Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 2/8

Posted in Sem categoria on 11 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Parte II — Do Caminho Que Ensina

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O segundo dia não pediu licença ao cansaço,
apenas chegou,
como chegam as lições que não admitem adiamento.
O corpo ainda guardava a forma da casa,
o hábito da sombra conhecida,
mas a estrada já exigia outra postura:
ombros menos curvados ao passado,
olhos mais atentos ao presente instável.

Caminhamos sem pressa declarada,
pois a pressa pertence aos que sabem onde chegar.
Nós apenas seguíamos,
e nesse seguir havia método,
ainda que não houvesse plano.
O chão variava de textura e cor,
como se o mundo testasse
a fidelidade do passo humano.

As paisagens não pediam contemplação,
impunham respeito.
Campos abertos lembravam impérios extintos,
montes silenciosos evocavam sentinelas antigas.
Cada pedra parecia conhecer
mais história que nós,
e talvez por isso
aceitasse nossa passagem sem juízo.

As mãos, agora mais leves,
já não procuravam bolsos inexistentes.
Aprendiam o gesto novo
de permanecer abertas.
Com elas tocávamos o ar,
o frio da manhã,
o pó que se erguia breve,
como memória sem apego.

Houve momentos de dúvida,
não negamos.
A dúvida caminhava ao lado,
como velho conselheiro cético.
Perguntava em silêncio
se a viagem tinha sentido,
se não seria mais sábio retornar,
se a renúncia não era exagero.
Mas o caminho respondia com firmeza:
avançar também é pensar.

Encontramos estranhos,
e deles nada exigimos.
Recebemos água,
um gesto,
um olhar neutro.
Aprendemos que a hospitalidade verdadeira
não nasce do excesso,
mas do reconhecimento mútuo da fragilidade.

À tarde, o sol impôs lentidão.
O suor apagou distinções,
igualou vontades.
Ali compreendemos que o corpo
é o primeiro arquivo da história,
e que toda jornada coletiva
se escreve nos músculos
antes de chegar aos livros.

Quando nossas mãos estiverem vazias,
repetíamos sem solenidade,
o mundo não nos cobrará posses,
mas postura.
A dignidade, percebemos,
não depende do que se leva,
mas do modo como se atravessa
o que resiste.

Ao cair da noite,
o fogo foi pequeno,
mas suficiente.
Em torno dele, o silêncio ganhou densidade,
não como ameaça,
mas como pacto.
Ninguém contou histórias grandiosas,
pois a própria marcha
já se tornava narrativa.

Dormimos sem sonho claro,
e ainda assim, em paz relativa.
O caminho, agora aceito como mestre,
ensinava sem pressa,
mas sem concessão.
E nós, aprendizes tardios,
seguimos,
sabendo que a viagem
não mais permitiria inocência,
apenas lucidez.

(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)

Quando Nossas Mãos Estiverem Vazias – (8 partes) – 1/8

Posted in Sem categoria on 10 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Prólogo — Do Chamado Que Não Espera

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Não houve presságio escrito nos astros,
nem édito proclamado nas praças.
A decisão nasceu sem cerimônia,
como nascem as grandes rupturas da história,
quando o homem percebe
que permanecer é mais perigoso que partir.

As casas ainda dormiam,
as cidades fingiam eternidade,
e os mapas, soberbos,
acreditavam conhecer o mundo.
Mas a viagem não pediu permissão aos calendários,
não negociou com relógios,
não respeitou heranças nem promessas antigas.

Partimos sem estandarte,
sem bênção oficial,
sem o conforto das explicações.
Levávamos apenas a consciência inquieta
de que toda civilização,
antes de ruir,
passa pelo exílio interior de seus filhos.

Quando nossas mãos estiverem vazias,
não será por derrota militar
nem por miséria imposta,
mas porque aprendemos, tarde e a custo,
que o excesso de posses
entorpece o espírito
e enferruja o passo.

Assim começou a travessia:
não como fuga,
não como aventura,
mas como gesto histórico,
digno dos que sabem
que toda época exige
um sacrifício silencioso
para que o futuro tenha onde pousar.

———————–o-o-o——————

Parte I — Da Partida Sem Nome

O dia rompeu sem anúncio,
como se a aurora tivesse sido subornada pelo acaso.
Nenhuma trombeta soou nos muros,
nenhum arauto leu decretos.
A cidade respirava rotina,
e ainda assim, algo se desfazia por dentro.

Partimos quando a poeira era promessa,
e o caminho, apenas intenção.
As portas ficaram como estavam,
não por descuido,
mas por respeito à memória que não se fecha.
A viagem começou antes do passo,
no instante em que o coração recusou a inércia.

