O Menino Que Viu o Super-Homem

Posted in Coleção - Crônicas on 24 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Miguel tinha oito anos e enxergava o mundo de muito perto.

Para ler, aproximava o rosto das páginas. Para reconhecer alguém à distância, procurava primeiro a voz, o jeito de andar, a cor da roupa ou algum detalhe que tivesse aprendido a guardar. Sua baixa visão transformara coisas aparentemente simples em pequenas negociações diárias com o mundo.

Isso nunca o impedira de gostar de histórias em quadrinhos.

Pelo contrário.

Tinha dezenas de gibis organizados numa estante baixa do quarto. Conhecia personagens, uniformes, poderes, planetas, inimigos e histórias que o pai já desistira de acompanhar. Também colecionava miniaturas. Algumas eram baratas, outras tinham sido presentes de aniversário e duas haviam sido compradas depois de meses juntando moedas.

A preferida ficava sobre a escrivaninha.

Super-Homem.

Miguel gostava da capa.

— É estranho — dizia o pai. — Você gosta de um herói que usa a cueca por cima da roupa.

— Pai!

— Estou apenas analisando o uniforme.

— Você não entende nada de super-herói.

Nisso Miguel provavelmente tinha razão.

Num sábado de manhã, a família decidiu visitar um grande parque de entretenimentos que passava pela cidade. Havia brinquedos, apresentações, jogos, personagens fantasiados e uma área especialmente preparada para crianças.

Miguel soube da existência dos super-heróis dois dias antes.

A partir daí, perguntou aproximadamente quarenta vezes a que horas sairiam de casa.

No sábado acordou antes de todos.

Escolheu uma camiseta azul com o símbolo do Super-Homem.

A mãe encontrou-o vestido às sete da manhã.

— Miguel, o parque abre às dez.

— Eu sei.

— Então por que já está pronto?

— Para não atrasar.

— São sete horas.

— Justamente.

Às dez e quinze, estavam na entrada.

O estacionamento já estava cheio. Crianças corriam de um lado para outro, pais conferiam ingressos no celular e funcionários tentavam organizar filas que pareciam possuir vontade própria.

Miguel segurava a mão da mãe.

O excesso de pessoas dificultava ainda mais sua orientação. O pai caminhava do outro lado, avisando sobre pequenos degraus e obstáculos.

— Tem uma placa na frente.

— Vi.

— Cuidado com a criança correndo.

— Essa eu não vi.

— Nem a mãe dela, aparentemente.

Miguel riu.

Quando chegaram perto da entrada principal, ouviu uma menina gritar:

— Olha o Super-Homem!

Miguel parou.

— Onde?

A mãe procurou.

— Perto do portão.

Ele apertou os olhos.

Via uma figura alta, predominantemente azul e vermelha, mas não conseguia distinguir o rosto.

— É ele?

— É.

Miguel soltou a mão da mãe e deu dois passos.

— Espera — disse ela.

— Quero chegar perto.

O funcionário vestido de Super-Homem chamava-se André.

Tinha vinte e nove anos, estudava Educação Física à noite e trabalhava em eventos nos fins de semana para completar a renda. Naquela manhã, sua principal função era receber as crianças, tirar fotografias e ajudar a organizar a entrada.

Gostava do trabalho, embora vestir aquela roupa durante horas não fosse exatamente um superpoder.

Já havia ouvido de tudo.

Crianças perguntavam se ele voava.

Se conhecia o Batman.

Se a capa era verdadeira.

Se conseguia levantar um carro.

Um menino certa vez perguntara onde ele estacionara a nave espacial.

André aprendera a responder sem destruir a fantasia.

— Super-Homem! — chamou Miguel.

André olhou.

Viu um menino pequeno usando uma camiseta com o mesmo símbolo de seu uniforme.

Abaixou-se.

— Ora, ora. Parece que temos outro membro da equipe por aqui.

Miguel aproximou-se até ficar muito perto dele.

A mãe começou a explicar:

— Desculpe, ele tem baixa…

Miguel interrompeu:

— Posso chegar mais perto?

André percebeu.

— Claro.

O menino aproximou o rosto.

Observou o símbolo no peito.

Tocou de leve a capa.

Depois olhou para o rosto do funcionário.

André permaneceu imóvel.

— Gostou do uniforme?

Miguel não respondeu imediatamente.

Continuou examinando-o.

Então sorriu.

— Eu sei quem você é!

André congelou.

A mãe levou a mão à boca para esconder uma risada.

O pai esperou.

André imaginou que o menino tivesse percebido a fantasia. Talvez tivesse reconhecido alguma costura, a maquiagem ou simplesmente concluído que aquele Super-Homem não poderia ser verdadeiro.

Entrou na brincadeira.

— Sabe?

Miguel confirmou com a cabeça.

— Sei.

— Então não conta para ninguém.

O menino aproximou-se mais.

André perguntou:

— Quem eu sou?

Miguel respondeu sem hesitar:

— Você é o homem que deixa as crianças felizes.

André perdeu a resposta.

Não estava preparado para aquilo.

Havia decorado frases engraçadas. Sabia fazer poses para fotografias, imitar a postura do personagem e responder perguntas sobre kryptonita.

Mas ninguém lhe ensinara o que fazer quando uma criança atravessava o uniforme e encontrava a pessoa lá dentro.

— Como você sabe? — perguntou.

Miguel apontou para seus próprios olhos.

— Eu não enxergo muito bem.

Fez uma pausa.

— Mas isso eu consigo ver.

A mãe virou o rosto.

O pai abaixou a cabeça por alguns segundos.

André permaneceu agachado diante do menino.

Ao redor deles, o parque continuava funcionando. Funcionários chamavam visitantes, crianças corriam, celulares fotografavam e uma música alta anunciava o início de alguma atração.

André estendeu a mão.

— Posso te contar um segredo?

Miguel aproximou-se.

— Pode.

— Às vezes quem está aqui dentro também esquece disso.

Miguel olhou para ele.

— Do quê?

— De fazer alguém feliz.

O menino pensou.

— Então eu lembrei você.

André sorriu.

— Lembrou.

A fila continuava crescendo.

Um colega fez sinal indicando que precisavam liberar a entrada.

André levantou-se.

— Você veio conhecer o parque?

— Vim conhecer os heróis.

— Todos?

— Quase todos.

— Qual é o seu preferido?

Miguel olhou para o símbolo da própria camiseta.

— Precisa perguntar?

— Só estava verificando.

André pegou o rádio preso ao cinto.

Falou rapidamente com alguém da organização.

A mãe de Miguel percebeu.

— Está acontecendo alguma coisa?

— Nada grave. Assunto de super-herói.

