CARTA # I — QUANDO O DESTINO VESTIU-SE DE PRIMAVERA
Vi-te chegar sob os arcos do palácio, Quando a tarde bordava o céu de carmim; Teu olhar fez do mundo um breve espaço, Onde a eternidade principiou em mim. Havia em teus cabelos luz dourada, E em teus gestos, a graça de um jardim; Minha alma, até então tão resguardada, Rendeu-se ao teu sorriso de cetim. Não foram as estrelas testemunhas, Nem os sinos que dobravam ao luar; Foram duas mãos, discretas e desnudas, Que aprenderam, sem palavras, a se amar.
CARTA # II — A VALSA DAS PROMESSAS INVIOLÁVEIS
Dançamos onde o mármore florescia, Sob colunas de antiga majestade; E a música, em secreta melodia, Consagrou nosso instante à eternidade. Teu vestido desenhava a primavera, Enquanto eu te conduzia pelo salão; E cada volta, em sua doce espera, Despertava outra aurora à nossa paixão. Jurei guardar teu nome em meu destino, Sem reclamar do Tempo a sua mercê; Pois mesmo o mais soberbo dos caminhos Perde a grandeza quando longe de você.
CARTA # III — O CREPÚSCULO DOS JURAMENTOS
Vieram dias de inquietante bruma, E as rosas perderam seu esplendor; O que julgávamos eterno fez-se espuma, À mercê dos caprichos do temor. Teu silêncio ganhou estranha nobreza, Mas teus olhos já não sabiam repousar; Havia em nossas mãos tanta tristeza, Que até os beijos hesitavam em chegar. Não foi a falta de amor que nos venceu, Nem a distância entre a terra e o firmamento; Foi o orgulho que, entre nós, se ergueu, Erigindo uma muralha ao sentimento.
CARTA # IV — A JANELA DOS INVERNOS SEM RESPOSTA
Escrevo-te onde a chuva beija a pedra, E o lago adormece entre os pinhais; A chama da lareira ainda medra, Mas não aquece os dias desiguais. Teu retrato permanece em minha mente, Como um reino que não posso governar; E a saudade, em seu rigor persistente, Faz das horas um deserto a atravessar. Quantas cartas escrevi sem remetente, Quantos versos condenei ao esquecimento! Pois nenhuma palavra é suficiente Para restituir o que levou o vento.
CARTA # V — O TRIBUNAL DAS PALAVRAS NÃO DITAS
Não te acuso por haveres escolhido Outros rumos que não pude compreender; Talvez meu coração, tão presumido, Tenha amado sem saber te proteger. Fui senhor de castelos e de honrarias, Mas escravo de um orgulho sem razão; Confundi com certezas as fantasias, E fiz da própria voz uma prisão. Hoje reconheço, em tardia consciência, Que amar não é exigir submissão; É oferecer ao outro a própria essência, Sem transformar ternura em obrigação.
CARTA # VI — A ROSA QUE RECUSOU O ESQUECIMENTO
Guardei a rosa da primeira dança, Entre as folhas de um livro já sem cor; Sua pétala conserva uma lembrança Da inocência que precedeu a dor. Não te espero como outrora te esperava, Nem reclamo o que o destino dissolveu; Mas há em mim uma chama que se abrasa Ao recordar o beijo que foi teu. Se algum dia atravessares outros mares, E encontrares a ventura que sonhaste, Que os teus olhos, contemplando novos lares, Não lamentem os caminhos que deixaste.
CARTA # VII — A MAJESTADE DO ÚLTIMO ADEUS
Esta é a carta que jamais quis escrever, A derradeira entre as que te destinei; Não para implorar que tornes a me ver, Mas para honrar o amor que te entreguei. Não levarei comigo teus retratos Como testemunhas de uma antiga dor; Guardarei os nossos dias mais exatos, Sem exigir que regressem ao esplendor. E quando a chuva enfim deixar a vidraça, Hei de abrir as janelas para o céu; Pois o mais nobre amor também tem graça Quando sabe dizer adeus sem deixar de ser fiel.
