Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 41/49)

Posted in Sem categoria on 2 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 5 — A Geometria das Ausências

Trilha: Erik Satie — Gnossienne No.1

(Betto Gasparetto)

Capítulo 41 —  Os Relógios

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning


Naquela tarde, Nikola desapareceu novamente.

Não completamente.

Apenas do modo habitual das crianças:

sumiu durante tempo suficiente para provocar inquietação.

Foi encontrado perto da oficina antiga.

E não estava sozinho.

Ali estava Franz Adler, relojoeiro da aldeia.

Homem magro.

Cabelos grisalhos.

Olhos atentos.

Movimentos lentos.

Possuía mãos de quem passara a vida desmontando mecanismos e reorganizando tempos.

Nikola observava pequenos relógios sobre a mesa.

Franz ajustava peças.

Silêncio.

Até Nikola perguntar:

— O senhor conserta horas?

Franz sorriu.

Muito discretamente.

— Às vezes.

Silêncio.

Depois:

— Outras vezes descubro que elas foram quebradas de propósito.

Silêncio.

Nikola franziu a testa.

Franz abriu pequena caixa.

Dentro:

peças antigas.

Engrenagens.

Relógios de bolso.

E registros.

Muitos.

Nikola aproximou-se.

Silêncio.

Franz retirou pequeno caderno.

Folheou.

Parou.

Longamente.

Depois:

— Curioso.

Nikola:

— O quê?

Silêncio.

Franz mostrou página.

Havia anotações.

Datas.

Horários.

E comentários.

Muito antigos.

Muito.

Num deles:

“Relógios principais do Solar adiantados em 47 minutos.”

Silêncio.

Mais abaixo:

“Ordem recebida diretamente da família.”

Nikola não compreendeu.

Mas Franz sim.

Muito.

Porque durante anos percebera algo estranho:

certas noites no Solar pareciam possuir horas falsas.

Silêncio.

E então retirou outro papel.

Na margem: GY

E abaixo:

“Algumas mentiras exigem tempo alterado.”

Silêncio absoluto.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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 Próximo Capítulo: 42

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 5 – Cap 40/49)

Posted in Sem categoria on 1 de junho de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 5 — A Geometria das Ausências

Trilha: Gabriel Fauré — Sicilienne

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 40 —  Um Encontro Diferente à Mesa

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na manhã seguinte, o Solar acordou em silêncio excessivo.

Silêncios normais pertencem às primeiras horas do dia.

Aquele não.

Aquele possuía peso.

Parecia atravessar portas, infiltrar-se entre cortinas, acomodar-se sobre pratos e cadeiras como uma presença que ninguém convidara, mas todos reconheciam.

O céu permanecia cinzento.

A tempestade diminuíra.

Mas a neve agora cobria quase completamente os jardins, as esculturas externas, os caminhos e parte das janelas inferiores.

O mundo desaparecera.

Restara apenas o Solar.

E, pela primeira vez desde a chegada dos hóspedes, alguns começaram a perceber a violência dessa constatação.

Porque confinamentos prolongados produzem fenômeno curioso:

as pessoas deixam de olhar para fora.

E passam a olhar umas para as outras.

O salão de desjejum fora preparado com cuidado habitual.

Pratas.

Porcelanas.

Compotas.

Pães.

Frutas.

Chocolate quente.

Café.

Mas os lugares à mesa pareciam diferentes.

Ninguém sentava onde sentara dias antes.

Mudanças pequenas.

Mudanças perigosas.

Lukas sentara-se distante do pai.

Marguerite evitara proximidade com Clara.

Helena Dubois escolhera lugar próximo à janela.

Émile Laurent permanecia perto de Sophie.

Lucia Bianchi observava todos.

Sebastian Krüger parecia escrever mentalmente.

Anika atravessava discretamente o salão supervisionando criados.

E Nikola permanecia próximo dela.

Silêncio.

Foi Katarina Varga quem falou:

— Estranho.

Todos ergueram os olhos.

