O Almoço de Domingo

Posted in Coleção - Crônicas on 14 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Na família de Lúcia, almoço de domingo nunca começava ao meio-dia.

Meio-dia era apenas o horário que ela anunciava no grupo da família, numa tentativa otimista de fazer quinze pessoas chegarem antes de a comida esfriar. Às doze e vinte apareciam os primeiros. Às doze e quarenta chegavam os que moravam mais perto. E, por volta de uma da tarde, surgia alguém dizendo que o trânsito estava impossível, embora tivesse saído de casa vinte minutos antes.

Naquele domingo, Lúcia começou cedo. Às nove da manhã já havia uma panela grande no fogão, uma assadeira no forno e três potes ocupando a bancada. A receita principal era da mãe, dona Alzira, que aos oitenta anos continuava fiscalizando o preparo da comida mesmo sem precisar levantar da cadeira.

— Você colocou louro?

— Coloquei, mãe.

— Quantas folhas?

— Duas.

— Sua avó colocava três.

Lúcia continuou mexendo a panela.

— Minha avó cozinhava para onze filhos.

— Mas o tempero era bom.

Não havia argumento capaz de vencer uma receita familiar aperfeiçoada por pessoas que já não estavam presentes para confirmar nada.

O primeiro a chegar foi Marcelo, irmão de Lúcia, carregando refrigerantes e uma sobremesa comprada.

Dona Alzira olhou para a embalagem.

— Comprou?

— Comprei.

— Eu percebi.

— Como?

— Está bonita demais.

Marcelo colocou a sobremesa na geladeira sem responder.

Logo chegaram os netos. Vinícius entrou olhando para o celular. Camila apareceu com o namorado, que enfrentaria pela primeira vez o exame silencioso da família inteira. Duas crianças correram diretamente para o quintal e, antes de cumprimentar os adultos, já discutiam por causa de uma bola.

Às doze e cinquenta, quase todos estavam ali.

A mesa precisou ser aumentada com outra menor, ligeiramente mais baixa, criando um degrau entre os pratos. As cadeiras não combinavam. Faltaram garfos. Alguém recebeu um copo de plástico porque os de vidro haviam acabado.

— Agora podemos comer? — perguntou Marcelo.

Lúcia olhou para a porta.

— Seu irmão ainda não chegou.

A mesa inteira protestou.

— Ele sempre atrasa!

— A comida vai esfriar.

— Liga para ele.

— Eu falei meio-dia.

Dona Alzira resolveu a questão:

— Quem chega tarde esquenta no micro-ondas.

A autoridade dos oitenta anos encerrou o debate.

Começaram.

Nos primeiros minutos, ouviam-se apenas talheres, pedidos para passar a travessa e elogios à comida. Depois vieram as conversas paralelas.

Marcelo reclamou do preço do supermercado.

Camila comentou que estava procurando apartamento.

Vinícius disse que pretendia trocar de emprego.

Uma tia perguntou quando alguém pretendia casar.

Três pessoas fingiram não ouvir.

O namorado de Camila permaneceu concentrado no prato.

— Está gostando? — perguntou dona Alzira.

— Muito.

— Pode falar a verdade.

— Estou falando.

Ela apontou para a panela.

— Então repita.

Ele repetiu.

Foi aprovado provisoriamente.

A tranquilidade durou até Marcelo comentar que os jovens não sabiam economizar.

Vinícius largou o garfo.

— Lá vem.

— Estou falando sério. Na nossa idade, a gente juntava dinheiro.

— Na sua idade, apartamento custava quanto?

— Não interessa.

— Então interessa bastante.

Camila entrou na conversa. Uma tia defendeu Marcelo. Outro sobrinho começou a fazer contas no celular. Em poucos minutos, o almoço havia se transformado numa conferência econômica sem qualquer participante qualificado.

Dona Alzira continuou comendo.

Lúcia tentou mudar de assunto.

— Alguém quer mais arroz?

Ninguém ouviu.

— Na minha época… — começou Marcelo.

— Pronto — disse Vinícius. — Chegamos à “minha época”.

— Qual o problema da minha época?

— Nenhum. Só não dá para morar nela.

