A Dança das Safenas

Posted in Coleção - Crônicas on 19 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)


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Augusto conhecia bem a burocracia do serviço público. Havia passado boa parte da vida profissional entre salas de aula, reuniões, formulários, sistemas que pediam a mesma informação em campos diferentes e prazos que pareciam sempre mais importantes para quem cobrava do que para quem precisava cumpri-los.

O que ele não conhecia era a sensação de deixar de ser funcionário por alguns dias e virar paciente.

Tudo começou com o desconforto nas pernas. Primeiro, um peso ao final do expediente. Depois vieram o inchaço, o formigamento e aquela pulsação incômoda que aparecia principalmente nos dias em que permanecia muitas horas em pé. Augusto adiou a consulta enquanto pôde. Professor experiente, tinha adquirido o péssimo hábito de considerar o próprio corpo um funcionário disciplinado, desses que nunca faltam e não precisam de manutenção.

Até que o corpo apresentou requerimento de urgência.

Vieram consultas, exames, ultrassonografias, avaliações e termos médicos que Augusto pesquisava no celular assim que saía do consultório. O diagnóstico indicou comprometimento importante da circulação venosa e necessidade de tratamento cirúrgico vascular.

Na consulta seguinte, perguntou três vezes ao médico:

— É realmente necessário operar?

Na terceira, o médico tirou os olhos do computador.

— Augusto, eu poderia responder de outra maneira, mas a resposta continuaria sendo sim.

A cirurgia foi marcada.

A partir daquele momento, a perna deixou de ser sua única preocupação.

Augusto pensava nas aulas. Nos projetos em andamento. Nos alunos. Nos compromissos assumidos. Pensava também na licença médica e numa palavra que começou a incomodá-lo mais do que deveria: falta.

Durante décadas, faltar significara não comparecer.

Agora significava estar impossibilitado.

A diferença era enorme para ele.

Para alguns sistemas administrativos, nem tanto.

Nos dias anteriores à internação, organizou materiais, enviou orientações, deixou atividades preparadas e respondeu mensagens profissionais até tarde da noite. Tinha a estranha impressão de precisar provar antecipadamente que uma cirurgia não significava abandono do trabalho.

A operação aconteceu numa quinta-feira.

No centro cirúrgico, sob luzes fortes e vozes técnicas, Augusto deixou de ser professor, servidor, coordenador ou qualquer outro título que carregasse do lado de fora.

Era apenas Augusto.

Um homem deitado numa maca tentando parecer mais tranquilo do que estava.

Quando acordou, a primeira sensação foi de peso. A segunda, de alívio.

A terceira foi procurar o celular.

A esposa percebeu.

— Nem pense.

— Só quero ver as mensagens.

— Você acabou de sair de uma cirurgia.

— Justamente.

Ela guardou o aparelho.

Horas depois, ele conseguiu recuperá-lo.

Havia mensagens.

Banco oferecendo crédito.

Operadora anunciando promoção.

Grupo de compras.

Propaganda.

Avisos automáticos.

Do trabalho, quase nada.

Augusto rolou a tela novamente, como se alguma mensagem pudesse aparecer porque ele procurara melhor.

Não apareceu.

Disse a si mesmo que as pessoas estavam ocupadas. Afinal, todos tinham problemas. Talvez nem soubessem da cirurgia. Talvez soubessem e imaginassem que ele precisasse descansar.

Guardou o telefone.

No dia seguinte, tornou a olhar.

Nada.

Dois dias depois, chegou uma mensagem.

Era do setor administrativo.

Augusto abriu imediatamente.

Não perguntava como ele estava.

Solicitava regularização das ausências no sistema.

Leu duas vezes.

Respondeu informando que estava em recuperação cirúrgica e que possuía atestado médico.

A resposta veio algum tempo depois:

— Precisa lançar corretamente para evitar faltas.

Augusto apoiou o celular sobre a cama.

A perna doía menos naquele momento.

A mensagem, não.

Os dias seguintes foram mais difíceis do que imaginara. Caminhar exigia cuidado. Ficar muito tempo em pé provocava desconforto. O sono vinha aos pedaços. Às vezes sentia formigamento; em outras, uma pulsação que o fazia parar e observar a própria perna como se ela estivesse tentando dizer alguma coisa.

O médico recomendara repouso e acompanhamento.

Augusto obedeceu, embora se sentisse culpado por obedecer.

A situação administrativa, porém, complicou-se.

Houve mudança na equipe médica responsável pelo acompanhamento. Documentos precisaram ser apresentados novamente. Um formulário exigia informação complementar. Outro dependia de análise.

Até que recebeu a notícia:

Atestado indeferido.

Augusto permaneceu olhando para a tela.

A palavra parecia absurda.

A cirurgia acontecera.

Os pontos estavam ali.

A dor estava ali.

Os exames estavam ali.

A perna estava ali.

Mas, em algum lugar entre um documento e outro, sua recuperação havia encontrado dificuldade para existir administrativamente.

Telefonou.

Explicou.

Foi transferido.

Explicou novamente.

Recebeu outro número.

Ligou.

Contou a história pela terceira vez.

— O senhor precisa aguardar a análise.

— Mas enquanto aguardo aparecem faltas.

— Compreendo.

— E o que faço?

— Aguarda.

Augusto quase riu.

Havia passado a vida ensinando que as instituições eram feitas para organizar a sociedade. Naquele momento, descobria que às vezes elas conseguiam organizar muito bem a espera.

Os dias avançaram.