Ela tomou café lentamente.

Depois:

— Ninguém mencionou Adrien.

Silêncio absoluto.

Talheres pararam.

Pequenos movimentos cessaram.

Porque às vezes uma pergunta simples produz terremotos elegantes.

Clara fechou os olhos.

Marguerite desviou o rosto.

Helena Dubois observou a mesa.

Alaric permaneceu imóvel.

Longa pausa.

Depois:

— Não há razão para discutir nomes desconhecidos.

A voz veio de Alaric.

Muito calma.

Excessivamente calma.

Katarina sorriu pouco.

Muito pouco.

— Curioso.

Silêncio.

— Pessoas normalmente não proíbem assuntos irrelevantes.

Silêncio absoluto.

Lukas ergueu os olhos.

Émile também.

Porque a frase não fora ataque.

Pior.

Fora observação.

E observações possuem talento especial para permanecer.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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 Próximo Capítulo: 41

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 39/39)

Posted in Sem categoria on 31 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 4 — O Salão Nobre

Trilha: Sergei Rachmaninoff — Vocalise

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 39 — Uma Rosa Fria

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O vento sopra forte. Uma rosa fria repousa no chão frio de alguém.

Naquela noite todos estavam presentes.

Todos.

O salão principal encontrava-se iluminado por dezenas de velas.

As lareiras queimavam.

Do lado externo a tempestade reaparecera.

Mais forte.

Muito mais.

Vento.

Neve.

Escuridão.

Parecia que o mundo havia desaparecido além das paredes do Solar.

A mesa do jantar permanecia posta.

Mas ninguém realmente jantava.

Conversavam pouco.

Observavam demais.

E Sophie percebeu.

Sophie sempre percebia.

Olhou:

Clara evitava Marguerite.

Marguerite evitava Alaric.

Helena evitava perguntas.

Émile evitava fotografias.

Lukas evitava o pai.

E Alaric

Alaric evitava a si mesmo.

Silêncio.

Até que Nikola entrou correndo.

Outra vez.

Ofegante.

Segurando papel dobrado.

Anika levantou-se imediatamente.

— Nikola!

Mas o menino parou.

Olhou todos.

Depois:

— Achei perto da oficina.

Silêncio.

Entregou a Helena Dubois.

Ela abriu.

Leu.

Empalideceu.

Muito.

Silêncio absoluto.

Clara levantou-se.

— O que houve?

Helena permaneceu imóvel.

Longamente.

Depois entregou a folha para Alaric.

Silêncio.

Ele leu.

E pela primeira vez desde a chegada dos hóspedes perdeu a cor completamente.

Porque no papel havia apenas: GY

E abaixo:

“O PRIMEIRO INVERNO COMEÇOU COM UMA CRIANÇA.”

Silêncio.

Mais abaixo:

“Perguntem a Adrien.”

Silêncio absoluto.

Nenhum som.

Nenhum.

Porque aquele nome nunca fora pronunciado.

Nunca.

Nunca diante de todos.

Marguerite deixou a taça cair.

Clara fechou os olhos.

Helena Dubois recuou.

Émile levantou lentamente a cabeça.

E Alaric

Alaric sussurrou algo.

Baixo.

Tão baixo que quase ninguém ouviu.

Quase.

Mas Sophie ouviu.

E escreveu imediatamente:

“Ele não perguntou quem era Adrien.”

Pausa.

Mais uma.

“Ele perguntou: quem escreveu isso?”

Silêncio.

E parece que tudo terminou, parece sem dúvidas que terminou…

Porque naquela noite todos compreenderam algo:

algumas pessoas desaparecem.

Outras são apagadas.

E existe uma diferença terrível entre as duas coisas.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Episódio: 5

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 38/39)

Posted in Sem categoria on 30 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Edvard Grieg — Morning Mood

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 38 — O Estábulo

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na madrugada seguinte Lukas deixou o Solar.

Precisava respirar.

Ou fugir.

Naquele momento já não distinguia.