Houve um segundo de silêncio.

Marcelo tentou segurar o riso.

Não conseguiu.

Vinícius também riu.

A discussão morreu sem vencedor, como morrem muitas discussões familiares quando alguém percebe que a própria frase ficou melhor do que o argumento.

Foi então que o irmão atrasado apareceu.

Uma hora e vinte minutos depois do combinado.

Entrou carregando uma tigela.

— Trouxe maionese.

Lúcia olhou para ele.

— Você perdeu metade do almoço.

— Mas trouxe maionese.

— Isso não é justificativa.

— É contribuição.

Recebeu vaias e procurou um lugar para sentar.

Depois da comida vieram as fotografias.

Alguém encontrou no celular uma imagem antiga de dona Alzira jovem, ao lado do marido, numa praia.

Os netos se aproximaram.

— Vó, você usava esse cabelo?

— Usava.

— E o vô tinha bigode?

— Infelizmente.

Todos riram.

As fotografias seguintes produziram descobertas ainda mais perigosas: Marcelo de cabelo comprido, Lúcia com uma calça que jurou jamais ter possuído e uma tia usando óculos enormes.

Os mais jovens começaram a fotografar as fotografias.

— Para que vocês querem isso? — perguntou Marcelo.

— Para guardar.

— Mas está aqui no álbum.

— O álbum fica aqui.

— E precisa levar tudo no telefone?

Vinícius mostrou a fotografia do tio adolescente.

— Principalmente esta.

— Apaga.

— Agora ela pertence à história.

No meio da tarde, a mesa ainda estava cheia de pratos, xícaras, potes abertos e pedaços de sobremesa. As crianças tinham desaparecido para o quintal. Alguns adultos conversavam na cozinha. Outros já discutiam quem levaria o que sobrou.

Camila ajudava a avó a guardar o velho álbum quando encontrou uma folha dobrada entre duas páginas.

Era uma receita escrita à mão.

— Vó, é sua?

Dona Alzira colocou os óculos.

— Não. Era da minha mãe.

Lúcia aproximou-se.

— A receita do molho?

— Acho que sim.

As três começaram a ler.

No meio das instruções havia uma anotação:

“Duas folhas de louro.”

Lúcia olhou para a mãe.

Dona Alzira leu novamente.

— Deve estar errado.

— A senhora disse três.

— Sua avó devia ter mudado depois.

— Está escrito com a letra dela.

— Então ela esqueceu de corrigir.

Marcelo ouviu da sala:

— Mãe perdeu para um papel!

Dona Alzira fechou o álbum.

— No próximo domingo eu faço.

— Com quantas folhas? — perguntou Lúcia.

Ela pensou por alguns segundos.

— Três.

Ninguém discutiu.

Quando a tarde terminou, foram embora aos poucos. Levaram potes com comida, pedaços de sobremesa, fotografias no celular e assuntos que provavelmente voltariam no domingo seguinte.

Lúcia ficou na cozinha organizando a louça.

Sobre a mesa, encontrou a receita antiga.

Leu outra vez.

Duas folhas.

Pegou uma caneta e escreveu discretamente ao lado:

“A mãe insiste em três.”

Guardou a receita no álbum e colocou-o novamente no armário.

No domingo seguinte, certamente haveria outra discussão.

Talvez sobre dinheiro.

Talvez sobre casamento.

Talvez sobre política, futebol ou o horário combinado.

Quanto ao louro, esse assunto já parecia destinado a atravessar pelo menos mais uma geração.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Enfermeira que Parou o Tempo

Posted in Coleção - Crônicas on 13 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Às sete e vinte da manhã, Curitiba parecia ter colocado todos os carros na rua ao mesmo tempo.

A chuva caía pesada, o frio embaçava os vidros e os limpadores de para-brisa trabalhavam sem descanso. Na avenida, uma fila de veículos avançava alguns metros e parava novamente. Buzinas surgiam de todos os lados, embora ninguém soubesse exatamente para quem estavam buzinando. Talvez para o trânsito. Talvez para a chuva. Talvez porque algumas pessoas ainda acreditassem que uma buzina bem apertada pudesse abrir caminho entre quarenta carros.