A ausência de mensagens dos colegas começou a incomodá-lo mais do que gostaria de admitir. Não esperava homenagens, flores ou discursos. Bastaria um “como você está?”.

Começou a pensar se havia passado tempo demais trabalhando e pouco tempo construindo relações. Depois achou injusto culpar a si mesmo. Em seguida, culpou os outros. Logo depois, sentiu vergonha de culpá-los.

O repouso dava tempo demais para pensar.

Numa madrugada, levantou-se para beber água. Caminhou lentamente pelo corredor, sentindo a perna pesada.

Parou diante do espelho.

Estava abatido.

Pensou na carreira. Pensou nas faltas lançadas. No atestado indeferido. Na recuperação mais lenta do que desejava. Na possibilidade de voltar ao trabalho e não conseguir permanecer em pé durante uma aula inteira.

Pela primeira vez desde a cirurgia, teve medo não apenas da saúde.

Teve medo de deixar de ser necessário.

Voltou para a cama sem beber a água.

Na manhã seguinte, o telefone tocou.

Número desconhecido.

Augusto quase não atendeu.

— Professor Augusto?

— Sim.

— Aqui é o Gabriel.

Demorou alguns segundos para reconhecer.

Gabriel havia sido seu aluno muitos anos antes.

— Gabriel? Quanto tempo!

— Fiquei sabendo que o senhor fez uma cirurgia.

Augusto sentou-se na cama.

— Fiz. Estou me recuperando.

— Minha filha estuda com um aluno seu. Ele comentou em casa que o professor estava afastado. Perguntei o nome e descobri que era o senhor.

Conversaram durante alguns minutos.

Gabriel contou sobre o trabalho, o casamento, os filhos. Depois disse:

— Professor, eu nunca agradeci uma coisa.

Augusto ficou em silêncio.

— Na época do terceiro ano, eu ia abandonar a escola. Meu pai tinha perdido o emprego e eu comecei a trabalhar à noite. O senhor percebeu que eu estava faltando e foi conversar comigo. Arrumou um jeito de eu recuperar as atividades. Eu terminei o ano por causa daquela conversa.

Augusto tentou lembrar.

Não conseguiu.

— Gabriel, eu sinceramente não lembro disso.

Do outro lado veio uma risada.

— Eu lembro.

A conversa terminou pouco depois.

Augusto permaneceu sentado.

O celular ainda estava em sua mão quando outra mensagem chegou.

Dessa vez, de uma aluna atual.

“Professor, a turma soube que o senhor está se recuperando. Fizemos uma coisa.”

Abaixo havia um vídeo.

Augusto abriu.

A imagem mostrava a sala de aula.

Os alunos estavam espalhados pelas carteiras. Um deles segurava uma folha:

VOLTE QUANDO ESTIVER BEM. NÃO ANTES.

Outro apareceu:

AS ATIVIDADES A GENTE RECUPERA.

Um terceiro levantou uma placa:

A PROVA TAMBÉM PODE ESPERAR.

Do fundo alguém gritou:

— Essa parte da prova fui eu que escrevi!

A sala inteira caiu na risada.

Augusto também.

Assistiu ao vídeo novamente.

Depois uma terceira vez.

Naquela tarde, conseguiu resolver parte da documentação com auxílio de uma servidora que analisou o processo com atenção. Ela encontrou uma inconsistência cadastral, orientou sobre os documentos necessários e encaminhou o pedido para nova avaliação.

— Não posso prometer o resultado — explicou.

— Só de alguém ter entendido o problema já ajudou.

— Às vezes o sistema complica uma coisa simples.

Augusto respondeu:

— Estou começando a suspeitar disso.

Ela riu.

Alguns dias depois, chegou a nova decisão.

A licença havia sido regularizada.

Augusto leu a mensagem e não comemorou.

Sentiu apenas aquele alívio silencioso de quando uma preocupação finalmente sai de cima do peito.

A recuperação continuou.

Ainda havia desconforto. Ainda precisava respeitar limites que antes não existiam. Caminhava um pouco pela manhã, descansava, seguia as recomendações médicas e resistia à tentação de transformar melhora em autorização para exagerar.

Certa tarde colocou uma música na sala.

A esposa apareceu na porta e encontrou Augusto caminhando devagar de um lado para o outro.

— O que está fazendo?

— Exercício.

— Isso parece dança.

— É fisioterapia artística.

— O médico recomendou?

— A parte da caminhada.

Ela riu.

Augusto deu mais alguns passos.

— Devagar.

— Estou indo devagar.

— Você nunca soube fazer nada devagar.

— Estou aprendendo.

Semanas depois, voltou à escola.

Não houve corredor de aplausos.

Ninguém interrompeu as aulas.

A vida real raramente organiza recepções cinematográficas.

Na primeira turma, os alunos conversavam quando ele entrou. Aos poucos perceberam sua presença.

Um deles apontou:

— Olha quem voltou!

Outro perguntou:

— Está bem, professor?

Augusto colocou o material sobre a mesa.

— Estou melhor.

Do fundo veio a pergunta inevitável:

— Vai ter prova?

Ele olhou para a turma.

— Impressionante como a preocupação com minha saúde durou pouco.

As risadas preencheram a sala.

Durante a explicação, Augusto sentou-se algumas vezes. Em outros momentos ficou em pé. Ninguém pareceu se importar.

No intervalo, abriu o sistema funcional pelo celular.

As faltas haviam desaparecido.

Fechou a tela.

No corredor, dois alunos discutiam um trabalho. Uma professora procurava a chave de uma sala. Alguém reclamava da impressora. O sinal tocou. Uma funcionária atravessou apressada carregando documentos.

