reconstrução lenta
sobre terreno instável.

Capítulo VII — Pós-Guerra e o Estranhamento

Najillah, a Musa — Conviver com um Sobrevivente

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A casa parecia a mesma.
Mas não era.
Os móveis estavam no lugar.
As paredes intactas.
Mas o ar havia mudado.
Ela observava pequenos gestos dele.
O modo como fechava portas.
O silêncio prolongado.
A atenção excessiva aos ruídos.
Ela percebeu que ele dormia mal.
Acordava antes do amanhecer.
Ficava sentado.
Olhando nada.
Ela tentou retomar hábitos antigos.
Cozinhar juntos.
Ouvir música.
Falar do dia.
Alguns funcionavam.
Outros falhavam.
O amor agora exigia cuidado.
Não entusiasmo.
Ela sentia falta do homem anterior.
E se culpava por isso.
Porque ele estava vivo.
E isso deveria bastar.
Mas amar alguém que voltou diferente
é aprender a amar outra pessoa
sem trair a memória da primeira.
Ela sentia o corpo dele distante.
Não fisicamente.
Mas como se estivesse sempre pronto para partir.
Ela não pressionava.
Aprendeu que pressão fecha ainda mais.
Ela observava.
Esperava.
A juventude dela começava a se despedir.
Não por idade.
Mas por lucidez precoce.
Ela sentia cansaço emocional.
Mas não desistência.
Ela sabia que reconstruir
não era devolver o passado.
Era aceitar o que sobrou.
Ela teve medo de não ser suficiente.
Medo de não alcançar o homem
que ainda estava preso em outro tempo.
Mesmo assim, ficou.
Porque amar, naquele momento,
era ficar quando tudo pedia fuga.


Yahzzir, o Menestrel— Habitar um Corpo em Paz

A paz era barulhenta.
Não pelos sons.
Pelo vazio.
Ele não sabia onde colocar a atenção.
A ausência de ordens o desorganizava.
Ele acordava pronto para agir
sem saber o que fazer.
O corpo reagia antes da mente.
Ele se sentia deslocado.
Dentro da própria casa.
Dentro do próprio nome.
Ela estava ali.
E isso o ancorava.
Mas também o expunha.
Porque ele não queria feri-la
com aquilo que não sabia explicar.
Ele se sentia inadequado.
Incompleto.
Às vezes, perigoso demais para a normalidade.
Ele evitava falar do que viveu.
Não por segredo.
Mas porque as palavras não davam conta.
Ele via o esforço dela.
E isso o constrangia.
Porque ele não sabia como corresponder.
O amor agora exigia reaprendizado corporal.
Aprender a tocar.
A dormir.
A permanecer.
Ele sentia culpa por sobreviver.
Culpa por voltar.
Culpa por não estar inteiro.
A guerra havia terminado.
Mas ele ainda estava lá dentro.
Ele percebeu que o amor não cura.
Mas sustenta.
E isso era mais difícil de aceitar.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)