O Paradoxo da Intimidade como Resistência

Posted in Sem categoria on 21 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

Escrevi estes sonetos num tempo em que tudo parece rápido demais — as notícias, os vínculos, as certezas. Vivemos sob uma lógica que valoriza o imediato e descarta o que não se sustenta por utilidade. O amor, muitas vezes, é tratado como consumo; a dor, como inconveniente; o silêncio, como falha de comunicação.

Foi nesse cenário que comecei a perceber que as experiências mais transformadoras da minha vida foram justamente aquelas que não duraram. A ausência não me enfraqueceu — obrigou-me a pensar. A despedida não me esvaziou — ensinou-me limites. O inacabado não me diminuiu — tornou-me mais atento.

Dante atravessou sombras para compreender a própria condição humana. T. S. Eliot escreveu sobre a fragmentação moderna. Virginia Woolf mostrou que a consciência é feita de instantes delicados e intensos. Hermann Hesse reconheceu que a dor pode amadurecer o espírito. Camus defendeu a lucidez em meio ao absurdo. Clarice Lispector viu na liberdade um gesto íntimo de responsabilidade. Simone Weil falou de um amor que não reivindica posse.

Esses autores me acompanham não como autoridades, mas como testemunhas de que a experiência humana é mais profunda do que o ritmo do mundo sugere.

Os claustros, as cidades, os campos, os labirintos que surgem nestes poemas são também espaços sociais. São lugares onde a pressa, a solidão urbana, a fragilidade dos vínculos e o excesso de ruído convivem com a necessidade silenciosa de sentido.

Aprendi que amar, hoje, é também resistir à superficialidade. É não transformar o outro em objeto. É não confundir intensidade com espetáculo. É aceitar a perda sem ceder ao cinismo.

Escrevi estes sonetos como forma de desacelerar. Como tentativa de dar espessura ao que parecia transitório demais. Porque, num mundo que se dissolve com facilidade, a verdadeira permanência talvez esteja na consciência que escolhe sentir com responsabilidade.

Perder, afinal, não é fracassar. É compreender que nada nos pertence — mas tudo o que nos atravessa pode nos tornar mais lúcidos.

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I – A Sombra Fértil do Amor Ausente

“A dor é também uma forma de claridade.”(Inspirado em Dante Alighieri)

No claustro antigo, sob vitrais sombrios,
teu vulto foi clarão de madrugada;
mas logo a noite, austera e renovada,
selou no mármore os meus desafios.

Teus passos foram ecos tardios
numa arcaria pálida e selada;
e a ausência, em sua lâmina velada,
lavrou-me a alma em sulcos mais tardios.

Aprendi que a sombra é campo fértil,
onde o afeto, longe de morrer,
gera um fruto mais grave e mais sutil.

Pois o que parte ensina a renascer,
e o amor, mesmo quando é frágil,
permanece no íntimo a florescer.

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II – A Claridade que Nasce do Adeus

“Toda despedida contém uma revelação.”(Inspirado em T. S. Eliot)

À beira-mar, no frio da alvorada,
teu adeus foi brancura sobre a espuma;
o céu tingia a areia em névoa bruma,
e a vida fez-se página rasgada.

Mas nessa perda, densa e calculada,
surgiu a luz que a noite não consuma;
pois o adeus, que a princípio nos arruma
no caos, ergue em nós nova morada.

Há claridade no romper da ausência,
há ciência secreta na partida,
que modela o espírito em paciência.

E assim, do fim brotou-me outra medida:
amar é aceitar a transcendência
que o tempo impõe à carne estremecida.

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III – O Silêncio que Molda o Sentimento

“No silêncio, o coração aprende a ouvir-se.”(Inspirado em Emily Dickinson)

No quarto austero, à luz de um candeeiro,
teu nome era um rumor entre cortinas;
as sombras, longas, densas e divinas,
bordavam o ar com traço derradeiro.

Não houve voz — somente o verdadeiro
silêncio, que nos torna peregrinas
as emoções outrora cristalinas,
fazendo do vazio um mensageiro.

O silêncio é escultor da memória,
modela a dor em forma delicada,
transfigura a perda em nova história.

E assim, na calma noite velada,
aprendi que a ausência é trajetória
que conduz a alma a outra alvorada.

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“A experiência é a verdadeira mestra da paixão.”(Inspirado em Virginia Woolf)

Na praça antiga, entre colunas frias,
teu riso foi clarim de primavera;
mas o concreto, duro, não tolera
a leveza das breves alegrias.

Partiste ao som das tardes vazias,
e a cidade, austera sentinela,
guardou teu eco em lâmpada amarela
que ainda arde nas esquinas tardias.

O amor dissolveu-se na paisagem,
mas deixou na pedra a inscrição
de que viver é múltipla passagem.

E na arquitetura da solidão
ergueu-se em mim madura aprendizagem,
mais alta que qualquer ilusão.

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V – A Harmonia Secreta da Perda

“Há música mesmo na dor.”(Inspirado em Hermann Hesse)

Teu gesto foi acorde repentino
numa sala de espelhos e silêncio;
mas o destino, austero e sem consenso,
rompeu a pauta do rumor divino.