Tudo continuava exatamente desorganizado como antes.

Augusto caminhou até a janela e permaneceu alguns segundos observando o pátio.

Sentiu uma pequena pulsação na perna.

Dessa vez não se assustou.

Apenas mudou de posição.

Um aluno passou correndo e voltou dois passos.

— Professor, precisa de ajuda?

Augusto olhou para ele.

— Agora não.

O garoto seguiu.

Augusto também.

Devagar.

Ainda havia aulas, documentos, consultas, corredores e alguns medos esperando pela frente.

Quanto às pernas, pareciam finalmente ter estabelecido um acordo com o restante do corpo.

Augusto só ainda não sabia quem, naquela negociação, aprendera a acompanhar o ritmo de quem.

(Betto Gasparetto – xiii – mmxxvi)

A Chave do Armário

Posted in Coleção - Crônicas on 18 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Na segunda-feira, às sete e vinte da manhã, quatro funcionários já estavam diante do armário de aço da sala administrativa.

Nenhum deles parecia contente.

— Quem ficou com a chave na sexta? — perguntou Márcia.

Silêncio.

Rogério examinou os próprios bolsos, embora tivesse acabado de chegar.

— Eu não.

— Eu também não — respondeu Cláudia.

Jonas, que trabalhava no almoxarifado, tentou abrir a porta puxando-a com força.

— Assim você vai arrancar o armário da parede — disse Márcia.

— Pelo menos abre.

Não abriu.

O problema seria pequeno se dentro daquele armário estivessem apenas papéis antigos. Mas alguém, anos antes, decidira que ali seria um excelente lugar para guardar tudo aquilo que não poderia desaparecer: carimbos, formulários, contratos, materiais de expediente, dois notebooks de uso compartilhado e até o controle reserva do projetor da sala de reuniões.

A chave principal sumira.

A reserva, segundo descobriram naquele momento, também estava dentro do armário.

Rogério olhou para Márcia.

— Quem guarda uma chave reserva dentro daquilo que ela deveria abrir?

— Nós.

— Então não é reserva. É companhia para a outra chave.

Às sete e quarenta, o expediente começou oficialmente.

O armário continuava fechado.

O primeiro problema surgiu quando Cláudia precisou de um carimbo.

— Tem outro?

— Só aquele.

— Posso imprimir?

— Carimbo?

— Estou procurando alternativas.

Cinco minutos depois, Jonas apareceu com uma caixa de ferramentas.

— Saiam.

— O que você vai fazer? — perguntou Márcia.

— Abrir.

— Sem destruir.

Jonas guardou a chave de fenda maior e pegou uma menor.

— Vocês dificultam muito o trabalho técnico.

Enquanto ele examinava a fechadura, Rogério procurava a chave pela sala. Abriu gavetas, levantou pastas, olhou atrás da impressora e até dentro da geladeira.

Márcia observou.

— Você acha que alguém guardou a chave junto com a marmita?

— Sexta-feira foi um dia complicado.

Ninguém podia contestar.

Na sexta, o setor encerrara o mês com sistema instável, relatórios atrasados e uma reunião que começara às quatro e terminara quando todos já pensavam no fim de semana.

A busca continuou.

Foi nesse processo que descobriram algumas coisas interessantes.

Na gaveta de Cláudia havia dezessete sachês de açúcar.

— Para que tudo isso?

— Emergência.

— Que emergência exige dezessete açúcares?

— Trabalhar aqui.

Na mesa de Rogério encontraram três carregadores de celular, nenhum compatível com o aparelho que ele usava.

Jonas guardava um pacote de biscoitos atrás de uma caixa de arquivo.

— Achei que você estivesse de dieta — comentou Márcia.

— Estou.

— E isso?

— Material confidencial.

Até Márcia, conhecida pela organização quase irritante, foi surpreendida quando apareceu uma caneca desaparecida havia seis meses no fundo de seu arquivo.

— Então estava com você! — disse Cláudia.

— Tecnicamente estava no meu armário.

— Isso é exatamente estar com você.

A chave, porém, nada.

Às nove, já havia fila de pequenas tarefas interrompidas pelo mesmo motivo.

— Preciso do contrato.

— Está no armário.

— Cadê o adaptador?

— Armário.

— Formulário de retirada?

— Armário.

Rogério colocou as mãos na cintura.

— Estou começando a achar que nossa empresa inteira cabe ali dentro.

Sem acesso aos materiais, começaram a improvisar.

Cláudia descobriu uma versão digital de um formulário que todos imprimiam havia anos. Rogério localizou contratos antigos no servidor. Márcia pediu emprestado um carimbo ao setor vizinho. Jonas encontrou um adaptador esquecido numa sala de treinamento.

Pouco antes das dez, estavam trabalhando normalmente.

Ou quase.

— Interessante — comentou Cláudia. — A gente precisava perder uma chave para descobrir onde estavam os arquivos digitais.

— Não espalha — respondeu Rogério. — Podem achar que somos eficientes.

Na hora do café, os quatro permaneceram juntos na copa.

Normalmente Márcia tomava café às nove e meia, Cláudia às dez, Rogério quando lembrava e Jonas quando o biscoito confidencial exigia acompanhamento.

Naquela manhã, a chave havia sincronizado os horários.

Conversaram sobre coisas que raramente entravam na sala administrativa.

Cláudia contou que começara um curso noturno de fotografia. Rogério revelou que estava aprendendo a cozinhar depois que a filha se mudara para outra cidade. Jonas tinha uma banda que tocava aos sábados em pequenos bares.

