Arquivo para 14 de outubro de 2026

Linhas Opostas

Posted in Sem categoria on 14 de outubro de 2026 by Prof Gasparetto

Quatro movimentos entre os trilhos do destino, os ponteiros da despedida e o amor que se recusa a partir.

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I — O RELÓGIO DAS DESPEDIDAS

Na estação, o inverno amanhecia,
E o ferro estremecia sob o vapor;
Teu rosto junto ao meu ainda aquecia
A derradeira chama deste amor.
O grande relógio, indiferente,
Marcava a hora amarga de partir;
E eu, abraçando-te tão docemente,
Quis ordenar ao Tempo que não fosse prosseguir.
Mas há partidas que não pedem licença,
Nem ouvem os protestos da paixão;
E o trem, rompendo a névoa da presença,
Levou consigo a paz do coração.

II — OS TRILHOS QUE NÃO SE ENCONTRAM

Dois trilhos seguem juntos pela estrada,
Sem que seus corpos possam se tocar;
Assim nossa esperança, condenada,
Aprendeu tão perto a se distanciar.
Teus olhos procuravam meu semblante,
Como quem busca um porto em pleno mar;
E cada apito, triste e penetrante,
Parecia outra sentença a nos separar.
Ah, se o destino conhecesse a ternura,
Não dividiria em dois o mesmo chão;
Pois linhas opostas são cruel figura
De dois amantes presos à separação.

III — A MALA DAS PALAVRAS CALADAS

Na velha mala repousavam cartas,
Fotografias, promessas e um lenço;
Pequenas coisas que julgávamos fartas
De eternidade, num amor tão intenso.
Quis confessar-te o medo da distância,
Mas minha voz perdeu-se pelo cais;
Guardei no peito a última esperança
De que os teus passos retornassem uma vez mais.
E quando tua mão deixou a minha,
Senti morrer a tarde em pleno alvor;
Pois toda despedida traz, sozinha,
Um século de ausência dentro do amor.

IV — A ESTAÇÃO DO IMPOSSÍVEL REGRESSO

Se um dia os mesmos trilhos nos trouxerem
Àquela plataforma onde chorei,
E os velhos sinos novamente disserem
Que o amor regressa ao lugar onde o deixei;
Hei de buscar teus olhos entre a gente,
Sem perguntar que inverno atravessaste;
E abraçar-te como quem, finalmente,
Recupera a primavera que guardaste.
Pois mesmo quando os trens seguem contrários,
Há sentimentos que não sabem terminar;
E se o destino nos fizer itinerários,
Que o amor encontre um jeito de voltar.

(Betto Gasparetto – 2013)