Ficou-me o som, grave e cristalino,
que vibra além do tempo mais propenso;
e aprendi que a perda é um denso
movimento em compasso mais genuíno.

Há harmonia naquilo que termina,
há ritmo oculto na despedida,
que à alma ensina medida fina.

E assim, na dor já apaziguada,
descubro a música que ilumina
o espaço onde a esperança é recriada.

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VI – O Labirinto Claro do Afeto

“Amar é aventurar-se no desconhecido.”(Inspirado em Albert Camus)

No labirinto azul da madrugada,
teu olhar foi lâmpada e vertigem;
eu, navegante incerto na vertigem,
segui teu passo em rota iluminada.

Mas toda senda, cedo, é revisada
pelo tempo que exige nova origem;
e o amor, que parecia miragem,
revela-se lição já decantada.

Não há erro no afeto que se finda,
mas rota que conduz ao entendimento,
mesmo quando a saudade ainda é linda.

E assim, no claro labirinto interno,
aprendo que o sentir, embora findo,
faz-se em mim um horizonte eterno.

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VII – A Colheita do Amor Temporário

“O tempo amadurece até o que foi breve.”(Inspirado em Pablo Neruda)

Nos campos onde o trigo era dourado,
teu riso era promessa de colheita;
mas veio o vento, em lâmina desfeita,
e o grão caiu no sulco já passado.

Não foi em vão o sonho semeado:
na terra escura, oculta e imperfeita,
germinou a verdade que aproveita
ao coração outrora apaixonado.

O breve é semente que trabalha
na sombra fértil da recordação,
fazendo do vazio nova palha.

E quando o tempo fecha a estação,
colhemos, mesmo após antiga falha,
a ciência viva da transformação.

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VIII – A Tarde que Ensinou o Desprendimento

“Liberdade é deixar ir com ternura.”(Inspirado em Clarice Lispector)

À sombra morna de um jardim tardio,
teu gesto foi clarão entre ciprestes;
mas o crepúsculo, em tons agrestes,
trouxe à paisagem um rumor sombrio.

Compreendi, então, no ar vazio,
que amar é aceitar partidas celestes;
não há prisão que o afeto manifeste,
pois todo vínculo é sopro bravio.

Desprender-se é ato luminoso,
não de frieza, mas de reverência
à vida em seu fluir misterioso.

E nessa tarde de transparência
ergueu-se em mim sentido mais precioso:
amar é consentir na divergência.

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IX – A Chama que Não Reivindica Permanência

“O verdadeiro amor não exige posse.”(Inspirado em Simone Weil)

Teu toque foi clarão sobre a colina,
ardor que fez da noite um campo aceso;
mas a paixão, ainda em seu peso,
não pede grilhões, nem disciplina.

A chama vive enquanto ilumina,
não busca aprisionar o que é ileso;
e eu vi que o amor, mesmo indefeso,
é grande quando à liberdade inclina.

Não reivindica posse ou juramento,
mas pulsa alto, claro e soberano,
como estrela no vasto firmamento.

E assim aprendi, sem desengano,
que o afeto é puro movimento,
não cárcere tecido por humano.

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X – A Transfiguração do Instante Perdido

“O instante contém o infinito.”(Inspirado em Martin Heidegger)

Num terraço ermo sob céu tardio,
teu olhar foi farol em noite rasa;
mas logo o vento, em fria ameaça,
levou-te além do meu horizonte frio.

Ficou-me o eco, lúcido e sombrio,
daquilo que jamais se quer atrasa;
e o instante, breve chama que se arrasa,
tornou-se eternidade em desafio.

Perder é forma alta de presença,
pois no vazio o sentido se depura
e a alma encontra nova pertença.

E o que se foi, na carne, em noite escura,
vive em mim como firme recompensa:
instante algum é vão se transfigura.

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(Betto Gasparetto – viii-mmix)

Quando a Impermanência Brota das Inquietações

Posted in Sem categoria on 20 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

Estes sonetos nasceram de uma inquietação persistente: por que aquilo que não permanece pode nos formar com tamanha profundidade?

Goethe sugeriu que o vivido intensamente toca o eterno; Rilke percebeu na ausência uma presença mais sutil; Pessoa transformou a despedida em exercício interior; Borges viu no tempo uma pedagogia austera; Gabriela Mistral reconheceu a vastidão do inacabado; Tagore associou liberdade ao gesto de soltar; Sophia de Mello Breyner elevou a experiência à categoria de mestra invisível; Octavio Paz recordou que o coração humano é geometria móvel.

Esses ecos atravessam estas páginas.

Os cenários recorrentes — átrios, claustros, escadas, terraços, fontes, colinas — não são ornamentais. São metáforas de transição. Cada espaço sugere uma travessia interior. O amor, aqui, não é promessa de estabilidade, mas acontecimento que ilumina a precariedade da condição humana.

