Os Doze Cânticos da Permanência (10/12)

Posted in Sem categoria on 11 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico X — A Cidade Que Despertava Com a Luz

Transitus Primus — O Amanhecer Entre as Muralhas

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Toda cidade verdadeiramente antiga conserva uma memória que não pode ser encontrada apenas em seus edifícios, nas pedras de suas ruas ou na imponência de suas muralhas.
Ela repousa no modo como cada amanhecer desperta lentamente os mesmos lugares e, ainda assim, faz com que tudo pareça nascer pela primeira vez.
As primeiras claridades deslizavam sobre os telhados de ardósia antes de alcançarem as torres mais elevadas.
As janelas abriam-se pouco a pouco.
As portas de madeira antiga recebiam novamente o movimento sereno dos habitantes.
Os mercados preparavam discretamente suas bancas.
Os artesãos organizavam suas ferramentas com a calma de quem compreendia que a excelência jamais depende da velocidade.
As ruas de pedra acolhiam passos tranquilos.
Nenhuma agitação procurava dominar o princípio daquele novo dia.
A cidade parecia respirar profundamente antes de iniciar suas atividades.
Havia uma ordem invisível sustentando todos os gestos.
Cada ofício encontrava seu momento.
Cada pessoa reconhecia naturalmente o valor do trabalho da outra.
Nada existia isoladamente.
Tudo contribuía para uma mesma harmonia.

Transitus Secundus — As Ruas da Convivência

Também os sentimentos descobriam sua força quando abandonavam qualquer desejo de protagonismo.
A afeição mais elevada jamais procura ocupar todos os espaços.
Prefere tornar cada espaço mais digno da presença compartilhada.
Assim acontecia entre duas existências que aprenderam a caminhar pelas mesmas ruas sem jamais transformar a convivência em rotina desprovida de encanto.
Cada percurso oferecia uma nova observação.
Cada esquina revelava um detalhe antes despercebido.
Cada janela aberta parecia contar uma história diferente daquela do dia anterior.
Não porque a cidade mudasse continuamente.
Mas porque o olhar amadurecia.
Os jardins distribuídos ao longo das avenidas internas permaneciam cuidadosamente preservados.
As roseiras cresciam ao lado das sebes perfeitamente aparadas.
As árvores projetavam sombras delicadas sobre os bancos de pedra.
As fontes deixavam a água seguir seu curso com uma serenidade que parecia ignorar completamente a passagem das horas.
Nada havia de extraordinário naquela paisagem.
Justamente por isso ela se tornava inesquecível.
A verdadeira beleza não exige acontecimentos excepcionais.
Ela floresce na repetição cuidadosa das pequenas perfeições.

Transitus Tertius — A Cidade Construída Pela Memória

As conversações acompanhavam longas caminhadas pela cidade.
Falava-se dos construtores que haviam erguido as muralhas.
Dos arquitetos que desenharam as praças para favorecer o encontro entre as pessoas.
Dos mestres responsáveis pelas pontes que uniam diferentes bairros.
Dos estudiosos que dedicavam a vida à preservação das antigas bibliotecas.
Cada lembrança revelava profunda admiração por aqueles que escolheram construir em vez de apenas ocupar o espaço.
Também o romance desejava construir.
Não buscava apenas viver momentos felizes.
Desejava erguer uma história suficientemente sólida para permanecer digna mesmo quando os anos acrescentassem novas experiências à memória.
As antigas oficinas espalhavam discretos aromas de madeira recém-trabalhada, couro cuidadosamente tratado e metais polidos pelas mãos pacientes dos artesãos.
Cada ferramenta repousava exatamente onde deveria permanecer.
Cada bancada revelava organização conquistada através da disciplina.
Era impossível não perceber que a ordem também pode ser uma forma de beleza.
Quando tudo encontra seu devido lugar, o trabalho transforma-se em expressão da inteligência.
O mesmo acontecia com as palavras.
Elas jamais eram pronunciadas ao acaso.
Cada frase possuía propósito.
Cada silêncio possuía significado.
Cada resposta era construída sobre a atenção concedida à pergunta.
Poucas demonstrações de respeito alcançam tanta elegância quanto escutar verdadeiramente.
A confiança aprofundava-se sem produzir qualquer alarde.
Não necessitava de confirmações constantes.
Sua estabilidade tornava-se semelhante às antigas muralhas que protegiam a cidade.
Elas permaneciam firmes não por desafiarem o tempo, mas porque haviam sido cuidadosamente edificadas desde o primeiro alicerce.