Renata estava presa no meio daquela confusão.

Enfermeira havia doze anos, começaria o plantão às sete e meia e já sabia que não chegaria no horário. O celular, preso ao suporte do painel, marcava 7h23.

Ligou para uma colega pelo viva-voz.

— Paula, avisa que estou chegando. A avenida travou.

— Está tudo parado aqui também. Vem com cuidado.

— Cuidado eu tenho. Quem não tem é estrada.

Desligou.

O trânsito avançou cinco metros.

Parou.

Renata apoiou a cabeça no encosto e respirou fundo. À frente, um ônibus ocupava a faixa da direita. Alguns passageiros limpavam o vidro embaçado com as mãos para enxergar a rua.

Às 7h26, o ônibus começou a piscar o alerta.

O motorista abriu a porta, desceu sob a chuva e correu para o meio da avenida. Levantou os braços para os carros e gritou alguma coisa que ninguém conseguia ouvir.

Um motorista baixou o vidro.

— Que aconteceu?

— Tem alguém da saúde aí? Enfermeiro, médico, socorrista? Uma passageira está passando mal!

Renata abriu a porta antes de pensar no horário.

— Sou enfermeira!

Pegou a bolsa, atravessou entre os carros e correu até o ônibus.

Lá dentro, encontrou uma jovem grávida deitada sobre dois bancos. Uma passageira segurava sua mão, enquanto outra tentava acalmá-la. A bolsa havia rompido poucos minutos antes, e as contrações estavam muito próximas.

— Meu nome é Renata. Sou enfermeira. Como você se chama?

— Juliana.

— De quantas semanas?

— Trinta e nove.

Outra contração veio antes que ela terminasse de responder.

Renata avaliou rapidamente a situação.

— Chamaram o socorro?

O motorista mostrou o telefone.

— Já. Disseram que estão vindo, mas com esse trânsito…

Renata olhou pela janela.

A ambulância poderia estar a cinco quadras ou a cinco quilômetros. Naquela manhã, dava quase no mesmo.

— Juliana, olha para mim. Vamos respirar juntas.

A jovem apertou sua mão.

— Meu marido está trabalhando. Eu estava indo para a maternidade encontrar minha mãe. Achei que dava tempo.

— Bebê não costuma consultar itinerário de ônibus.

Juliana riu por menos de um segundo.

Depois gemeu novamente.

Do lado de fora, alguma coisa começou a acontecer.

O motorista de um caminhão percebeu a emergência e atravessou o veículo para bloquear parcialmente uma faixa. Um motociclista foi até o cruzamento avisar os outros condutores. Alguém desceu de um carro com um guarda-chuva e ficou protegendo a porta do ônibus.

As buzinas diminuíram.

Dentro do coletivo, os passageiros também encontraram funções sem que ninguém organizasse nada. Uma senhora ofereceu uma manta. Um rapaz entregou uma garrafa de água. Outra passageira telefonou para a mãe de Juliana.

— Ela quer falar com você.

— Agora não consigo falar nem comigo — respondeu a gestante.

Renata sorriu.

— Então deixa sua mãe esperar um pouquinho.

O trabalho de parto avançava depressa demais.

Renata percebeu que talvez não houvesse maternidade antes do nascimento.

Pediu espaço.

Orientou o motorista.

Organizou o que estava disponível.

O ônibus, que dez minutos antes levava quarenta desconhecidos preocupados apenas em chegar aos próprios destinos, tornou-se uma improvisada sala de espera onde ninguém perguntava mais que horas eram.

Lá fora, um homem de terno continuava parado junto ao carro. Tinha uma reunião marcada para as oito, mas agora segurava o guarda-chuva sobre a porta do ônibus.

O motociclista voltou correndo.

— A ambulância está vindo! Conseguiram abrir caminho!

Uma sirene apareceu ao longe.

Juliana ouviu.

— Está chegando?

Renata não sabia se ela perguntava pela ambulância ou pelo bebê.

— Está.

A resposta servia para os dois.

Quando os socorristas entraram no ônibus, encontraram Renata ajoelhada ao lado da gestante, ainda segurando sua mão.

A transferência foi rápida.

