(Betto Gasparetto)

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Prefácio
Escrevi estes sonetos num tempo em que tudo parece rápido demais — as notícias, os vínculos, as certezas. Vivemos sob uma lógica que valoriza o imediato e descarta o que não se sustenta por utilidade. O amor, muitas vezes, é tratado como consumo; a dor, como inconveniente; o silêncio, como falha de comunicação.
Foi nesse cenário que comecei a perceber que as experiências mais transformadoras da minha vida foram justamente aquelas que não duraram. A ausência não me enfraqueceu — obrigou-me a pensar. A despedida não me esvaziou — ensinou-me limites. O inacabado não me diminuiu — tornou-me mais atento.
Dante atravessou sombras para compreender a própria condição humana. T. S. Eliot escreveu sobre a fragmentação moderna. Virginia Woolf mostrou que a consciência é feita de instantes delicados e intensos. Hermann Hesse reconheceu que a dor pode amadurecer o espírito. Camus defendeu a lucidez em meio ao absurdo. Clarice Lispector viu na liberdade um gesto íntimo de responsabilidade. Simone Weil falou de um amor que não reivindica posse.
Esses autores me acompanham não como autoridades, mas como testemunhas de que a experiência humana é mais profunda do que o ritmo do mundo sugere.
Os claustros, as cidades, os campos, os labirintos que surgem nestes poemas são também espaços sociais. São lugares onde a pressa, a solidão urbana, a fragilidade dos vínculos e o excesso de ruído convivem com a necessidade silenciosa de sentido.
Aprendi que amar, hoje, é também resistir à superficialidade. É não transformar o outro em objeto. É não confundir intensidade com espetáculo. É aceitar a perda sem ceder ao cinismo.
Escrevi estes sonetos como forma de desacelerar. Como tentativa de dar espessura ao que parecia transitório demais. Porque, num mundo que se dissolve com facilidade, a verdadeira permanência talvez esteja na consciência que escolhe sentir com responsabilidade.
Perder, afinal, não é fracassar. É compreender que nada nos pertence — mas tudo o que nos atravessa pode nos tornar mais lúcidos.
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I – A Sombra Fértil do Amor Ausente
“A dor é também uma forma de claridade.”(Inspirado em Dante Alighieri)
No claustro antigo, sob vitrais sombrios,
teu vulto foi clarão de madrugada;
mas logo a noite, austera e renovada,
selou no mármore os meus desafios.
Teus passos foram ecos tardios
numa arcaria pálida e selada;
e a ausência, em sua lâmina velada,
lavrou-me a alma em sulcos mais tardios.
Aprendi que a sombra é campo fértil,
onde o afeto, longe de morrer,
gera um fruto mais grave e mais sutil.
Pois o que parte ensina a renascer,
e o amor, mesmo quando é frágil,
permanece no íntimo a florescer.
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II – A Claridade que Nasce do Adeus
“Toda despedida contém uma revelação.”(Inspirado em T. S. Eliot)
À beira-mar, no frio da alvorada,
teu adeus foi brancura sobre a espuma;
o céu tingia a areia em névoa bruma,
e a vida fez-se página rasgada.
Mas nessa perda, densa e calculada,
surgiu a luz que a noite não consuma;
pois o adeus, que a princípio nos arruma
no caos, ergue em nós nova morada.
Há claridade no romper da ausência,
há ciência secreta na partida,
que modela o espírito em paciência.
E assim, do fim brotou-me outra medida:
amar é aceitar a transcendência
que o tempo impõe à carne estremecida.
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III – O Silêncio que Molda o Sentimento
“No silêncio, o coração aprende a ouvir-se.”(Inspirado em Emily Dickinson)
No quarto austero, à luz de um candeeiro,
teu nome era um rumor entre cortinas;
as sombras, longas, densas e divinas,
bordavam o ar com traço derradeiro.
Não houve voz — somente o verdadeiro
silêncio, que nos torna peregrinas
as emoções outrora cristalinas,
fazendo do vazio um mensageiro.
O silêncio é escultor da memória,
modela a dor em forma delicada,
transfigura a perda em nova história.
E assim, na calma noite velada,
aprendi que a ausência é trajetória
que conduz a alma a outra alvorada.
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“A experiência é a verdadeira mestra da paixão.”(Inspirado em Virginia Woolf)
Na praça antiga, entre colunas frias,
teu riso foi clarim de primavera;
mas o concreto, duro, não tolera
a leveza das breves alegrias.