Márcia quase derrubou o café.

— Você canta?

— Toco bateria.

— Há oito anos você trabalha aqui e nunca contou isso.

— Você nunca perguntou.

Ela pensou um pouco.

Era verdade.

Conheciam os ramais uns dos outros, sabiam quem atrasava relatórios, quem esquecia senhas e quem usava a impressora para trabalhos particulares. Ainda assim, havia oito anos ninguém perguntara a Jonas o que ele fazia aos sábados.

Às onze e quinze, o chaveiro chegou.

Examinou a fechadura durante menos de um minuto.

— Dá para abrir.

Jonas cruzou os braços.

— Eu também disse.

— Sem destruir — lembrou Márcia.

O profissional usou duas ferramentas pequenas e, em poucos minutos, a porta cedeu.

Todos se aproximaram.

O interior estava exatamente como na sexta-feira.

Pastas.

Carimbos.

Equipamentos.

Caixas.

E, sobre a primeira prateleira, um chaveiro azul.

Cláudia apontou.

— A reserva.

Rogério pegou-a.

— Continua sendo uma ideia brilhante.

O chaveiro perguntou:

— E a principal?

Ninguém sabia.

No fim da tarde, Márcia decidiu reorganizar o armário. Separou documentos antigos, identificou caixas e retirou a chave reserva, que passaria a ficar na portaria.

Ao puxar uma pasta grossa da última prateleira, alguma coisa caiu no chão.

Tinido metálico.

Os quatro olharam ao mesmo tempo.

Era a chave principal.

Ficaram em silêncio por alguns segundos.

Rogério foi o primeiro:

— Então ninguém perdeu.

Márcia pegou a chave.

— Alguém guardou.

— Quem?

A pergunta percorreu a sala.

Cláudia tentou lembrar da sexta-feira. Jonas jurou que não havia mexido naquela pasta. Rogério acusou o cansaço coletivo. Márcia afirmou que jamais colocaria uma chave naquele lugar.

Nenhum deles convenceu os outros.

Às cinco e meia, guardaram as coisas e foram embora.

Antes de apagar a luz, Márcia colocou a chave principal num gancho novo ao lado da porta. Sobre ele, colou uma etiqueta:

CHAVE DO ARMÁRIO

Na manhã seguinte, quando chegou, encontrou outra etiqueta colada logo abaixo. Alguém havia escrito:

FAVOR NÃO GUARDAR DENTRO DO ARMÁRIO.

Márcia riu.

Não perguntou quem fora.

Na sala ao lado, ouviu Jonas comentando com Rogério sobre o ensaio da banda. Cláudia mostrava no celular algumas fotografias do curso, e sobre a mesa havia um pote que Rogério trouxera com o primeiro bolo que conseguira fazer sem queimar.

O armário estava aberto.

Curiosamente, naquela manhã, ninguém parecia muito interessado nele.

(Betto Gasparetto – xii – mcmxciv)

O Menestrel da Renascença

Posted in Coleção - Crônicas on 17 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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O salão havia sido preparado para impressionar antes mesmo de receber o primeiro convidado.

Centenas de velas ardiam nos grandes candelabros, refletindo-se nas taças, nos espelhos e nos fios dourados das tapeçarias. Sobre as mesas, travessas de prata sustentavam carnes assadas, frutas, pães, queijos e doces preparados durante dois dias nas cozinhas do palácio. Criados atravessavam discretamente o salão, substituindo pratos quase intocados enquanto músicos executavam melodias para convidados que conversavam alto demais para ouvi-las.

Na cabeceira estava o duque Lorenzo, anfitrião da celebração. À sua direita, nobres disputavam histórias de propriedades, cavalos e alianças. À esquerda, um banqueiro explicava quanto custara importar o mármore usado na reforma de sua residência.

— Veio de longe — dizia ele. — O transporte custou quase tanto quanto a pedra.

Um conde examinou sua taça.

— Quando alguma coisa custa pouco, ninguém pergunta de onde veio.

Os dois riram.

Perto deles, uma dama exibia um colar de pedras verdes.

— Foi presente de meu marido.

— Belíssimo.

— Ele sabe pedir desculpas.

O marido ouviu e preferiu continuar bebendo.

Naquela noite haveria uma atração especial. Lorenzo mandara buscar um menestrel que ganhara fama por apresentar-se em praças, tavernas, feiras e algumas cortes. Chamava-se Matteo e, segundo os comentários, tinha uma inconveniente habilidade para fazer pessoas importantes rirem de assuntos dos quais normalmente não gostavam de falar.

Quando entrou, alguns convidados se decepcionaram.

Não vestia seda, não carregava joias e não parecia particularmente impressionado com o lugar. Trazia roupas bem cuidadas, porém simples, e um pequeno instrumento de cordas pendurado às costas.

Fez uma reverência diante do duque.

— Disseram-me que esta é uma das casas mais ricas da região.

Lorenzo abriu um sorriso satisfeito.

— Disseram corretamente.

Matteo observou o salão.

— Ainda bem. Fiquei preocupado que faltasse comida.

Alguns convidados riram.

O duque também.

— Comece.

Matteo caminhou entre as mesas contando pequenas histórias. Falou de um comerciante que comprara tantos baús para guardar moedas que acabara sem espaço para colocar a cama. Depois contou sobre um nobre que encomendara uma estátua de si mesmo tão grande que precisou derrubar parte do jardim para conseguir admirá-la da janela.

