Arquivo para outubro, 2026

Tolerância Zero

Posted in Sem categoria on 18 de outubro de 2026 by Prof Gasparetto

Quando tudo estiver fora da zona de perigo,

Continuaremos observando os pontos finais.

Nao importa, se mudo, ou silêncio,

Através das fendas ha abrigo,

Através das sombras se rompem haicais…

O murmúrio é intenso,

o gesto fica, as lembranças espargem,

Enquanto houver adágio ou requiens da paz!

(Betto Gasparetto – nov 2014)

A Sétima Carta e a Nobreza de um Adeus

Posted in Sem categoria on 17 de outubro de 2026 by Prof Gasparetto

Sete cartas entre a majestade de um amor, as ruínas da ausência e a dignidade de uma última despedida.

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

CARTA # I — QUANDO O DESTINO VESTIU-SE DE PRIMAVERA

Vi-te chegar sob os arcos do palácio,
Quando a tarde bordava o céu de carmim;
Teu olhar fez do mundo um breve espaço,
Onde a eternidade principiou em mim.
Havia em teus cabelos luz dourada,
E em teus gestos, a graça de um jardim;
Minha alma, até então tão resguardada,
Rendeu-se ao teu sorriso de cetim.
Não foram as estrelas testemunhas,
Nem os sinos que dobravam ao luar;
Foram duas mãos, discretas e desnudas,
Que aprenderam, sem palavras, a se amar.

CARTA # II — A VALSA DAS PROMESSAS INVIOLÁVEIS

Dançamos onde o mármore florescia,
Sob colunas de antiga majestade;
E a música, em secreta melodia,
Consagrou nosso instante à eternidade.
Teu vestido desenhava a primavera,
Enquanto eu te conduzia pelo salão;
E cada volta, em sua doce espera,
Despertava outra aurora à nossa paixão.
Jurei guardar teu nome em meu destino,
Sem reclamar do Tempo a sua mercê;
Pois mesmo o mais soberbo dos caminhos
Perde a grandeza quando longe de você.

CARTA # III — O CREPÚSCULO DOS JURAMENTOS

Vieram dias de inquietante bruma,
E as rosas perderam seu esplendor;
O que julgávamos eterno fez-se espuma,
À mercê dos caprichos do temor.
Teu silêncio ganhou estranha nobreza,
Mas teus olhos já não sabiam repousar;
Havia em nossas mãos tanta tristeza,
Que até os beijos hesitavam em chegar.
Não foi a falta de amor que nos venceu,
Nem a distância entre a terra e o firmamento;
Foi o orgulho que, entre nós, se ergueu,
Erigindo uma muralha ao sentimento.

CARTA # IV — A JANELA DOS INVERNOS SEM RESPOSTA

Escrevo-te onde a chuva beija a pedra,
E o lago adormece entre os pinhais;
A chama da lareira ainda medra,
Mas não aquece os dias desiguais.
Teu retrato permanece em minha mente,
Como um reino que não posso governar;
E a saudade, em seu rigor persistente,
Faz das horas um deserto a atravessar.
Quantas cartas escrevi sem remetente,
Quantos versos condenei ao esquecimento!
Pois nenhuma palavra é suficiente
Para restituir o que levou o vento.

CARTA # V — O TRIBUNAL DAS PALAVRAS NÃO DITAS

Não te acuso por haveres escolhido
Outros rumos que não pude compreender;
Talvez meu coração, tão presumido,
Tenha amado sem saber te proteger.
Fui senhor de castelos e de honrarias,
Mas escravo de um orgulho sem razão;
Confundi com certezas as fantasias,
E fiz da própria voz uma prisão.
Hoje reconheço, em tardia consciência,
Que amar não é exigir submissão;
É oferecer ao outro a própria essência,
Sem transformar ternura em obrigação.

CARTA # VI — A ROSA QUE RECUSOU O ESQUECIMENTO

Guardei a rosa da primeira dança,
Entre as folhas de um livro já sem cor;
Sua pétala conserva uma lembrança
Da inocência que precedeu a dor.
Não te espero como outrora te esperava,
Nem reclamo o que o destino dissolveu;
Mas há em mim uma chama que se abrasa
Ao recordar o beijo que foi teu.
Se algum dia atravessares outros mares,
E encontrares a ventura que sonhaste,
Que os teus olhos, contemplando novos lares,
Não lamentem os caminhos que deixaste.

CARTA # VII — A MAJESTADE DO ÚLTIMO ADEUS

Esta é a carta que jamais quis escrever,
A derradeira entre as que te destinei;
Não para implorar que tornes a me ver,
Mas para honrar o amor que te entreguei.
Não levarei comigo teus retratos
Como testemunhas de uma antiga dor;
Guardarei os nossos dias mais exatos,
Sem exigir que regressem ao esplendor.
E quando a chuva enfim deixar a vidraça,
Hei de abrir as janelas para o céu;
Pois o mais nobre amor também tem graça
Quando sabe dizer adeus sem deixar de ser fiel.