Poucos minutos depois, uma funcionária apareceu e conduziu a família até uma área lateral.

Miguel não entendeu.

— A gente não vai entrar?

— Vai — respondeu André. — Mas primeiro preciso de ajuda.

— Com quê?

— Reunir minha equipe.

Um a um, outros personagens começaram a aparecer.

Uma heroína.

Um homem com capa escura.

Outro carregando um escudo cenográfico.

Mais dois personagens que Miguel reconheceu pela voz e pelos detalhes dos uniformes quando se aproximaram.

André havia pedido que não ficassem longe.

Cada um chegou perto.

Deixaram Miguel tocar os símbolos, sentir a textura das capas e observar os rostos na distância que lhe permitia enxergar melhor.

Ninguém teve pressa.

— Esse escudo é pesado? — perguntou Miguel.

— Quer descobrir?

Colocaram o objeto em suas mãos.

— Nossa!

— Herói também faz musculação.

Miguel riu.

A mãe começou a fotografar.

Depois abaixou o celular.

Percebeu que estava assistindo àquele momento pela tela e decidiu vê-lo diretamente.

André chamou Miguel.

— Falta uma coisa.

— O quê?

— Todo grupo precisa de mais um herói.

Entregou-lhe uma pequena capa vermelha usada nas atividades infantis.

Miguel ficou parado.

— É para mim?

— Temporariamente.

— Quanto tempo?

André pensou.

— Até você decidir devolver.

Miguel vestiu a capa.

Fez uma pose.

As fotografias começaram.

Uma criança que passava apontou:

— Olha! Outro Super-Homem!

Miguel imediatamente endireitou os ombros.

— Viu, pai?

— Vi.

— Agora tem dois.

O pai respondeu:

— Estou começando a achar que tem mais.

Passaram o restante da manhã no parque.

Miguel entrou em brinquedos, perdeu duas vezes num jogo de argolas, ganhou do pai numa disputa de pontaria e comeu uma quantidade de algodão-doce que a mãe considerou incompatível com qualquer organismo humano.

Mas voltou três vezes à entrada.

Na primeira, apenas acenou para André.

Na segunda, levou uma garrafa de água.

— Minha mãe falou que você deve estar com calor aí dentro.

— Sua mãe entende de super-heróis.

Na terceira vez, pouco antes de ir embora, tirou a capa vermelha.

— Tenho que devolver.

André pegou-a.

— Tem certeza?

— Outras crianças vão precisar.

André ficou olhando para ele.

— Provavelmente.

Miguel estendeu a mão.

André pensou que receberia um aperto.

Recebeu um abraço.

— Tchau, Super-Homem.

— Tchau, Miguel.

O menino se afastou com os pais.

Depois de alguns metros, virou-se.

— Ei!

André levantou a mão.

— O quê?

Miguel gritou:

— Não esquece quem você é!

Algumas pessoas próximas riram.

André também.

— Não vou esquecer!

A família desapareceu no estacionamento.

O evento continuou.

Outra criança chegou querendo fotografia.

Depois outra.

Um menino perguntou se ele realmente conseguia voar.

André respondeu:

— Só quando o chefe não está olhando.

O menino acreditou o suficiente para rir.

No fim do expediente, André entrou no vestiário.

Retirou as botas, a capa e o uniforme azul. Diante do espelho voltou a ser apenas um rapaz cansado depois de muitas horas de trabalho.

Pegou o celular.

Havia uma mensagem da organização do evento.

Uma fotografia.

Miguel aparecia no centro, usando a pequena capa vermelha, cercado pelos personagens.

Abaixo, alguém escrevera:

“O menino que conheceu os heróis.”

André olhou para a imagem durante alguns segundos.

Depois alterou a legenda antes de salvá-la:

“O menino que enxergou.”

Guardou o telefone.

Na manhã seguinte, Miguel colocou sua miniatura do Super-Homem sobre a escrivaninha.

Ao lado dela, colocou a fotografia impressa no parque.

O pai apareceu à porta.

— Qual dos dois é o verdadeiro?

Miguel olhou para a miniatura.

Depois para a fotografia.

— Esse aqui é personagem.

Apontou para André.

— Esse é de verdade.

O pai poderia ter explicado a diferença.

Não explicou.

Na fotografia, Miguel sorria usando uma capa vermelha grande demais para seu tamanho.

Atrás dele havia homens e mulheres fantasiados de pessoas capazes de realizar coisas impossíveis.

Curiosamente, nenhum deles estava voando.

(Betto Gasparetto – viii – mmxxv)

A Vida Inteira em um Segundo

Posted in Coleção - Crônicas on 23 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Durante trinta e oito anos, Samuel acordou cedo para construir aquilo que chamava, com certo orgulho, de sua vida.

Começara com uma pequena oficina alugada, duas ferramentas compradas a prazo e uma motocicleta usada. Depois vieram os primeiros funcionários, um galpão maior, contratos melhores, uma casa própria, dois carros, terrenos, máquinas e uma empresa que finalmente conseguia funcionar alguns dias sem sua presença.

A casa talvez fosse sua maior conquista.

Não pela arquitetura, embora fosse bonita. Ali os filhos haviam crescido, a esposa escolhera as árvores do jardim e o cachorro destruíra parte da varanda quando ainda era filhote. Num armário do corredor estavam fotografias impressas de uma época em que ninguém precisava procurar lembranças dentro de uma nuvem digital.

Samuel guardava tudo.

Documentos antigos, desenhos dos filhos, relógios que não funcionavam, cartões de aniversário, a primeira nota fiscal da empresa e até uma chave da oficina original.

A esposa, Marta, reclamava:

— Você não guarda coisas. Você administra um museu.

— Um dia isso vai ter valor.

— Para quem?

— Ainda não decidi.

Naquela tarde, o céu começou a mudar pouco depois das quatro.

O calor havia sido estranho durante todo o dia. O vento desaparecera e depois voltara em rajadas. Nuvens muito escuras cresceram no horizonte com rapidez.

Samuel estava na empresa quando recebeu o primeiro alerta no celular.

TEMPESTADE SEVERA. PROCURE ABRIGO.

Leu.

Guardou o telefone.

Continuou trabalhando.

Dez minutos depois, Marta ligou.

— Você viu o aviso?

— Vi.

— Está ficando muito escuro aqui.

— Fecha as janelas. Estou indo.

— Não venha agora. A mensagem manda procurar abrigo.

Samuel caminhou até a porta do galpão.

O vento havia aumentado.

Algumas folhas atravessavam o estacionamento. Uma placa metálica vibrava na fachada do prédio vizinho.

— Vou esperar um pouco.

A ligação caiu.

A energia também.

As máquinas pararam ao mesmo tempo.

