Os Doze Cânticos da Permanência (10/12)
Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo
(Betto Gasparetto)
Cântico X — A Cidade Que Despertava Com a Luz
Transitus Primus — O Amanhecer Entre as Muralhas

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Toda cidade verdadeiramente antiga conserva uma memória que não pode ser encontrada apenas em seus edifícios, nas pedras de suas ruas ou na imponência de suas muralhas.
Ela repousa no modo como cada amanhecer desperta lentamente os mesmos lugares e, ainda assim, faz com que tudo pareça nascer pela primeira vez.
As primeiras claridades deslizavam sobre os telhados de ardósia antes de alcançarem as torres mais elevadas.
As janelas abriam-se pouco a pouco.
As portas de madeira antiga recebiam novamente o movimento sereno dos habitantes.
Os mercados preparavam discretamente suas bancas.
Os artesãos organizavam suas ferramentas com a calma de quem compreendia que a excelência jamais depende da velocidade.
As ruas de pedra acolhiam passos tranquilos.
Nenhuma agitação procurava dominar o princípio daquele novo dia.
A cidade parecia respirar profundamente antes de iniciar suas atividades.
Havia uma ordem invisível sustentando todos os gestos.
Cada ofício encontrava seu momento.
Cada pessoa reconhecia naturalmente o valor do trabalho da outra.
Nada existia isoladamente.
Tudo contribuía para uma mesma harmonia.
Transitus Secundus — As Ruas da Convivência

Também os sentimentos descobriam sua força quando abandonavam qualquer desejo de protagonismo.
A afeição mais elevada jamais procura ocupar todos os espaços.
Prefere tornar cada espaço mais digno da presença compartilhada.
Assim acontecia entre duas existências que aprenderam a caminhar pelas mesmas ruas sem jamais transformar a convivência em rotina desprovida de encanto.
Cada percurso oferecia uma nova observação.
Cada esquina revelava um detalhe antes despercebido.
Cada janela aberta parecia contar uma história diferente daquela do dia anterior.
Não porque a cidade mudasse continuamente.
Mas porque o olhar amadurecia.
Os jardins distribuídos ao longo das avenidas internas permaneciam cuidadosamente preservados.
As roseiras cresciam ao lado das sebes perfeitamente aparadas.
As árvores projetavam sombras delicadas sobre os bancos de pedra.
As fontes deixavam a água seguir seu curso com uma serenidade que parecia ignorar completamente a passagem das horas.
Nada havia de extraordinário naquela paisagem.
Justamente por isso ela se tornava inesquecível.
A verdadeira beleza não exige acontecimentos excepcionais.
Ela floresce na repetição cuidadosa das pequenas perfeições.
Transitus Tertius — A Cidade Construída Pela Memória

As conversações acompanhavam longas caminhadas pela cidade.
Falava-se dos construtores que haviam erguido as muralhas.
Dos arquitetos que desenharam as praças para favorecer o encontro entre as pessoas.
Dos mestres responsáveis pelas pontes que uniam diferentes bairros.
Dos estudiosos que dedicavam a vida à preservação das antigas bibliotecas.
Cada lembrança revelava profunda admiração por aqueles que escolheram construir em vez de apenas ocupar o espaço.
Também o romance desejava construir.
Não buscava apenas viver momentos felizes.
Desejava erguer uma história suficientemente sólida para permanecer digna mesmo quando os anos acrescentassem novas experiências à memória.
As antigas oficinas espalhavam discretos aromas de madeira recém-trabalhada, couro cuidadosamente tratado e metais polidos pelas mãos pacientes dos artesãos.
Cada ferramenta repousava exatamente onde deveria permanecer.
Cada bancada revelava organização conquistada através da disciplina.
Era impossível não perceber que a ordem também pode ser uma forma de beleza.
Quando tudo encontra seu devido lugar, o trabalho transforma-se em expressão da inteligência.
O mesmo acontecia com as palavras.
Elas jamais eram pronunciadas ao acaso.
Cada frase possuía propósito.
Cada silêncio possuía significado.
Cada resposta era construída sobre a atenção concedida à pergunta.
Poucas demonstrações de respeito alcançam tanta elegância quanto escutar verdadeiramente.
A confiança aprofundava-se sem produzir qualquer alarde.
Não necessitava de confirmações constantes.
Sua estabilidade tornava-se semelhante às antigas muralhas que protegiam a cidade.
Elas permaneciam firmes não por desafiarem o tempo, mas porque haviam sido cuidadosamente edificadas desde o primeiro alicerce.
Transitus Quartus — A Luz que Nunca se Apaga

Os grandes vínculos seguem exatamente essa arquitetura invisível.
Toda segurança nasce das pequenas escolhas repetidas diariamente.
Toda permanência depende da fidelidade aos próprios princípios.
Ao longo das estações, a cidade modificava discretamente sua aparência.
Na primavera, os jardins pareciam ampliar suas cores.
Durante o verão, as praças enchiam-se de luminosidade.
O outono concedia novas tonalidades às árvores.
Mesmo nos dias mais silenciosos, quando o frio convidava ao recolhimento, as casas mantinham suas janelas iluminadas, lembrando que o acolhimento não depende da temperatura do mundo exterior.
Também as pessoas atravessam diferentes estações.
Existem períodos de abundância.
Momentos de reflexão.
Dias de descoberta.
Tempos de espera.
O verdadeiro companheirismo não escolhe apenas as paisagens mais favoráveis.
Permanece presente durante todas elas.
Essa permanência conferia extraordinária serenidade ao romance.
Nenhuma mudança parecia ameaçá-lo.
Cada transformação apenas revelava novas formas de compreensão.
As ruas continuavam recebendo passos tranquilos.
Os sinos civis marcavam discretamente a passagem das horas.
Os jardins preservavam seu perfume.
As fontes jamais interrompiam o movimento das águas.
As bibliotecas continuavam ampliando seus acervos.
Os mercados renovavam diariamente seus produtos.
Tudo permanecia vivo porque aceitava renovar-se sem abandonar sua essência.
Ao final da tarde, quando a luz dourada repousava sobre os telhados e as muralhas adquiriam uma tonalidade suave, compreendia-se que a cidade nunca despertava apenas com a chegada do amanhecer.
Ela despertava sempre que alguém escolhia olhar novamente para aquilo que julgava conhecer completamente.
Era esse olhar renovado que conservava a juventude da memória.
Era essa atenção delicada que impedia o cotidiano de tornar-se indiferente.
Foi então que se revelou a mais silenciosa das certezas.
Uma grande cidade não é construída apenas por arquitetos, artesãos ou governantes prudentes.
Ela permanece verdadeiramente viva enquanto existir ao menos um coração capaz de caminhar por suas ruas com admiração renovada, reconhecendo que o romance mais duradouro nasce quando duas existências aprendem a descobrir, todos os dias, uma nova beleza nas mesmas paisagens, transformando o tempo em aliado, a convivência em obra permanente e a memória em uma cidade luminosa onde nenhuma manhã deixa de oferecer a promessa discreta de um novo começo.
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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)
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