Quando a Tempestade Passar

Posted in Coleção - Poemas on 28 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Poema de amor em cinco movimentos

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — O MAR ENTRE NÓS

Se o céu se parte em cólera sobre o mar,
deixa que o mundo inteiro tema a tormenta;
eu, tendo a tua mão junto da minha,
farei do próprio medo uma oferenda.
Que as ondas ergam tronos sobre abismos,
que o vento rasgue as velas sem piedade;
mais feroz que o oceano é este desejo
que em meu peito reclama eternidade.
Se amar-te é naufragar, não me resgates:
prefiro o teu abismo à terra sem amar-te.

II — A DANÇA DOS AMANTES

Vem, dança enquanto o convés ainda treme,
e faz de meus braços teu secreto cais;
que importa se a tormenta enlouqueceu,
se em teus olhos encontro a minha paz?
Teu corpo junto ao meu desafia os ventos,
tua boca é promessa que não sei negar;
e cada passo nosso sobre as tábuas
parece ordenar às águas que aprendam a calar.
Se esta for nossa última dança, amor,
que a morte espere até eu te beijar.

III — O BEIJO CONTRA A TEMPESTADE

Beija-me agora, antes que o trovão responda,
antes que a noite apague o nosso céu;
deixa em meus lábios tua febre ardente,
como quem grava amor onde nasceu o adeus.
Não quero um beijo tímido ou prudente,
mas desses que fazem o próprio Tempo estremecer;
um beijo em que tua alma invada a minha
e já não saibamos quem deixou de ser.
Pois se o mar reclamar nossos destinos,
que encontre duas bocas recusando-se a morrer.

IV — O JURAMENTO DAS ÁGUAS

Prometo-te não calmarias, minha amada,
pois nenhum homem pode o mar governar;
prometo apenas permanecer contigo
quando até as estrelas deixarem de brilhar.
Se envelhecermos juntos, bendirei os anos;
se forem poucos, hei de bendizê-los também.
Porque uma hora inteira em teus braços
vale mais que cem vidas sem ninguém.
E se perdermos porto, rumo e horizonte,
sê tu meu Norte — e não me perderei jamais.

V — QUANDO A TEMPESTADE PASSAR

Quando a tempestade enfim passar,
e o Sol tocar de ouro os nossos rostos,
veremos sobre as águas adormecidas
os restos da tormenta e os nossos sonhos postos.
Então descansarei minha fronte em teus cabelos
e ouvirei teu coração ainda chamar por mim;
não haverá vitória maior sobre o mundo
que descobrir que permanecemos juntos até o fim.
E se outra tempestade algum dia regressar,
dança comigo, amor — pois contigo é navegar, jamais naufragar.

(Betto Gasparetto – 1995)

Suspiros Teus aos Meus

Posted in Coleção - Poemas on 27 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora: Mais que o Tempo

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Teus olhos falam quando o mundo cala;
Meu peito ouve a voz que te acompanha;
O tempo passa, a dor se desinstala;
E o amor ganha.


Tua presença acende o que me falta;
Meu verso encontra abrigo na tua alma;
A noite cede à luz que se ressalta;
E a vida acalma.


Teu gesto toca o que não digo;
A fé renasce quando eu sigo;
Se o medo pesa, o bem insiste;
E o amor existe.


Teu braço abriga o sonho que respiro;
Meu canto aprende a paz que tu inspiras;
E a vida cresce ao som do teu suspiro;
Quando me miras.

Teus olhos guardam meu caminho;
A alma sente o teu carinho;
Se a dor retorna, o som resiste;
E o amor existe.

(Betto Gasparetto – 1994)

Sete Chaves da Felicidade e um Brinde ao Amor

Posted in Coleção - Poemas on 26 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Poema em sete movimentos para tudo aquilo que faz a vida valer a pena…

 (Betto Gasparetto)

Trilha Sonora:

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

CHAVE I — ONDE COMEÇA A FELICIDADE

Deixai aberta a porta desta casa,
que a felicidade não costuma anunciar-se;
ela chega nos passos de quem amamos
e encontra um coração onde abrigar-se.
Que entrem os amigos, os filhos e os sonhos,
que ninguém tenha pressa de partir;
pois pobre é o palácio de portas cerradas,
e rico o humilde lar onde se pode sorrir.
Se o mundo lá fora nos cobrar tristezas,
deixemo-las do outro lado do portão;
porque a primeira chave da felicidade
é haver sempre lugar para outro coração.