O banqueiro riu alto.

— Conheço homens assim.

Matteo olhou para ele.

— Todos conhecemos. O difícil é reconhecer quando usam nossas roupas.

As risadas diminuíram um pouco.

Ele prosseguiu.

Contou sobre dois homens que discutiam numa feira. Um dizia possuir cinquenta hectares; o outro, oitenta. Um terceiro, que nada possuía, perguntou quanto terreno cada um precisaria quando morresse.

— O primeiro respondeu que ainda não havia pensado nisso. O segundo também não. Então o pobre sugeriu que provavelmente dois metros resolveriam a disputa.

Dessa vez, alguns convidados não riram.

O duque inclinou-se na cadeira.

— Você fala muito sobre riqueza para alguém que aparentemente possui tão pouco.

Matteo respondeu:

— É justamente por isso que consigo observá-la de fora.

Um murmúrio percorreu o salão.

Lorenzo poderia ter encerrado a apresentação.

Não encerrou.

Talvez estivesse curioso.

Talvez quisesse descobrir até onde o convidado teria coragem de ir.

— Continue.

Matteo pediu então quatro objetos.

Uma moeda de ouro.

Um anel.

Uma taça de prata.

E um pedaço de pão.

Os três primeiros apareceram imediatamente.

O pão demorou um pouco porque ninguém entendeu por que ele o queria.

Matteo colocou tudo sobre uma mesa.

— Qual destes vale mais?

— A moeda — respondeu o banqueiro.

— O anel — disse a dama das pedras verdes.

— Depende da prata — comentou alguém.

Matteo apontou para um criado que passava.

— E você?

O rapaz parou, assustado.

Ninguém costumava pedir a opinião dos criados durante os banquetes.

— Eu?

— Você mesmo.

O jovem olhou para os objetos.

— Depende.

— De quê?

— Se a pessoa estiver com fome, o pão.

Houve um breve silêncio.

Matteo pegou o pedaço de pão.

— Temos finalmente um economista no salão.

As gargalhadas voltaram.

Até o criado sorriu antes de continuar seu trabalho.

O banqueiro, porém, não desistiu.

— Isso é truque. Uma moeda compra muitos pães.

— Sem dúvida.

— Então continua valendo mais.

Matteo concordou.

— Desde que exista alguém disposto a vender o pão.

O banqueiro abriu a boca, mas não respondeu.

A apresentação prosseguiu.

Matteo não fazia sermões. Preferia perguntas, histórias absurdas e comparações inconvenientes. Ria dos ricos, dos pobres, dos soldados, dos comerciantes, dos artistas e principalmente de si mesmo. Quando alguém começava a sentir-se confortável demais com uma piada dirigida ao outro, a seguinte geralmente chegava mais perto.

Em determinado momento, aproximou-se do duque.

— Posso fazer uma pergunta a Vossa Excelência?

— Já fez várias.

— Esta custa mais caro.

— Quanto?

— Uma resposta verdadeira.

Lorenzo riu.

— Pergunte.

Matteo observou as tapeçarias, os candelabros, as mesas e os convidados.

— Se amanhã ninguém mais o chamasse de Excelência, quem o senhor seria?

Alguns rostos imediatamente se voltaram para o duque.

Lorenzo permaneceu imóvel.

Era uma pergunta simples.

Talvez por isso fosse tão desagradável.

— Lorenzo — respondeu finalmente.

Matteo fez uma reverência.

— Muito prazer, Lorenzo. Eu sou Matteo.

Dessa vez ninguém soube se deveria rir.

O duque foi o primeiro.

Começou discretamente, depois gargalhou com tanta vontade que precisou apoiar a mão sobre a mesa.

Os demais acompanharam.

Matteo encerrou sua apresentação pouco antes da meia-noite.

Lorenzo mandou entregar-lhe uma bolsa com moedas.

O menestrel pesou-a na mão.

— É muito dinheiro.

— Você merece.

— Posso fazer o que quiser com ele?

— Naturalmente.

Matteo retirou algumas moedas e guardou-as.

Depois entregou a bolsa ao criado que havia escolhido o pão.

— Divida com o pessoal da cozinha.

O rapaz arregalou os olhos.

— Senhor, eu não posso…

— Então teremos um problema sério, porque eu também não quero carregar tudo isso.

O duque observou a cena.

Não interferiu.

Na manhã seguinte, o salão estava vazio.

Sem os convidados, parecia maior e menos impressionante. Criados recolhiam taças, limpavam manchas de vinho e contavam pratos quebrados. Sob uma das mesas havia uma pérola desprendida de algum vestido. Próximo à cadeira do duque, alguém encontrara uma moeda.

O jovem criado que recebera a bolsa pegou-a.

Por alguns segundos, ficou olhando para o ouro.

Depois levou a moeda ao administrador do palácio.

— Encontramos esta no chão.

O administrador conferiu.

— Poderia ter ficado com ela.

O rapaz deu de ombros.

— Ontem já ganhei mais do que esperava.

Do outro lado da cidade, Matteo caminhava pela estrada com algumas moedas no bolso e o instrumento às costas.

No palácio, Lorenzo tomava o café da manhã quando perguntou ao criado:

— Aquele menestrel deixou alguma coisa?

— Não, Excelência.

Lorenzo passou manteiga no pão.

Parou.

Olhou para o rapaz.

— Hoje pode me chamar de Lorenzo.

O criado não soube se era ordem, brincadeira ou algum teste perigoso.

— Sim, Excelência.

Lorenzo começou a rir.

O rapaz também.