Transitus Quartus — A Luz que Nunca se Apaga

Os grandes vínculos seguem exatamente essa arquitetura invisível.
Toda segurança nasce das pequenas escolhas repetidas diariamente.
Toda permanência depende da fidelidade aos próprios princípios.
Ao longo das estações, a cidade modificava discretamente sua aparência.
Na primavera, os jardins pareciam ampliar suas cores.
Durante o verão, as praças enchiam-se de luminosidade.
O outono concedia novas tonalidades às árvores.
Mesmo nos dias mais silenciosos, quando o frio convidava ao recolhimento, as casas mantinham suas janelas iluminadas, lembrando que o acolhimento não depende da temperatura do mundo exterior.
Também as pessoas atravessam diferentes estações.
Existem períodos de abundância.
Momentos de reflexão.
Dias de descoberta.
Tempos de espera.
O verdadeiro companheirismo não escolhe apenas as paisagens mais favoráveis.
Permanece presente durante todas elas.
Essa permanência conferia extraordinária serenidade ao romance.
Nenhuma mudança parecia ameaçá-lo.
Cada transformação apenas revelava novas formas de compreensão.
As ruas continuavam recebendo passos tranquilos.
Os sinos civis marcavam discretamente a passagem das horas.
Os jardins preservavam seu perfume.
As fontes jamais interrompiam o movimento das águas.
As bibliotecas continuavam ampliando seus acervos.
Os mercados renovavam diariamente seus produtos.
Tudo permanecia vivo porque aceitava renovar-se sem abandonar sua essência.
Ao final da tarde, quando a luz dourada repousava sobre os telhados e as muralhas adquiriam uma tonalidade suave, compreendia-se que a cidade nunca despertava apenas com a chegada do amanhecer.
Ela despertava sempre que alguém escolhia olhar novamente para aquilo que julgava conhecer completamente.
Era esse olhar renovado que conservava a juventude da memória.
Era essa atenção delicada que impedia o cotidiano de tornar-se indiferente.
Foi então que se revelou a mais silenciosa das certezas.
Uma grande cidade não é construída apenas por arquitetos, artesãos ou governantes prudentes.
Ela permanece verdadeiramente viva enquanto existir ao menos um coração capaz de caminhar por suas ruas com admiração renovada, reconhecendo que o romance mais duradouro nasce quando duas existências aprendem a descobrir, todos os dias, uma nova beleza nas mesmas paisagens, transformando o tempo em aliado, a convivência em obra permanente e a memória em uma cidade luminosa onde nenhuma manhã deixa de oferecer a promessa discreta de um novo começo.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

 

Os Doze Cânticos da Permanência (09/12)

Posted in Sem categoria on 10 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico IX — O Rio Conhecia Todos os Caminhos

Transitus Primus — A Sabedoria das Águas

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Muito antes que os mapas alcançassem a precisão dos grandes cartógrafos, já existia um rio que percorria os vales com a serenidade de quem jamais precisou disputar espaço com a paisagem.
Nascia entre colinas antigas, atravessava campos cultivados, contornava bosques centenários e aproximava cidades cujas muralhas refletiam sua imagem ao amanhecer.
Nenhuma curva parecia fruto do acaso.
Cada desvio revelava uma forma silenciosa de sabedoria.
A água jamais enfrentava a terra com violência.
Encontrava sempre um caminho capaz de preservar a harmonia entre ambas.
Essa delicada convivência ensinava mais do que muitos tratados conservados nas bibliotecas da fortaleza.
Os viajantes costumavam deter seus passos às margens daquele curso sereno.
Ali, a pressa parecia perder completamente o sentido.
As embarcações deslizavam lentamente.
As pontes antigas uniam as duas margens com a elegância das obras destinadas à permanência.
As árvores inclinavam seus galhos sobre a corrente, oferecendo sombra durante as horas mais luminosas do dia.
Tudo respirava equilíbrio.
Tudo convidava à contemplação.
Tudo recordava que a grandeza raramente se manifesta através do excesso.

