Os Doze Cânticos da Permanência (01/12)
Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo
(Betto Gasparetto)
INTROITO
Aos leitores que percorrem os antigos caminhos da memória
Há obras que se oferecem ao olhar como simples reunião de páginas. Outras, porém, convidam o espírito a atravessar um limiar invisível, onde a leitura deixa de ser apenas um exercício da inteligência para tornar-se uma caminhada lenta entre memórias, paisagens e sentimentos que amadurecem na companhia do tempo.
Os doze cânticos que agora se apresentam pertencem a essa segunda tradição.
Não nasceram para serem percorridos com a ansiedade de quem busca apenas um desfecho. Foram concebidos para acompanhar o ritmo sereno das antigas narrativas medievais, nas quais castelos, bibliotecas, muralhas, jardins, rios, estradas e cidades muradas não constituíam meros cenários, mas participavam silenciosamente da formação do caráter, da construção da memória e da permanência das virtudes humanas.
Nas grandes narrativas daquele tempo, o verdadeiro heroísmo raramente se encontrava nos feitos grandiosos. Revelava-se, antes, na fidelidade às pequenas escolhas, na delicadeza das palavras ponderadas, na coragem de permanecer quando a impaciência sugeria o abandono e na sabedoria de compreender que nenhuma obra destinada a atravessar gerações pode ser edificada com precipitação.
É dessa tradição literária que estes cânticos recebem sua atmosfera.
Não pretendem reproduzir antigos romances, tampouco imitar manuscritos preservados pelo tempo. Procuram dialogar com a sensibilidade que fez dessas obras um patrimônio permanente da literatura, oferecendo ao leitor uma jornada onde o romance floresce pela confiança, a esperança amadurece pela constância e a beleza encontra sua forma mais elevada na serenidade da convivência.
Cada cântico contempla uma paisagem diferente, mas todas pertencem ao mesmo horizonte. As muralhas simbolizam a firmeza dos princípios. Os jardins revelam a paciência do cultivo cotidiano. As bibliotecas preservam a memória. Os rios recordam a continuidade. As estradas celebram a caminhada. As cidades testemunham a harmonia construída pela cooperação. As janelas abertas acolhem novas perspectivas. O tempo, sempre presente, deixa de ser adversário para transformar-se no mais paciente dos artesãos.
Estas páginas não foram escritas para oferecer respostas definitivas. Antes, desejam despertar contemplações, sugerir caminhos e recordar que as histórias mais duradouras não pertencem apenas ao passado. Elas renascem sempre que uma existência encontra outra com respeito, prudência, admiração e delicadeza suficientes para construir, dia após dia, uma memória digna de permanecer.
Se, ao concluir esta leitura, o leitor perceber que cada amanhecer pode revelar uma nova paisagem nas mesmas estradas, que toda convivência amadurece como as antigas fortalezas erguidas pedra sobre pedra e que a verdadeira grandeza habita os gestos silenciosos mais do que os acontecimentos extraordinários, então estes cânticos terão alcançado sua finalidade.
Receba, pois, este manuscrito como outrora eram recebidas as narrativas preservadas nas bibliotecas das antigas fortalezas: com tempo, serenidade e espírito contemplativo. Que cada página seja percorrida sem pressa, permitindo que as palavras encontrem naturalmente seu lugar na memória e que o silêncio entre elas revele significados que somente a leitura paciente é capaz de descobrir.
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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)
Cântico I — O Jardim Que Não Conhecia o Inverno

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Transitus Primus — O Primeiro Encontro
Não houve clarim que anunciasse o instante em que duas existências começaram a mover-se uma em direção à outra.
Tudo ocorreu com a discrição das estações que alteram o curso das árvores sem produzir qualquer ruído capaz de despertar os distraídos.
O mundo conservava a aparência habitual.
As muralhas permaneciam erguidas.
Os salões acolhiam as mesmas conversações prudentes.
Os corredores de pedra recebiam os mesmos passos medidos.
Os jardins exibiam as mesmas alamedas disciplinadas.
Entretanto, uma alteração invisível já percorria o tecido dos dias.
Era semelhante à lenta transformação de um manuscrito que, a cada nova leitura, revela significados anteriormente ocultos.
Nada possuía a violência das tempestades.
Tudo pertencia à delicadeza das permanências.
Havia uma dignidade antiga na forma como os olhares se encontravam.
Não buscavam conquista.
Não procuravam domínio.
Reconheciam apenas a existência de uma presença cuja serenidade parecia completar aquilo que durante muito tempo permanecera incompleto.
As palavras surgiam com a cautela dos escribas que compreendem o valor de cada sentença antes de registrá-la sobre o pergaminho.
Nenhuma expressão era desperdiçada.
Cada frase trazia consigo o peso da reflexão.
Cada silêncio preservava um território onde a confiança podia crescer lentamente.
Os dias passaram a adquirir outra espessura.
As manhãs deixaram de ser simples sucessões de horas.
Cada alvorada parecia abrir um novo salão dentro da memória.
Cada tarde oferecia um horizonte mais vasto para as expectativas discretas.
Cada crepúsculo encerrava promessas que dispensavam qualquer juramento.
Transitus Secundus — Os Alicerces da Confiança