Sobre a mesa havia uma bandeja de prata, uma faca com cabo de marfim e uma pequena cesta de pães ainda quentes.

Lorenzo pegou um deles.

Ficou olhando por um instante.

Depois comeu.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

Ser ou Não Ser Tão Ser

Posted in Coleção - Crônicas on 16 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Durante vinte e sete anos, Helena escolhera quem entrava.

Na filial brasileira de uma empresa europeia, começara como assistente administrativa, passara por treinamento, folha de pagamento, recrutamento e desenvolvimento de pessoas até chegar à gerência de Recursos Humanos. Conhecia os diretores pelo primeiro nome, lembrava quais gestores detestavam entrevistas às segundas-feiras e sabia identificar, antes mesmo da reunião terminar, quando uma vaga já tinha candidato escolhido.

Aos cinquenta e quatro anos, tinha uma sala envidraçada, duas especializações, inglês fluente, conhecimento suficiente da empresa para contar sua história sem consultar arquivos e uma certeza que, durante muito tempo, parecera razoável: experiência ainda valia alguma coisa.

Até começarem as mudanças.

Primeiro chegou um novo diretor europeu, doze anos mais jovem que ela. Depois vieram expressões que se multiplicaram pelas reuniões: transformação digital, inteligência de dados, automação, people analytics, competências emergentes.

Helena anotava tudo.

Em casa, pesquisava o que não conhecia.

Foi assim que descobriu que algumas das ferramentas exigidas nas novas vagas de RH simplesmente não existiam quando concluíra sua última especialização.

Numa terça-feira, durante uma videoconferência, ouviu o diretor comentar:

— Precisamos atualizar o perfil estratégico da área.

A frase não mencionava seu nome.

Mesmo assim, Helena passou a noite inteira ouvindo-o.

Na semana seguinte, surgiu uma vaga para especialista sênior em gestão de pessoas. O novo profissional trabalharia diretamente com ela.

Os currículos começaram a chegar.

Helena abriu o primeiro.

Trinta e dois anos. Mestrado. Inglês, alemão e espanhol. Certificação internacional. Experiência com análise de dados aplicada a recursos humanos.

Abriu outro.

Trinta e seis anos. Duas pós-graduações. Projetos internacionais. Conhecimento avançado de ferramentas que Helena ainda aprendia a utilizar.

O terceiro parecia pior.

Ou melhor.

Dependia do ponto de vista.

Fechou o sistema.

Naquela noite, perguntou ao marido:

— Você acha que eu estou velha para o mercado?

Ele tirou os olhos do jornal.

— Aconteceu alguma coisa?

— Fiz uma pergunta.

— E eu fiz outra.

Helena não respondeu.

No escritório, passou a ler os currículos de outra maneira.

Antes procurava competências.

Agora procurava ameaças.

Um candidato tinha excelente formação, mas pouca permanência nas empresas anteriores.

Instabilidade profissional.

Outra apresentava experiência internacional e domínio tecnológico superior ao exigido.

Perfil possivelmente acima da posição.

Um terceiro tinha quarenta e oito anos, longa experiência executiva e formação recente em gestão de dados.

Helena permaneceu alguns minutos diante daquele currículo.

Era quase sua própria trajetória, com atualizações que ela não possuía.

Clicou:

Não aderente.

No início, justificava cada exclusão.

Depois ficou mais fácil.

Currículos impressos para discussão com a equipe começaram a desaparecer na fragmentadora. Os digitais recebiam observações suficientes para impedir que avançassem.

Nada grosseiro.

Nada obviamente irregular.

Helena conhecia RH demais para deixar uma decisão parecer pessoal.

Nas entrevistas presenciais, tornou-se ainda mais cuidadosa.

— Onde você se vê daqui a cinco anos?

— Como lida com conflitos?

— Por que deseja sair da empresa atual?

As perguntas eram convencionais. As conclusões, nem sempre.

Uma candidata de trinta e nove anos chamou sua atenção.

Marina tinha formação sólida, experiência internacional e domínio de sistemas recentes. Falava sem exagerar realizações e admitia quando desconhecia alguma coisa.

Helena tentou encontrar uma falha.

— Seu currículo mostra muitas qualificações para esta posição. Não teme ficar desmotivada?

— Não. Quero trabalhar justamente numa empresa em que eu ainda tenha o que aprender.

Helena anotou:

Risco de baixa permanência.

Na saída, Marina agradeceu.

— Gostei muito da entrevista.

— Nós entraremos em contato.

Era a frase mais eficiente já inventada para encerrar esperanças sem assumir compromisso.

Dois dias depois, Helena reprovou sua candidatura.

Na sexta-feira seguinte, recebeu uma convocação do diretor.

Reunião às dez.

Assunto: Estrutura de Pessoas – Próximo Ciclo.

Seu estômago apertou.

Às nove e cinquenta e cinco, entrou na sala.

O diretor estava acompanhado da vice-presidente regional, recém-chegada da Europa.

— Helena, sente-se.

Sobre a mesa havia uma pasta.

Ela reconheceu o logotipo do departamento jurídico.

Pensou imediatamente na rescisão.

Vinte e sete anos resumidos numa pasta azul.

A vice-presidente começou:

— Estamos reorganizando a gestão de Recursos Humanos na América Latina.

Helena manteve as mãos sobre o colo para que ninguém percebesse que estavam frias.

— Entendo.

— A sede decidiu centralizar parte dos processos de recrutamento.

Pronto.

A palavra seguinte seria agradecimento.

Depois trajetória.

Contribuição.