Os carros abriram espaço como puderam. O motorista do ônibus permaneceu na rua orientando o trânsito enquanto a maca era levada até a ambulância.

Antes de fecharem a porta, Juliana chamou:

— Renata!

Ela se aproximou.

— Obrigada.

— Depois você me conta quem chegou primeiro, você ou o bebê.

A porta fechou.

A sirene desapareceu pela avenida.

Renata voltou caminhando para o carro. Estava com os cabelos molhados, a barra da calça encharcada e as mãos geladas.

O homem que segurava o guarda-chuva perguntou:

— Deu tudo certo?

— Agora ela está com a equipe.

— Ainda bem.

Ele olhou para o relógio e fez uma careta.

— Perdi minha reunião.

Renata mostrou o próprio celular.

7h58.

— Eu perdi o começo do plantão.

O homem guardou o relógio debaixo da manga.

— Acho que hoje temos boas desculpas.

Os dois riram.

Renata entrou no carro.

O trânsito começou a andar lentamente. Um veículo de cada vez, depois dois, depois a avenida inteira retomou sua pressa habitual. As buzinas voltaram, os motociclistas procuraram espaço e os relógios continuaram cobrando compromissos como se nada tivesse acontecido.

Às oito e dezessete, Renata entrou no hospital.

Paula a encontrou no corredor.

— Pensei que você tivesse sido engolida pelo trânsito.

— Quase.

— O que aconteceu?

Renata começou a explicar, mas seu celular tocou.

Número desconhecido.

Atendeu.

Era o motorista do ônibus.

— Enfermeira, a moça pediu para avisar. O bebê nasceu na maternidade.

Renata encostou-se à parede.

— Está tudo bem?

— Os dois estão bem. Menina. Três quilos e duzentos.

— Que bom.

Houve uma pequena pausa.

— Ela também mandou dizer que o nome é Laura.

Renata agradeceu e desligou.

Paula esperava a continuação.

— E então?

Renata guardou o celular no bolso.

— Nasceu uma menina.

— No ônibus?

— Não. A Laura teve mais educação que o trânsito. Esperou chegar ao hospital.

Paula riu e as duas seguiram pelo corredor.

Do lado de fora, a chuva continuava batendo nas janelas. Em algum ponto da cidade, o ônibus provavelmente já retomara sua linha, recolhendo novos passageiros que não saberiam o que havia acontecido ali pouco antes.

Renata conferiu o relógio da enfermaria e iniciou o plantão.

O ponteiro não havia parado um único segundo naquela manhã.

Ainda assim, durante algum tempo, numa avenida cheia de gente atrasada, pareceu que ninguém se importou com ele.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Restaurante da Rodovia

Posted in Coleção - Crônicas on 12 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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O restaurante ficava no quilômetro 218, depois de uma curva comprida e antes de um posto de combustível. Não tinha nome luminoso, fachada moderna nem qualquer preocupação em parecer bonito nas fotografias. Uma placa amarela anunciava COMIDA CASEIRA – ABERTO 24 HORAS, e isso bastava para quem chegava com fome.

Às onze e meia, o estacionamento começou a encher.

Primeiro vieram dois caminhões. Depois uma caminhonete coberta de barro, três carros de passeio, uma van e um ônibus que despejou quase quarenta passageiros de uma só vez.

Em poucos minutos, o restaurante parecia uma pequena cidade.

Marta trabalhava no caixa e reconhecia muitos clientes sem saber o nome de quase nenhum. Havia o caminhoneiro do boné azul, que sempre pedia café sem açúcar; a mulher da van branca, que comprava duas garrafas de água e nunca almoçava; o vendedor de ferramentas, que reclamava do preço da comida antes de repetir o prato; e um senhor de barba grisalha que aparecia duas ou três vezes por mês e perguntava:

— Hoje tem pudim?

Se não tivesse, parecia considerar aquilo uma falha grave na administração do estabelecimento.

Naquela terça-feira tinha.

— Então o dia começou direito — declarou ele.

Sentou-se numa mesa grande, já ocupada por um caminhoneiro e um casal que viajava com uma menina de aproximadamente oito anos.

Ali ninguém perguntava se podia sentar.

