A Chave Reserva

Posted in Coleção - Crônicas on 10 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Quando Roberto entregou a chave reserva de casa ao vizinho, não houve cerimônia.

— Guarda para mim? Se algum dia eu me trancar para fora, pelo menos não preciso chamar chaveiro.

Paulo recebeu a chave, colocou numa pequena caixa de madeira que ficava sobre o armário da cozinha e respondeu:

— Pode deixar.

Moravam lado a lado havia quase nove anos. Não eram amigos de frequentar a casa um do outro, mas compartilhavam aquela intimidade típica de vizinhos antigos: recolhiam encomendas, emprestavam ferramentas, avisavam quando algum portão ficava aberto e sabiam reconhecer, pelo barulho da garagem, quem estava chegando.

A chave permaneceu na caixa durante dois anos sem servir para nada.

Até que Roberto decidiu viajar com a esposa e os dois filhos para visitar parentes no interior. Antes de sair, pediu ao vizinho que desse uma olhada na casa.

— Se o alarme disparar ou acontecer alguma coisa, você entra.

— Vai tranquilo.

A família partiu numa sexta-feira à tarde.

No sábado, Paulo regou duas plantas da varanda. No domingo, recolheu um pacote que o entregador havia deixado junto ao portão. Na segunda-feira, nem precisou atravessar a calçada.

Roberto voltou na terça, pouco depois das oito da noite.

Descarregou as malas, estacionou o carro e encontrou tudo exatamente como deixara.

Na manhã seguinte, foi agradecer.

— Deu tudo certo?

— Tudo. Só chegou uma encomenda. Está aqui.

Paulo entregou o pacote.

Roberto agradeceu e, antes de voltar para casa, lembrou-se da chave.

— Vou pegar a reserva também. Preciso fazer uma cópia para meu filho.

Paulo abriu a caixa de madeira.

Mexeu entre chaves antigas, pilhas, moedas e dois controles remotos.

A chave não estava.

— Estranho.

Procurou novamente.

Abriu uma gaveta.

Depois outra.

Nada.

— Você usou?

— Não.

— Tem certeza?

Paulo parou de procurar.

— Tenho.

Roberto tentou parecer despreocupado.

— Deve estar por aí.

Voltou para casa, mas a frase ficou acompanhando seus pensamentos.

Naquela noite, comentou com a esposa.

— A chave sumiu.

— E daí?

— Como “e daí”? É a chave da nossa casa.

— Paulo mora do nosso lado há nove anos.

— Justamente. Se alguém entrasse aqui, saberia nossos horários.

Ela olhou para ele por alguns segundos.

— Você está ouvindo o que está dizendo?

Roberto estava.

E não gostou.

Nos dias seguintes, pequenos acontecimentos começaram a ganhar importância demais.

Uma janela da cozinha que ele não lembrava ter deixado aberta.

Uma cadeira ligeiramente fora do lugar.

A porta do escritório encostada.

Até uma gaveta mal fechada virou motivo para conferência.

Nada havia desaparecido.

Mesmo assim, Roberto chamou um chaveiro.

Trocou o segredo da fechadura.

Quando Paulo percebeu o serviço, perguntou:

— Problema na porta?

— A fechadura estava agarrando.

Foi uma resposta rápida demais.

Paulo apenas concordou.

Depois disso, alguma coisa mudou entre os dois.

As conversas no portão ficaram menores. As ferramentas deixaram de atravessar a calçada. Quando uma encomenda chegou à casa de Roberto e ninguém atendeu, Paulo não a recolheu como fazia antes.

O pacote passou a tarde inteira junto ao portão.

Duas semanas depois, Roberto decidiu limpar o carro.

Retirou os tapetes, aspirou os bancos e abriu o compartimento sob o porta-malas para verificar o estepe.

Ao levantar a tampa, ouviu um pequeno objeto metálico cair.

Era a chave.

Ficou olhando para ela.