Transitus Secundus — O Curso da Confiança

Também os sentimentos amadureciam seguindo semelhante curso.
Não surgiam como torrentes impetuosas destinadas a desaparecer rapidamente.
Preferiam avançar com constância.
Cada encontro ampliava discretamente sua profundidade.
Cada conversa acrescentava uma nova margem à confiança.
Cada lembrança transformava-se em uma nascente capaz de alimentar toda a extensão daquele vínculo.
Havia serenidade em caminhar ao lado de quem compreendia o valor do silêncio.
Existia alegria em compartilhar pensamentos que não precisavam ser concluídos imediatamente.
Algumas reflexões alcançam sua forma mais bela justamente porque permanecem abertas ao diálogo.
Assim também acontece com os grandes romances.
Eles nunca encerram completamente suas páginas.
Continuam vivendo dentro daqueles que aprenderam a habitá-los.
As manhãs começavam com uma névoa delicada repousando sobre as águas.
À medida que o sol elevava sua luz sobre as colinas, o rio revelava lentamente seu brilho tranquilo.
Pequenos barcos atravessavam sua superfície quase sem produzir movimento.
As margens refletiam o verde das árvores e o dourado dos campos maduros.
Cada imagem parecia duplicar a beleza da outra.
Nada competia.
Tudo cooperava.
A convivência também descobria essa mesma ordem.
A admiração não diminuía a liberdade.
A proximidade não anulava a individualidade.
O respeito fortalecia ambas.
Cada existência preservava sua própria identidade enquanto enriquecia a caminhada da outra.
Essa era talvez a mais elevada das harmonias.

Transitus Tertius — As Estações do Rio

Os antigos moinhos erguidos próximos ao rio trabalhavam continuamente.
Suas rodas moviam-se sem alarde.
Transformavam a força constante da corrente em trabalho paciente.
Nenhum movimento era desperdiçado.
Tudo encontrava finalidade.
Também as experiências humanas podiam ser assim.
Até mesmo as dificuldades contribuíam para fortalecer o caráter quando acolhidas com prudência.
Cada obstáculo ensinava uma nova forma de perseverança.
Cada espera aprofundava a confiança.
Cada reencontro renovava a esperança sem recorrer ao entusiasmo impaciente.
Os jardins que acompanhavam as margens mudavam lentamente conforme as estações.
Flores discretas davam lugar a novas espécies.
As árvores renovavam sua folhagem.
As vinhas amadureciam sob a luz do verão.
Depois vinham os dias mais tranquilos, quando a paisagem parecia recolher-se para preparar outro ciclo de abundância.
Nada ali permanecia imóvel.
Ainda assim, havia uma continuidade impossível de interromper.
O rio seguia adiante.
Sempre.
Essa permanência silenciosa inspirava profunda admiração.
Existem presenças que oferecem segurança exatamente porque permanecem fiéis ao próprio curso.
Não necessitam surpreender.
Basta-lhes continuar.

Transitus Quartus — O Horizonte das Margens

As longas caminhadas pelas margens tornavam-se ocasiões privilegiadas para descobrir novos horizontes do pensamento.
Falava-se das antigas cidades comerciais.
Das oficinas onde mestres lapidavam metais preciosos com infinita paciência.
Dos arquitetos que erguiam pontes destinadas a servir muitas gerações.
Dos escribas que registravam cuidadosamente cada acontecimento digno de memória.
Todas essas obras possuíam um elemento comum.
Nenhuma nascera da precipitação.
Cada uma delas era resultado da constância.
Também o afeto recusava qualquer atalho.
Escolhia amadurecer lentamente.
Preferia raízes profundas às flores efêmeras.
Sabia que toda beleza destinada a permanecer exige dedicação cotidiana.
Os bancos de pedra distribuídos ao longo das margens convidavam ao repouso.
Ali, bastava observar a água seguir seu caminho para compreender que o tempo não precisa ser enfrentado como adversário.
Ele pode tornar-se companheiro quando aprendemos a caminhar com serenidade.
A convivência adquiria precisamente essa qualidade.
Já não dependia da novidade para conservar seu encanto.
A familiaridade transformava-se em privilégio.
Conhecer profundamente alguém deixava de reduzir o mistério.
Ampliava-o.
Quanto mais se descobria, mais surgiam razões para continuar admirando.
Ao final da tarde, o céu espalhava delicadas tonalidades sobre a superfície do rio.
As pontes refletiam-se nas águas tranquilas.
As primeiras luzes das cidades acendiam-se lentamente além das muralhas.
Os campos recolhiam o brilho dourado do dia.
Nada anunciava despedidas.
Apenas o repouso necessário antes de um novo amanhecer.
Foi então que se tornou evidente uma verdade que o rio ensinara desde o princípio sem jamais utilizar palavras.
Os caminhos mais importantes não são aqueles que conduzem rapidamente ao destino.
São aqueles que permitem descobrir, passo após passo, a beleza escondida entre a origem e a chegada.
Da mesma maneira, o romance mais elevado não procura abreviar o percurso da convivência.
Escolhe percorrê-lo integralmente, valorizando cada diálogo, cada silêncio, cada gesto de respeito, cada demonstração de confiança e cada pequena alegria compartilhada, até que duas existências se tornem semelhantes ao próprio rio, seguindo lado a lado através das estações, preservando a serenidade, renovando continuamente a esperança e encontrando, em cada nova curva do tempo, uma razão ainda mais profunda para continuar avançando com elegância, dignidade e inesgotável delicadeza.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