Se havia cadeira vazia, havia lugar.

O caminhoneiro cortava um pedaço de carne quando a menina apontou pela janela.

— Aquele caminhão vermelho é seu?

— É.

— Você dorme lá dentro?

— Às vezes.

— Tem televisão?

— Tem.

— Banheiro?

— Aí você já está querendo transformar em apartamento.

Os pais riram.

A menina continuou:

— E quando você sente sono?

— Eu paro.

— Meu pai não para.

O homem quase engasgou.

— Filha!

O caminhoneiro tomou um gole de refrigerante e olhou para o pai.

— Escuta a fiscalização.

Na mesa ao lado, dois trabalhadores de uma empresa de manutenção discutiam sobre qual deles havia esquecido uma caixa de ferramentas no último serviço. Nenhum aceitava a culpa, mas ambos concordavam que o encarregado descobriria antes do fim do dia.

Perto da janela, uma mulher falava ao telefone.

— Já disse que vou chegar. Não adianta perguntar de quinze em quinze minutos porque isso não faz o carro andar mais rápido.

Desligou, respirou fundo e pediu outro café.

O restaurante tinha esse tipo de intimidade involuntária. As mesas ficavam próximas demais, as conversas atravessavam corredores e, por alguns minutos, desconhecidos conheciam problemas que talvez nem os parentes soubessem.

Ao meio-dia começou a chover.

A água bateu forte no telhado metálico, e vários clientes que já haviam terminado o almoço desistiram de sair.

Marta percebeu imediatamente.

— Chuva aumenta o consumo de café.

O cozinheiro respondeu da porta:

— Então torce para chover até amanhã.

— Você que não limpa o banheiro.

Ele voltou para a cozinha sem discutir.

Um homem entrou correndo, protegendo a cabeça com um jornal. Estava encharcado dos joelhos para baixo e procurou uma mesa.

Não havia nenhuma.

O caminhoneiro do boné azul puxou uma cadeira.

— Cabe aqui.

O recém-chegado agradeceu e sentou.

Era representante comercial. Tinha saído de casa antes das seis e ainda pretendia visitar três clientes naquela tarde.

— Se essa chuva continuar, visito um e invento desculpa para dois.

— Planejamento estratégico — comentou o caminhoneiro.

— Meu chefe chama de baixa produtividade.

Não perguntaram os nomes um do outro.

Conversaram sobre o trânsito, os pedágios, um trecho da rodovia em obras e o café, que o representante considerava forte demais.

— Café de estrada tem que acordar até quem não está bebendo — disse o caminhoneiro.

Quando a chuva diminuiu, começaram as despedidas.

Na verdade, quase não havia despedidas.

As pessoas simplesmente levantavam.

Pagavam.

Usavam o banheiro.

Compravam água.

Voltavam para seus veículos.

A menina da mesa grande passou pelo caminhoneiro e acenou.

— Tchau, moço do caminhão vermelho!

— Tchau, fiscal!

O pai riu e conduziu a família até o carro.

O representante comercial conferiu o celular.

— Tenho quarenta e sete mensagens.

— Quantas importantes?

— Se eu soubesse, não precisava abrir as quarenta e sete.

Pegou a pasta e saiu.

O caminhoneiro terminou o café, pagou no caixa e recebeu o troco de Marta.

— Até a próxima.

— Se a estrada deixar.

— Ela sempre deixa. Só não avisa quando.

Pouco depois, o caminhão vermelho desapareceu na rodovia.

O carro da família seguiu para o lado contrário.

A van branca partiu.

O representante comercial tomou outro rumo.

Nenhum deles sabia o nome dos outros.

Às duas da tarde, o restaurante estava quase vazio.

Marta recolheu uma xícara esquecida e encontrou debaixo da mesa um desenho feito com lápis de cor no verso de um guardanapo de papel.

Era um caminhão vermelho enorme, com seis rodas de tamanhos diferentes. Na cabine, um homem de boné aparecia sorrindo.

Embaixo, a menina havia escrito:

BOA VIAGEM, MOÇO.

Marta colocou o desenho ao lado do caixa.

Talvez o caminhoneiro voltasse na semana seguinte.