Durante alguns segundos, ninguém falou.

Então os celulares começaram a tocar.

Um funcionário apontou para fora.

— Samuel, olha aquilo.

Ao longe, o céu parecia ter descido até o chão.

Não era possível distinguir exatamente o que acontecia. Havia chuva, poeira e objetos sendo carregados pelo vento.

Samuel tentou ligar novamente para Marta.

Nada.

Ligou para o filho.

Nada.

Para a filha.

Chamou até cair.

O homem que durante décadas resolvera problemas de fornecedores, funcionários, bancos, impostos, clientes e máquinas descobriu que não havia nenhuma ligação profissional capaz de negociar com o céu.

— Todo mundo para o fundo! — gritou.

Os funcionários correram para uma área interna do galpão.

O barulho chegou primeiro.

Não parecia chuva.

Parecia uma composição inteira atravessando o telhado.

As estruturas metálicas começaram a estalar. Uma janela explodiu. Caixas deslizaram pelo chão. Alguém gritou para todos abaixarem a cabeça.

Samuel encostou-se à parede.

Pensou na esposa.

Não pensou na empresa.

O telhado começou a se desprender.

Uma parte foi arrancada com tanta facilidade que Samuel viu o céu durante alguns segundos onde antes havia chapas de aço.

Aquele foi o momento em que percebeu que poderia morrer.

Não houve retrospectiva organizada.

Nenhuma sequência cinematográfica de lembranças.

Pensou apenas:

Marta.

Depois:

Meus filhos.

Fechou os olhos.

O barulho aumentou.

E, de repente, começou a diminuir.

Ninguém sabia quanto tempo havia passado.

Talvez dois minutos.

Talvez cinco.

Quando finalmente saíram do abrigo, o galpão parecia outro lugar.

Parte do telhado desaparecera. Máquinas estavam cobertas por água e destroços. Um veículo fora empurrado contra o muro. A fachada havia cedido.

Samuel caminhou até onde antes ficava sua sala.

A porta não existia.

A mesa estava tombada.

Seu computador desaparecera.

Um funcionário aproximou-se.

— Todo mundo está bem.

Samuel olhou para ele.

— Todo mundo?

— Aqui, sim.

Era a única informação que importava naquele momento.

Pegou o celular.

Sem sinal.

— Preciso chegar em casa.

— A estrada está bloqueada — respondeu outro funcionário.

— Minha mulher está sozinha.

— Eu vou com você.

Era Paulo, um funcionário da manutenção com quem Samuel conversava quase exclusivamente sobre serviço.

Os dois seguiram a pé.

A cidade parecia ter sido desmontada.

Árvores atravessavam ruas. Telhas cobriam calçadas. Postes estavam inclinados. Portões haviam desaparecido. Pessoas saíam das casas chamando parentes e vizinhos.

Numa esquina, um homem que Samuel nunca vira usava uma motosserra para cortar uma árvore caída.

— Dá para passar por aqui?

— A pé, talvez. De carro, esquece.

Paulo ajudou a retirar alguns galhos.

Samuel também.

Por alguns minutos, ninguém perguntou profissão, endereço ou sobrenome.

A urgência dispensava apresentações.

Quando finalmente chegou à sua rua, Samuel parou.

A casa estava lá.

Mas não inteira.

Parte do telhado havia desaparecido. As janelas da frente estavam quebradas. Uma árvore caíra sobre a garagem.

— Marta!

Correu.

Tropeçou em telhas e entrou pela lateral.

— Marta!

Ouviu uma voz.

— Estou aqui!

Ela apareceu no corredor.

Samuel a abraçou com tanta força que ela reclamou.

— Você está me esmagando.

— Então reclama.

Marta começou a chorar.

Ele também.

Ficaram abraçados no meio da sala molhada.

Pouco depois, os filhos conseguiram fazer contato. Estavam bem.

Samuel sentou-se no chão.

Ao redor havia água, pedaços de vidro, madeira e objetos que o vento espalhara pela casa.

Uma fotografia estava perto de seu pé.

Pegou-a.

Os dois filhos ainda pequenos apareciam diante da primeira oficina.

No verso, Marta escrevera uma data.

Samuel limpou cuidadosamente a água.

— O álbum…

Marta olhou para o corredor.

Parte do armário havia caído.

Foram até lá.

Algumas fotografias estavam molhadas. Outras haviam desaparecido. Documentos estavam espalhados. Uma caixa de lembranças fora atingida pela água.

Samuel começou a separar o que podia ser salvo.

Encontrou a velha chave da primeira oficina.

Ainda estava ali.

Segurou-a por alguns segundos.

— Você estava certo — disse Marta.

— Sobre o quê?

— Algumas coisas tinham valor.

Ele olhou para a chave.

Depois para ela.

— Algumas.

Naquela noite, ninguém dormiu direito.

Vizinhos se reuniram numa casa menos atingida. Alguém trouxe café. Outro distribuiu cobertores. Uma senhora apareceu com pão. Um rapaz ofereceu carregadores ligados a uma bateria portátil.

Samuel conhecia alguns deles apenas de vista.

Um homem que morava três casas adiante entregou-lhe uma caneca.

— Sua empresa foi atingida?

— Foi.

— Muito?

Samuel demorou a responder.

— Muito.

— A minha loja também.

Sentaram-se lado a lado.

Nenhum tentou consolar o outro com frases prontas.

Não havia utilidade em dizer que tudo seria recuperado.

Algumas coisas não seriam.

Durante a madrugada, Samuel recebeu fotografias da empresa.

O estrago parecia ainda maior.

Um dos galpões estava parcialmente destruído. Equipamentos haviam sido perdidos. O estoque fora atingido pela água.

Trinta e oito anos.

Pensou nisso.

Trinta e oito anos para chegar até ali.

Minutos para desmontar boa parte.

Guardou o celular.

Perto das quatro da manhã, saiu para a varanda.

O vento havia parado.

Marta veio atrás.

— Não consegue dormir?

— Não.

Ficaram olhando a rua escura.

Samuel não era homem de falar muito sobre fé. Acreditava em Deus, mas durante anos suas orações haviam sido rápidas, quase administrativas: proteção, saúde, trabalho, agradecimento.

Naquela madrugada não encontrou palavras.

Marta segurou sua mão.

Ele abaixou a cabeça.

Ficaram assim por algum tempo.

Não pediram a casa de volta.

Não pediram máquinas.

Não pediram dinheiro.

Samuel apenas agradeceu porque conseguia sentir a mão dela.

Quando amanheceu, a devastação ficou mais clara.

E mais feia.

O sol revelou paredes abertas, árvores arrancadas, carros amassados e pessoas caminhando entre aquilo que possuíam no dia anterior.