CHAVE II — A MESA

Ponde mais um prato sobre a mesa,
mesmo que não saibamos quem virá;
o pão repartido multiplica-se em ternura,
e o vinho compartilhado jamais faltará.
Não são os banquetes que alimentam a alma,
mas os olhos que se encontram ao redor;
um pedaço de pão entre pessoas queridas
vale mais que o ouro servido sem amor.
Que sobrem histórias, risos e lembranças,
e falte somente espaço para a solidão;
pois toda mesa cercada de afetos
é um pequeno reino sem necessidade de coroa.

CHAVE III — O RISO

Ri, meu amor, que quando tu ris
até o velho Tempo parece recuar;
há primavera escondida em tua boca
e juventude no modo de me olhar.
Deixa que os anos contem nossas rugas;
não lhes permitas nossos sonhos contar.
Se amanhã vier carregado de invernos,
hoje ainda temos motivos para celebrar.
Que tua alegria encontre sempre a minha,
como dois rios procurando o mesmo mar;
pois quem possui alguém com quem rir
já encontrou uma razão para ficar.

CHAVE IV — O ABRAÇO

Abraça-me agora, antes que o instante passe;
não deixemos ternura alguma para depois.
Há abraços que duram poucos segundos
e permanecem uma vida inteira em nós.
Não me prometas riquezas nem eternidades,
promete somente não esquecer de me tocar;
pois o amor não vive apenas de palavras:
necessita de braços onde possa repousar.
Quando meus cabelos conhecerem o inverno,
aproxima-te de mim como na primeira vez;
e descobriremos que envelhecer lado a lado
é outra maneira de chamar amor à felicidade.

CHAVE V — A MÚSICA

Deixa o velho disco novamente girar,
que nossa juventude ainda dança escondida nele.
Talvez aquela canção recorde o primeiro beijo,
quando o mundo inteiro cabia entre mim e ti.
Dança comigo, mesmo que nossos passos errem;
o amor jamais exigiu perfeição para bailar.
Que importa se a noite envelhece depressa,
quando dois corações ainda desejam ficar?
Enquanto houver música nesta velha casa,
nenhum silêncio haverá de nos vencer;
pois algumas melodias terminam no aparelho,
mas continuam tocando dentro de quem soube viver.

CHAVE VI — O TEMPO

Não amaldiçoemos o Tempo por passar,
pois foi ele quem trouxe todos até esta mesa.
Levou-nos alguns sonhos, é verdade,
mas transformou outros tantos em certeza.
Deu-nos cabelos brancos, filhos e saudades,
fotografias, reencontros e histórias para contar.
Se cada ruga custou uma lembrança,
benditas sejam as marcas que aprendemos a carregar.
Não desejo retornar à juventude, meu amor,
se para isso tiver de esquecer o que vivi;
prefiro os poucos anos que ainda nos restarem
a uma eternidade onde jamais te conheci.

CHAVE VII — O BRINDE

Erguei as taças! Não à riqueza nem à glória,
mas aos que ainda estão sentados junto a nós.
Aos que partiram, reservemos uma lembrança;
aos que chegaram, ofereçamos nossa voz.
Brindemos aos amores que sobreviveram aos anos,
aos amigos, às crianças, aos reencontros e ao perdão.
Brindemos às pequenas coisas esquecidas
que silenciosamente sustentam o coração.
E quando a última taça desta noite se esvaziar,
que ninguém diga que a felicidade terminou:
pois quem encontrou sete chaves para amar a vida
descobriu que a oitava sempre foi o Amor
…

(Betto Gasparetto – 1997)

Sete Passos sem Direção

Posted in Coleção - Poemas on 25 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Elegia daqueles que caminham sem saber se regressarão!

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

PASSO I — QUANDO DEIXEI A PORTA ABERTA

Parti quando a aurora ainda dormia,
sem coragem de acordar meu próprio lar.
Deixei a porta entreaberta, como quem promete
que antes do anoitecer haverá de regressar.
Beijei-te a fronte sem dizer palavra,
pois despedidas sabem o futuro anunciar.
Levei comigo teu perfume nos meus dedos
e aquela vontade absurda de ficar.
Atrás de mim ficaram nossas pequenas coisas,
a mesa, os livros, o fogo e teu olhar.
E dei meu primeiro passo para a guerra,
quando tudo em mim suplicava para voltar.