Lembrou-se então da manhã da viagem. Antes de fechar o porta-malas, havia pegado a chave reserva com Paulo porque imaginou que seria melhor levá-la. Colocara no bolso lateral da mala e, enquanto organizava a bagagem, provavelmente a deixara cair.

Sentou-se na beirada do porta-malas.

Durante alguns minutos, permaneceu ali com a chave na mão.

Naquela tarde, atravessou a calçada.

Paulo estava lavando a garagem.

Roberto abriu a mão.

— Achei.

O vizinho reconheceu imediatamente.

— Onde estava?

— No carro.

Paulo desligou a mangueira.

Roberto tentou explicar.

— Eu devia ter lembrado que peguei antes da viagem. Depois achei que…

Parou.

Paulo esperou.

— Eu troquei a fechadura.

— Eu percebi.

Não houve discussão.

Talvez tivesse sido mais fácil se houvesse.

Roberto estendeu a chave.

— Quer guardar novamente?

Paulo olhou para ela e depois para o vizinho.

— Melhor você ficar.

Roberto fechou a mão.

Na manhã seguinte, encontrou uma encomenda sobre o muro. Paulo devia tê-la recebido enquanto ele estava fora.

Não havia bilhete.

Roberto levou o pacote para dentro e, antes de fechar o portão, olhou para a casa ao lado.

A chave reserva agora estava novamente em sua gaveta.

Dessa vez, ele sabia exatamente onde.

O que não sabia era quanto tempo levaria para encontrar o resto.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Sinal Fechado

Posted in Coleção - Crônicas on 9 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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O sinal fechou às sete e quarenta e três, justamente quando Marcelo decidiu que ainda conseguiria chegar ao trabalho sem precisar inventar uma desculpa muito elaborada. Tinha saído de casa doze minutos atrasado, o café no copo térmico já estava morno e, para completar, uma garoa fina começava a engrossar sobre o para-brisa.

Bateu os dedos no volante e conferiu o relógio do painel.

— Vamos, vamos…

O semáforo, indiferente aos compromissos profissionais de Marcelo, continuou vermelho.

Na avenida, três filas de carros se acumulavam diante do cruzamento. Um ônibus parou na faixa exclusiva, duas motocicletas se espremeram entre os veículos e um motorista, quatro carros atrás, começou a buzinar sem que houvesse qualquer lugar para onde os demais pudessem ir.

Marcelo olhou pelo retrovisor.

— Deve estar querendo que a gente passe por cima.

Foi quando apareceu o vendedor de balas.

Era um rapaz magro, talvez com pouco mais de vinte anos, usando uma capa de chuva transparente sobre uma camiseta vermelha. Carregava vários pacotes presos ao braço e caminhava entre os carros com a segurança de quem conhecia o tempo daquele semáforo melhor do que os engenheiros de trânsito.

— Três por dez! Bala, paçoca, amendoim! Três por dez!

Alguns motoristas levantavam o vidro quando ele se aproximava. Outros recusavam com a cabeça. Uma senhora comprou duas paçocas e perguntou se ele tinha troco para cinquenta.

— Tenho até para cem, dona. Hoje comecei rico.

Ela riu.

O motorista atrás buzinou novamente.

A senhora colocou a cabeça para fora da janela.

— Se continuar buzinando, vou escolher o sabor também!

Dessa vez, até Marcelo riu.

O sinal abriu e todos avançaram como se tivessem recebido autorização para fugir da cidade. Duzentos metros depois, outra luz vermelha interrompeu a corrida.

Marcelo respirou fundo.

Naquele cruzamento havia um homem vendendo água e outro oferecendo carregadores de celular. Mais adiante, um rapaz limpava para-brisas. Aproximou-se de um carro preto, recebeu uma negativa e seguiu para o próximo. Uma mulher aceitou o serviço.

Enquanto ele passava o rodo no vidro, o sinal ficou verde.

As buzinas começaram imediatamente.

A mulher procurava dinheiro dentro da bolsa, mas o rapaz já havia se afastado para liberar a passagem. Ela avançou alguns metros, encostou perto do meio-fio e esperou que ele viesse buscar o pagamento.