Nova etapa.

Helena conhecia o vocabulário. Ajudara a escrevê-lo para outras pessoas.

O diretor abriu a pasta.

— Queremos que você assuma a coordenação regional de transição.

Helena demorou a reagir.

— Eu?

— Você conhece esta operação melhor do que qualquer pessoa da equipe.

A vice-presidente continuou:

— Mas precisamos modernizar alguns processos. Principalmente seleção e análise de competências.

Helena sentiu um alívio tão grande que quase doeu.

Então veio a segunda parte.

— Por isso contratamos uma consultoria externa para revisar os últimos processos seletivos.

O alívio desapareceu.

A vice-presidente retirou algumas folhas da pasta.

— Encontramos índices de reprovação muito acima do padrão nos candidatos mais qualificados.

Helena não respondeu.

— Há justificativas inconsistentes e alguns currículos que constavam como recebidos, mas desapareceram do processo.

O silêncio dentro da sala ficou desconfortavelmente profissional.

— Você sabe o que aconteceu?

Helena poderia culpar o sistema.

Poderia falar em critérios subjetivos.

Poderia citar adequação cultural, aderência comportamental ou qualquer uma das expressões que durante anos aprendera a usar com precisão.

Mas, pela primeira vez, nenhuma delas pareceu suficientemente boa.

— Sei.

O diretor esperou.

Helena respirou fundo.

— Fui eu.

A vice-presidente fechou a pasta.

— Por quê?

Essa pergunta era mais difícil que todas as anteriores.

Helena olhou através da parede de vidro. Do lado de fora, funcionários circulavam com notebooks, conversavam diante da máquina de café e entravam em salas de reunião. Reconhecia alguns que ela mesma havia contratado muitos anos antes.

— Eu achei que estavam procurando alguém para me substituir.

O diretor franziu a testa.

— Ninguém estava.

Helena soltou uma pequena risada sem humor.

— Agora eu sei.

A reunião durou mais de uma hora.

Não houve promoção.

Também não houve demissão imediata.

A investigação interna continuaria. Os candidatos prejudicados seriam contatados novamente, e Helena seria afastada temporariamente dos processos seletivos enquanto a empresa analisava sua conduta.

Ao sair, encontrou sua própria equipe trabalhando.

Na mesa que costumava ocupar durante as entrevistas havia uma pilha de currículos recuperados do sistema.

No alto estava o de Marina.

Helena sentou em sua sala e abriu o computador.

Havia um e-mail novo.

Assunto: Processo seletivo – revisão extraordinária.

A lista trazia onze candidatos.

Onze pessoas que talvez tivessem recebido um “não” por razões que jamais imaginariam.

No fim da tarde, enquanto guardava seus objetos, encontrou numa gaveta o currículo que enviara à empresa vinte e sete anos antes.

Duas páginas.

Datilografadas.

Sem pós-graduação internacional.

Sem certificações.

Sem idiomas além do inglês intermediário que possuía na época.

Sem analytics.

Sem competências digitais.

No canto superior, alguém havia escrito à caneta:

“Pouca experiência. Vale entrevistar.”

Helena leu duas vezes.

Não reconheceu a letra.

Ficou tentando imaginar quem, quase três décadas antes, decidira não descartá-la.

Na segunda-feira, Marina voltou à empresa para uma nova entrevista.

Dessa vez, Helena não participou.

Cruzaram-se no corredor.

Marina parou.

— Bom dia.

Helena respondeu.

— Bom dia.

Nenhuma das duas acrescentou nada.

Marina entrou na sala de entrevistas e a porta se fechou.

Helena permaneceu alguns segundos no corredor com seu antigo currículo debaixo do braço.

Depois seguiu para outra sala, onde uma comissão a esperava.

Naquela manhã, pela primeira vez em vinte e sete anos, ela não sabia de que lado da mesa terminaria o processo.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

O Profeta de Gibran

Posted in Coleção - Crônicas on 15 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Henrique encontrou o pacote sobre a mesa quando voltou do almoço.

Era pequeno, embrulhado em papel pardo e amarrado com um barbante fino. Não havia remetente, cartão ou qualquer indicação de quem o deixara ali. Apenas seu nome, escrito à mão.

— Chegou para mim?

Márcia, da recepção, levantou os olhos do computador.

— Deixaram pouco antes do meio-dia.

— Quem?

— Uma mulher.

— Que mulher?

— Se eu soubesse que haveria interrogatório, tinha pedido documento.

Henrique riu pela primeira vez naquele dia.

Não estava exatamente disposto a rir.

A manhã havia começado com o despertador ignorado duas vezes, café derramado na camisa e quarenta minutos de trânsito. Ao chegar ao escritório, encontrou uma mensagem da direção convocando-o para uma reunião no fim da tarde.

Não explicava o assunto.

Esse era justamente o problema.

A empresa atravessava uma reestruturação, palavra elegante que, nas últimas semanas, significara salas fechadas, conversas baixas e algumas mesas vazias de um dia para o outro.

Henrique tinha cinquenta e seis anos e trabalhava ali havia quase vinte.

Naquela manhã, calculou três vezes quanto tempo conseguiria pagar as contas se fosse dispensado.

Na terceira conta, desistiu.

Levou o pacote para sua mesa e abriu.

Era um livro.

O Profeta, de Khalil Gibran.

A edição não era nova. A capa apresentava pequenas marcas de uso e algumas páginas estavam ligeiramente amareladas. Henrique conhecia o título, naturalmente, mas nunca havia lido o livro inteiro.

Folheou.