PASSO II — A CHUVA

Depois veio a chuva sobre os homens,
lavando o rosto, mas jamais o coração.
Marchávamos como sombras condenadas,
cada qual carregando a própria solidão.
A lama devorava nossas botas,
o frio fazia da carne uma prisão.
Mas eu guardava junto ao peito tua lembrança,
como um mendigo guarda sua última oração.
E quando o céu rugia sobre nossas cabeças,
eu pronunciava teu nome em devoção:
pois há amores que, mesmo sob a guerra,
permanecem intactos na destruição.

PASSO III — O BRINQUEDO NA LAMA

Então encontrei um pequeno brinquedo,
abandonado entre a água e o chão.
Não tinha sangue, voz, bandeira ou pátria;
tinha apenas a forma triste da recordação.
Quem o abraçou antes que o mundo enlouquecesse?
Que pequena mão lhe concedeu afeição?
Parei — e naquele pobre objeto
vi toda a vergonha de nossa geração.
Pois quando a guerra alcança os brinquedos,
já não existe glória em qualquer vitória.
Há somente uma infância interrompida
pedindo ao mundo que lhe devolva a história.

PASSO IV — A CARTA QUE NÃO ESCREVI

Quis escrever-te naquela noite fria:
“Meu amor, talvez eu não possa regressar.”
Mas como dizer àquela que me espera
que seu amanhã talvez não vá chegar?
Escrevi teu nome — e a mão me tremeu;
a chuva fez a tinta se espalhar.
Parecia que até as próprias letras
recusavam-se a aprender como acabar.
Então guardei o papel ainda vazio:
certos adeuses não devemos pronunciar.
Enquanto uma palavra permanecer por escrever,
há uma esperança secreta de voltar.

PASSO V — OS QUE FICARAM PELO CAMINHO

Éramos muitos quando tudo começou;
hoje evito contar quem ainda vem atrás.
Alguns deixaram sonhos sobre a estrada;
outros encontraram um silêncio sem jamais.
Cada ausência marcha ao nosso lado,
como um companheiro que a morte não desfaz.
Aprendi que os mortos têm passos silenciosos
e caminham na memória dos demais.
Não desejo vingança pelos que partiram;
desejo apenas aquilo que não tiveram mais:
uma porta aberta, uma mesa, um abraço,
e o direito simples de envelhecer em paz.

PASSO VI — O HOMEM QUE JÁ NÃO CONHEÇO

Vi meu rosto refletido numa poça
e perguntei: “Quem és tu que olhas para mim?”
Havia nos meus olhos tantas noites
que já não reconheci quem fui no princípio.
Onde está o homem que beijou aquela mulher?
Onde o rapaz que acreditava no porvir?
Talvez tenha ficado junto àquela porta,
esperando o corpo que partiu sem realmente partir.
Ó guerra, podes tomar-me os anos,
mas uma coisa jamais te permitirei destruir:
a lembrança daquela que ainda amo
e a esperança de novamente lhe sorrir.

PASSO VII — SEM DIREÇÃO

Dou agora o sétimo passo na lama
e já não sei se avanço ou se retorno.
À frente há fumaça; atrás, lembranças;
dentro de mim, teu nome feito porto.
Se amanhã meus pés encontrarem nossa estrada,
correrei para teus braços como outrora;
não quero medalhas, glórias ou monumentos,
quero apenas chegar vivo à nossa porta.
E se meus passos cessarem neste caminho,
não chores eternamente minha ausência, meu amor:
planta uma flor onde deixei minhas pegadas
e deixa que ela diga aquilo que não pude dizer.
Pois talvez o homem perdido não seja aquele sem caminho,
mas aquele que já não possui alguém por quem voltar.

(Betto Gasparetto – 1997)

Sete Lágrimas da Paz

Posted in Coleção - Poemas on 24 de setembro de 2026 by Prof Gasparetto

Sete lágrimas por aqueles que jamais deveriam conhecer a guerra…

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

LÁGRIMA I — QUANDO O CÉU DEIXOU DE SER CÉU

Ontem havia pássaros onde hoje descem homens,
e o céu era somente o reino azul da infância.
Hoje até as nuvens carregam o medo,
e cada vento traz o rumor da distância.
Ó guerra, que fizeste de meus jardins?
Quem te deu licença para entrar em minha casa?
Eu era pequeno demais para conhecer a morte,
mas ela aprendeu meu nome antes que eu aprendesse o dela.
Minha mãe dizia: “Não temas a noite, meu filho”;
mas não me ensinou a não temer o dia.
Pois foi sob o Sol que o mundo desabou,
e minha infância envelheceu numa única manhã.