 

Os Doze Cânticos da Permanência (08/12)

Posted in Sem categoria on 9 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico VIII — O Horizonte Nunca Era o Mesmo

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Transitus Primus — A Estrada Além das Muralhas

Havia uma antiga estrada que deixava os portões da cidade e seguia em direção às colinas, atravessando campos cultivados, pequenos bosques, riachos de águas transparentes e extensas pradarias onde o vento parecia conversar silenciosamente com as altas gramíneas.
Não era um caminho conhecido apenas pelos viajantes.
Também era percorrido por aqueles que desejavam compreender melhor o próprio pensamento.
A distância oferecia uma forma singular de proximidade.
Quanto mais o horizonte se ampliava, mais claras se tornavam as ideias que permaneciam ocultas na agitação cotidiana.
As muralhas desapareciam lentamente atrás da paisagem.
As torres transformavam-se em discretos contornos desenhados sobre a linha distante do céu.
As casas, antes tão numerosas, convertiam-se em pequenas formas que pareciam repousar serenamente sobre a terra.
A vastidão ensinava humildade.
Tudo aquilo que parecia imenso dentro da cidade encontrava sua verdadeira dimensão diante da amplidão dos campos.
Também os sentimentos aprendiam semelhante lição.
A afeição verdadeira jamais desejava ocupar todo o espaço.
Escolhia caminhar ao lado da liberdade.
Respeitava os silêncios.
Compreendia os tempos de reflexão.
Sabia que nenhuma convivência floresce onde a confiança deixa de respirar.

Transitus Secundus — As Conversações do Caminho

Os primeiros raios da manhã percorriam lentamente as colinas.
As árvores recebiam a claridade antes das estradas.
Os pássaros iniciavam seus voos discretos sem perturbar a tranquilidade da paisagem.
Tudo parecia nascer novamente a cada amanhecer, embora nada perdesse sua identidade.
Essa renovação constante inspirava um entusiasmo sereno.
Era possível recomeçar sem abandonar aquilo que já havia sido construído.
As caminhadas tornaram-se parte da própria convivência.
Nenhuma possuía destino obrigatório.
Importava menos o lugar alcançado do que as conversações que acompanhavam cada passo.
Falava-se das antigas cidades cercadas por muralhas.
Dos mercados onde artesãos exibiam pacientemente o resultado de anos de aperfeiçoamento.
Dos jardins planejados para acolher tanto a contemplação quanto o descanso.
Das bibliotecas que preservavam a memória dos povos.
Dos navegadores que aprendiam a orientar-se mais pelas estrelas do conhecimento do que pelos ventos passageiros da sorte.
Cada assunto ampliava o respeito mútuo.
Cada lembrança fortalecia a admiração.
Cada pergunta revelava um novo horizonte da inteligência.
Nenhuma conversa buscava vencer.
Todas procuravam descobrir.
As respostas não encerravam os assuntos.
Abriam novas possibilidades de reflexão.

Transitus Tertius — As Lições da Paisagem

Assim como a estrada jamais terminava na colina seguinte, o pensamento também recusava qualquer sensação de conclusão definitiva.
Sempre existia uma nova perspectiva.
Sempre havia outro caminho para observar a mesma paisagem.
As antigas pontes de pedra permaneciam firmes sobre os riachos.
A água seguia seu curso sem pressa.
As margens conservavam delicadas flores silvestres que floresciam sem depender da atenção dos viajantes.
Havia uma beleza profundamente digna em existir apenas porque era natural existir.
Também o afeto encontrava sua maior elegância nessa simplicidade.
Não necessitava de testemunhas.
Não buscava reconhecimento.
Manifestava-se na constância.
Na confiança.
Na serenidade.
Na escolha diária de permanecer presente.
As estações alteravam lentamente a aparência dos campos.
O verde intenso dava lugar aos tons dourados das colheitas.
Depois surgiam as cores mais suaves do repouso da terra.
Mais tarde, novos brotos voltavam a anunciar o ciclo seguinte.
Nenhuma mudança representava perda.
Cada transformação preparava a beleza que ainda viria.
Assim também amadureciam as existências humanas.
Toda experiência acrescentava profundidade.
Toda dificuldade fortalecia a prudência.
Toda alegria ensinava gratidão.
Todo reencontro renovava a esperança.