Marcelo observou pelo retrovisor enquanto seguia adiante.

No terceiro semáforo aconteceu algo curioso.

O vendedor de balas apareceu novamente.

Marcelo abaixou o vidro.

— Você está me seguindo?

O rapaz reconheceu o carro e respondeu:

— Eu estou trabalhando no mesmo lugar, chefe. Quem está rodando é o senhor.

Marcelo caiu na risada.

— Quanto é mesmo?

— Três por dez.

— Quero só um.

— Um custa quatro.

— Mas três custam dez?

— Estratégia comercial.

— Então você está me obrigando a economizar gastando mais?

— Agora o senhor entendeu o comércio brasileiro.

Marcelo entregou dez reais e recebeu os três pacotes.

— Você fica aqui todos os dias?

— De segunda a sábado. Quando chove, vendo menos bala e mais amendoim.

— Por quê?

O rapaz deu de ombros.

— Não faço ideia. Mas acontece.

Antes que Marcelo pudesse continuar a conversa, uma menina apareceu entre os carros vendendo panos de prato. O rapaz abriu espaço para ela passar e voltou para o canteiro central.

O sinal abriu.

Marcelo seguiu pela avenida com um pacote de balas no banco do passageiro e dois no bolso lateral da porta.

A garoa havia virado chuva. Nas calçadas, pessoas disputavam espaço sob as marquises. Um homem protegia a cabeça com uma pasta. Uma mulher corria carregando os sapatos nas mãos. No ponto de ônibus, passageiros se apertavam debaixo de uma cobertura pequena demais para tanta gente.

No cruzamento seguinte, Marcelo encontrou uma senhora atravessando a faixa com dificuldade. Caminhava devagar, apoiada numa bengala, enquanto o contador luminoso diminuía depressa.

Oito segundos.

Sete.

Seis.

Um entregador de bicicleta que aguardava no cruzamento percebeu a situação. Desceu, segurou a bicicleta com uma mão e ofereceu o outro braço à senhora. Os dois chegaram à calçada quando o contador já piscava no zero.

O sinal ficou verde.

Ninguém conseguiu avançar imediatamente porque o entregador ainda retornava para a bicicleta.

Uma buzina soou.

Depois outra.

Marcelo levou a mão ao volante.

Parou antes de apertar.

O rapaz montou na bicicleta, fez um gesto de agradecimento e seguiu.

Quando Marcelo finalmente chegou ao último cruzamento antes da empresa, estava vinte e três minutos atrasado. O relógio no painel parecia fazer questão de lembrá-lo disso.

O amarelo apareceu a poucos metros.

Havia tempo para acelerar.

O carro ao lado acelerou.

Marcelo também pisou no pedal, mas percebeu um homem correndo em direção à faixa, tentando alcançar o ônibus parado do outro lado da avenida.

Reduziu.

O sinal fechou.

O motorista atrás imediatamente buzinou.

Marcelo olhou pelo retrovisor. O homem gesticulava alguma coisa dentro do carro, claramente indignado com aqueles segundos perdidos.

Marcelo pegou um dos pacotes de balas e abriu.

O pedestre atravessou correndo e conseguiu alcançar o ônibus. Antes de subir, ainda levantou a mão na direção dos carros, num agradecimento que provavelmente ninguém considerou dirigido a si.

A chuva escorria pelo para-brisa. Os limpadores trabalhavam de um lado para o outro, empurrando a água que imediatamente voltava.

Marcelo mastigou uma bala e observou o movimento.

À sua direita, uma mulher retocava o batom olhando pelo espelho do carro. Um motociclista ajeitava a capa de chuva. Dentro de um ônibus, uma criança desenhava alguma coisa no vidro embaçado. Na calçada, um homem dividia um guarda-chuva pequeno com uma mulher e os dois tentavam caminhar sem que nenhum deles ficasse completamente molhado.

Tudo isso acontecia enquanto ele esperava.

O semáforo abriu.