Vivemos em uma época que confunde intensidade com excesso e permanência com posse. As relações se tornaram rápidas; a linguagem, volátil; a experiência, fragmentada. Escrever sobre o efêmero é, portanto, gesto deliberado: trata-se de afirmar que a brevidade não é superficialidade. O instante, quando vivido com lucidez, possui densidade ontológica.

A despedida modela. A ausência reorganiza. O desapego educa. O inacabado abre horizontes.

Se há uma convicção nestes poemas, é esta: o transitório não diminui a vida — ele a esclarece. E talvez, em tempos de dispersão e ruído, compreender a impermanência seja uma das poucas formas de permanência que ainda nos restam.

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I – O Peso Luminoso do Efêmero

“Tudo quanto vive intensamente toca o eterno.”(Inspirado em Johann Wolfgang von Goethe)

No átrio antigo, sob vitrais de bruma,
teu riso ergueu-se em lâmpada serena;
a tarde, em púrpura, tornou-se plena,
e o mundo fez-se claro como espuma.

Mas foi-se o ardor — qual tênue vaga em suma —
deixando em mim a essência mais amena;
aprendi que a chama, quando pequena,
vale mais que a noite que a consuma.

Se o instante é frágil lâmina de luz,
é também ponte ao vasto entendimento,
é o sopro breve que o destino induz.

E o que parece mínimo momento
transfigura-se em sábia contraluz:
o efêmero educa o pensamento.

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II – O Jardim que Floresceu na Ausência

“A ausência é a forma invisível da presença.”(Inspirado em Rainer Maria Rilke)

Entre colunas de mármore cansado,
teu passo ecoou leve na arcaria;
o ar trazia um odor de maresia
e o céu pendia em ouro fatigado.

Partiste, e o claustro, outrora iluminado,
guardou teu vulto em muda sinfonia;
cresceu na pedra fria a poesia
de um gesto que não foi mais renovado.

Mas na ausência floresce o que era semente:
a dor depura o afeto em pura seiva,
faz do silêncio mestre permanente.

Assim, teu adeus — que o tempo arquiva —
ergueu em mim jardim resplandecente,
onde a memória é fonte que cultiva.

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III – Arquitetura de um Adeus Sereno

“A despedida é também forma de amor.”(Inspirado em Fernando Pessoa)

Na escada antiga, sob o pó dourado,
teu adeus foi coluna erguida ao vento;
não houve grito, apenas um lamento
que se tornou silêncio consagrado.

O céu, de cobre pálido e velado,
assistiu ao rito do momento;
e eu vi que o fim não era rompimento,
mas ponte a um outro estado elevado.

Adeus é arte austera e delicada:
não rasga a alma — antes a modela,
como escultor que lima a pedra alada.

E, ao partir, deixaste-me a parcela
de um amor sem ânsia, sem cilada,
que aprende a ser mais vasto do que ela.

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IV – O Cântico do Instante Irrecobrável

“O tempo não volta; mas ensina.”(Inspirado em Jorge Luis Borges)

No pátio antigo, a fonte murmurava
segredos líquidos à tarde lenta;
teu olhar, qual lâmina sedenta,
na minha noite súbito brilhava.

Mas o instante, ave que não se escrava,
alçou seu voo além da nossa intenta;
ficou-me a lição grave e opulenta
de que o agora é chama que se grava.

Irrecobrável é o que nos fecunda:
perdê-lo é gesto alto de coragem,
pois só quem aceita o fluxo se aprofunda.

E o tempo, severo na passagem,
faz da perda uma força que inunda
a alma em lúcida aprendizagem.

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V – A Metáfora do Amor Inacabado

“O amor é vasto mesmo quando incompleto.”(Inspirado em Gabriela Mistral)

No terraço azul de uma cidade erma,
teu nome foi clarão sobre o granito;
o vento, em teu cabelo, era um escrito
que a noite lia em música mais terna.

Não se cumpriu o sonho — e essa alterna
condição fez do afeto um rito;
aprendi que o inacabado é infinito,
pois nele a esperança se governa.

O que não foi inteiro não se perde:
transforma-se em ideia que respira,
em lume oculto sob a hera verde.

E assim o amor, ainda que se retire,
permanece alto, claro e firme,
como promessa que jamais expira.

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VI – A Ciência Secreta do Desapego

“Ser livre é saber soltar.”(Inspirado em Rabindranath Tagore)

Na varanda onde o sol pousava manso,
teu riso era cristal em tarde antiga;
eu te ofertava o coração que abriga
o doce risco do primeiro avanço.

Mas veio o tempo, inexorável, tenso,
e ensinou-me a lição que me mitiga:
amar não é prender quem nos instiga,
é permitir que siga o próprio censo.

Desapegar é gesto soberano:
não é renúncia fria ou desalento,
é forma alta de cuidado humano.

E eu, que temi perder-te ao vento,
ganhei-me inteiro, lúcido e profano,
na ciência secreta do consentimento.