Talvez dali a um mês.

Talvez nunca.

Às três e vinte, outro caminhão entrou no estacionamento.

Um homem que Marta nunca tinha visto abriu a porta e perguntou:

— Ainda tem almoço?

— Tem.

— E café?

— Desde que abriram a rodovia.

Ele riu, entrou e escolheu uma mesa.

Do lado de fora, os pneus continuavam riscando o asfalto molhado.

Dentro do restaurante, uma cadeira que havia ficado vazia acabava de receber outra história.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

A Carteira do Fundo

Posted in Coleção - Crônicas on 11 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Na sala do segundo ano havia trinta e quatro carteiras, mas uma delas parecia valer por duas.

Era a última da fileira junto à janela, no fundo da sala.

Ninguém sabia quando começara a disputa. Talvez no primeiro mês de aula, quando descobriram que dali era possível enxergar o quadro inteiro, a porta, os colegas e ainda uma parte da quadra esportiva. Talvez fosse simplesmente porque adolescente gosta de acreditar que alguns metros de distância da mesa do professor constituem uma forma legítima de independência.

Na segunda-feira, Vinícius chegou quinze minutos antes do sinal e colocou a mochila sobre ela.

— Reservei.

Rafael entrou logo depois.

— Desde quando carteira tem reserva?

— Desde que eu cheguei primeiro.

— Então tira a mochila que vou desapropriar.

A discussão terminou quando Camila sentou no lugar enquanto os dois argumentavam.

— Pronto. “Reforma agrária” concluída!

Os três riram, e Vinícius acabou ocupando a carteira ao lado.

Aquele canto tinha suas vantagens. Ali circulavam bilhetes, comentários sobre a aula, desenhos feitos no verso das folhas e previsões absolutamente infundadas sobre o conteúdo da prova. Também era de lá que surgiam perguntas como:

— Professor, isso vale nota?

A pergunta geralmente aparecia antes mesmo de alguém saber o que deveria fazer.

Mas a carteira do fundo tinha uma fama maior do que merecia.

Os professores novos olhavam para ela com alguma prevenção. Quando surgia conversa durante a explicação, o primeiro olhar quase sempre ia naquela direção, mesmo que o barulho tivesse começado na primeira fileira.

Certa manhã, alguém derrubou uma régua.

O professor interrompeu a explicação e olhou imediatamente para Vinícius.

— Nem fui eu.

— Não falei que foi.

— Mas olhou com acusação.

A turma riu.

— Meu olhar ainda não vale como prova.

— Ainda bem.

Era esse tipo de conversa que mantinha a reputação do lugar.

No começo de agosto chegou um aluno novo.

Chamava-se André.

Entrou acompanhado da pedagoga, carregando uma mochila preta e aquele desconforto facilmente reconhecível de quem chega quando todos os grupos já parecem formados.

— Pessoal, este é o André. Veio de outra escola.

Alguns disseram “oi”. Outros apenas levantaram a cabeça.

A pedagoga saiu.

Restava uma carteira vazia.

Justamente a do fundo.

André caminhou até ela e sentou.

Vinícius, que naquele dia havia chegado atrasado, parou ao lado.

— Essa carteira…

André levantou imediatamente.

— Foi mal. Não sabia que tinha lugar marcado.

Vinícius percebeu que ele estava realmente disposto a sair.

— Tem não. Eu ia dizer que essa carteira balança. Coloca um papel dobrado no pé esquerdo.

André sentou novamente.

No intervalo, porém, não saiu.

Enquanto a turma corria para o pátio, permaneceu mexendo no celular.

Camila percebeu.

— Você não vai comer?

— Não estou com fome.

— A cantina vende uma coxinha capaz de mudar essa opinião.

Ele sorriu pela primeira vez.

Foi com eles.

Nos dias seguintes, a última carteira perdeu temporariamente sua disputa tradicional. Ninguém comentou. André continuou ocupando o lugar, e Vinícius passou para a fileira ao lado.

Foi assim que começaram a descobrir algumas coisas sobre ele.

Desenhava muito bem.

Era péssimo no vôlei.

Sabia tocar violão.