(Betto Gasparetto – 2012)
“Nem todo adeus representa o fim de um sentimento. Às vezes, representa o instante em que o amor deixa de exigir e aprende, finalmente, a oferecer liberdade.” (Betto Gasparetto)
Sob os cristais de um século esquecido, A noite desdobrava o seu cetim; Teu vulto atravessou o salão florido, E o mundo inteiro se afastou de mim. Havia em teus cabelos certa aurora, Um delicado anúncio de esplendor; E o meu olhar, que nunca se enamora, Rendeu-se à majestade desse ardor. Pedi-te a mão com tímida ousadia, Sentindo o peito em súbita expansão; E antes que a orquestra principiasse, Já nos perdíamos na mesma canção.
DANÇA # II — O MINUETO DAS MÃOS ENTRELAÇADAS
Teus dedos repousaram entre os meus, Qual confidência entregue ao pensamento; E os passos, sob a bênção dos céus, Ganharam a cadência do encantamento. Não era apenas dança o que fazíamos, Mas uma antiga forma de dizer Aquilo que em silêncio pressentíamos, Sem que a razão pudesse compreender. Teu corpo, em delicada proximidade, Guardava a compostura e a sedução; E cada volta, em sua brevidade, Tornava mais profundo o coração.
DANÇA # III — O TANGO DAS PAIXÕES VELADAS
A música desceu às regiões secretas, Onde o desejo aprende a murmurar; Teus olhos, como lâminas discretas, Fizeram minha prudência vacilar. Havia em teus movimentos tal nobreza, Que até o fogo parecia obedecer; E em cada pausa, envolta em sutileza, Um universo ousava estremecer. Não quis possuir o instante ou dominá-lo, Mas conceder-lhe inteira devoção; Pois há um beijo que, antes de alcançá-lo, Já deixa sua marca na emoção.
DANÇA # IV — A MAZURCA DAS HORAS FUGIDIAS
O grande relógio anunciou a madrugada, E a orquestra entristeceu seu esplendor; Teu rosto, sob a luz já fatigada, Guardava a inquietação de alguma dor. Pressenti que uma sombra nos seguia, Vestida de silêncio e discrição; Talvez o Tempo, em sua tirania, Viesse reclamar nossa ilusão. Apertei tua mão sem dizer nada, Temendo que o destino a reclamasse; E a última cadência, prolongada, Suplicou que a manhã não despertasse.
DANÇA # V — O ADÁGIO DOS SALÕES DESERTOS
Partiste quando os lustres se apagaram, Sem que eu soubesse a causa ou a razão; As flores, que teus dedos perfumaram, Restaram como súplica no salão. O piano conservou tua lembrança, Nas notas que ninguém tornou a ouvir; E o espelho, testemunha de nossa dança, Parecia perguntar por teu partir. Voltei sozinho àquela mesma sala, Buscando entre os reflexos teu perfil; Mas a saudade, quando o peito a cala, Faz de uma breve ausência um tempo hostil.
DANÇA # VI — A ÚLTIMA VALSA ANTES DA ETERNIDADE
Se algum inverno devolver teus passos, E a vida consentir nosso reencontro, Não pedirei explicações aos teus abraços, Nem julgarei os anos do desencontro. Convidar-te-ei à valsa derradeira, Sob a ternura de um clarão outonal; E mesmo que a estação seja estrangeira, Teremos novamente o nosso baile real. Pois quem se perde em tão sublime dança Não busca nos relógios direção; Descobre que o amor, quando alcança a alma, Faz de dois destinos um só coração.
A tarde inclina ao rio a fronte de ouro, E as cortinas respiram mansamente; Sobre o ébano repousa um velho tesouro, A partitura de um amor ainda presente. Meus dedos buscam, tímidos, a harmonia Que outrora em teus abraços floresceu; Mas cada acorde guarda a melancolia De um juramento que o destino interrompeu. Nas teclas dorme a sombra de teus gestos, Qual delicada herança de outra estação; E os sons, outrora límpidos e honestos, Hoje interrogam minha solidão.