(Betto Gasparetto – 2012)

“Nem todo adeus representa o fim de um sentimento. Às vezes, representa o instante em que o amor deixa de exigir e aprende, finalmente, a oferecer liberdade.” (Betto Gasparetto)

Perdidos Dentro de uma Dança de Salão

Posted in Sem categoria on 16 de outubro de 2026 by Prof Gasparetto

Seis danças entre o esplendor de um encontro, a vertigem do desejo e a música que sobrevive à despedida.

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

DANÇA # I — A VALSA DOS OLHARES INCONFESSOS

Sob os cristais de um século esquecido,
A noite desdobrava o seu cetim;
Teu vulto atravessou o salão florido,
E o mundo inteiro se afastou de mim.
Havia em teus cabelos certa aurora,
Um delicado anúncio de esplendor;
E o meu olhar, que nunca se enamora,
Rendeu-se à majestade desse ardor.
Pedi-te a mão com tímida ousadia,
Sentindo o peito em súbita expansão;
E antes que a orquestra principiasse,
Já nos perdíamos na mesma canção.

DANÇA # II — O MINUETO DAS MÃOS ENTRELAÇADAS

Teus dedos repousaram entre os meus,
Qual confidência entregue ao pensamento;
E os passos, sob a bênção dos céus,
Ganharam a cadência do encantamento.
Não era apenas dança o que fazíamos,
Mas uma antiga forma de dizer
Aquilo que em silêncio pressentíamos,
Sem que a razão pudesse compreender.
Teu corpo, em delicada proximidade,
Guardava a compostura e a sedução;
E cada volta, em sua brevidade,
Tornava mais profundo o coração.

DANÇA # III — O TANGO DAS PAIXÕES VELADAS

A música desceu às regiões secretas,
Onde o desejo aprende a murmurar;
Teus olhos, como lâminas discretas,
Fizeram minha prudência vacilar.
Havia em teus movimentos tal nobreza,
Que até o fogo parecia obedecer;
E em cada pausa, envolta em sutileza,
Um universo ousava estremecer.
Não quis possuir o instante ou dominá-lo,
Mas conceder-lhe inteira devoção;
Pois há um beijo que, antes de alcançá-lo,
Já deixa sua marca na emoção.

DANÇA # IV — A MAZURCA DAS HORAS FUGIDIAS

O grande relógio anunciou a madrugada,
E a orquestra entristeceu seu esplendor;
Teu rosto, sob a luz já fatigada,
Guardava a inquietação de alguma dor.
Pressenti que uma sombra nos seguia,
Vestida de silêncio e discrição;
Talvez o Tempo, em sua tirania,
Viesse reclamar nossa ilusão.
Apertei tua mão sem dizer nada,
Temendo que o destino a reclamasse;
E a última cadência, prolongada,
Suplicou que a manhã não despertasse.

DANÇA # V — O ADÁGIO DOS SALÕES DESERTOS

Partiste quando os lustres se apagaram,
Sem que eu soubesse a causa ou a razão;
As flores, que teus dedos perfumaram,
Restaram como súplica no salão.
O piano conservou tua lembrança,
Nas notas que ninguém tornou a ouvir;
E o espelho, testemunha de nossa dança,
Parecia perguntar por teu partir.
Voltei sozinho àquela mesma sala,
Buscando entre os reflexos teu perfil;
Mas a saudade, quando o peito a cala,
Faz de uma breve ausência um tempo hostil.

DANÇA # VI — A ÚLTIMA VALSA ANTES DA ETERNIDADE

Se algum inverno devolver teus passos,
E a vida consentir nosso reencontro,
Não pedirei explicações aos teus abraços,
Nem julgarei os anos do desencontro.
Convidar-te-ei à valsa derradeira,
Sob a ternura de um clarão outonal;
E mesmo que a estação seja estrangeira,
Teremos novamente o nosso baile real.
Pois quem se perde em tão sublime dança
Não busca nos relógios direção;
Descobre que o amor, quando alcança a alma,
Faz de dois destinos um só coração.

(Betto Gasparetto – 2010)

Partituras Veladas, Amores Partidos

Posted in Sem categoria on 15 de outubro de 2026 by Prof Gasparetto

Cinco opus sobre o amor que se fez música, o silêncio que herdou sua ausência e as notas que o tempo não conseguiu sepultar.

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

OPUS I — O CREPÚSCULO DAS NOTAS ADORMECIDAS

A tarde inclina ao rio a fronte de ouro,
E as cortinas respiram mansamente;
Sobre o ébano repousa um velho tesouro,
A partitura de um amor ainda presente.
Meus dedos buscam, tímidos, a harmonia
Que outrora em teus abraços floresceu;
Mas cada acorde guarda a melancolia
De um juramento que o destino interrompeu.
Nas teclas dorme a sombra de teus gestos,
Qual delicada herança de outra estação;
E os sons, outrora límpidos e honestos,
Hoje interrogam minha solidão.