Transitus Quartus — O Horizonte da Permanência

A caminhada prosseguia sem qualquer necessidade de acelerar os passos.
Os viajantes compreendiam que algumas jornadas não devem ser encurtadas.
Cada trecho possuía sua própria importância.
Cada paisagem merecia contemplação.
Cada silêncio trazia consigo um significado impossível de ser traduzido imediatamente em palavras.
A convivência alcançava uma forma rara de equilíbrio.
Já não dependia de novidades para conservar seu encanto.
Descobria extraordinária beleza na continuidade.
Na repetição das boas escolhas.
Na familiaridade construída lentamente.
Na segurança proporcionada por quem permanece fiel ao próprio caráter.
As sombras das árvores acompanhavam o deslocamento do sol.
O perfume da relva misturava-se ao ar fresco das colinas.
Os caminhos estreitos atravessavam pequenos bosques onde a luz penetrava delicadamente entre os galhos mais antigos.
Tudo parecia desenhado para ensinar que a verdadeira grandeza jamais precisa afastar-se da delicadeza.
Os grandes carvalhos cresciam lentamente.
As pedras permaneciam imóveis durante séculos.
Os rios jamais interrompiam seu percurso.
Nada buscava impressionar.
Tudo apenas cumpria com excelência sua própria natureza.
Era impossível caminhar tantas vezes por aquela estrada sem compreender que o romance mais elevado também pertence a essa mesma ordem silenciosa.
Não nasce para dominar.
Nasce para acompanhar.
Não exige perfeição.
Convida ao aperfeiçoamento.
Não elimina as diferenças.
Transforma-as em novas possibilidades de compreensão.
As primeiras luzes do entardecer espalhavam-se lentamente sobre os campos.
O horizonte adquiria tonalidades suaves que pareciam dissolver toda pressa acumulada ao longo do dia.
As muralhas reapareciam ao longe, acolhendo silenciosamente aqueles que regressavam.
Nada havia mudado na cidade.
Entretanto, tudo parecia diferente para quem retornava.
As mesmas ruas revelavam novos significados.
Os mesmos jardins pareciam mais amplos.
As mesmas torres tornavam-se ainda mais belas.
Porque nenhuma paisagem permanece igual depois que o olhar aprende a contemplá-la com verdadeira atenção.
Foi então que se compreendeu que o horizonte jamais se repete, não porque o mundo mude incessantemente, mas porque cada jornada transforma discretamente aquele que a percorre.
E quando duas existências aceitam caminhar lado a lado por longos caminhos, compartilhando pensamentos, respeitando silêncios, celebrando descobertas e acolhendo as mudanças com serenidade, o próprio tempo deixa de ser uma sucessão de dias e transforma-se em uma vasta estrada onde cada amanhecer oferece uma nova oportunidade de admirar, com renovado entusiasmo, a beleza inesgotável de uma história construída pela permanência, pela delicadeza e pela nobre arte de continuar caminhando juntos.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

 

Os Doze Cânticos da Permanência (07/12)

Posted in Sem categoria on 8 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

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Cântico VII — O Salão das Janelas Abertas

Transitus Primus — A Arquitetura da Luz

No coração da antiga fortaleza existia um grande salão cuja imponência jamais dependia da abundância dos ornamentos, mas da harmonia cuidadosamente preservada entre a pedra, a madeira e a luz que atravessava as altas janelas voltadas para os jardins.
As colunas sustentavam o teto com a serenidade das obras concebidas para atravessar muitas gerações.
Os largos vitrais transparentes permitiam que a claridade percorresse lentamente o piso de mármore claro, desenhando formas que mudavam ao longo do dia sem jamais perder a delicadeza.
Cada banco possuía o brilho discreto da madeira polida pelo tempo.
Cada mesa revelava pequenas marcas deixadas por escribas, cartógrafos, estudiosos e artesãos que ali haviam dedicado incontáveis horas ao aperfeiçoamento de seus trabalhos.
Nada naquele lugar era excessivo.
Nada procurava impressionar pela grandiosidade.
Tudo parecia ensinar que a verdadeira elegância nasce da proporção.
Também os sentimentos encontram sua forma mais elevada quando aprendem a respeitar essa medida invisível.
A afeição não se fortalecia pela intensidade das palavras.
Crescia pela fidelidade silenciosa dos gestos.
A confiança não surgia de promessas extraordinárias.
Era construída pela repetição paciente das pequenas virtudes.
A admiração não dependia do desconhecido.
Aprofundava-se justamente quando o cotidiano revelava novas qualidades escondidas sob a simplicidade dos dias.