Tinha dificuldade em matemática e uma habilidade quase profissional para imitar a voz do locutor que anunciava os avisos da escola.

Também descobriram por que falava tão pouco.

A família havia mudado de cidade depois que o pai perdera o emprego. André deixara amigos, time de futsal e uma garota com quem estava começando a namorar.

— Ela terminou? — perguntou Rafael.

— Não.

— Então vocês estão namorando?

— Também não sei.

— Relacionamento moderno.

— Mais ou menos.

— Complicado?

— Bastante.

— Então é moderno.

A conversa terminou em risadas.

Algumas semanas depois, durante uma prova de matemática, André ficou olhando para a folha por vários minutos.

Vinícius percebeu seu nervosismo.

Não podia ajudar.

A professora caminhava entre as fileiras.

André apagava contas, recomeçava, mordia a ponta da caneta e olhava para o relógio.

Quando entregou a prova, saiu sem conversar com ninguém.

No dia seguinte faltou.

Também não apareceu no outro.

Na sexta-feira, Camila mandou uma mensagem.

A resposta demorou:

“Acho que vou voltar para minha antiga cidade.”

Na segunda-feira, a carteira permaneceu vazia.

Ninguém colocou mochila sobre ela.

Na terça, também.

Vinícius chegou cedo, olhou para o lugar e escolheu outra carteira.

— Não vai sentar lá? — perguntou Rafael.

— Hoje não.

Na quarta-feira, poucos minutos antes da aula, André apareceu na porta.

Entrou devagar.

— Achei que você tinha ido embora — disse Camila.

— Quase.

— E aí?

Ele ajeitou a mochila no ombro.

— Minha mãe conseguiu trabalho aqui.

Rafael apontou para o fundo.

— Seu imóvel está disponível.

André caminhou até a última carteira.

Havia um papel dobrado sobre o assento.

Abriu.

ALUGUEL ATRASADO: 3 COXINHAS.

Ele começou a rir.

Sentou-se e colocou o papel sob o pé esquerdo da carteira, exatamente onde Vinícius havia ensinado no primeiro dia.

Parou de balançar.

A aula começou.

Alguns minutos depois, o professor fez uma pergunta difícil. Ninguém respondeu.

André levantou a mão.

Acertou.

Vinícius virou para trás.

— Olha ele…

André deu de ombros.

— Estudei.

No intervalo, os quatro saíram juntos.

A carteira ficou vazia por vinte minutos, com alguns riscos de caneta, um chiclete antigo grudado por baixo e o papel das três coxinhas sustentando um dos pés.

No ano seguinte, outra turma ocuparia aquela sala.

Alguém certamente correria para o fundo e colocaria a mochila sobre ela antes dos demais.

Talvez dissesse:

— Reservei.

E a disputa começaria outra vez, sem que ninguém soubesse quem havia sentado ali antes ou por que um pedaço de papel dobrado continuava debaixo do pé esquerdo.

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A Chave Reserva

Posted in Coleção - Crônicas on 10 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

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Quando Roberto entregou a chave reserva de casa ao vizinho, não houve cerimônia.

— Guarda para mim? Se algum dia eu me trancar para fora, pelo menos não preciso chamar chaveiro.

Paulo recebeu a chave, colocou numa pequena caixa de madeira que ficava sobre o armário da cozinha e respondeu:

— Pode deixar.

Moravam lado a lado havia quase nove anos. Não eram amigos de frequentar a casa um do outro, mas compartilhavam aquela intimidade típica de vizinhos antigos: recolhiam encomendas, emprestavam ferramentas, avisavam quando algum portão ficava aberto e sabiam reconhecer, pelo barulho da garagem, quem estava chegando.

A chave permaneceu na caixa durante dois anos sem servir para nada.

Até que Roberto decidiu viajar com a esposa e os dois filhos para visitar parentes no interior. Antes de sair, pediu ao vizinho que desse uma olhada na casa.

— Se o alarme disparar ou acontecer alguma coisa, você entra.

— Vai tranquilo.

A família partiu numa sexta-feira à tarde.

No sábado, Paulo regou duas plantas da varanda. No domingo, recolheu um pacote que o entregador havia deixado junto ao portão. Na segunda-feira, nem precisou atravessar a calçada.

