Os Doze Cânticos da Permanência (02/12)
Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo
(Betto Gasparetto)
Cântico II — As Muralhas Guardavam Apenas o Silêncio

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Transitus Primus — A Ordem dos Dias
Antes que qualquer palavra fosse pronunciada, existia uma longa sucessão de dias governados pela disciplina dos costumes.
As torres observavam os caminhos com a mesma serenidade de muitas gerações.
Os portões abriam-se ao amanhecer e recolhiam-se ao cair da tarde, obedecendo ao ritmo estabelecido pela experiência dos antigos.
Nada parecia destinado a alterar aquela ordem cuidadosamente preservada.
As pedras conheciam a passagem das estações.
As árvores recordavam ventos que já não existiam.
Os corredores mantinham o perfume discreto da madeira envelhecida e do ferro trabalhado pelas mãos dos artesãos.
Cada objeto possuía uma história silenciosa.
Cada janela testemunhara incontáveis partidas e inúmeros regressos.
A existência seguia seu curso com a elegância das tradições que não necessitam justificar sua permanência.
Entretanto, alguns encontros possuem a delicadeza de transformar o destino sem romper a harmonia do mundo.
A proximidade surgiu como nasce a luz sobre os campos depois de uma madrugada serena.
Nenhuma inquietação precipitou os acontecimentos.
Nenhuma promessa antecedeu a confiança.
Houve apenas o reconhecimento de uma afinidade construída sobre valores que não se desgastam diante do tempo.
Transitus Secundus — O Edifício Invisível

Os diálogos percorriam caminhos amplos.
Falavam das colheitas abundantes.
Das cidades erguidas com inteligência.
Das bibliotecas preservadas pela dedicação de incontáveis estudiosos.
Dos jardins desenhados para oferecer repouso ao pensamento.
Das embarcações que regressavam carregadas de novas experiências.
Cada assunto revelava mais do caráter do que das circunstâncias.
Era impossível não admirar a nobreza de uma inteligência que jamais buscava humilhar.
Toda opinião era apresentada com respeito.
Toda divergência encontrava abrigo na prudência.
Toda concordância nascia da reflexão e não da conveniência.
Assim, o afeto crescia como crescem as grandes construções.
Primeiro estabelecem-se fundamentos invisíveis.
Depois elevam-se colunas discretas.
Somente muito tempo mais tarde aparecem as formas que todos podem contemplar.
As muralhas continuavam imóveis.
Mas agora pareciam proteger algo muito mais valioso do que antigas fortalezas.
Guardavam uma confiança construída sem alarde.
Transitus Tertius — A Beleza da Continuidade

Os jardins tornaram-se mais extensos.
As alamedas convidavam a caminhadas demoradas.
As sombras das árvores desenhavam caminhos que pareciam conduzir sempre ao mesmo encontro.
O tempo abandonava qualquer intenção de pressa.
Cada conversa possuía o privilégio de permanecer inacabada para continuar no dia seguinte.
Não existia ansiedade em alcançar conclusões definitivas.
A beleza residia justamente na continuidade.
Os livros repousavam sobre mesas robustas.
Os mapas permaneciam abertos.
As cartas cuidadosamente dobradas revelavam apenas o suficiente para despertar novas conversações.
Tudo incentivava a permanência.
Nada sugeria despedidas.
A cortesia transformava gestos simples em acontecimentos memoráveis.
Uma cadeira aproximada com delicadeza.
Um manuscrito oferecido para leitura.
Uma flor preservada entre as páginas de um volume antigo.
Uma janela aberta para permitir a entrada da luz da manhã.
Pequenas ações possuíam a grandeza que apenas os espíritos atentos conseguem reconhecer.
Não era necessário procurar feitos extraordinários.
As maiores demonstrações de afeto habitavam justamente aquilo que parecia comum aos olhos distraídos.
Transitus Quartus — O Silêncio das Muralhas

Os dias sucediam-se como capítulos cuidadosamente organizados por um cronista paciente.
Nenhum episódio anulava o anterior.
Cada experiência ampliava a compreensão da seguinte.
A memória transformava-se em uma galeria cada vez mais rica.
As lembranças não pesavam.
Iluminavam.
A esperança deixava de ser expectativa distante.
Convertia-se em companhia constante.
Era possível perceber sua presença no brilho discreto das manhãs.
Na tranquilidade dos salões.
Na firmeza das portas de carvalho.
Na serenidade das fontes que jamais interrompiam seu curso.
Tudo parecia ensinar que a permanência é uma das mais elevadas formas de generosidade.
Não havia espaço para exibições.
A verdadeira elegância recusava qualquer excesso.
O entusiasmo manifestava-se pela dedicação cotidiana.
Pela disposição em ouvir.
Pela capacidade de compreender antes de responder.
Pela escolha consciente das palavras.
Pela delicadeza que nunca confundia silêncio com ausência.
Enquanto muitos buscavam impressionar através da grandiosidade, havia quem preferisse construir lentamente uma obra destinada a atravessar os anos.
Essa escolha exigia coragem.
Exigia paciência.
Exigia confiança na força invisível das pequenas virtudes.
Poucos compreendem que as maiores histórias não começam com acontecimentos extraordinários.
Elas iniciam quando duas vontades escolhem caminhar lado a lado sem disputar o protagonismo do caminho.
A cada novo amanhecer surgia uma certeza discreta.
Não era necessário acelerar o futuro.
O próprio tempo parecia honrado em participar daquela construção.
As estações continuavam mudando.
As folhas amadureciam.
Os campos renovavam suas cores.
Os artesãos substituíam antigas vigas por madeiras mais resistentes.
Os escribas preenchiam novos pergaminhos.
Os sinos civis marcavam as horas da cidade.
Tudo prosseguia.
Nada permanecia imóvel.
Ainda assim, havia algo que não se alterava.
A confiança tornava-se mais profunda.
O respeito adquiria novas dimensões.
A admiração deixava de depender da novidade e passava a repousar sobre o conhecimento verdadeiro do outro.
Esse era o privilégio reservado às grandes histórias.
Descobrir beleza não apenas no primeiro encontro, mas sobretudo na permanência das escolhas.
Quando o horizonte finalmente se cobria pelas últimas luzes do entardecer, as muralhas permaneciam silenciosas.
Não porque escondessem segredos.
Mas porque compreendiam que alguns sentimentos alcançam tamanha dignidade que deixam de necessitar qualquer proclamação.
Basta-lhes continuar existindo com a serenidade das obras destinadas a sobreviver ao próprio tempo.
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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)
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