Cinco opus sobre o amor que se fez música, o silêncio que herdou sua ausência e as notas que o tempo não conseguiu sepultar.
(Betto Gasparetto)

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OPUS I — O CREPÚSCULO DAS NOTAS ADORMECIDAS
A tarde inclina ao rio a fronte de ouro,
E as cortinas respiram mansamente;
Sobre o ébano repousa um velho tesouro,
A partitura de um amor ainda presente.
Meus dedos buscam, tímidos, a harmonia
Que outrora em teus abraços floresceu;
Mas cada acorde guarda a melancolia
De um juramento que o destino interrompeu.
Nas teclas dorme a sombra de teus gestos,
Qual delicada herança de outra estação;
E os sons, outrora límpidos e honestos,
Hoje interrogam minha solidão.
OPUS II — O RETRATO ENTRE AS ROSAS
Teu rosto permanece emoldurado,
À margem das sonatas que escrevi;
Há nele um riso pelo tempo preservado,
Que ainda me pergunta por que parti.
As rosas, inclinadas sobre o instrumento,
Exalam a ternura de um jardim;
E cada pétala, entregue ao pensamento,
Revela quanto ainda resta de ti em mim.
Se o vidro pudesse devolver-te à vida,
Não pediria glórias nem perdão;
Bastava tua presença, enternecida,
Para afinar as cordas da recordação.
OPUS III — A SINFONIA DO QUE NÃO DISSEMOS
Compus para teus olhos uma aurora,
Mas não soube entregá-la ao teu olhar;
A música nasceu naquela hora
Em que o orgulho nos ensinou a calar.
Havia em nós um universo de ternura,
E um medo antigo de nos revelar;
Fizemos do silêncio uma clausura,
Sem perceber que amar é também arriscar.
Agora escuto, entre compassos suspensos,
As confissões que a voz não consentiu;
E encontro nos intervalos mais intensos
O que meu coração jamais concluiu.
OPUS IV — O ADÁGIO DAS HORAS IRREVERSÍVEIS
Ah, se pudesse o Tempo, por clemência,
Reabrir os salões do nosso abril,
Eu trocaria a altivez pela inocência
De confessar o que meu peito encobriu.
Não deixaria que a razão, severa,
Negasse ao sentimento sua verdade;
Faria de cada inverno uma primavera,
E de cada despedida, eternidade.
Mas o relógio, em seu rigor profundo,
Não restitui os dias que levou;
E o que perdi nos corredores deste mundo
É justamente aquilo que em mim ficou.
OPUS V — A ÚLTIMA PARTITURA NÃO ESCRITA
Quando a derradeira luz tocar o rio,
E o piano repousar sua aflição,
Hei de guardar, no coração tardio,
A melodia que escapou de minha mão.
Não sei se ouvirás, além da distância,
O breve canto que por ti nasceu;
Talvez a vida, em sua extravagância,
Devolva ao nosso encontro o que perdeu.
E se voltares quando a noite for serena,
Não buscarei palavras para te acolher;
Pois há um amor que, mesmo em sua pena,
Só precisa de duas mãos para renascer.
(Betto Gasparetto – 2012)