Desceu a chuva em véus sobre a cidade, e o céu vestiu de prata o entardecer; teu passo veio ao meu por afinidade, como se o acaso soubesse nos escolher. Sob o mesmo abrigo, em doce intimidade, vi todo o mundo em teus olhos renascer; e a água, ao deslizar por tua face amada, pareceu, por te tocar, sentir-se beijada.
II — O INSTANTE ANTES DO BEIJO
Teu rosto aproximou-se lentamente, e o meu silêncio aprendeu a confessar; teus olhos perguntaram docemente o que meus lábios temiam revelar. Ficou suspenso o Tempo à nossa frente, sem ousar nosso encanto perturbar; e antes que nossas bocas se encontrassem, já nossas almas, sem palavras, se beijassem.
III — QUANDO A CIDADE DESAPARECEU
Que importa a multidão seguindo adiante, ou carruagens de outro tempo a ressoar? Teu corpo junto ao meu fez-se bastante para outro universo inteiro principiar. A luz tornou-se ouro cintilante, e as pedras começaram a espelhar dois seres que, esquecidos da jornada, fizeram da rua um reino e da chuva, alvorada.
IV — O JURAMENTO DO GUARDA-CHUVA
Se outras tormentas vierem sobre nós, aproxima tua mão da minha mão; não temo o céu quando escuto tua voz, nem noite alguma vence o coração. Que os anos mudem nossa antiga tez, conservaremos jovem esta emoção; pois quem encontrou no amor sua morada não teme chuva, inverno ou madrugada.
V — O BEIJO QUE FICOU NA CHUVA
Quando esta tarde for somente ausência, e o Tempo houver levado a mocidade, restará daquele beijo a permanência, feito clarão no templo da saudade. Talvez ninguém conheça nossa história, nem saiba quanto houve de verdade; mas sempre que chover sobre a calçada, lembrar-me-ei de ti — e até a chuva sentir-se-á beijada.
Não foi tua partida que primeiro me feriu, mas o silêncio que chegou antes de teus passos. Estavas ainda perto — e já eras distância, como estrela que contemplamos quando já se extinguiu. Eu poderia ter chamado; calei-me por orgulho. Poderia ter ficado; escolhi parecer ausente. E enquanto nossos olhos evitavam despedidas, o amor, sem testemunhas, abandonava lentamente a casa. Agora sei: ninguém parte apenas quando vai embora; há quem comece a partir permanecendo ao nosso lado. E eu, insensato, vi nascer entre nós um oceano e julguei que amanhã ainda haveria ponte. Ah, se soubesse que o distante também se perde, teria atravessado o mundo antes de deixar-te partir.
II — O TRIBUNAL DA MEMÓRIA
Onde o remorso interroga aquilo que o tempo não absolveu
Agora a noite traz teu rosto aos meus aposentos, e cada sombra conhece aquilo que não confessei. Pergunto às horas onde escondeste tua presença; elas respondem com tudo quanto desperdicei. Por que guardei palavras quando desejava dizê-las? Por que neguei meus braços quando queriam acolher? Que miserável soberba fez de mim um estrangeiro diante daquele amor que eu temia merecer? Hoje daria meus amanhãs por uma única tarde, um instante apenas para corrigir aquele adeus. Diria: “Fica”; e nessa breve palavra entregaria o que meu silêncio outrora sepultou dentro de nós. Mas o remorso é um relógio sem ponteiros: marca eternamente a hora que jamais regressará.
III — ONDE A AUSÊNCIA APRENDEU MEU NOME
E o coração compreende tarde demais o valor do que perdeu
Há um lugar vazio ao lado de minha esperança onde nenhuma outra presença conseguiu repousar. Não porque o mundo tenha perdido sua beleza, mas porque certos olhos nos ensinam como contemplá-la. O mar ainda recebe o ouro do entardecer, as flores ainda se oferecem à primavera, e contudo alguma coisa falta em cada maravilha, como se tua ausência houvesse empobrecido a luz. Já não peço ao destino que te faça regressar; há súplicas que chegam tarde até aos céus. Peço somente que, onde quer que tua vida floresça, alguma brisa te recorde que foste profundamente amada. Quanto a mim, guardarei esta verdade até o último inverno: não é somente o que possuímos que podemos perder — o distante também se perde quando demoramos demais para alcançá-lo.
Por que eu te amo tanto assim? Não sei dizer, pois certas verdades recusam explicação; talvez teu olhar tenha encontrado em meu silêncio uma porta que eu julgava fechada à emoção. Talvez tua presença tenha acordado em minha alma o que nenhum sonho conseguira despertar. Sei apenas que, antes de ti, eu simplesmente existia, e depois de ti aprendi a desejar o infinito; desde então, viver é procurar-te em tudo quanto é belo.
II — O PRIMEIRO ENCANTO
Não foi somente a beleza que me rendeu, nem o fulgor sereno que repousava em teu olhar; foi algo sem nome, anterior às palavras, que fez meu coração reconhecer-te sem te conhecer. Havia em teu sorriso uma promessa sem juramento, uma ternura capaz de desarmar minha razão. E quando tua mão, por acaso, encontrou a minha, o mundo pareceu pequeno para tamanha felicidade; naquele instante, meu destino mudou sem fazer ruído.