Samuel voltou à empresa.

Encontrou funcionários no estacionamento.

Alguns tinham perdido parte de suas casas e, mesmo assim, estavam ali.

— O que vocês estão fazendo?

Paulo respondeu:

— Viemos ver o que dá para salvar.

— Hoje ninguém precisa trabalhar.

— A gente sabe.

Outro funcionário levantou uma vassoura.

— Mas também não dá para ficar olhando.

Começaram.

Separaram ferramentas.

Cobriram equipamentos.

Retiraram água.

Um empresário vizinho emprestou uma empilhadeira. Um concorrente telefonou oferecendo espaço temporário num galpão.

Samuel estranhou.

— Você está oferecendo seu depósito para mim?

Do outro lado, o homem respondeu:

— Estou.

— Nós disputamos os mesmos clientes.

— Hoje estamos disputando telha.

Samuel riu pela primeira vez desde a tempestade.

Nas semanas seguintes, vieram seguradoras, engenheiros, orçamentos, bancos, documentos e uma quantidade impressionante de formulários exigindo que a destruição fosse descrita em campos pequenos.

A vida prática voltou depressa.

A casa começou a receber reparos.

A empresa reabriu parcialmente.

Algumas máquinas foram recuperadas.

Outras viraram sucata.

Certas fotografias secaram com manchas que nunca desapareceriam.

Samuel guardou assim mesmo.

Meses depois, um funcionário perguntou onde deveria colocar a primeira máquina nova comprada após a reconstrução.

Samuel caminhou pelo galpão.

O teto estava reparado.

As paredes tinham pintura recente.

Ainda havia marcas do temporal em alguns pontos.

— Coloca ali.

— Onde ficava a antiga?

— Exatamente.

O funcionário começou a empurrar o equipamento.

Samuel permaneceu observando.

Naquela noite, voltou para casa e encontrou Marta organizando fotografias recuperadas.

Ela segurava a imagem dos filhos diante da primeira oficina.

Estava manchada numa das bordas.

— Essa não ficou muito boa.

Samuel pegou a fotografia.

— Ficou ótima.

— Está toda marcada.

— Agora tem duas histórias.

Marta colocou-a num álbum novo.

Samuel abriu uma gaveta e encontrou a velha chave.

— Ainda guardando isso?

Ele sorriu.

— Algumas coisas.

Sentaram-se para jantar.

Do lado de fora começou a chover.

Samuel interrompeu o movimento do garfo.

Por alguns segundos, escutou apenas a água batendo no telhado novo.

Marta percebeu.

Estendeu a mão sobre a mesa.

Ele segurou.

A chuva continuou.

Na manhã seguinte, a empresa abriria normalmente. Haveria contas, clientes, máquinas, salários e problemas suficientes para ocupar o dia inteiro.

A casa ainda precisava de reparos.

Algumas perdas continuavam sem substituição.

Samuel sabia disso.

Na estante da sala, entre fotografias recuperadas, estava a imagem manchada da primeira oficina.

Ao lado dela, a velha chave.

Ele passou pelas duas antes de sair para trabalhar.

Dessa vez não levou nenhuma.

(Betto Gasparetto – ii – mmxxv)

O Último Giz

Posted in Coleção - Crônicas on 22 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Naquela segunda-feira, o professor Álvaro chegou à escola às sete e dez, cumprimentou o porteiro, assinou o livro de presença e entrou na sala dos professores com a mesma pasta de couro que carregava havia quase vinte anos.

Faltavam três semanas para sua aposentadoria.

A notícia já circulava pela escola, embora ele evitasse conversar sobre o assunto. Quando alguém perguntava o que faria depois, respondia com alguma brincadeira.

— Pretendo começar dormindo numa segunda-feira.

Depois mudava de assunto.

Naquela manhã, tinha duas aulas de História com uma turma do terceiro ano. Separou o diário, conferiu algumas anotações e procurou um pincel para quadro branco.

Não encontrou.

— Acabaram de novo? — perguntou.

Uma professora apontou para uma caixa no alto do armário.

— Acho que sobrou material antigo ali.

Álvaro abriu a caixa.

Havia apagadores gastos, réguas quebradas, mapas enrolados, duas caixas vazias e alguns pedaços de giz.

Pegou um branco, curto o suficiente para desaparecer entre os dedos.

— Sobreviveu.

A colega riu.

— Isso é peça de museu.

— Então combina comigo.

Foi para a sala.

Os alunos ainda conversavam quando ele entrou. Um terminava a tarefa de outra disciplina, dois discutiam futebol e uma menina procurava desesperadamente uma tomada para carregar o celular.

— Professor, hoje tem apresentação?

— Tem aula.

— É quase a mesma coisa?

— Para quem não estudou, pode ser pior.

Algumas risadas diminuíram o barulho.

Álvaro aproximou-se do quadro verde, que permanecia numa das paredes apesar de a sala possuir televisão, projetor e acesso à internet. Durante anos ninguém tivera coragem de retirá-lo. Servia para avisos, contas rápidas e, ocasionalmente, para professores que ainda gostavam de escrever.

Com o pequeno giz, colocou a data.

Depois escreveu:

O QUE FICA DA HISTÓRIA?

Um aluno levantou a mão.

— Isso cai na prova?

Álvaro virou-se.

— Provavelmente é a pergunta mais importante do bimestre e você quer saber se vale ponto.

— Se valer, fica mais importante.

— Argumento honesto.

A aula começou.

Álvaro falou sobre memória histórica, documentos, versões dos acontecimentos e aquilo que uma sociedade escolhe preservar ou esquecer. Enquanto explicava, o giz diminuía entre seus dedos.

Foi então que percebeu a coincidência.

Durante quase quarenta anos, escrevera em quadros como aquele.

No início da carreira, o giz era indispensável. Chegava em caixas com dezenas de unidades, e os professores terminavam o dia com as mãos brancas e pequenas manchas nas roupas. Havia giz amarelo, azul, verde e vermelho para destacar datas que os alunos copiavam em cadernos.

Depois chegaram os retroprojetores.

As transparências.

As televisões.

Os computadores.

Os projetores multimídia.

As plataformas digitais.

As apresentações.

As aulas remotas.

As telas interativas.

E o velho quadro foi ficando encostado na parede, testemunhando sua própria aposentadoria sem precisar preencher requerimento.

Álvaro continuou escrevendo.

Uma estudante perguntou:

— Professor, quando o senhor começou a dar aula, já tinha computador na escola?

A turma riu antes da resposta.

— Tinha energia elétrica também.

— Estou perguntando sério.

— No começo, não. Computador apareceu depois.

— E como vocês faziam pesquisa?

— Biblioteca.

— Só?