Atravessou corredores silenciosos.

Desceu escadas.

Vestiu casaco.

Saiu.

A neve alcançava parte das botas.

Os jardins pareciam irreais.

Brancos.

Imóveis.

Distantes.

No estábulo encontrou Elise Bauer.

Ela acariciava lentamente um cavalo escuro.

Não se assustou ao vê-lo.

Como se soubesse.

Silêncio.

Longo.

Lukas aproximou-se.

— Veio cedo.

Elise sorriu pouco.

— Os animais ficam inquietos quando as pessoas mentem demais.

Silêncio.

Lukas quase sorriu.

Quase.

Depois:

— Então deveriam ter fugido da casa há muitos anos.

Elise baixou os olhos.

O cavalo aproximou-se lentamente.

Cheirou Lukas.

Depois encostou a cabeça nele.

Silêncio.

Elise observou.

Longamente.

— Estranho.

Lukas:

— O quê?

Silêncio.

Ela aproximou-se.

Passou a mão no animal.

Depois:

— Ele faz isso apenas com pessoas que já viu antes.

Silêncio absoluto.

Lukas franziu a testa.

— Impossível.

Silêncio.

Elise olhou o cavalo.

Depois Lukas.

Depois:

— Talvez.

Mais silêncio.

Mas alguma coisa mudou.

Porque naquele instante Lukas recordou algo.

Muito pequeno.

Muito distante.

Cheiro de feno.

Chuva.

Um celeiro.

Mãos pequenas.

E uma voz feminina:

“Corra.”

Silêncio.

E a lembrança desapareceu antes de tornar-se inteira.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 39

Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 37/39)

Posted in Sem categoria on 29 de maio de 2026 by Prof Gasparetto

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Antonín Dvořák — Serenade for Strings, II Tempo di Valse

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 37 — A Sauna Romana

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na ala sul do Solar havia um ambiente raramente mencionado aos visitantes.

A antiga sauna romana.

Construída décadas antes por um ancestral fascinado por arquitetura clássica, permanecia revestida em mármore escuro, colunas baixas, mosaicos antigos e pequenas luminárias embutidas nas paredes curvas. O vapor aquecia o ambiente lentamente, criando uma névoa suave que deformava contornos e tornava os rostos menos precisos.

Talvez por isso os homens da casa gostassem daquele lugar.

Ali expressões desapareciam.

E expressões costumam denunciar mais do que palavras.

Naquela noite encontravam-se ali:

Alaric von Eichenwald.
Émile Laurent.
Matteo Ricci.
Sebastian Krüger.
E pouco depois Lukas.

Nenhum falava.

O som da água.

O estalar discreto do vapor.

Respirações.

Silêncio.

Foi Matteo quem rompeu:

— O frio piorou a senhora Clara.

Silêncio.

Alaric permaneceu imóvel.

Émile observava a água.

Sebastian fechara os olhos.

Matteo insistiu:

— Ela não precisa apenas de remédios.

Silêncio.

Mais um.

— Precisa de paz.

Longa pausa.

Alaric respondeu:

— Paz não é tratamento médico.

Matteo ergueu os olhos.

— Não.

Silêncio.

Depois:

— Mas a ausência dela produz doenças extraordinariamente previsíveis.

Silêncio absoluto.

Porque Matteo falava de Clara.

Mas não apenas.

Émile sorriu discretamente.

Triste.

Muito.

Depois:

— Algumas doenças começam quando alguém passa tempo demais vivendo uma vida que pertence a outras pessoas.

Silêncio.

Lukas ergueu lentamente os olhos.

Porque aquela frase lhe atingira de modo cruel.

Alaric observou Émile.

Longamente.

Muito.

E pela primeira vez em dias não havia cordialidade no olhar.

Nem disfarce.

Nem hospitalidade.

Apenas passado.

E vapor.

Muito vapor.

Porque existem ambientes construídos para relaxar.

E outros construídos para impedir que pessoas se matem.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 38