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VII – Sob a Abóbada do Tempo Aprendido

“A vida é a mestra invisível do amor.”(Inspirado em Sophia de Mello Breyner Andresen)

Sob a abóbada vasta do entardecer,
teu vulto foi estrela na colina;
o horizonte, em cor de tangerina,
abriu-me a estrada que não sei esquecer.

Passou teu passo, e eu pude compreender
que o tempo, austero, nada elimina:
transforma a dor em fonte cristalina
e faz do adeus um modo de crescer.

Aprendido é o amor que se transforma,
não se detém na carne ou no desejo,
mas busca na alma a sua norma.

E assim, entre o fim e o ensejo,
ergue-se o afeto em pura forma,
como templo erguido sobre o beijo.

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VIII – A Geometria do Amor que se Dissolve

“Nada é fixo no coração humano.”(Inspirado em Octavio Paz)

Traçamos linhas firmes sobre a areia,
jurando eternidade ao mar revolto;
teu nome era farol em céu absorto,
e a noite parecia mais alheia.

Mas a maré, severa em sua aldeia,
desfez o risco outrora mais revolto;
aprendi que o afeto, mesmo solto,
não morre — muda a forma que incendeia.

Geometria móvel do desejo,
que se expande e recolhe sem aviso,
como constelação em outro eixo.

E o que julgávamos preciso
revela-se figura em novo ensejo,
mais ampla, mais madura, mais conciso.

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(Betto Gasparetto – iv-mmix)

Ser ou Não Ser Efêmero em Tempos de Dissolução

Posted in Sem categoria on 19 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

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Prefácio

Escrevi estes sonetos movido menos pelo desejo de celebrar o amor do que pela necessidade de compreendê-lo. Não como exaltação romântica, mas como experiência que revela a condição humana quando esta é submetida à passagem do tempo e à instabilidade do mundo.

Vivemos numa era em que tudo se acelera e se dissolve. A palavra se desgasta, os vínculos se fragilizam, e a experiência é substituída pela aparência. Debord chamou isso de espetáculo; Arendt, de banalização; Bauman, de liquidez. O que me inquieta não é apenas a fragilidade das relações, mas a fragilidade da consciência.

O amor, nestes poemas, não surge como promessa de eternidade, mas como acontecimento que ilumina a precariedade. O instante — tão breve quanto decisivo — possui a gravidade de uma revelação. Goethe intuía que o vivido intensamente toca o eterno; Camus lembrava que a lucidez nasce da confrontação com o absurdo; Montaigne ensinou que refletir sobre si é o primeiro exercício de liberdade.

Por isso, retorno insistentemente a espaços de travessia: átrios, claustros, escadas, colinas. São metáforas do movimento interior. Cada despedida não é ruína, mas exame. Cada ausência não é vazio, mas reconfiguração da memória. Amar, nesse contexto, significa aceitar a impermanência sem ceder ao cinismo.

Se há algo que estes sonetos pretendem afirmar é que o efêmero não diminui a experiência humana — ele a intensifica. O que passa pode instruir; o que se dissolve pode clarificar; o que não permanece pode formar.

Não escrevi para fixar o amor, mas para aprender com ele. E talvez essa aprendizagem — íntima e coletiva — seja uma das poucas formas de resistência num mundo que tende a esquecer.

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I – Do Amor Transitório e da Sabedoria Perene
“Tudo o que passa, se for inteiro, deixa ciência no peito.” (inspirado em Camões)

No cais da tarde, a névoa fez-se tela,
e o teu olhar — veloz clarão de estrela —
cortou-me a vida, e a ânsia fez-se nela
rosa que arde e se desfaz na velha.

Beijei-te a voz; e a hora, sentinela,
roubou-nos o fervor, sem dar apela;
ficou no chão a seda da aquarela,
ficou no sangue a lição, grave e bela.

Se o amor é vento, ensina a direção:
não prende o céu — mas mostra o seu perfil;
faz do adeus uma clara fundação.

E eu, que perdi, ganhei-me, mais sutil:
o breve foi escola do coração,
e o eterno, um aprender sereno e vivo.

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II – Do Breve Ardor e da Longa Memória
“O fogo se apaga; a luz aprende a morar em nós.” (inspirado em Khalil Gibran)

Ardeu em mim teu riso, e foi centelha,
na sala antiga, ao som de chuva fria;
tua mão, que era brasa, prometia
um reino ao pó que a dúvida aconselha.

Mas foi-se o ardor — e a noite, em calma velha,
trouxe-me a paz de um salmo sem liturgia;
a chama, que se foi, ainda alumia
o corredor de sombras onde eu vela.

Memória é pão que o tempo não consome,
vinho guardado em ânfora discreta;
não dói: amadurece, e não some.

E assim te levo, não por ser completa,
mas porque o breve, quando se renome,
vira em silêncio a mais fiel promessa.

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III – Da Paixão que Passa e do Saber que Fica
“O que se perde em corpo, ganha-se em sentido.” (inspirado em Neruda)

No mercado do sol, entre romãs,
tua cintura traçou meu desvario;
eu, marinheiro de um desejo bravio,
dei-te meu nome em conchas soberãs.