Transitus Secundus — O Vento Entre os Manuscritos

As janelas permaneciam sempre abertas.
Não para permitir a entrada de qualquer agitação, mas para acolher o ar fresco que percorria os jardins e renovava continuamente o ambiente.
A brisa atravessava o salão sem interromper as conversações.
Movia lentamente as páginas dos manuscritos.
Deslizava entre os mapas cuidadosamente desenhados.
Percorria as estantes repletas de livros antigos como se também desejasse participar daquele silencioso encontro entre o conhecimento e a convivência.
Os diálogos jamais procuravam ocupar todo o espaço.
Sabiam oferecer lugar ao silêncio.
Compreendiam que algumas reflexões necessitam repousar antes de serem transformadas em palavras.
Havia beleza nessa espera.
A prudência concedia profundidade ao pensamento.
A serenidade permitia que cada frase encontrasse naturalmente sua melhor forma.
Enquanto muitos acreditavam que convencer era a maior das habilidades, ali aprendia-se que compreender era uma virtude infinitamente mais rara.
Escutar tornava-se um exercício de generosidade.
Responder transformava-se em um gesto de responsabilidade.
Nenhuma opinião diminuía a outra.
Cada perspectiva ampliava o horizonte comum.
Assim crescia aquele romance.
Sem disputas.
Sem urgência.
Sem receio de que o tempo pudesse desfazer aquilo que havia sido construído com tanto cuidado.

Transitus Tertius — A Harmonia das Estações

As manhãs iluminavam lentamente o grande salão.
Ao meio-dia, a claridade preenchia completamente o recinto.
No entardecer, a luz dourada repousava sobre as colunas como um delicado véu de serenidade.
Cada momento do dia possuía sua própria beleza.
Nenhum pretendia substituir o anterior.
Todos completavam uma mesma obra.
Também as diferentes fases da convivência revelavam encantos particulares.
O primeiro encontro despertava curiosidade.
A continuidade fazia nascer confiança.
O conhecimento profundo revelava admiração.
A permanência transformava tudo isso em companheirismo.
Nada precisava ser acelerado.
As grandes histórias recusam qualquer forma de precipitação.
Os antigos mapas espalhados sobre as mesas mostravam caminhos por montanhas, rios, florestas e cidades distantes.
Entretanto, nenhuma rota parecia tão fascinante quanto aquela percorrida diariamente entre duas inteligências que aprendiam a conhecer-se cada vez melhor.
Não existia cartógrafo capaz de representar o território da confiança.
Nenhum pergaminho conseguiria registrar a extensão alcançada pela lealdade.
Algumas paisagens pertencem exclusivamente ao coração disciplinado pela prudência.
As estantes continuavam recebendo novos manuscritos.
Os escribas copiavam cuidadosamente textos antigos para que nenhuma palavra valiosa desaparecesse com a passagem dos anos.
Esse trabalho paciente inspirava profunda admiração.
Preservar era tão importante quanto criar.
Também o afeto compreendia essa verdade.
Não bastava descobrir a beleza de um sentimento.
Era necessário cultivá-lo.
Protegê-lo das distrações.
Fortalecê-lo pela constância.
Renová-lo através da atenção cotidiana.

