Os Doze Cânticos da Permanência (09/12)
Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo
(Betto Gasparetto)
Cântico IX — O Rio Conhecia Todos os Caminhos
Transitus Primus — A Sabedoria das Águas

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Muito antes que os mapas alcançassem a precisão dos grandes cartógrafos, já existia um rio que percorria os vales com a serenidade de quem jamais precisou disputar espaço com a paisagem.
Nascia entre colinas antigas, atravessava campos cultivados, contornava bosques centenários e aproximava cidades cujas muralhas refletiam sua imagem ao amanhecer.
Nenhuma curva parecia fruto do acaso.
Cada desvio revelava uma forma silenciosa de sabedoria.
A água jamais enfrentava a terra com violência.
Encontrava sempre um caminho capaz de preservar a harmonia entre ambas.
Essa delicada convivência ensinava mais do que muitos tratados conservados nas bibliotecas da fortaleza.
Os viajantes costumavam deter seus passos às margens daquele curso sereno.
Ali, a pressa parecia perder completamente o sentido.
As embarcações deslizavam lentamente.
As pontes antigas uniam as duas margens com a elegância das obras destinadas à permanência.
As árvores inclinavam seus galhos sobre a corrente, oferecendo sombra durante as horas mais luminosas do dia.
Tudo respirava equilíbrio.
Tudo convidava à contemplação.
Tudo recordava que a grandeza raramente se manifesta através do excesso.
Transitus Secundus — O Curso da Confiança

Também os sentimentos amadureciam seguindo semelhante curso.
Não surgiam como torrentes impetuosas destinadas a desaparecer rapidamente.
Preferiam avançar com constância.
Cada encontro ampliava discretamente sua profundidade.
Cada conversa acrescentava uma nova margem à confiança.
Cada lembrança transformava-se em uma nascente capaz de alimentar toda a extensão daquele vínculo.
Havia serenidade em caminhar ao lado de quem compreendia o valor do silêncio.
Existia alegria em compartilhar pensamentos que não precisavam ser concluídos imediatamente.
Algumas reflexões alcançam sua forma mais bela justamente porque permanecem abertas ao diálogo.
Assim também acontece com os grandes romances.
Eles nunca encerram completamente suas páginas.
Continuam vivendo dentro daqueles que aprenderam a habitá-los.
As manhãs começavam com uma névoa delicada repousando sobre as águas.
À medida que o sol elevava sua luz sobre as colinas, o rio revelava lentamente seu brilho tranquilo.
Pequenos barcos atravessavam sua superfície quase sem produzir movimento.
As margens refletiam o verde das árvores e o dourado dos campos maduros.
Cada imagem parecia duplicar a beleza da outra.
Nada competia.
Tudo cooperava.
A convivência também descobria essa mesma ordem.
A admiração não diminuía a liberdade.
A proximidade não anulava a individualidade.
O respeito fortalecia ambas.
Cada existência preservava sua própria identidade enquanto enriquecia a caminhada da outra.
Essa era talvez a mais elevada das harmonias.
Transitus Tertius — As Estações do Rio

Os antigos moinhos erguidos próximos ao rio trabalhavam continuamente.
Suas rodas moviam-se sem alarde.
Transformavam a força constante da corrente em trabalho paciente.
Nenhum movimento era desperdiçado.
Tudo encontrava finalidade.
Também as experiências humanas podiam ser assim.
Até mesmo as dificuldades contribuíam para fortalecer o caráter quando acolhidas com prudência.
Cada obstáculo ensinava uma nova forma de perseverança.
Cada espera aprofundava a confiança.
Cada reencontro renovava a esperança sem recorrer ao entusiasmo impaciente.
Os jardins que acompanhavam as margens mudavam lentamente conforme as estações.
Flores discretas davam lugar a novas espécies.
As árvores renovavam sua folhagem.
As vinhas amadureciam sob a luz do verão.
Depois vinham os dias mais tranquilos, quando a paisagem parecia recolher-se para preparar outro ciclo de abundância.
Nada ali permanecia imóvel.
Ainda assim, havia uma continuidade impossível de interromper.
O rio seguia adiante.
Sempre.
Essa permanência silenciosa inspirava profunda admiração.
Existem presenças que oferecem segurança exatamente porque permanecem fiéis ao próprio curso.
Não necessitam surpreender.
Basta-lhes continuar.
Transitus Quartus — O Horizonte das Margens

As longas caminhadas pelas margens tornavam-se ocasiões privilegiadas para descobrir novos horizontes do pensamento.
Falava-se das antigas cidades comerciais.
Das oficinas onde mestres lapidavam metais preciosos com infinita paciência.
Dos arquitetos que erguiam pontes destinadas a servir muitas gerações.
Dos escribas que registravam cuidadosamente cada acontecimento digno de memória.
Todas essas obras possuíam um elemento comum.
Nenhuma nascera da precipitação.
Cada uma delas era resultado da constância.
Também o afeto recusava qualquer atalho.
Escolhia amadurecer lentamente.
Preferia raízes profundas às flores efêmeras.
Sabia que toda beleza destinada a permanecer exige dedicação cotidiana.
Os bancos de pedra distribuídos ao longo das margens convidavam ao repouso.
Ali, bastava observar a água seguir seu caminho para compreender que o tempo não precisa ser enfrentado como adversário.
Ele pode tornar-se companheiro quando aprendemos a caminhar com serenidade.
A convivência adquiria precisamente essa qualidade.
Já não dependia da novidade para conservar seu encanto.
A familiaridade transformava-se em privilégio.
Conhecer profundamente alguém deixava de reduzir o mistério.
Ampliava-o.
Quanto mais se descobria, mais surgiam razões para continuar admirando.
Ao final da tarde, o céu espalhava delicadas tonalidades sobre a superfície do rio.
As pontes refletiam-se nas águas tranquilas.
As primeiras luzes das cidades acendiam-se lentamente além das muralhas.
Os campos recolhiam o brilho dourado do dia.
Nada anunciava despedidas.
Apenas o repouso necessário antes de um novo amanhecer.
Foi então que se tornou evidente uma verdade que o rio ensinara desde o princípio sem jamais utilizar palavras.
Os caminhos mais importantes não são aqueles que conduzem rapidamente ao destino.
São aqueles que permitem descobrir, passo após passo, a beleza escondida entre a origem e a chegada.
Da mesma maneira, o romance mais elevado não procura abreviar o percurso da convivência.
Escolhe percorrê-lo integralmente, valorizando cada diálogo, cada silêncio, cada gesto de respeito, cada demonstração de confiança e cada pequena alegria compartilhada, até que duas existências se tornem semelhantes ao próprio rio, seguindo lado a lado através das estações, preservando a serenidade, renovando continuamente a esperança e encontrando, em cada nova curva do tempo, uma razão ainda mais profunda para continuar avançando com elegância, dignidade e inesgotável delicadeza.
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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)
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