Passou — e as ruas, súbitas e vãs,
guardaram só o aroma do teu fio;
mas ficou-me a certeza: no vazio
se aprende o peso exato das manhãs.

Paixão é rio: não pede permanência;
leva, no entanto, ao mar do entendimento,
onde a alma lê sua própria experiência.

E o que ficou, depois do movimento,
foi um saber sem dor, sem impaciência:
amar é ir — e retornar por dentro.

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IV – Do Instante Amado e da Eternidade Aprendida
“Há instantes que duram porque nos refazem.” (inspirado em Shakespeare)


Num teatro sem luz, a rua em cena,
tu me sorrias — máscara sincera;
e o mundo, que me era pedra severa,
fez-se jardim na palma de uma pena.

Foi só um passo, e a sorte, tão pequena,
mudou meu rumo como quem espera;
depois, o tempo, ávido, viera
cobrar do beijo a conta mais amena.

Mas aprendi: o eterno não se mede
por calendário, sino, nem estação;
mora no gesto, quando a alma cede.

E o instante amado, em sua condição,
faz-se infinito ao coração que pede
não posse — apenas lúcida visão.

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V – Da Carne Efêmera e do Espírito que Aprende
“O pó não nega a chama; apenas a revela.” (inspirado em Camões)

Teu corpo era clarim de madrugada,
pura arquitetura em mármore vivente;
beijei-te a pele, e, súbito, na mente,
ergueu-se uma catedral inesperada.

Mas toda forma, ao sol, é nau quebrada;
o sal do tempo corrói o mais contente;
e eu vi que a carne, bela e transparente,
é flor que ensina a ser contemplada.

O espírito, contudo, não se gasta:
aprende a amar sem ânsia de corrente,
faz do desejo um cântico que basta.

E o que era posse vira um dom ardente:
a vida passa, sim — mas, quando arrasta,
deixa em nós a verdade mais paciente.

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VI – Do Fogo Rápido e da Cinza que Ensina
“A cinza não é fim: é mapa de recomeços.” (inspirado em Khalil Gibran)

Acendeu-se em meu peito um fogo breve,
num quarto azul de espelhos e jasmim;
tua palavra, lâmina sem fim,
abriu-me o céu, e a febre foi mais leve.

Depois, restou a cinza, calma neve,
sobre o tapete antigo de cetim;
e eu, sem teu passo, sem teu clarim,
soube ouvir o silêncio que me escreve.

A cinza guarda a forma do que arde,
e ensina ao coração — que sempre erra —
que o brilho tem seu preço e sua tarde.

Por isso, aceito o pó que a hora encerra:
do incêndio eu tiro a lucidez que guarde,
e do adeus faço paz sobre a terra.

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VII – Entre o Instante e o Infinito
“A ponte do agora é feita de atenção.” (inspirado em Shakespeare)

Entre o segundo e o abismo da distância,
teu nome foi o sino a me guiar;
eu caminhava, sem saber ficar,
num fio de neblina e de constância.

O instante é ave: pousa sem fragrância,
e logo voa, sem se anunciar;
mas o infinito, ao lento contemplar,
nasce onde a alma aprende a ter paciência.

Se eu te perdi, não foi por desamor:
foi porque o mundo, áspero moinho,
moe até o trigo puro do fervor.

Ainda assim, no íntimo caminho,
eu junto o breve ao vasto em seu labor:
ser é tocar o céu sem ter destino.

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VIII – Onde o Amor Se Despede e o Tempo Ensina
“O adeus é um mestre que fala baixo.” (inspirado em Camões)

Na estação, o metal tremia frio,
e a tua mala era um país fechado;
um lenço, uma promessa, um rosto amado,
e o trem — destino — devorando o fio.

Tu me disseste pouco, e esse vazio
foi mais profundo que um discurso dado;
partiste, e o relógio, disciplinado,
bateu-me em sangue o seu severo brio.

O tempo ensina: não há voz que prenda
o que nasceu para seguir além;
não há muralha que o vento não fenda.

E eu, que chorava, compreendi também:
amar é desejar que a vida acenda,
mesmo que a luz se acenda em outro alguém.

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IX – A Escola dos Afetos Breves
“Não desprezes o pouco: o pouco educa.” (inspirado em Khalil Gibran)

Numa livraria antiga, entre cadernos,
teu riso caiu leve sobre mim;
foi aula sem professor, clara, sem fim,
no pó dourado dos instantes ternos.

Tão curto foi — que a noite, em seus invernos,
mal conseguiu entender o meu jardim;
contudo, esse pequeno clarim
moveu-me o mundo em rumos mais eternos.

Aprendi que o afeto, quando passa,
não é engano: é seta para dentro,
é mão discreta que a alma abraça.

E assim me torno, ao teu breve ensinamento,
menos refém do medo que ameaça,
mais companheiro do meu próprio tempo.

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X – Lições de um Amor que Durou um Segundo
“Um segundo pode ser século no coração desperto.” (inspirado em Neruda)

Te vi na esquina, e o sol, como um punhal,
abriu na tarde um ouro repentino;
teu passo, em trança de perfume fino,
fez do meu peito um porto vertical.