— Livros, jornais, revistas, enciclopédias.

Um rapaz no fundo arregalou os olhos.

— E se não achasse?

— A gente continuava procurando.

— Muito trabalhoso.

— A humanidade sobreviveu.

Outra estudante perguntou:

— O senhor preferia naquela época?

Álvaro pensou antes de responder.

— Algumas coisas eram melhores. Outras eram muito piores.

— Tipo?

— Hoje vocês conseguem consultar em segundos documentos que eu levava dias para localizar. Isso é extraordinário.

— E o que era melhor?

Ele olhou para a turma.

— O intervalo tinha mais gente olhando para a cara dos outros.

Alguns celulares desceram discretamente.

— Mas vocês também faziam besteira — comentou um aluno.

— Muito mais do que vocês imaginam. A diferença é que não havia câmera em todo lugar para guardar as provas.

A sala riu.

A conversa desviou para a escola de antigamente.

Álvaro contou sobre os mimeógrafos e o cheiro de álcool das provas recém-impressas. Falou dos mapas enormes pendurados nas paredes, das chamadas feitas em cadernetas e dos trabalhos escolares escritos à mão.

Os alunos perguntaram sobre suas primeiras turmas.

Ele tentou lembrar nomes.

Alguns vieram imediatamente.

Outros haviam desaparecido da memória.

Lembrou-se de uma estudante que chorara ao receber a primeira nota baixa e terminara o ano com a melhor média da turma. De um rapaz que dormia nas aulas porque trabalhava durante a madrugada. De outro que desaparecera durante meses e depois retornara para concluir os estudos.

Também lembrou dos erros.

Aulas que não funcionaram.

Discussões desnecessárias.

Alunos que julgara preguiçosos antes de conhecer os problemas que enfrentavam em casa.

Houve um tempo em que acreditava que experiência significava errar menos. Depois descobriu que significava, principalmente, reconhecer alguns erros mais depressa.

— Professor — perguntou uma menina —, o senhor já sabe quantos alunos teve?

— Não.

— Mais de mil?

— Muito mais.

— Cinco mil?

Álvaro tentou calcular.

Desistiu.

— Espero que nenhum esteja me procurando para reclamar de nota.

O giz estava agora tão pequeno que mal conseguia segurá-lo.

Um aluno percebeu.

— Professor, pega outro.

Álvaro olhou para o pedaço entre os dedos.

— Acho que esse dá.

Continuou.

Escreveu no quadro três palavras que resumiam a discussão:

MEMÓRIA – ESCOLHA – TEMPO

Na última palavra, o giz quebrou.

Uma metade caiu no chão.

A outra permaneceu entre seus dedos.

Álvaro abaixou-se para pegar o fragmento.

Por algum motivo, guardou-o no bolso da camisa.

O sinal tocou.

Os alunos começaram a recolher os materiais.

— Semana que vem tem prova? — perguntou alguém.

— Tem.

Vieram os protestos.

— Professor, o senhor vai se aposentar e ainda vai deixar prova?

— Pretendiam que eu deixasse uma herança?

A turma saiu rindo.

Álvaro apagou o quadro.

As palavras desapareceram sob o apagador, deixando apenas uma poeira branca espalhada pela superfície verde.

Na sala dos professores, encontrou uma funcionária carregando caixas de material novo.

— Chegaram os pincéis — disse ela.

— Agora?

— Pedido atrasou.

Álvaro pegou um.

Novo, embalado, ponta perfeita.

Colocou sobre a mesa.

No intervalo, uma professora perguntou:

— Está contando os dias?

— Todo mundo pergunta isso.

— E está?

Ele abriu a agenda.

Na página daquele dia havia compromissos, números de turmas, observações sobre conteúdos e uma anotação para devolver um livro.

— Ainda não.

As três semanas passaram depressa.

No último dia, houve bolo na sala dos professores, fotografias, abraços e discursos que o deixaram mais constrangido do que gostaria. Recebeu uma placa, uma caneta e um álbum com mensagens de colegas e alunos.

Quando todos foram embora, Álvaro voltou sozinho à sala onde dera a última aula.

O quadro estava limpo.

Sobre uma carteira havia uma caneta esquecida e, no chão, uma folha de caderno amassada.

Nada solene.

Apenas uma sala esperando a próxima turma.

Sentou-se por alguns minutos.

Depois lembrou do pequeno pedaço de giz.

Ainda estava no bolso interno da pasta desde aquela aula.

Retirou-o.

Poderia levá-lo para casa.

Talvez colocá-lo junto da placa de homenagem, das fotografias e dos outros objetos que, com o tempo, acabariam numa gaveta.

Em vez disso, aproximou-se do quadro.

Pensou em escrever alguma frase bonita.

Uma despedida.

Uma data.

Talvez o próprio nome.

Não escreveu.

Colocou o pequeno giz na canaleta do quadro e fechou a pasta.

Na porta, encontrou uma professora recém-contratada carregando livros e um notebook.

— Professor Álvaro?

— Sim?

— Desculpe. Disseram que o senhor conhece muito bem as turmas do terceiro ano. Vou assumir algumas delas no próximo período.

— Meus sentimentos.

Ela riu.

— Algum conselho?

Álvaro olhou para a sala.

Quase respondeu.

Depois achou melhor não.

— Conheça a turma primeiro.

A professora agradeceu e entrou.

Álvaro seguiu pelo corredor.

Antes de virar a esquina, ouviu:

— Professor!

Era ela.

— Esse giz é seu?

Álvaro olhou para trás.

A professora segurava o pequeno pedaço branco.

— Não — respondeu. — Pode usar.

Ela examinou o fragmento e sorriu.

— Acho que ainda dá para escrever alguma coisa.

Álvaro concordou com a cabeça e continuou andando.

Atrás dele, ouviu o giz riscando o quadro.

Não voltou para ver o que ela estava escrevendo.

(Betto Gasparetto – ii – mmxiv)

Eu, na Praça de Alimentação

Posted in Coleção - Crônicas on 21 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)


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Às três e quarenta da tarde, a praça de alimentação tinha aquele movimento indefinido entre o almoço atrasado e o café antecipado. Algumas mesas permaneciam ocupadas por famílias carregadas de sacolas; adolescentes dividiam batatas fritas enquanto olhavam os celulares; funcionários das lojas aproveitavam os últimos minutos do intervalo; crianças negociavam sobremesas com os pais em condições que nenhum adulto sensato aceitaria fora dali.

Ricardo procurava apenas um lugar para sentar.

Tinha cinquenta e dois anos, trabalhava havia quase três décadas na mesma empresa e acabara de sair de uma reunião que durara quarenta minutos e conseguira resumir vinte e sete anos de trabalho em poucas frases cuidadosamente escolhidas.