O afeto não necessitava proclamar sua existência.
Manifestava-se na delicadeza das pequenas atenções.
Na escuta paciente.
Na cortesia espontânea.
Na firmeza tranquila das decisões compartilhadas.
Era um romance construído pela constância e não pelo impulso.
As antigas fortalezas ensinavam que nenhuma muralha permanece de pé apenas pela imponência de suas pedras.
Sua verdadeira resistência repousa na harmonia das pequenas juntas invisíveis.
Assim também acontecia entre aquelas duas vontades.
Os grandes sentimentos eram sustentados por incontáveis gestos discretos.
Nenhum deles buscava aplausos.
Todos possuíam a grandeza silenciosa das obras duradouras.
Quando caminhavam entre os pátios revestidos de lajes antigas, parecia que o próprio espaço ampliava sua nobreza.
As árvores antigas inclinavam seus galhos como se reconhecessem a continuidade de uma história digna de permanecer.
As fontes deixavam correr suas águas com uma tranquilidade ainda mais profunda.
As sombras dos muros desenhavam figuras elegantes sobre o solo.
O tempo deixava de agir como adversário.
Transformava-se em artesão.
Lapidava as hesitações.
Polia as diferenças.
Conferia brilho às virtudes discretas.
Ensinava que nenhuma afeição elevada nasce pronta.
Toda grande obra exige paciência.
Todo grande encontro necessita atravessar inúmeras manhãs antes de alcançar sua verdadeira forma.
Transitus Tertius — A Arquitetura da Permanência

Os livros antigos repousavam sobre as estantes de carvalho.
Suas encadernações gastas testemunhavam gerações que compreenderam o valor das narrativas longas.
Nenhuma história memorável se edificou sobre precipitações.
As páginas mais admiráveis sempre nasceram da perseverança.
O mesmo princípio governava aquele sentimento.
Cada conversa acrescentava uma nova ala ao edifício invisível da confiança.
Cada compreensão dissipava corredores escuros.
Cada demonstração de respeito erguia novas colunas destinadas a sustentar o futuro.
Não havia necessidade de adornos extravagantes.
A beleza encontrava abrigo na simplicidade cultivada com inteligência.
Uma flor cuidadosamente preservada possuía mais eloquência que um campo inteiro abandonado ao descuido.
Um gesto sincero superava longos discursos.
Uma presença constante possuía maior valor que incontáveis promessas.
O entusiasmo crescia sem perder a compostura.
Era semelhante às bibliotecas que aumentam seu acervo durante séculos.
Nenhum volume diminuía a importância dos anteriores.
Cada novo capítulo enriquecia todos os que vieram antes.
Assim também o afeto.
Não substituía lembranças.
Expandia-as.
Não apagava antigas experiências.
Conferia-lhes um significado mais amplo.
Transitus Quartus — O Jardim da Permanência

As noites chegavam envolvidas por um silêncio luminoso.
As janelas permaneciam abertas para receber o ar fresco que atravessava os jardins.
As velas desenhavam círculos dourados sobre as mesas de madeira antiga.
As conversações prosseguiam sem qualquer pressa.
A inteligência encontrava repouso na delicadeza do diálogo.
O coração descobria que a verdadeira proximidade não exige urgência.
Exige permanência.
Pouco a pouco, toda paisagem parecia adquirir nova linguagem.
Os campos deixavam de ser apenas campos.
Transformavam-se em testemunhas.
As estradas deixavam de representar distância.
Convertiam-se em possibilidades.
As pontes deixavam de unir apenas margens.
Passavam a reunir destinos construídos pela escolha consciente.
Nada naquela trajetória pretendia desafiar o mundo.
Buscava apenas habitá-lo com maior nobreza.
Havia uma elegância serena em reconhecer que o amor não precisa elevar a voz para transformar uma existência.
Sua influência manifesta-se de maneira mais profunda quando modifica o caráter.
Quando amplia a generosidade.
Quando fortalece a coragem.
Quando ensina a virtude da escuta.
Quando substitui a ansiedade pela confiança.
Quando faz do respeito um idioma permanente.
Assim nasceu aquele jardim que parecia desconhecer o inverno.
Não porque estivesse protegido das mudanças inevitáveis.
Mas porque aprendera a florescer mesmo diante das estações mais severas.
Sua beleza não dependia da ausência das dificuldades.
Dependia da decisão contínua de cultivar aquilo que merece permanecer.
E foi nesse cultivo silencioso, paciente e elevado que duas existências compreenderam que a verdadeira grandeza do romance não reside no instante em que começa, mas na dignidade com que escolhe continuar, dia após dia, enquanto o tempo escreve, com mãos invisíveis, as páginas mais nobres de uma história destinada a permanecer viva na memória das gerações futuras.
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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)
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