OPUS II — O RETRATO ENTRE AS ROSAS
Teu rosto permanece emoldurado, À margem das sonatas que escrevi; Há nele um riso pelo tempo preservado, Que ainda me pergunta por que parti. As rosas, inclinadas sobre o instrumento, Exalam a ternura de um jardim; E cada pétala, entregue ao pensamento, Revela quanto ainda resta de ti em mim. Se o vidro pudesse devolver-te à vida, Não pediria glórias nem perdão; Bastava tua presença, enternecida, Para afinar as cordas da recordação.
OPUS III — A SINFONIA DO QUE NÃO DISSEMOS
Compus para teus olhos uma aurora, Mas não soube entregá-la ao teu olhar; A música nasceu naquela hora Em que o orgulho nos ensinou a calar. Havia em nós um universo de ternura, E um medo antigo de nos revelar; Fizemos do silêncio uma clausura, Sem perceber que amar é também arriscar. Agora escuto, entre compassos suspensos, As confissões que a voz não consentiu; E encontro nos intervalos mais intensos O que meu coração jamais concluiu.
OPUS IV — O ADÁGIO DAS HORAS IRREVERSÍVEIS
Ah, se pudesse o Tempo, por clemência, Reabrir os salões do nosso abril, Eu trocaria a altivez pela inocência De confessar o que meu peito encobriu. Não deixaria que a razão, severa, Negasse ao sentimento sua verdade; Faria de cada inverno uma primavera, E de cada despedida, eternidade. Mas o relógio, em seu rigor profundo, Não restitui os dias que levou; E o que perdi nos corredores deste mundo É justamente aquilo que em mim ficou.
OPUS V — A ÚLTIMA PARTITURA NÃO ESCRITA
Quando a derradeira luz tocar o rio, E o piano repousar sua aflição, Hei de guardar, no coração tardio, A melodia que escapou de minha mão. Não sei se ouvirás, além da distância, O breve canto que por ti nasceu; Talvez a vida, em sua extravagância, Devolva ao nosso encontro o que perdeu. E se voltares quando a noite for serena, Não buscarei palavras para te acolher; Pois há um amor que, mesmo em sua pena, Só precisa de duas mãos para renascer.
Na estação, o inverno amanhecia, E o ferro estremecia sob o vapor; Teu rosto junto ao meu ainda aquecia A derradeira chama deste amor. O grande relógio, indiferente, Marcava a hora amarga de partir; E eu, abraçando-te tão docemente, Quis ordenar ao Tempo que não fosse prosseguir. Mas há partidas que não pedem licença, Nem ouvem os protestos da paixão; E o trem, rompendo a névoa da presença, Levou consigo a paz do coração.
II — OS TRILHOS QUE NÃO SE ENCONTRAM
Dois trilhos seguem juntos pela estrada, Sem que seus corpos possam se tocar; Assim nossa esperança, condenada, Aprendeu tão perto a se distanciar. Teus olhos procuravam meu semblante, Como quem busca um porto em pleno mar; E cada apito, triste e penetrante, Parecia outra sentença a nos separar. Ah, se o destino conhecesse a ternura, Não dividiria em dois o mesmo chão; Pois linhas opostas são cruel figura De dois amantes presos à separação.
III — A MALA DAS PALAVRAS CALADAS
Na velha mala repousavam cartas, Fotografias, promessas e um lenço; Pequenas coisas que julgávamos fartas De eternidade, num amor tão intenso. Quis confessar-te o medo da distância, Mas minha voz perdeu-se pelo cais; Guardei no peito a última esperança De que os teus passos retornassem uma vez mais. E quando tua mão deixou a minha, Senti morrer a tarde em pleno alvor; Pois toda despedida traz, sozinha, Um século de ausência dentro do amor.
IV — A ESTAÇÃO DO IMPOSSÍVEL REGRESSO
Se um dia os mesmos trilhos nos trouxerem Àquela plataforma onde chorei, E os velhos sinos novamente disserem Que o amor regressa ao lugar onde o deixei; Hei de buscar teus olhos entre a gente, Sem perguntar que inverno atravessaste; E abraçar-te como quem, finalmente, Recupera a primavera que guardaste. Pois mesmo quando os trens seguem contrários, Há sentimentos que não sabem terminar; E se o destino nos fizer itinerários, Que o amor encontre um jeito de voltar.