Transitus Quartus — As Janelas da Permanência

As árvores dos jardins podiam ser vistas pelas grandes janelas.
Seus galhos moviam-se lentamente sob a brisa suave.
As flores sucediam-se conforme as estações.
Os caminhos permaneciam limpos.
As fontes jamais interrompiam seu curso.
Toda a paisagem parecia recordar que a ordem não limita a beleza.
Ao contrário.
Permite que ela floresça continuamente.
Assim acontecia também entre aquelas duas existências.
A liberdade não era diminuída pela convivência.
Encontrava nela um espaço ainda mais amplo para crescer.
O respeito oferecia segurança.
A confiança concedia tranquilidade.
A admiração preservava o entusiasmo mesmo após a passagem de muitos dias.
O salão permanecia aberto desde o amanhecer até as primeiras horas da noite.
Nenhuma porta precisava ser fechada contra quem chegava com boas intenções.
A hospitalidade fazia parte da própria arquitetura.
Era possível perceber que certos lugares acolhem não apenas pessoas, mas também ideias, esperanças e projetos destinados a permanecer.
A convivência transformava-se pouco a pouco em um desses lugares.
Um espaço invisível onde cada pensamento encontrava abrigo.
Onde cada lembrança era preservada.
Onde cada gesto sincero fortalecia ainda mais os alicerces da estima recíproca.
Quando a noite finalmente repousava sobre a fortaleza, as janelas permaneciam abertas para receber o frescor que vinha dos campos.
As velas espalhavam uma luz tranquila sobre os manuscritos ainda abertos.
As últimas conversações encerravam o dia com a mesma elegância com que haviam começado.
Não existia necessidade de grandes despedidas.
Havia apenas a certeza silenciosa de que o amanhã ofereceria novas páginas para serem escritas.
Então compreendia-se que o mais belo salão jamais construído por arquitetos não era aquele formado por colunas, mármore ou madeira cuidadosamente trabalhada.
Era aquele erguido entre duas existências que aprenderam a manter sempre abertas as janelas da confiança, permitindo que a delicadeza renovasse diariamente o ar da convivência, que a admiração iluminasse cada nova descoberta e que o amor encontrasse, na serenidade da permanência, um lugar suficientemente amplo para crescer sem conhecer limites impostos pela pressa, pelo orgulho ou pelo esquecimento.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

 

Os Doze Cânticos da Permanência (06/12)

Posted in Sem categoria on 7 de julho de 2026 by Prof Gasparetto

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico VI — A Biblioteca Onde o Tempo Aprendeu a Escutar

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Transitus Primus — O Silêncio das Estantes

Havia uma antiga biblioteca erguida no interior das muralhas, distante do rumor dos mercados e da movimentação constante das grandes praças.
Suas portas de carvalho conservavam as marcas delicadas dos artesãos que lhes haviam dedicado incontáveis jornadas de trabalho.
As dobradiças de ferro movimentavam-se com suavidade, como se respeitassem o silêncio cultivado naquele lugar desde tempos que já não podiam ser contados.
As altas estantes acolhiam manuscritos, mapas, tratados, relatos de viagens e narrativas preservadas por sucessivas gerações de escribas.
Cada volume carregava mais do que tinta sobre o pergaminho.
Guardava o pensamento de pessoas que haviam aprendido a observar o mundo antes de descrevê-lo.
A luz penetrava pelas estreitas janelas arqueadas e repousava lentamente sobre as mesas compridas, revelando pequenas partículas suspensas no ar, como se o próprio tempo permanecesse ali, caminhando com passos tão discretos que jamais perturbava qualquer leitura.
Era impossível atravessar aquele recinto sem perceber que existiam lugares destinados não apenas ao conhecimento, mas também ao amadurecimento da sensibilidade.
Entre aquelas paredes, o silêncio jamais representava ausência.
Era uma forma elevada de diálogo.
Cada pausa permitia que as ideias encontrassem repouso.
Cada intervalo concedia às palavras a oportunidade de adquirir maior profundidade.

Transitus Secundus — O Diálogo das Inteligências

Foi nesse ambiente que uma afeição começou a descobrir sua linguagem mais verdadeira.
Não nasceu do encanto imediato.
Também não se apoiava na surpresa das primeiras impressões.
Surgia lentamente, alimentada pela convivência respeitosa entre duas inteligências que encontravam alegria em compartilhar pensamentos antes mesmo de compartilhar certezas.
As conversações atravessavam inúmeros assuntos.
Refletiam sobre cidades construídas com prudência.
Sobre jardins organizados para acolher o descanso dos viajantes.
Sobre pontes capazes de unir margens sem alterar o curso dos rios.
Sobre mestres artesãos que ensinavam seus aprendizes a valorizar o detalhe invisível tanto quanto a obra concluída.
Cada tema revelava novos aspectos do caráter.
Cada reflexão ampliava o respeito.
Nenhuma opinião buscava vencer.
Todas procuravam compreender.
Os antigos manuscritos pareciam participar daquela convivência silenciosa.
Suas páginas lembravam que toda narrativa memorável depende menos dos acontecimentos extraordinários do que da qualidade humana presente em cada decisão.
As histórias mais duradouras sempre concederam maior importância às escolhas discretas do que aos gestos impetuosos.
Também aquele romance seguia semelhante caminho.
Não desejava impressionar.
Preferia permanecer.