LÁGRIMA II — O RETRATO

Seguro entre as mãos o que restou de nós:
um pequeno retrato ferido pelo pó.
Aqui minha mãe ainda sorri eternamente;
aqui meu pai jamais pronunciou adeus.
Que estranho poder possui uma fotografia:
faz viver quem meus braços não alcançam.
Beijo seus rostos quando ninguém me vê
e pergunto ao papel se ainda se lembram de mim.
Ó retrato, não envelheças como envelhece o mundo!
Guarda-lhes os olhos, o sorriso e a ternura.
Se minha memória um dia fraquejar de dor,
sê tu a casa para onde meu coração possa voltar.

LÁGRIMA III — A ROSA ENTRE AS PEDRAS

Encontrei uma rosa entre as ruínas,
vermelha como o coração que ainda resiste.
Como ousas florescer, pequena criatura,
onde até as paredes desaprenderam a existir?
Talvez Deus tenha esquecido uma semente
para recordar aos homens aquilo que destruíram.
Eu te darei a pouca água que me resta;
tu me darás a coragem que me falta.
Cresce, rosa — ainda que entre pedras;
abre tuas pétalas contra toda desesperança.
Enquanto houver uma flor sobre a terra,
a guerra jamais poderá declarar-se eterna.

LÁGRIMA IV — MEU PEQUENO COMPANHEIRO

Quando todos partiram, tu permaneceste.
Não perguntaste quem venceu nem quem perdeu.
Deitaste apenas teu corpo junto ao meu
como se teu calor pudesse reconstruir nossa casa.
Ó pequeno amigo, que sabes tu das guerras?
Talvez saibas mais que reis e generais:
que nenhuma bandeira vale uma criança,
e nenhuma vitória consola uma casa vazia.
Quando choro, encostas tua cabeça em meus joelhos;
quando tremes, abraço-te como fazia minha mãe.
Somos dois pequenos sobreviventes do mundo,
dividindo entre nós o pouco amor que ainda restou.

LÁGRIMA V — OS HOMENS QUE VOLTAM

Vejo homens caminhando entre a poeira,
e outros descendo do céu que já temi.
Não sei os nomes escritos em seus uniformes,
nem compreendo as razões que os trouxeram aqui.
Só sei que homens carregam nas próprias mãos
o poder de ferir — e também o de salvar.
Se vierdes até mim, não me tragam vingança;
tragam pão, silêncio e braços para amparar.
Não quero saber quem conquistou estas pedras:
quero saber quem reconstruirá minha escola.
Grande não é aquele que domina a terra,
mas aquele que devolve uma criança ao seu lar.

LÁGRIMA VI — SE MINHA MÃE VOLTASSE

Se minha mãe surgisse agora entre as ruínas,
eu não lhe pediria brinquedos nem presentes.
Correria descalço sobre todas estas pedras
somente para esconder meu rosto em seu vestido.
Dir-lhe-ia que fui valente — embora tenha chorado;
que guardei nosso retrato contra o peito.
Meu pai talvez viesse caminhando atrás dela,
e outra vez o mundo teria portas e janelas.
Ah, esperança, não zombes de uma criança!
Deixa-me sonhar somente esta noite.
Pois às vezes um sonho é a última morada
daqueles a quem a realidade tomou tudo.

LÁGRIMA VII — A PAZ

Se algum dia perguntarem o que desejo,
não me ofereçam ouro, coroas ou glória.
Deem-me uma manhã sem estrondos no horizonte,
uma mesa, minha família e nenhuma vitória.
Quero ouvir novamente pássaros no céu
sem perguntar se alguma coisa cairá dele.
Quero plantar esta rosa diante de minha casa
e vê-la envelhecer muito depois de mim.
Que os homens aprendam, enfim, esta verdade:
nenhum triunfo merece as lágrimas de uma criança.
E se o mundo ainda possuir um coração,
que a última lágrima derramada seja a primeira lágrima da Paz.

(Betto Gasparetto – 1997)