III — A CONFISSÃO
Eu te amo porque junto a ti não preciso esconder-me, nem vestir minha alma com aparências ou temor; posso entregar-te minhas frágeis imperfeições, e ainda assim permanecer inteiro diante de teus olhos. Amo-te porque escutas até aquilo que não pronuncio, e compreendes a tristeza antes que ela se torne lágrima. Em ti encontro o raro repouso de ser quem sou, sem recear que minhas sombras diminuam tua ternura; amar-te é ser acolhido onde jamais pensei caber.
IV — O DESEJO
Mas não julgues ser apenas doce este sentimento: há fogo em mim quando te aproximas devagar. Meu sangue aprende tempestades ao sentir teu perfume, e minha prudência esquece o caminho de regressar. Desejo teus lábios como a noite deseja a aurora, não para possuí-los, mas para neles me perder. Quero o instante em que tua respiração encontra a minha, quando dois silêncios se confundem num só arrepio; e o próprio Tempo, envergonhado, deixa de nos interromper.
V — O QUE OS ANOS NÃO LEVAM
Que venham os anos com seus passos inevitáveis, e escrevam sobre nós as marcas de sua passagem. Hei de amar também a prata em teus cabelos, como hoje amo a juventude de tua face iluminada. Quando nossas mãos carregarem mapas de outras eras, ainda procurarei teus dedos entre todos os caminhos. Não quero um amor preservado contra o envelhecimento, quero envelhecer para descobrir novas maneiras de amar-te; pois há belezas que somente o tempo sabe revelar.
VI — A ESCOLHA
Entre mil caminhos, escolheria novamente o teu, mesmo conhecendo cada pedra que encontraria. Repetiria as esperas, os receios e as distâncias, se ao término de cada noite tua presença me aguardasse. Não desejo uma história sem tempestades ou cicatrizes, mas aquela em que permaneçamos depois delas. Pois amar não é encontrar um destino sem invernos, é reconhecer a mesma mão quando a luz desaparece; e dizer: fica — ainda temos primavera para inventar.
VII — O INEXPLICÁVEL
Ainda me perguntas por que te amo tanto assim? Como explicar ao mar por que procura a margem? Como perguntar à rosa por que oferece perfume, ou à madrugada por que devolve luz às janelas? Meu amor não nasceu de cálculo, promessa ou conveniência; chegou como chegam as coisas destinadas a permanecer. Fez morada onde eu guardava antigos receios, transformou minha solidão em espaço para dois; e tornou teu nome a mais íntima palavra do meu coração.
VIII — A RESPOSTA
Agora sei por que te amo tanto assim: não por aquilo que possuis, prometes ou aparentas, mas pelo que desperta em mim quando estás perto. Contigo desejo ser mais verdadeiro que perfeito, mais humano que invencível, mais inteiro que eterno. E se um dia me perguntarem o que fiz desta existência, não falarei de glórias, riquezas ou caminhos conquistados; direi apenas que encontrei alguém por quem valeu a pena viver — e que te amar foi a mais bela resposta que a vida deu à minha pergunta.
Caminhei contigo quando o céu chorava, e cada gota parecia o mundo abençoar; tua mão na minha fez pequena a tempestade, pois quem ama encontra abrigo sem precisar parar. Nossos passos escreviam sobre a areia segredos que somente o mar podia decifrar; e enquanto nossas sombras se tocavam nas águas, meu coração aprendia teu nome a soletrar. Não soube então que aquela breve caminhada seria o primeiro passo de uma vida inteira a te amar.
II — A CHUVA SOBRE NÓS
Deixa chover, meu amor, que importa a tormenta, se sob teu olhar encontro meu verão? Que o vento roube os rastros de nossos pés, mas jamais o caminho escrito no coração. Aproxima-te mais, deixa que nossos ombros aprendam juntos o peso da estação; pois amar não é esperar que o céu se abra, é caminhar sob a chuva na mesma direção. E se o frio ousar alcançar nossos corpos, hei de aquecer tua alma com o fogo de minha paixão.
III — A PÉROLA DO TEMPO
Há uma pérola escondida entre as pedras, como um segredo que o oceano quis guardar; talvez tenha nascido de uma antiga lágrima que por amar demais aprendeu a cintilar. Assim também meu coração te guarda: ferido, fez da própria dor um modo de te amar. Se um dia o Tempo nos cobrir de cabelos brancos, voltaremos lentamente a este mesmo lugar; e entre conchas, lembranças, ventos e marés, descobriremos que envelhecer foi outra forma de nos apaixonar.
IV — A TATUAGEM QUE O MAR NÃO APAGA
Um dia o mar apagará nossas pegadas, como apaga impérios, nomes e verão; não temas, meu amor: aquilo que vivemos não foi escrito na areia, mas no coração. Cada passo teu deixou-se dentro de mim, cada beijo meu em ti encontrou habitação; e quando já não houver praia, chuva ou juventude, ainda caminharemos pela mesma recordação. Pois nossos pés apenas tocaram aquela areia — foram nossas almas que, ao caminharem juntas, se tatuaram.