Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos
Trilha: Frédéric Chopin — Prelude Op.28 No.4
(Betto Gasparetto)
Capítulo 33 — O Dormitório de Clara

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Naquela noite o vento aumentou.
Fortemente.
As janelas estremeciam.
As árvores do jardim vergavam.
Neve atravessava os vidros em rajadas brancas.
E nos dormitórios a inquietação espalhava-se.
No quarto principal, Clara permanecia junto à lareira.
Não lia.
Não bordava.
Não fazia nada.
Apenas observava o fogo.
Helena Dubois entrou.
Silenciosamente.
Como sempre.
Trouxe chá.
Remédios.
Cobertor.
Gestos antigos.
Gestos aprendidos ao longo de décadas.
Silêncio.
Depois:
— Deve descansar.
Clara sorriu.
Triste.
Muito.
— Você sempre diz isso.
Silêncio.
Helena não respondeu.
Clara ergueu os olhos.
Longamente.
Depois:
— Há quanto tempo sabe?
Silêncio absoluto.
Helena permaneceu imóvel.
Muito.
Mais do que suportável.
Depois:
— Não compreendo.
Clara quase riu.
Mas havia lágrimas.
Pequenas.
Contidas.
— Helena…
Longa pausa.
— Nós duas estamos cansadas demais para continuar fingindo.
Silêncio.
Mais um.
A lareira estalou.
O vento golpeou a janela.
E Clara finalmente disse:
— Sophie é minha filha.
Pausa.
Olhou diretamente Helena.
E concluiu:
— Mas talvez não seja filha dele.
Silêncio absoluto.
Nenhum som.
Nenhum.
Porque algumas frases não alteram apenas famílias.
Alteram todos os cômodos ao redor.
Helena empalideceu.
E pela primeira vez em vinte anos—
a mulher que conhecia todos os segredos da casa pareceu completamente indefesa.
Última frase:
“Na biblioteca, sozinho, Émile Laurent abria lentamente um livro antigo quando algo caiu entre as páginas: uma fotografia. Nela: Marguerite. Alaric. E uma criança.”
Silêncio.
E a tempestade aumentou.
(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)
——-***———-***——-***———-
Próximo Capítulo: 34