Dessa vez, Marcelo demorou talvez dois segundos para perceber.

A buzina atrás dele veio imediatamente.

Ele arrancou devagar.

Chegou ao estacionamento da empresa às oito e onze. Desligou o carro, pegou a pasta e encontrou os dois pacotes de balas que sobraram.

Pensou no rapaz da capa transparente.

Três por dez.

Guardou um pacote na pasta e deixou o outro no porta-luvas.

Quando fechou a porta, ouviu ao longe uma sequência de buzinas vindo da avenida.

Provavelmente outro sinal havia fechado.

Marcelo olhou naquela direção por alguns segundos.

Depois entrou na empresa.

Na avenida, o vermelho continuava fazendo aquilo que sempre fizera: segurava carros por alguns instantes.

O que acontecia durante esses instantes já não era problema do semáforo.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Cartão de Visitas

Posted in Sem categoria on 8 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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A gaveta emperrou duas vezes antes de abrir.

Henrique puxou com mais força e quase derrubou o criado-mudo.

— Era só o que faltava.

Estava tentando organizar o quarto havia três dias.

Na prática, “organizar” significava tirar objetos de um lugar, olhar para eles durante alguns segundos e colocá-los em outro.

Recibos antigos.

Canetas sem tinta.

Parafusos sem origem conhecida.

Uma fotografia três por quatro.

Duas chaves que já não abriam nada.

No fundo da gaveta, encontrou um cartão de visitas.

Papel grosso.

Um pouco amarelado nas bordas.

Na frente, um nome:

Eduardo Salles

Abaixo, um telefone fixo.

E uma frase escrita à mão:

“Quando quiser conversar sobre aquela ideia, me procure.”

Henrique ficou parado.

Lembrou-se imediatamente.

Quinze anos antes, trabalhava como auxiliar administrativo numa pequena empresa.

Salário apertado.

Ônibus lotado.

Almoço levado de casa.

Sonhava abrir um negócio próprio.

Tinha ideias demais e coragem de menos.

Eduardo era cliente da empresa.

Certa tarde, depois de ouvir Henrique explicar como reorganizaria o estoque e reduziria desperdícios, perguntou:

— Você já pensou em trabalhar por conta?

Henrique riu.

— Pensar é de graça.

— Ainda.

Conversaram por alguns minutos.

Antes de ir embora, Eduardo entregou o cartão.

— Me procure.

Naquela época, Henrique guardou o cartão no bolso.

Depois na carteira.

Depois numa gaveta.

Depois na vida.

Nunca ligou.

Primeiro porque achava que ainda não estava preparado.

Depois porque o trabalho apertou.

Depois veio o casamento.

A prestação do apartamento.

Os filhos.

As contas.

A pandemia.

Outros empregos.

Outras desculpas.

Quinze anos passaram com uma eficiência impressionante.

Sentado na beirada da cama, Henrique girou o cartão entre os dedos.

O telefone provavelmente nem existia mais.

Mesmo assim, pegou o celular.

Digitou o número.

Chamou.

Uma vez.

Duas.

Três.

Atenderam.

— Alô?

Henrique demorou um pouco.

— O senhor Eduardo Salles?

— Quem gostaria?

— Meu nome é Henrique. Trabalhei numa empresa de materiais de escritório muitos anos atrás.

Silêncio.

— Henrique… o rapaz do estoque?

Ele riu.

— Ainda lembra?

— Lembro de quem tinha boas ideias e nunca me telefonou.

Henrique olhou para o cartão.

— Demorei um pouco.

— Quinze anos é um pouco generoso.

Os dois riram.

Eduardo já estava aposentado.

A empresa que possuía havia sido vendida.

Morava em outra cidade.

A oportunidade que existira naquela época não existia mais.

Henrique sentiu uma pequena vergonha.

Talvez tivesse telefonado tarde demais.

Antes de desligar, porém, Eduardo perguntou:

— E aquela ideia? Você fez alguma coisa com ela?

— Não.

— Ainda acha boa?