Partiste ao som das tardes vazias,
e a cidade, austera sentinela,
guardou teu eco em lâmpada amarela
que ainda arde nas esquinas tardias.
O amor dissolveu-se na paisagem,
mas deixou na pedra a inscrição
de que viver é múltipla passagem.
E na arquitetura da solidão
ergueu-se em mim madura aprendizagem,
mais alta que qualquer ilusão.
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V – A Harmonia Secreta da Perda
“Há música mesmo na dor.”(Inspirado em Hermann Hesse)
Teu gesto foi acorde repentino
numa sala de espelhos e silêncio;
mas o destino, austero e sem consenso,
rompeu a pauta do rumor divino.
Ficou-me o som, grave e cristalino,
que vibra além do tempo mais propenso;
e aprendi que a perda é um denso
movimento em compasso mais genuíno.
Há harmonia naquilo que termina,
há ritmo oculto na despedida,
que à alma ensina medida fina.
E assim, na dor já apaziguada,
descubro a música que ilumina
o espaço onde a esperança é recriada.
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VI – O Labirinto Claro do Afeto
“Amar é aventurar-se no desconhecido.”(Inspirado em Albert Camus)
No labirinto azul da madrugada,
teu olhar foi lâmpada e vertigem;
eu, navegante incerto na vertigem,
segui teu passo em rota iluminada.
Mas toda senda, cedo, é revisada
pelo tempo que exige nova origem;
e o amor, que parecia miragem,
revela-se lição já decantada.
Não há erro no afeto que se finda,
mas rota que conduz ao entendimento,
mesmo quando a saudade ainda é linda.
E assim, no claro labirinto interno,
aprendo que o sentir, embora findo,
faz-se em mim um horizonte eterno.
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VII – A Colheita do Amor Temporário
“O tempo amadurece até o que foi breve.”(Inspirado em Pablo Neruda)
Nos campos onde o trigo era dourado,
teu riso era promessa de colheita;
mas veio o vento, em lâmina desfeita,
e o grão caiu no sulco já passado.
Não foi em vão o sonho semeado:
na terra escura, oculta e imperfeita,
germinou a verdade que aproveita
ao coração outrora apaixonado.
O breve é semente que trabalha
na sombra fértil da recordação,
fazendo do vazio nova palha.
E quando o tempo fecha a estação,
colhemos, mesmo após antiga falha,
a ciência viva da transformação.
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VIII – A Tarde que Ensinou o Desprendimento
“Liberdade é deixar ir com ternura.”(Inspirado em Clarice Lispector)
À sombra morna de um jardim tardio,
teu gesto foi clarão entre ciprestes;
mas o crepúsculo, em tons agrestes,
trouxe à paisagem um rumor sombrio.
Compreendi, então, no ar vazio,
que amar é aceitar partidas celestes;
não há prisão que o afeto manifeste,
pois todo vínculo é sopro bravio.
Desprender-se é ato luminoso,
não de frieza, mas de reverência
à vida em seu fluir misterioso.
E nessa tarde de transparência
ergueu-se em mim sentido mais precioso:
amar é consentir na divergência.
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IX – A Chama que Não Reivindica Permanência
“O verdadeiro amor não exige posse.”(Inspirado em Simone Weil)
Teu toque foi clarão sobre a colina,
ardor que fez da noite um campo aceso;
mas a paixão, ainda em seu peso,
não pede grilhões, nem disciplina.
A chama vive enquanto ilumina,
não busca aprisionar o que é ileso;
e eu vi que o amor, mesmo indefeso,
é grande quando à liberdade inclina.
Não reivindica posse ou juramento,
mas pulsa alto, claro e soberano,
como estrela no vasto firmamento.
E assim aprendi, sem desengano,
que o afeto é puro movimento,
não cárcere tecido por humano.
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X – A Transfiguração do Instante Perdido
“O instante contém o infinito.”(Inspirado em Martin Heidegger)
Num terraço ermo sob céu tardio,
teu olhar foi farol em noite rasa;
mas logo o vento, em fria ameaça,
levou-te além do meu horizonte frio.
Ficou-me o eco, lúcido e sombrio,
daquilo que jamais se quer atrasa;
e o instante, breve chama que se arrasa,
tornou-se eternidade em desafio.
Perder é forma alta de presença,
pois no vazio o sentido se depura
e a alma encontra nova pertença.
E o que se foi, na carne, em noite escura,
vive em mim como firme recompensa:
instante algum é vão se transfigura.
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(Betto Gasparetto – viii-mmix)