Reestruturação.

Adequação de custos.

Novo posicionamento.

Agradecimento pela contribuição.

Quando entrou no shopping, ainda carregava numa pasta o documento da demissão.

Não pretendia comprar nada. Também não estava com fome. Entrara porque começou a chover e porque não queria voltar imediatamente para casa.

Ainda não sabia como contaria à esposa.

Escolheu uma mesa próxima ao vidro, colocou a pasta sobre uma cadeira e percebeu que havia um livro na outra.

Olhou em volta.

Ninguém parecia procurá-lo.

Pegou o volume.

A capa dizia:

EU E OUTRAS POESIAS — AUGUSTO DOS ANJOS

Conhecia o nome do poeta das aulas de literatura, muitos anos antes. Lembrava vagamente de palavras difíceis, morte, matéria, vermes e de um professor tentando convencer adolescentes de dezesseis anos de que havia beleza naquilo.

Folheou algumas páginas.

O livro era usado. Havia marcas de leitura, pequenos sinais a lápis e uma dobra antiga perto do final. Nada que identificasse o proprietário.

Ricardo chamou uma funcionária da limpeza.

— Alguém esqueceu este livro aqui?

Ela olhou.

— Quando limpei a mesa, ele já estava aí.

— Tem achados e perdidos?

— No atendimento ao cliente, no piso de baixo.

Ricardo agradeceu.

Poderia ter levado o livro imediatamente.

Mas pediu um café primeiro.

Enquanto esperava, tornou a folhear.

Foi quando caiu um pequeno papel dobrado.

Ricardo recolheu-o do chão.

Era um bilhete manuscrito.

Na parte superior havia uma passagem identificada como pertencente a Versos Íntimos:

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.”

Abaixo, em outra letra ou talvez escrita com outra caneta:

“Talvez algumas coisas precisem terminar para que outras encontrem lugar para nascer.”

Ricardo continuou lendo:

“Se este livro chegou às suas mãos, não tenha pressa em devolvê-lo.

Leia primeiro.

Depois você entenderá por que o deixei aqui.”

Ele olhou novamente ao redor.

A praça continuava funcionando.

Uma criança chorava porque deixara cair o sorvete. Um casal discutia diante de uma bandeja. Dois estudantes dividiam um refrigerante. Um homem falava tão alto ao telefone que várias mesas já conheciam os problemas de sua empresa.

Ninguém observava Ricardo.

Leu o bilhete outra vez.

A coincidência o incomodou.

Naquela manhã, ainda possuía cargo, sala, equipe e senha de acesso a sistemas que conhecia melhor do que muita gente que permaneceria na empresa. Às duas da tarde, entregara o crachá.

Agora um poeta morto havia mais de um século falava de uma quimera enterrada.

— Muito engraçado — murmurou.

O rapaz da mesa ao lado olhou para ele.

Ricardo fingiu estar falando ao telefone.

Tomou o café e começou a ler.

Não seguiu a ordem das páginas. Passava de um poema a outro, voltava, relia alguns versos e abandonava outros pela metade. Augusto dos Anjos não oferecia o tipo de companhia que alguém escolheria para melhorar o humor. Havia angústia, decomposição, solidão, desencanto e uma linguagem que parecia colocar o ser humano diante de coisas que normalmente preferia deixar escondidas.

Curiosamente, Ricardo continuou.

Talvez porque também não estivesse procurando consolo.

Passara anos acreditando que sua vida profissional seguia uma linha razoavelmente previsível. Trabalharia, avançaria, envelheceria dentro da empresa e, quando chegasse a hora, sairia pela porta com alguma homenagem, um relógio, talvez uma placa.

Não aconteceu.

Recebeu uma reunião agendada no calendário e uma pasta.

Percebeu então que sua irritação não vinha apenas da perda do emprego.

Havia perdido uma versão do futuro que considerava garantida.

O celular vibrou.

Era a esposa.

“Vai demorar?”

Ricardo começou a escrever:

“Precisamos conversar.”

Apagou.

Tentou novamente:

“Estou no shopping.”

Apagou também.

Por fim escreveu:

“Chego às cinco. Vamos tomar um café juntos?”

A resposta veio logo:

“Claro. Aconteceu alguma coisa?”

Ele olhou para a pasta.

“Aconteceu.”

Guardou o celular.

Continuou lendo.

Quase uma hora havia passado quando se lembrou do achados e perdidos.

Fechou o livro.

O bilhete dizia para não ter pressa em devolvê-lo, mas talvez aquilo fosse apenas uma brincadeira do antigo dono. Ou uma maneira estranha de abandonar um objeto sem sentir que o estava jogando fora.

Desceu até o atendimento.

A funcionária recebeu o livro, examinou a capa e perguntou:

— Encontrou onde?

— Na praça de alimentação.

Ela abriu um formulário.

— Seu nome?

Ricardo respondeu.

— Telefone?

Informou.

A funcionária colocou uma etiqueta no livro.

Ele observou.

Sentiu-se incomodado.

— Quanto tempo vocês guardam?

— Objetos não reclamados ficam aqui por um período e depois seguem o procedimento interno.

— Entendi.

Deu alguns passos.

Voltou.

— Posso ver o livro mais uma vez?

A atendente estranhou, mas entregou.

Ricardo abriu na primeira página.

Havia uma inscrição que não percebera antes, escrita bem perto da lombada:

“Não estou perdido.”

Ele mostrou à funcionária.

— Acho que esse livro não foi esquecido.

Ela leu.

— Então por que deixaram na mesa?

— Estou começando a achar que justamente para alguém pegar.

— E esse alguém seria o senhor?

Ricardo olhou para o livro.

— Pelo jeito, fui o primeiro a sentar.

A atendente sorriu.

— Tecnicamente continua sendo um objeto encontrado.

— A burocracia venceu a poesia.

— Normalmente vence.

Os dois riram.

Ricardo deixou seu telefone e combinou que, caso ninguém reclamasse o livro dentro do prazo estabelecido, gostaria de ser avisado.

Saiu do shopping sem ele.

Em casa, contou à esposa sobre a demissão.

Não conseguiu fazer um discurso sereno. Ficou irritado novamente. Disse que fora injusto, que havia dedicado anos demais à empresa, que não sabia o que faria aos cinquenta e dois.

Ela ouviu.

Quando ele terminou, perguntou:

— E amanhã?

— Amanhã o quê?

— O que você vai fazer?

Ricardo não sabia.

Pela primeira vez em muitos anos, sua agenda estava vazia.

Nas semanas seguintes, enviou currículos. Reencontrou antigos colegas. Descobriu que algumas pessoas que imaginava bem-sucedidas também haviam sido demitidas, recomeçado, fracassado, mudado de área ou simplesmente aprendido a viver com menos certezas.

