Os Doze Cânticos da Permanência (06/12)

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico VI — A Biblioteca Onde o Tempo Aprendeu a Escutar

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Transitus Primus — O Silêncio das Estantes

Havia uma antiga biblioteca erguida no interior das muralhas, distante do rumor dos mercados e da movimentação constante das grandes praças.
Suas portas de carvalho conservavam as marcas delicadas dos artesãos que lhes haviam dedicado incontáveis jornadas de trabalho.
As dobradiças de ferro movimentavam-se com suavidade, como se respeitassem o silêncio cultivado naquele lugar desde tempos que já não podiam ser contados.
As altas estantes acolhiam manuscritos, mapas, tratados, relatos de viagens e narrativas preservadas por sucessivas gerações de escribas.
Cada volume carregava mais do que tinta sobre o pergaminho.
Guardava o pensamento de pessoas que haviam aprendido a observar o mundo antes de descrevê-lo.
A luz penetrava pelas estreitas janelas arqueadas e repousava lentamente sobre as mesas compridas, revelando pequenas partículas suspensas no ar, como se o próprio tempo permanecesse ali, caminhando com passos tão discretos que jamais perturbava qualquer leitura.
Era impossível atravessar aquele recinto sem perceber que existiam lugares destinados não apenas ao conhecimento, mas também ao amadurecimento da sensibilidade.
Entre aquelas paredes, o silêncio jamais representava ausência.
Era uma forma elevada de diálogo.
Cada pausa permitia que as ideias encontrassem repouso.
Cada intervalo concedia às palavras a oportunidade de adquirir maior profundidade.

Transitus Secundus — O Diálogo das Inteligências

Foi nesse ambiente que uma afeição começou a descobrir sua linguagem mais verdadeira.
Não nasceu do encanto imediato.
Também não se apoiava na surpresa das primeiras impressões.
Surgia lentamente, alimentada pela convivência respeitosa entre duas inteligências que encontravam alegria em compartilhar pensamentos antes mesmo de compartilhar certezas.
As conversações atravessavam inúmeros assuntos.
Refletiam sobre cidades construídas com prudência.
Sobre jardins organizados para acolher o descanso dos viajantes.
Sobre pontes capazes de unir margens sem alterar o curso dos rios.
Sobre mestres artesãos que ensinavam seus aprendizes a valorizar o detalhe invisível tanto quanto a obra concluída.
Cada tema revelava novos aspectos do caráter.
Cada reflexão ampliava o respeito.
Nenhuma opinião buscava vencer.
Todas procuravam compreender.
Os antigos manuscritos pareciam participar daquela convivência silenciosa.
Suas páginas lembravam que toda narrativa memorável depende menos dos acontecimentos extraordinários do que da qualidade humana presente em cada decisão.
As histórias mais duradouras sempre concederam maior importância às escolhas discretas do que aos gestos impetuosos.
Também aquele romance seguia semelhante caminho.
Não desejava impressionar.
Preferia permanecer.

Transitus Tertius — As Páginas do Tempo

Os dias percorriam seu curso com admirável serenidade.
Ao amanhecer, os primeiros raios de luz percorriam lentamente as estantes.
Ao meio da tarde, as sombras desenhavam delicados contornos sobre o piso de pedra polida.
Ao entardecer, o dourado da claridade fazia parecer que cada livro possuía um brilho próprio, adquirido ao longo de incontáveis leituras.
Nada ali demonstrava ansiedade.
Até mesmo o tempo parecia abandonar qualquer desejo de acelerar sua passagem.
Havia uma elegância antiga em folhear lentamente um manuscrito.
Em observar atentamente uma antiga ilustração.
Em permitir que uma única frase permanecesse durante horas ocupando o pensamento.
Também havia igual elegância em escutar alguém sem interromper.
Em oferecer atenção completa.
Em acolher uma ideia antes de responder a ela.
Essas delicadezas invisíveis aproximavam mais do que qualquer declaração apressada.
A admiração crescia como crescem os grandes carvalhos.
Sem ruído.
Sem ostentação.
Sem necessidade de anunciar sua presença.
Apenas aprofundando suas raízes até que nenhuma mudança das estações pudesse ameaçar sua estabilidade.
As páginas continuavam sendo viradas uma após outra.
Nenhuma desejava substituir a anterior.
Cada capítulo acrescentava nova compreensão ao conjunto da obra.
Assim também acontecia com a convivência.
Cada dia enriquecia todos os anteriores.
Nenhuma lembrança era perdida.
Todas encontravam lugar na grande biblioteca da memória.

Transitus Quartus — A Obra que Nunca se Fecha

Os corredores estreitos conduziam a pequenas salas reservadas para leitura.
Ali, a luz era ainda mais delicada.
Os bancos de madeira permaneciam voltados para janelas que revelavam jardins cuidadosamente preservados.
Era possível contemplar as árvores enquanto o pensamento amadurecia em silêncio.
A paisagem ensinava que o crescimento verdadeiro raramente produz alarde.
As raízes trabalham invisíveis.
Os galhos apenas revelam aquilo que durante muito tempo permaneceu oculto.
Assim acontecia também com o afeto.
As virtudes mais importantes floresciam longe dos olhares distraídos.
A confiança.
A prudência.
A generosidade.
A lealdade.
A serenidade.
Nenhuma delas necessitava de reconhecimento para continuar existindo.
Bastava-lhes encontrar abrigo em duas vontades igualmente comprometidas com a permanência.
As noites chegavam lentamente.
As velas eram acesas sobre grandes castiçais de bronze.
Sua luz repousava sobre as páginas abertas, prolongando as leituras para além do crepúsculo.
O mundo exterior tornava-se distante.
Permaneciam apenas os livros, o silêncio e a companhia construída pela estima recíproca.
Havia conforto naquela simplicidade.
Não porque faltassem acontecimentos.
Mas porque nenhum deles precisava disputar importância com aquilo que verdadeiramente sustentava o vínculo.
Quando duas existências aprendem a conversar sem receio, descobrem uma riqueza que nenhuma fortuna pode oferecer.
Quando aprendem a escutar com respeito, transformam o diálogo em morada.
Quando permitem que o tempo participe da construção do sentimento, deixam de lutar contra sua passagem e passam a caminhar ao seu lado.
Ao fechar o último manuscrito daquela longa jornada, compreendia-se uma verdade que permanecera escrita em todas aquelas páginas sem jamais ser anunciada diretamente.
O conhecimento mais precioso não repousava nas estantes.
Habitava a delicada capacidade de reconhecer no outro uma presença digna de confiança, de admiração e de permanência.
E foi nessa biblioteca silenciosa, onde cada livro ensinava a virtude da paciência e cada corredor conduzia à serenidade, que o romance encontrou sua forma mais elevada, tornando-se uma narrativa viva, escrita não com tinta sobre pergaminhos, mas com gestos discretos, palavras sábias e escolhas constantes, destinadas a atravessar o tempo com a mesma elegância das obras que jamais deixam de ser lidas.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

 

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