Na primeira página havia uma dedicatória:

“Alguns livros chegam quando a gente os compra. Outros esperam a hora de encontrar a gente.”

Sem assinatura.

Henrique reconheceu a letra.

Ou achou que reconheceu.

Procurou o celular e abriu uma conversa antiga.

A última mensagem tinha quase oito meses.

Era de Laura, sua irmã.

Os dois haviam discutido depois da venda da casa da mãe. O motivo inicial fora uma cômoda antiga que ambos queriam guardar. Depois surgiram contas, documentos, lembranças, acusações guardadas havia anos e aquela extraordinária capacidade que as famílias possuem de transformar um móvel em inventário completo de ressentimentos.

A última mensagem dela dizia:

“Quando você quiser conversar sem precisar vencer, me procure.”

Henrique nunca respondeu.

Fechou o telefone.

Abriu o livro.

Começou a ler durante os minutos que ainda restavam do almoço. Encontrou páginas sobre amor, trabalho, filhos, liberdade, alegria, tristeza, amizade e tantas outras coisas que atravessavam vidas muito diferentes da sua e, ainda assim, pareciam estranhamente próximas.

Não encontrou respostas para a reunião das cinco.

Também não encontrou uma fórmula para resolver oito meses de silêncio com a irmã.

Ainda assim, continuou lendo.

Às duas, voltou ao trabalho.

Às três e vinte, discutiu com um colega sobre uma planilha.

Normalmente teria prolongado a discussão até provar que estava certo. Naquele dia, parou no meio.

— Quer saber? Vamos conferir juntos.

O colega estranhou.

— Você está bem?

— Por quê?

— Concordou comigo antes dos quinze minutos regulamentares.

— Não se acostume.

Continuaram trabalhando.

Às quatro e cinquenta, Henrique fechou o computador e caminhou até a sala da direção.

Entrou preparado para receber a notícia que ensaiara durante todo o dia.

A gerente pediu que sentasse.

— Henrique, precisamos conversar sobre sua função.

Ele sentiu o estômago apertar.

Ela continuou.

A empresa realmente reduziria alguns setores, mas queria que ele assumisse uma nova equipe. Precisavam de alguém experiente para acompanhar funcionários mais jovens durante a transição.

Henrique ouviu tudo.

Novo cargo.

Novas responsabilidades.

Mesmo salário durante os primeiros meses.

Treinamento.

Avaliação futura.

Quando saiu, não sabia se havia recebido uma promoção ou um problema com nome mais bonito.

Márcia perguntou:

— Sobreviveu?

— Parece que sim.

— Então comemora.

— Ainda estou decidindo.

Guardou suas coisas.

O livro permanecia sobre a mesa.

Antes de ir embora, abriu novamente a dedicatória.

Pegou o celular.

Ficou alguns segundos olhando para o nome da irmã.

Digitou:

“Foi você?”

A resposta chegou quando já estava no elevador.

“O quê?”

Henrique olhou para o livro debaixo do braço.

Talvez ela estivesse brincando.

Talvez realmente não soubesse.

Escreveu outra mensagem.

Apagou.

Tentou novamente.

“Nada. Como você está?”

Dessa vez a resposta demorou.

Henrique saiu do prédio, atravessou a calçada e entrou numa cafeteria. Pediu um café e escolheu uma mesa perto da janela.

O celular vibrou.

“Estou bem. Estranhei a pergunta.”

Ele sorriu.

“Eu também.”

Vieram três pontinhos na tela.

Desapareceram.

Voltaram.

“Quer tomar um café qualquer dia?”

Henrique olhou para a xícara que acabara de chegar.

“Quero.”

Guardou o telefone.

Do lado de fora, as pessoas atravessavam a rua apressadas. Um ônibus parou, deixou passageiros e seguiu. Um entregador quase esbarrou num homem distraído. Duas mulheres discutiam diante de uma vitrine. A cidade não apresentava qualquer sinal de ter participado daquele pequeno acontecimento.

Henrique abriu o livro novamente.

Ainda queria descobrir quem havia deixado o pacote.

Na manhã seguinte, perguntou ao segurança. Depois ao pessoal da limpeza. Márcia tentou lembrar melhor da mulher que fizera a entrega, mas sua descrição servia para algumas milhares de pessoas.

Ninguém soube dizer.

O livro passou a ficar na gaveta de Henrique.

Não escondido.

Guardado.

De vez em quando ele o levava para casa. Outras vezes lia algumas páginas durante o almoço. Meses depois, Laura percebeu o volume sobre a mesa da sala.

Pegou-o nas mãos.

— Você está lendo Gibran?

Henrique observou atentamente o rosto da irmã.

— Estou.

— Desde quando?

— Desde que alguém me deu.

Ela abriu a primeira página.

Leu a dedicatória.

— Bonita.

— Você reconhece a letra?

Laura examinou por alguns segundos.

— Não.

Devolveu o livro e foi buscar mais café.

Henrique permaneceu olhando para a dedicatória.

Ainda não tinha certeza.

Talvez nunca tivesse.

Fechou o livro.

Da cozinha, Laura gritou:

— Açúcar?

— Sem.

— Desde quando você toma sem açúcar?

Henrique levantou-se.

— Muita coisa aconteceu desde a última vez que você veio aqui.

— Percebi.

Ele foi até a cozinha.

O livro permaneceu sozinho sobre a mesa, com a dedicatória escondida entre a capa e a primeira página.

E o nome de quem o enviara continuou exatamente onde estava desde o começo:

em lugar nenhum.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)