Não houve fala — e, mesmo assim, total
foi o sinal que eu li no teu destino;
um segundo — e eu, só, sem norte, sem caminho,
tive na alma um verão monumental.

Primeira lição: não se manda no encanto;
segunda: o olhar é pátria sem fronteira;
terceira: o mundo muda com um canto.

E eu sigo, desde então, de vida inteira,
guardando em mim, sem drama e sem quebranto,
o relâmpago manso da primeira.

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XI – O Que Fica Depois do Abraço
“O abraço termina; a ternura continua trabalhando.” (inspirado em Shakespeare)

Depois do abraço, a casa fica estranha,
como se o ar lembrasse a tua mão;
a mesa guarda a forma da paixão,
e o chão repele a sombra que o acompanha.

Fica um rumor de mar, fina campanha
no coração, que aprende a solidão;
fica um perfume antigo no clarão,
e uma coragem nova que se apanha.

O que fica não é a dor que insiste:
é a delicada arte de aceitar,
é a força quieta do que em nós persiste.

Pois quem amou não volta ao mesmo lugar:
traz no silêncio o lume que resiste,
e um modo mais inteiro de olhar.

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XII – A Arte de Amar e Partir
“Partir não nega o amor; depura-o.” (inspirado em Camões)

Amar é dar sem algema, e, no entanto,
não converter o dom em sacrifício;
é ser altar e ser também ofício,
e não chamar de posse o que é encanto.

Partir é compreender, no mesmo pranto,
que a vida não se curva ao nosso vício;
é despedir-se, limpo de artifício,
como quem fecha um livro em tom de canto.

Se o amor foi luz, que siga iluminando;
se foi caminho, que se faça em paz;
se foi ferida, que se vá curando.

E eu me despeço — e nisso me refaz:
amar é ir, sem ódio, sem comando,
e ser maior do que a falta nos traz.

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(Betto Gasparetto – i-mmxi)

12 Sonetos da Brevidade do Amor e da Natureza Efêmera

Posted in Sem categoria on 18 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

“Não é o tempo que mede o amor, mas a alma que o sente.” (Inspirações)


(Betto Gasparetto)

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Prefácio – da Brevidade do Amor e da Natureza Efêmera

Há amores que nascem para durar, e há outros que nascem apenas para revelar. O amor breve é o instante em que o humano se reconhece vulnerável e grandioso. Freud diria que o amor é um impulso vital que desafia a razão, enquanto Gibran lembraria que o amor não dá senão de si mesmo. Em ambos, há uma verdade: amar é permitir-se sentir, ainda que doa.

Estes 12 sonetos não exaltam a paixão que queima até o fim, mas o afeto que ilumina por um instante. Cada breve encontro é uma lição de eternidade — uma experiência de entrega sem domínio, de presença sem posse. A brevidade, em sua natureza efêmera, é a forma mais pura de amor, pois liberta o ser da necessidade de manter o que já foi dado. O pequeno amor é uma oração sem altar, um gesto de confiança diante da impermanência. Nele, o coração se torna sábio, e o tempo, cúmplice silencioso de sua beleza.

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I – Aceitar o Efêmero como Sagrado

Aceita o amor que nasce e logo finda,
pois sua luz é chama em despedida.
No breve instante a eternidade ainda
se curva à plenitude da partida.

Não peças mais do que o momento enseja,
nem sonhes fixar o que é vapor.
O tempo é rei que tudo enfim despeja,
mas deixa o aroma puro do amor.

Vive o que vem com gratidão serena,
bebe do cálice o sabor do agora.
A dor do fim é também flor amena,

que nasce no jardim de quem melhora.
O efêmero é o altar da primavera:
no pouco, a eternidade é mais sincera.

===============*==*==*===============

II – Amar sem Posse e Desejar sem Dor

Não chames teu o que no vento dança,
nem prendas o que nasce pra voar.
O amor que prende é sombra e desconfiança,
e o livre é sol que vem pra iluminar.

Quem quer guardar demais, cedo destrói,
quem quer possuir, já perde o sentido.
O amor é rio: flui, toca e depois flui,
não quer muralhas, quer ser permitido.

Que o coração aprenda a liberdade,
sem nomear, sem ter, sem conquistar.
Só ama quem aceita a brevidade,

quem sabe dar-se e depois se calar.
Não há dor quando o amor é desatado:
o laço mais eterno é o não atado.

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III – Oferecer Silêncio ao Invés de Ruído

Há mais verdade em quieta madrugada
que em mil promessas ditas sem razão.
No som do olhar, a alma é revelada,
e o verbo, às vezes, fere o coração.

O amor que fala muito se dispersa,
o que silencia aprende a compreender.
No nada existe a música diversa
que apenas quem ama pode entender.

Fala com gestos, não com argumentares,
ouve o perfume, o tom, o respirar.
Há mais amor em olhos que em altares,

há mais ternura em quem sabe esperar.
Silêncio é templo onde o amor repousa:
nele a palavra dorme e a paz se pousa.