Henrique olhou ao redor.

A gaveta continuava aberta.

A cama cheia de papéis.

A vida, mais ou menos do mesmo jeito.

— Acho.

— Então talvez você não tenha ligado para mim.

Talvez tenha ligado para ela.

Henrique ficou alguns segundos em silêncio.

Despediram-se.

Naquela noite, ele não abriu empresa nenhuma.

Não escreveu plano de negócios.

Não tomou nenhuma grande decisão.

Apenas colocou o velho cartão sobre a mesa, ao lado do computador.

Na manhã seguinte, antes de sair para o trabalho, escreveu numa folha:

“E se eu começasse agora?”

Dobrou o papel.

Guardou no bolso.

O cartão permaneceu sobre a mesa.

Desta vez, fora da gaveta.

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O Sapato Engraxado

Posted in Sem categoria on 7 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Seu Anselmo engraxava sapatos havia tanto tempo que dizia reconhecer uma profissão antes mesmo de olhar para o rosto do freguês.

Sapato preto, muito brilhante, chegando cedo?

— Advogado ou gerente de banco.

Bota coberta de poeira?

— Pedreiro, eletricista, alguém que trabalha onde a cidade ainda está sendo construída.

Sapato caro, mas com o salto gasto?

— Esse está trabalhando mais do que gostaria de admitir.

Tênis velho?

Aí ele não arriscava.

— Tênis engana demais.

Seu pequeno ponto ficava numa galeria do centro. Uma cadeira alta, uma caixa de madeira, escovas, panos e latinhas de graxa organizadas com um cuidado que não combinava com a bagunça do corredor.

Toda manhã passavam por ele centenas de pés.

Alguns apressados.

Outros cansados.

Poucos paravam.

Numa sexta-feira, apareceu um homem de terno impecável.

Relógio elegante.

Pasta de couro.

Sapatos tão bem cuidados que seu Anselmo pensou que nem precisavam de serviço.

O homem sentou.

— Capricha. Tenho uma reunião importante.

Enquanto trabalhava, o engraxate ouviu o cliente falar ao telefone.

— Não quero saber. Manda embora.

Silêncio.

— Se está doente, problema dele. Empresa não é instituição de caridade.

Desligou.

Seu Anselmo continuou passando a escova.

Não comentou nada.

Recebeu o pagamento.

O homem nem esperou o troco.

— Fica para você.

Saiu com os sapatos brilhando.

Pouco depois chegou outro freguês.

Calça simples.

Camisa desbotada.

Nos pés, um par de sapatos marrons castigados pelo tempo.

— Quanto fica?

Seu Anselmo disse o preço.

O homem contou algumas moedas.

Faltavam dois reais.

— Deixa para outro dia.

— Pode fazer assim mesmo?

— Senta aí.

Enquanto engraxava, uma senhora passou carregando duas sacolas pesadas.

Uma delas rasgou.

Laranjas rolaram pelo corredor.

O freguês levantou imediatamente.

Abaixou-se.

Recolheu uma por uma.

Depois pegou uma sacola vazia que carregava na mochila e entregou à senhora.

— Leve nesta. Aguenta mais.

— Mas e o senhor?

— Tenho outra em casa.

Voltou para a cadeira.

Seu Anselmo terminou o serviço.

O homem olhou para os próprios sapatos.

— Parece até outro par.

— Sapato é fácil — respondeu o engraxate. — Um pouco de graxa resolve.

O freguês riu e foi embora.

No fim da tarde, seu Anselmo guardava as escovas quando um menino que trabalhava numa loja vizinha perguntou:

— É verdade que o senhor descobre como a pessoa é olhando para o sapato?

Ele ficou pensando.

Durante muitos anos acreditara nisso.

Conhecia o executivo pelo couro.

O operário pela poeira.

O trabalhador cansado pela sola.

Mas naquele dia havia visto sapatos impecáveis levando embora um homem incapaz de oferecer compreensão.

E sapatos quase vencidos pelo uso pararem no meio do caminho para recolher laranjas de uma desconhecida.