Começou ainda um curso que adiava havia anos.

Não houve transformação milagrosa.

Continuava preocupado com dinheiro.

Sentia falta da rotina.

Em alguns dias acordava animado; em outros, passava a manhã inteira convencido de que ninguém contrataria um profissional de sua idade.

Quarenta e três dias depois, recebeu uma ligação do shopping.

Ninguém havia procurado o livro.

Ricardo foi buscá-lo.

Naquela tarde, sentou-se na mesma praça de alimentação e pediu o mesmo café.

Abriu o exemplar.

O bilhete continuava lá.

Leu novamente a frase sobre o fim e o nascimento das coisas. Dessa vez, achou-a otimista demais.

Sorriu.

Pegou uma caneta.

No verso do papel escreveu:

“Nem tudo o que termina abre imediatamente espaço para alguma coisa. Às vezes sobra apenas um espaço vazio, e precisamos descobrir o que fazer com ele.”

Pensou um pouco e acrescentou:

“Li. Ainda não entendi tudo.”

Guardou o bilhete dentro do livro.

Durante alguns meses, o exemplar permaneceu em sua casa. Ricardo leu poemas, pesquisou sobre Augusto dos Anjos e voltou várias vezes às páginas que inicialmente lhe pareciam mais estranhas.

Conseguiu trabalho em outra empresa.

Menor.

Salário um pouco inferior.

Cargo diferente.

No primeiro dia, sentiu-se novamente um iniciante, sensação que não experimentava havia quase trinta anos.

Não gostou muito.

Depois gostou um pouco.

Certo sábado, voltou ao mesmo shopping com a esposa.

Almoçaram.

Antes de ir embora, Ricardo retirou da mochila o velho exemplar de Eu e Outras Poesias.

— Vai fazer o quê? — ela perguntou.

— Ainda não sei.

Escolheu uma mesa vazia próxima ao vidro.

Colocou o livro sobre uma cadeira.

— Você vai abandonar?

— Não estava perdido quando encontrei.

— E agora?

Ricardo olhou para a capa.

— Continua não estando.

A esposa balançou a cabeça.

— Espero que o próximo entenda essa lógica.

— Eu demorei meses.

Os dois caminharam em direção à saída.

Antes de chegar à escada rolante, Ricardo olhou para trás.

Uma jovem usando uniforme de uma das lojas procurava lugar para sentar. Carregava uma bandeja numa mão e o celular na outra.

Viu a mesa vazia.

Sentou-se.

Afastou o livro para colocar a bandeja.

Depois reparou na capa.

Pegou-o.

Abriu.

Ricardo poderia ter esperado para ver o que aconteceria.

Não esperou.

Desceu a escada rolante ao lado da esposa.

Na praça de alimentação, a jovem encontrou o bilhete entre as páginas.

Agora havia três vozes naquele pedaço de papel.

A de Augusto dos Anjos.

A de alguém que Ricardo nunca conhecera.

E a dele.

Ainda sobrava espaço no verso.

(Betto Gasparetto – vi – mmxxiv)

Um Sonho de Papel

Posted in Coleção - Crônicas on 20 de agosto de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)


By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A abordagem aconteceu pouco depois das dez da manhã, numa avenida movimentada onde ninguém parecia ter tempo para reparar nos outros.

Álvaro e Teresa caminhavam devagar, aproveitando o sol depois de uma semana de chuva. Ambos aposentados, tinham ido ao centro resolver assuntos no banco, comprar medicamentos e almoçar num restaurante onde dividiam o mesmo prato havia anos, mais por hábito do que por economia.

Foi perto de uma banca de jornais que uma jovem se aproximou.

— Desculpem incomodar. Os senhores sabem onde fica uma agência da loteria por aqui?

Ela aparentava pouco mais de trinta anos. Estava acompanhada de um rapaz que segurava uma pasta transparente. Pareciam nervosos.

Teresa apontou para o outro lado da avenida.

— Tem uma duas quadras abaixo.

A jovem agradeceu, mas não saiu.

— É que aconteceu uma coisa e nós não sabemos direito o que fazer.

O rapaz retirou da pasta um bilhete de loteria e um papel dobrado.

— Parece que ganhamos trezentos mil reais.

Álvaro olhou para Teresa.

— “Parece”?

— Nós conferimos duas vezes — respondeu a jovem. — Mas não conseguimos receber agora.

A história veio aos poucos.

O casal dizia ser de outra cidade. O filho estava internado e precisava passar por uma cirurgia. Havia despesas hospitalares urgentes. Por problemas documentais e bancários, não conseguiriam retirar imediatamente o prêmio.

— Precisamos de trinta mil — disse o rapaz. — Só isso. Se os senhores puderem nos ajudar, ficam com o bilhete e recebem os trezentos mil.

Teresa franziu a testa.

— Vocês querem trocar trezentos por trinta?

A jovem começou a chorar.

— Eu quero meu filho operado.

Foi essa frase que mudou a conversa.

Álvaro e Teresa tinham dois filhos e três netos. Conheciam o medo de esperar notícias em corredor de hospital. Teresa segurou discretamente o braço do marido.

Ainda assim, Álvaro desconfiou.

— Se o bilhete vale tudo isso, por que não procuram o banco?

O rapaz apresentou documentos, comprovantes e um número de telefone que, segundo ele, pertencia ao hospital. Ligaram. Uma pessoa confirmou parte da história.

Depois telefonaram para um número indicado como central da loteria. Outra voz confirmou que o bilhete correspondia a um prêmio.

Tudo parecia encaixar.

Rápido demais, talvez.

Mas a pressa costuma ser uma excelente inimiga da dúvida.

No banco, Teresa ainda hesitou.

— Álvaro, é muito dinheiro.

Ele sabia.

Trinta mil reais eram parte importante das economias acumuladas durante anos. Não os tornariam ricos, mas representavam tranquilidade para emergências, reparos na casa e despesas que a aposentadoria nem sempre acompanhava.

A jovem segurava o bilhete com as duas mãos.

— Eu não pediria se não fosse pelo meu menino.

Teresa olhou para Álvaro.

Ele autorizou a transferência.

O rapaz entregou o bilhete.

Abraçou os dois.

A jovem chorou novamente.

— Vocês salvaram nosso filho.

Saíram do banco juntos, mas se separaram na esquina. O casal jovem seguiria para o hospital. Álvaro e Teresa iriam verificar como receber o prêmio.

Antes de partir, o rapaz repetiu:

— Nunca vamos esquecer o que fizeram.

Duas horas depois, Álvaro desejaria que aquela frase tivesse sido verdade.