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IV – Fazer do Olhar uma Morada

Nos olhos mora o templo do desejo,
a casa onde o instante faz-se altar.
Em cada gesto, o mundo ganha ensejo,
em cada olhar, o tempo quer parar.

Não busques mais que a chama breve e pura,
que um toque guarda, que um suspiro traz.
O amor se esconde em forma de ternura,
e a eternidade cabe em tanta paz.

Não fales: vê. No ver está o sentido,
a confissão que o verbo não contém.
O olhar é o segredo concedido,

o idioma que só o silêncio tem.
Amar é habitar o olhar alheio,
sem exigir o mundo em seu anseio.

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V – Guardar o Perfume, não o Corpo

Nada se leva além do que se sente,
e o que se sente é o que perdura, enfim.
Do corpo resta o sopro evanescente,
do gesto, apenas o perfume em mim.

O amor não morre: muda de memória,
transcende a carne e vive em emoção.
O toque se desfaz, mas faz história,
nas veias deixa eterna recordação.

Guarda o perfume, e não o corpo ausente,
pois o aroma é o eco do que foi.
A carne finda, mas o amor se sente,

como uma brisa que jamais se foi.
Quem ama entende o que não pode ver:
o amor perfuma o que não vai morrer.

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VI – Ser Aprendiz da Despedida

A despedida é mestra do caminho,
ensina o que o encontro não revela.
Amar é aceitar seguir sozinho,
é dar ao tempo a chave da novela.

Não chores mais o fim do breve enredo,
nem peças que o relógio retroceda.
O fim é um rito, e todo amor tem medo,
mas na partida mora a fé que exceda.

Partir é continuar de outro modo,
é transformar presença em claridade.
Quem sabe ir, transcende o próprio todo,

e aprende a ver beleza na saudade.
Não há adeus que seja em vão ou frio:
há eternos que passam pelo rio.

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VII – Não Exigir Eternidade do Efêmero

Quem pede eternidade ao que é leve,
esmaga o som da flor antes do aroma.
O amor é vento — vem, sussurra e breve
retorna ao céu que sempre o reconduz.

O tempo é sábio: nada fixa em neve,
tudo flui, tudo nasce e se consome.
Quem pede eternos, cedo se percebe
vazio do que teve e do que é nome.

Ama sem pretensão, sem juramento,
pois o momento é templo e é altar.
Na brevidade existe o firmamento,

que o coração não pode decifrar.
A eternidade cabe em um minuto,
quando o amor se faz sereno e astuto.

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VIII – Escrever sem Esperar Resposta

Escreve o amor em páginas do vento,
sem esperar que o eco venha atrás.
A palavra, se nasce do sentimento,
já cumpre o seu destino e nada mais.

Quem ama, escreve; quem espera, teme.
O verbo, livre, é bênção e condena.
Amar é dar-se mesmo que se geme,
pois quem se entrega vence a dor pequena.

Não busques resposta, busca entrega:
a carta viva é sempre sem retorno.
O amor é chama que não se renega,

mesmo ao cair na escuridão do outono.
Quem ama escreve, e o verbo o redime:
só vive o amor quem não o imprime.

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IX – Agradecer o Encontro, não Lamentar o Fim

No amor que parte, deixa-se o agradeço,
pois cada instante foi divina escola.
Não há final, há só um recomeço,
e o coração aprende o que consola.

Não lamentes o fim do que foi raro,
pois raro é o tempo que se deu por terno.
O amor é luz, e não o céu avaro,
é fogo breve, mas é fogo eterno.

Agradecer é forma de amar mais,
pois quem agradece, vive o que passou.
Em cada fim há ramos triunfais,

pois tudo em nós é fruto do que amou.
Só quem agradece o amor findado
renasce em paz do que foi abençoado.

===============*==*==*===============

X – Não Tentar Compreender o Inexplicável

O amor não cabe em fórmulas ou mapas,
é vento incerto em mares de emoção.
O coração, ao sentir, rompe as etapas
que a mente cria em vã explicação.

Não queiras decifrar o indizível,
nem traduzir o verbo do mistério.
O amor é sonho — doce, imprevisível,
é chama e gelo, é fé e vitupério.

Aceita o enigma e sua imperfeição,
pois todo amor é um deus que não se mede.
Há mais razão em pura confusão

do que na lógica que o amor impede.
Quem quer entender destrói o que ilumina:
o amor é verbo que a razão declina.

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XI – Fazer da Ausência um Espelho

Quando o amor parte, deixa o que ilumina:
o reflexo do ser que nele amou.
A ausência é mestra — e nela se destina
a alma ao norte do que se formou.

Não chores pelo vão, pela saudade,
olha-te ao espelho: és o que restou.
O amor que vai, concede claridade
àquilo em ti que enfim despertou.

A ausência é espelho, e não castigo,
é fogo que revela o que é essência.
Quem a encara, encontra-se consigo,

e aprende o dom da própria consciência.
Amar é ver-se no que já se foi:
quem ama o outro, em si mesmo se constrói.