OPUS II — O RETRATO ENTRE AS ROSAS

Teu rosto permanece emoldurado,
À margem das sonatas que escrevi;
Há nele um riso pelo tempo preservado,
Que ainda me pergunta por que parti.
As rosas, inclinadas sobre o instrumento,
Exalam a ternura de um jardim;
E cada pétala, entregue ao pensamento,
Revela quanto ainda resta de ti em mim.
Se o vidro pudesse devolver-te à vida,
Não pediria glórias nem perdão;
Bastava tua presença, enternecida,
Para afinar as cordas da recordação.

OPUS III — A SINFONIA DO QUE NÃO DISSEMOS

Compus para teus olhos uma aurora,
Mas não soube entregá-la ao teu olhar;
A música nasceu naquela hora
Em que o orgulho nos ensinou a calar.
Havia em nós um universo de ternura,
E um medo antigo de nos revelar;
Fizemos do silêncio uma clausura,
Sem perceber que amar é também arriscar.
Agora escuto, entre compassos suspensos,
As confissões que a voz não consentiu;
E encontro nos intervalos mais intensos
O que meu coração jamais concluiu.

OPUS IV — O ADÁGIO DAS HORAS IRREVERSÍVEIS

Ah, se pudesse o Tempo, por clemência,
Reabrir os salões do nosso abril,
Eu trocaria a altivez pela inocência
De confessar o que meu peito encobriu.
Não deixaria que a razão, severa,
Negasse ao sentimento sua verdade;
Faria de cada inverno uma primavera,
E de cada despedida, eternidade.
Mas o relógio, em seu rigor profundo,
Não restitui os dias que levou;
E o que perdi nos corredores deste mundo
É justamente aquilo que em mim ficou.

OPUS V — A ÚLTIMA PARTITURA NÃO ESCRITA

Quando a derradeira luz tocar o rio,
E o piano repousar sua aflição,
Hei de guardar, no coração tardio,
A melodia que escapou de minha mão.
Não sei se ouvirás, além da distância,
O breve canto que por ti nasceu;
Talvez a vida, em sua extravagância,
Devolva ao nosso encontro o que perdeu.
E se voltares quando a noite for serena,
Não buscarei palavras para te acolher;
Pois há um amor que, mesmo em sua pena,
Só precisa de duas mãos para renascer.

(Betto Gasparetto – 2012)

Linhas Opostas

Posted in Sem categoria on 14 de outubro de 2026 by Prof Gasparetto

Quatro movimentos entre os trilhos do destino, os ponteiros da despedida e o amor que se recusa a partir.

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — O RELÓGIO DAS DESPEDIDAS

Na estação, o inverno amanhecia,
E o ferro estremecia sob o vapor;
Teu rosto junto ao meu ainda aquecia
A derradeira chama deste amor.
O grande relógio, indiferente,
Marcava a hora amarga de partir;
E eu, abraçando-te tão docemente,
Quis ordenar ao Tempo que não fosse prosseguir.
Mas há partidas que não pedem licença,
Nem ouvem os protestos da paixão;
E o trem, rompendo a névoa da presença,
Levou consigo a paz do coração.

II — OS TRILHOS QUE NÃO SE ENCONTRAM

Dois trilhos seguem juntos pela estrada,
Sem que seus corpos possam se tocar;
Assim nossa esperança, condenada,
Aprendeu tão perto a se distanciar.
Teus olhos procuravam meu semblante,
Como quem busca um porto em pleno mar;
E cada apito, triste e penetrante,
Parecia outra sentença a nos separar.
Ah, se o destino conhecesse a ternura,
Não dividiria em dois o mesmo chão;
Pois linhas opostas são cruel figura
De dois amantes presos à separação.

III — A MALA DAS PALAVRAS CALADAS

Na velha mala repousavam cartas,
Fotografias, promessas e um lenço;
Pequenas coisas que julgávamos fartas
De eternidade, num amor tão intenso.
Quis confessar-te o medo da distância,
Mas minha voz perdeu-se pelo cais;
Guardei no peito a última esperança
De que os teus passos retornassem uma vez mais.
E quando tua mão deixou a minha,
Senti morrer a tarde em pleno alvor;
Pois toda despedida traz, sozinha,
Um século de ausência dentro do amor.

IV — A ESTAÇÃO DO IMPOSSÍVEL REGRESSO

Se um dia os mesmos trilhos nos trouxerem
Àquela plataforma onde chorei,
E os velhos sinos novamente disserem
Que o amor regressa ao lugar onde o deixei;
Hei de buscar teus olhos entre a gente,
Sem perguntar que inverno atravessaste;
E abraçar-te como quem, finalmente,
Recupera a primavera que guardaste.
Pois mesmo quando os trens seguem contrários,
Há sentimentos que não sabem terminar;
E se o destino nos fizer itinerários,
Que o amor encontre um jeito de voltar.

(Betto Gasparetto – 2013)