Na agência indicada para o resgate, a atendente examinou o bilhete por tempo demais.

Chamou outro funcionário.

Depois um supervisor.

— Há algum problema? — perguntou Teresa.

O supervisor pediu que aguardassem.

Minutos depois, dois policiais entraram.

Álvaro sentiu as pernas enfraquecerem.

O bilhete era falso.

Não apenas falso. Fazia parte de uma sequência de documentos semelhantes apreendidos em investigações de golpes contra idosos.

Teresa começou a chorar.

Dessa vez não havia ninguém tentando convencê-la de nada.

Na delegacia, contaram a história inteira. A transferência bancária, os telefonemas, o hospital, a criança, os documentos.

— Eles sabiam exatamente o que dizer — repetia Álvaro.

Um investigador respondeu:

— É assim que funciona. Não vendem um bilhete. Vendem uma urgência.

O dinheiro já havia sido movimentado para outra conta.

Naquela noite, os telejornais divulgaram imagens captadas por câmeras de segurança. Uma delas mostrava Álvaro recebendo o bilhete. Outra registrava Teresa conversando com a jovem.

A reportagem anunciou que a polícia investigava um grupo especializado no chamado golpe do bilhete premiado.

No dia seguinte, uma manchete em um portal local provocou ainda mais confusão:

POLÍCIA IDENTIFICA CASAL LIGADO A GOLPE DE FALSO PRÊMIO

A fotografia usada era justamente a de Álvaro e Teresa.

O texto explicava que eles eram vítimas e colaboravam com a investigação.

Muita gente não passou do título.

O telefone começou a tocar.

Uma vizinha perguntou discretamente se “aquilo era verdade”. Um conhecido encaminhou a reportagem no grupo do condomínio. Alguém escreveu que nunca imaginara uma coisa dessas “da parte deles”.

Teresa desligou o celular.

— Além de perder dinheiro, agora somos golpistas.

Álvaro tentou brincar:

— Pelo menos subimos de profissão depois da aposentadoria.

Ela não riu.

Nos dias seguintes, quase não saíram.

A vergonha era estranha porque não haviam cometido crime algum. Mesmo assim, Teresa repassava cada minuto daquela manhã tentando descobrir em que momento deveria ter percebido.

— Eu sabia que estava errado.

— Não sabia.

— Desconfiei.

— Eu também.

— Então por que fizemos?

Álvaro não respondeu.

Essa pergunta era pior do que perder os trinta mil.

Uma semana depois, o investigador telefonou.

Havia novidades.

O casal suspeito fora localizado.

Teresa sentou-se.

— Recuperaram o dinheiro?

— Parte dos valores foi bloqueada. Ainda estamos verificando.

Foram novamente à delegacia.

Lá souberam que a jovem e o rapaz haviam aplicado golpes semelhantes em outras cidades. Usavam nomes falsos, documentos preparados e comparsas que atendiam aos telefonemas confirmando histórias inventadas.

Mas havia algo inesperado.

Durante a prisão, a polícia encontrou no celular da jovem diversas mensagens relacionadas a uma criança internada.

A história do filho não era inteiramente falsa.

Ela realmente tinha um menino de sete anos em tratamento hospitalar.

A cirurgia também existia.

O valor de trinta mil, não.

O procedimento era realizado pelo sistema público e não dependia daquele pagamento.

Teresa ficou imóvel.

— Então o menino está doente?

— Está — respondeu o investigador. — Mas foi usado para dar credibilidade ao golpe.

No caminho para casa, nenhum dos dois falou muito.

Teresa parecia especialmente perturbada.

— Eu preferia que tudo fosse mentira.

Álvaro entendeu.

Era mais fácil odiar uma história inventada do que descobrir uma criança verdadeira escondida dentro dela.

Alguns dias depois, parte do dinheiro foi recuperada por bloqueio judicial. O restante dependeria do processo.

A imprensa publicou uma correção mais clara sobre Álvaro e Teresa. O condomínio voltou aos assuntos habituais. O grupo de mensagens abandonou o caso e retomou reclamações sobre garagem, cachorro e taxa de manutenção.

A vida tinha pressa para encontrar outra notícia.

Cerca de um mês depois, Teresa recebeu uma ligação.

Era uma assistente social do hospital.

Perguntou se ela conhecia uma mulher chamada Daniela.

Teresa reconheceu o nome verdadeiro da jovem presa.

— Infelizmente.

A assistente explicou que a criança continuava internada e estava temporariamente sob os cuidados da avó. Durante uma conversa, o menino mencionara “um casal que ajudou minha mãe quando ela estava desesperada”.

Teresa apertou o telefone.

— Ele sabe o que aconteceu?

— Não tudo.

— E a cirurgia?

— Correu bem.

Teresa fechou os olhos.

Agradeceu pela informação e desligou.

Naquela noite contou a Álvaro.

Ele permaneceu alguns segundos olhando para a televisão desligada.

— Então pelo menos o menino está bem.

— Está.

— Ainda quero nosso dinheiro de volta.

— Eu também.

Os dois riram, finalmente.

Meses depois, o processo continuava.

Uma parte do dinheiro retornara à conta. Outra permanecia bloqueada. Havia audiências, documentos e prazos que pareciam multiplicar-se sozinhos.

Certa manhã, Teresa encontrou no correio um envelope sem remetente.

Dentro havia uma folha de caderno dobrada.

Um desenho mostrava quatro pessoas diante de um prédio grande. Uma delas era pequena e segurava um balão azul. Embaixo, com letras irregulares, estava escrito:

“Obrigado por querer ajudar.”

Não havia pedido de desculpas.

Nenhuma explicação.

Nenhuma promessa.

Apenas o desenho.

Álvaro leu duas vezes.

— Foi o menino?

— Acho que sim.

— Como conseguiu nosso endereço?

— Não sei.

Ele virou a folha procurando alguma coisa no verso.

Nada.

Teresa guardou o desenho na gaveta da sala.

Não junto dos documentos do processo.

Nem dos comprovantes bancários.

Colocou-o entre fotografias antigas da família.

O bilhete falso ficou com a polícia como prova.

Às vezes Álvaro ainda pensava nos trinta mil reais. Teresa também.

Nenhum dos dois voltou a conversar com desconhecidos sobre dinheiro na rua.

Mas, quando passavam pela mesma avenida onde tudo começara, Teresa diminuía o passo perto da antiga banca de jornais.

Não procurava o casal.

Não esperava recuperar nada.

Talvez tentasse apenas localizar o ponto exato em que uma boa intenção havia se confundido com uma mentira.

Nunca conseguiu.

A avenida continuava cheia demais.

(Betto Gasparetto – iii – mmiv)