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XII – Amar Outra Vez, sem Medo da Brevidade

Ama outra vez, ainda que pareça
que amar é ferir-se na lembrança.
Cada amor é estrada que começa,
cada dor é preço da esperança.

Não temas repetir o mesmo enredo,
nem temas que o destino se refaça.
Quem ama, vence o próprio e antigo medo,
e na entrega encontra nova graça.

Amar de novo é ser alma que insiste,
é flor que torna a abrir após o outono.
O amor pequeno nunca é o que existe,

mas o que ensina a ser o próprio dono.
Amar de novo é gesto de coragem:
é renascer do pó da própria imagem.

(Betto Gasparetto – iv-mmxix)

Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 8/8

Posted in Sem categoria on 17 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Ato VIII — O Que Permanece (A Travessia Sem Glória)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Nada se fechou com estrondo.
O término verdadeiro não precisa de selo.
A vida seguiu, não por inércia,
mas por decisão silenciosa
de não interromper o que ainda pulsa.

O passado perdeu autoridade narrativa.
Continuou existindo,
mas já não comandava o gesto.
Memórias tornaram-se registro,
não sentença.
Foram colocadas em prateleiras acessíveis,
não mais sobre a mesa central.

O futuro recusou promessas extensas.
Planos longos soaram imprecisos.
Restou o alcance curto,
o dia possível,
a tarefa que cabe
entre o amanhecer e o repouso.
Isso não empobreceu a vida;
tornou-a praticável.

A identidade, antes fragmentada,
encontrou arranjo funcional.
As contradições não cessaram,
apenas perderam o direito
de governar sozinhas.
Conflitos passaram a coexistir
sem exigir resolução dramática.

O amante esquizofrênico
não foi curado,
nem absolvido,
nem transformado em exemplo.
Foi compreendido o bastante
para não se destruir em excesso.
Essa compreensão parcial
mostrou-se suficiente.

O amor, despido de delírio,
ocupou lugar discreto.
Não prometeu eternidade,
não exigiu exclusividade heroica.
Limitou-se a existir
quando havia espaço,
a retirar-se quando não havia.
Essa forma menor revelou-se durável.

O ódio perdeu densidade simbólica.
Sem palco interno,
sem justificativa grandiosa,
dissolveu-se em episódios breves,
logo reconhecidos,
logo contidos.
Persistir nele seria regressão.

A alegria reapareceu sem anúncio.
Não como êxtase,
mas como concordância momentânea
entre gesto e intenção.
Pequenos instantes sustentaram dias inteiros
com eficiência inesperada.

O sofrimento não desapareceu.
Mudou de estatuto.
Deixou de ser centro narrativo
e tornou-se dado do percurso.
Algo a ser administrado,
não dramatizado.

A morte permaneceu no horizonte,
não como ameaça iminente,
mas como limite estável.
Sua presença retirou urgências falsas
e concedeu seriedade às escolhas.
Nada além disso.

A justiça continuou distante.
A impunidade, regular.
O mundo manteve seu funcionamento desigual.
Essa constatação deixou de gerar revolta crônica
e passou a exigir posicionamento ético mínimo:
não ampliar o dano,
não reproduzir a violência.

A liberdade assumiu forma concreta.
Consistiu em não mentir para si,
em recusar papéis incompatíveis,
em aceitar consequências sem teatralização.
Não foi ampla,
mas foi real.

O exílio consolidou-se como condição.
Não mais doloroso,
nem heroico.
Apenas estado de quem não retorna
ao conforto da ilusão coletiva.
Habitar a margem tornou-se hábito.

O corpo, ainda presente,
continuou a impor seus ritmos.
Cuidá-lo deixou de ser projeto
e tornou-se dever cotidiano.
Sem corpo,
nenhuma travessia se sustenta.

O silêncio ocupou o espaço final.
Não como ausência,
mas como campo estável.
Ali, pensamentos não disputavam primazia.
Tudo encontrou posição suficiente
para não colapsar.

A balada vulgar encontrou seu tom definitivo.
Não celebrou vitória,
não chorou derrota.
Limitou-se a narrar o atravessamento
com honestidade possível.

Nada foi conquistado para além do necessário.
Nada foi perdido que fosse essencial.
Esse equilíbrio imperfeito
definiu o ponto de parada.

O oitavo ato encerrou-se sem fechamento simbólico.
A travessia não terminou;
apenas perdeu urgência dramática.
Continuar tornou-se gesto neutro,
mas consciente.

E nesse continuar,
sem aplauso esperado,
sem redenção prometida,
firmou-se uma verdade simples:
viver não é resolver o mundo,
nem salvar a si,
mas sustentar o percurso
com a menor distorção possível
entre aquilo que se pensa,
aquilo que se faz
e aquilo que se aceita como limite.

Assim permaneceu o que permanece:
não um sentido absoluto,
mas uma coerência mínima,
suficiente para seguir
sem negar o vivido
nem exigir do futuro
mais do que ele pode oferecer
: O INFINITO!

A ETERNIDADE…

(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)