Transitus Tertius — As Páginas do Tempo

Os dias percorriam seu curso com admirável serenidade.
Ao amanhecer, os primeiros raios de luz percorriam lentamente as estantes.
Ao meio da tarde, as sombras desenhavam delicados contornos sobre o piso de pedra polida.
Ao entardecer, o dourado da claridade fazia parecer que cada livro possuía um brilho próprio, adquirido ao longo de incontáveis leituras.
Nada ali demonstrava ansiedade.
Até mesmo o tempo parecia abandonar qualquer desejo de acelerar sua passagem.
Havia uma elegância antiga em folhear lentamente um manuscrito.
Em observar atentamente uma antiga ilustração.
Em permitir que uma única frase permanecesse durante horas ocupando o pensamento.
Também havia igual elegância em escutar alguém sem interromper.
Em oferecer atenção completa.
Em acolher uma ideia antes de responder a ela.
Essas delicadezas invisíveis aproximavam mais do que qualquer declaração apressada.
A admiração crescia como crescem os grandes carvalhos.
Sem ruído.
Sem ostentação.
Sem necessidade de anunciar sua presença.
Apenas aprofundando suas raízes até que nenhuma mudança das estações pudesse ameaçar sua estabilidade.
As páginas continuavam sendo viradas uma após outra.
Nenhuma desejava substituir a anterior.
Cada capítulo acrescentava nova compreensão ao conjunto da obra.
Assim também acontecia com a convivência.
Cada dia enriquecia todos os anteriores.
Nenhuma lembrança era perdida.
Todas encontravam lugar na grande biblioteca da memória.

Transitus Quartus — A Obra que Nunca se Fecha

Os corredores estreitos conduziam a pequenas salas reservadas para leitura.
Ali, a luz era ainda mais delicada.
Os bancos de madeira permaneciam voltados para janelas que revelavam jardins cuidadosamente preservados.
Era possível contemplar as árvores enquanto o pensamento amadurecia em silêncio.
A paisagem ensinava que o crescimento verdadeiro raramente produz alarde.
As raízes trabalham invisíveis.
Os galhos apenas revelam aquilo que durante muito tempo permaneceu oculto.
Assim acontecia também com o afeto.
As virtudes mais importantes floresciam longe dos olhares distraídos.
A confiança.
A prudência.
A generosidade.
A lealdade.
A serenidade.
Nenhuma delas necessitava de reconhecimento para continuar existindo.
Bastava-lhes encontrar abrigo em duas vontades igualmente comprometidas com a permanência.
As noites chegavam lentamente.
As velas eram acesas sobre grandes castiçais de bronze.
Sua luz repousava sobre as páginas abertas, prolongando as leituras para além do crepúsculo.
O mundo exterior tornava-se distante.
Permaneciam apenas os livros, o silêncio e a companhia construída pela estima recíproca.
Havia conforto naquela simplicidade.
Não porque faltassem acontecimentos.
Mas porque nenhum deles precisava disputar importância com aquilo que verdadeiramente sustentava o vínculo.
Quando duas existências aprendem a conversar sem receio, descobrem uma riqueza que nenhuma fortuna pode oferecer.
Quando aprendem a escutar com respeito, transformam o diálogo em morada.
Quando permitem que o tempo participe da construção do sentimento, deixam de lutar contra sua passagem e passam a caminhar ao seu lado.
Ao fechar o último manuscrito daquela longa jornada, compreendia-se uma verdade que permanecera escrita em todas aquelas páginas sem jamais ser anunciada diretamente.
O conhecimento mais precioso não repousava nas estantes.
Habitava a delicada capacidade de reconhecer no outro uma presença digna de confiança, de admiração e de permanência.
E foi nessa biblioteca silenciosa, onde cada livro ensinava a virtude da paciência e cada corredor conduzia à serenidade, que o romance encontrou sua forma mais elevada, tornando-se uma narrativa viva, escrita não com tinta sobre pergaminhos, mas com gestos discretos, palavras sábias e escolhas constantes, destinadas a atravessar o tempo com a mesma elegância das obras que jamais deixam de ser lidas.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)