Roberto voltou na terça, pouco depois das oito da noite.

Descarregou as malas, estacionou o carro e encontrou tudo exatamente como deixara.

Na manhã seguinte, foi agradecer.

— Deu tudo certo?

— Tudo. Só chegou uma encomenda. Está aqui.

Paulo entregou o pacote.

Roberto agradeceu e, antes de voltar para casa, lembrou-se da chave.

— Vou pegar a reserva também. Preciso fazer uma cópia para meu filho.

Paulo abriu a caixa de madeira.

Mexeu entre chaves antigas, pilhas, moedas e dois controles remotos.

A chave não estava.

— Estranho.

Procurou novamente.

Abriu uma gaveta.

Depois outra.

Nada.

— Você usou?

— Não.

— Tem certeza?

Paulo parou de procurar.

— Tenho.

Roberto tentou parecer despreocupado.

— Deve estar por aí.

Voltou para casa, mas a frase ficou acompanhando seus pensamentos.

Naquela noite, comentou com a esposa.

— A chave sumiu.

— E daí?

— Como “e daí”? É a chave da nossa casa.

— Paulo mora do nosso lado há nove anos.

— Justamente. Se alguém entrasse aqui, saberia nossos horários.

Ela olhou para ele por alguns segundos.

— Você está ouvindo o que está dizendo?

Roberto estava.

E não gostou.

Nos dias seguintes, pequenos acontecimentos começaram a ganhar importância demais.

Uma janela da cozinha que ele não lembrava ter deixado aberta.

Uma cadeira ligeiramente fora do lugar.

A porta do escritório encostada.

Até uma gaveta mal fechada virou motivo para conferência.

Nada havia desaparecido.

Mesmo assim, Roberto chamou um chaveiro.

Trocou o segredo da fechadura.

Quando Paulo percebeu o serviço, perguntou:

— Problema na porta?

— A fechadura estava agarrando.

Foi uma resposta rápida demais.

Paulo apenas concordou.

Depois disso, alguma coisa mudou entre os dois.

As conversas no portão ficaram menores. As ferramentas deixaram de atravessar a calçada. Quando uma encomenda chegou à casa de Roberto e ninguém atendeu, Paulo não a recolheu como fazia antes.

O pacote passou a tarde inteira junto ao portão.

Duas semanas depois, Roberto decidiu limpar o carro.

Retirou os tapetes, aspirou os bancos e abriu o compartimento sob o porta-malas para verificar o estepe.

Ao levantar a tampa, ouviu um pequeno objeto metálico cair.

Era a chave.

Ficou olhando para ela.

Lembrou-se então da manhã da viagem. Antes de fechar o porta-malas, havia pegado a chave reserva com Paulo porque imaginou que seria melhor levá-la. Colocara no bolso lateral da mala e, enquanto organizava a bagagem, provavelmente a deixara cair.

Sentou-se na beirada do porta-malas.

Durante alguns minutos, permaneceu ali com a chave na mão.

Naquela tarde, atravessou a calçada.

Paulo estava lavando a garagem.

Roberto abriu a mão.

— Achei.

O vizinho reconheceu imediatamente.

— Onde estava?

— No carro.

Paulo desligou a mangueira.

Roberto tentou explicar.

— Eu devia ter lembrado que peguei antes da viagem. Depois achei que…

Parou.

Paulo esperou.

— Eu troquei a fechadura.

— Eu percebi.

Não houve discussão.

Talvez tivesse sido mais fácil se houvesse.

Roberto estendeu a chave.

— Quer guardar novamente?

Paulo olhou para ela e depois para o vizinho.

— Melhor você ficar.

Roberto fechou a mão.

Na manhã seguinte, encontrou uma encomenda sobre o muro. Paulo devia tê-la recebido enquanto ele estava fora.

Não havia bilhete.

Roberto levou o pacote para dentro e, antes de fechar o portão, olhou para a casa ao lado.

A chave reserva agora estava novamente em sua gaveta.

Dessa vez, ele sabia exatamente onde.

O que não sabia era quanto tempo levaria para encontrar o resto.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)