Fechou a última lata de graxa.

— Não, menino.

— Então o sapato não conta nada?

Seu Anselmo sorriu.

— Conta por onde a pessoa andou.

Quem ela é, só dá para saber quando ela encontra alguém caído pelo caminho.

Apagou a luz da pequena banca e foi embora.

No corredor vazio, ainda permanecia uma laranja esquecida debaixo de um banco.

E talvez estivesse justamente ali a diferença que nenhuma graxa conseguiria esconder.

Sapatos podem revelar a estrada.

Nunca o tamanho de quem caminha dentro deles.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Anel que Tu me Destes

Posted in Sem categoria on 6 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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O anel era simples.

Prata antiga.

Sem pedras preciosas.

Por dentro, uma pequena inscrição já quase apagada pelo tempo:

“O anel que tu me destes…”

O restante da frase havia desaparecido.

Ninguém sabia quem o mandara gravar.

Nem para quem.

Tudo começou quando dona Cecília o encontrou sobre um banco da Praça Osório.

Esperou alguns minutos.

Olhou em volta.

Perguntou a quem passava.

Ninguém reclamou o objeto.

Levou-o até a administração da praça.

Passaram-se trinta dias.

Nenhum dono apareceu.

A funcionária devolveu o anel.

— Pela lei, agora pertence à senhora.

Cecília sorriu.

— Não gosto de usar anéis.

Guardou-o em uma gaveta.

Meses depois, resolveu presentear a neta no aniversário de dezoito anos.

— Não vale muito.

Mas talvez carregue uma boa história.

A jovem agradeceu.

Usou o anel durante algum tempo.

Até o dia em que terminou um namoro.

Ao olhar para a pequena inscrição incompleta, achou que aquilo parecia ironia.

Guardou-o novamente.

Anos mais tarde, durante uma mudança, encontrou a pequena caixa esquecida.

Decidiu vendê-la em um antiquário.

O dono examinou a peça.

— Curioso…

O valor não está na prata.

Está no mistério.

Dias depois, um professor de História apaixonou-se pelo objeto.

Comprou-o.

Não pela beleza.

Pela frase interrompida.

Mostrava o anel aos alunos.

— Vejam como uma história incompleta desperta mais perguntas do que muitas respostas.

Após sua morte, os filhos doaram parte dos objetos pessoais para um bazar beneficente.

O anel voltou a circular.

Uma atriz o comprou para usar em uma peça teatral.

Um ourives o restaurou.

Um colecionador quase o levou para outro país.

Mas desistiu na última hora.

Décadas se passaram.

O pequeno anel conheceu bolsos, cofres, vitrines, gavetas e dedos diferentes.

Foi símbolo de amor.

De saudade.

De superstição.

De sorte.

De simples decoração.

Cada dono inventava uma explicação.

Nenhuma igual à anterior.

Certo sábado, um menino entrou em um antiquário acompanhado do avô.

Enquanto observava objetos antigos, apontou para o anel.

— Quem foi que perdeu isso?

O vendedor sorriu.

— Talvez ninguém.

Talvez todo mundo.

O avô pegou a peça.

Leu lentamente a inscrição.

Ficou alguns segundos em silêncio.

Depois a devolveu.

— Engraçado…

O anel nunca mudou.

Quem mudou foram as pessoas que passaram por ele.

Saíram da loja de mãos dadas.

O anel permaneceu na vitrine.

Esperando o próximo dono.

Ou melhor…

A próxima história.

Porque os objetos raramente transformam as pessoas.

São as pessoas que depositam neles seus medos, afetos, esperanças e arrependimentos.

Talvez por isso uma sociedade não seja construída apenas por leis, documentos ou papéis.

Ela é feita de lembranças compartilhadas, gestos silenciosos e histórias que passam de mão em mão.

Assim como aquele velho anel.

Que nunca encontrou definitivamente seu dono.

Mas encontrou, ao longo do caminho, um pouco da humanidade de cada um que o segurou.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)