Não houve data escrita,
pois o tempo, soberano, negara audiência.
O calendário caiu do bolso
como moeda inútil em terra estrangeira.
Seguimos leves,
e a leveza, aprendemos,
é um fardo que exige coragem.

As mãos, já quase vazias,
ainda tremiam com hábitos antigos.
Queriam segurar nomes,
reter vozes,
guardar o peso das casas.
Mas o caminho, severo,
ensinou que segurar demais
é outra forma de cair.

Avançamos sob céus indecisos,
entre nuvens que pareciam arquivos da história.
Cada passo reescrevia um passado,
cada silêncio anulava um argumento.
Não se via destino,
apenas direção.
E isso bastava.

Os rios foram cruzados sem ritual,
as pontes, atravessadas sem promessa.
Aprendemos a medir distância
pelo cansaço honesto do corpo
e pela lucidez que nasce do erro aceito.
Não perguntamos quanto faltava,
pois perguntar seria desejar retorno.

Quando nossas mãos estiverem vazias,
disse alguém sem voz definida,
saberemos o valor do gesto simples:
seguir.
Não para vencer,
não para provar,
mas para não trair a própria consciência.

As vilas passaram como notas marginais,
rostos olharam sem nos conhecer,
e fomos aprendendo o idioma do mundo:
olhar,
ouvir,
calar.
A estrada prefere discípulos atentos
a viajantes vaidosos.

A noite caiu sem piedade,
e nela encontramos abrigo.
Não havia teto além do céu,
nem certeza além do fôlego.
Dormimos com a dignidade dos que aceitaram
que a história não se escreve com conforto,
mas com decisão.

Ao amanhecer, nada foi recuperado,
e ainda assim, tudo estava inteiro.
A viagem, agora assumida,
pediu fidelidade.
E juramos, sem palavras,
honrar o caminho
até que as mãos, por fim vazias,
aprendessem a carregar apenas o essencial.

(Betto Gasparetto – ix-mmxvii)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (10/10)

Posted in Sem categoria on 9 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

A casa ficou menor com o tempo.
Não porque as paredes se moveram, mas porque a vida foi retirando excesso.
O que antes era “plano” virou “lembrança”.
O que antes era “amanhã” virou “agora”.
E o agora, quando é longo demais, ensina uma coisa que ninguém aprende jovem:
o essencial não faz ruído.

Capítulo X — Epílogo e o Que Restou

————————-Momento 1————————-

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Eles passaram a existir em uma espécie de silêncio compartilhado.
Não era um silêncio vazio.
Era um silêncio trabalhado.
Um silêncio feito de anos em que se escolheu não desistir.

A televisão em preto e branco falava para o cômodo,
mas nem sempre falava para eles.
Às vezes, era apenas um som para preencher o ar,
uma presença sem exigência,
uma companhia que não perguntava nada.

Najillah sentava devagar.
Não por fraqueza.
Por consciência do corpo.
O corpo, para ela, era um arquivo.
Tinha guardado o peso das filas,
as noites de apagão,
o medo em poeira dentro da garganta,
os tremores que nenhum médico viu,
porque eram tremores de lembrança.

Yahzzir ficava mais tempo olhando pela janela.
Não por hábito antigo.
Por instinto.
Durante anos, a janela tinha sido um posto avançado do mundo.
Agora, era apenas uma janela.
Mas o corpo não desaprende rápido o que aprendeu para sobreviver.
Ele observava o movimento da rua como quem mede perigo —
mesmo quando já não havia perigo.
A paz, para quem viveu o contrário,
sempre conserva um ruído invisível.

Eles não falavam muito sobre a guerra.
Não por pacto.
Por economia.
A guerra não precisava ser narrada:
ela já tinha sido incorporada em gestos.
Na forma como fechavam portas.
Na maneira como guardavam comida.
Na atenção exagerada a pequenos sons.
No cuidado com as luzes.
Na preferência por lugares onde se podia ouvir o próprio pensamento.

E ainda assim, a guerra estava presente,
não como evento,
mas como cicatriz.
Uma cicatriz não dói o tempo todo.
Mas informa: “isso aconteceu”.

Najillah, às vezes, pegava um envelope antigo,
já amarelado,
com cartas dobradas tantas vezes que pareciam feitas de tecido.
Ela não lia sempre.
Ela tocava.
O toque bastava.
Como se as palavras antigas fossem menos importantes
do que a prova física de que foram escritas.
Porque escrever, naquela época,
era a forma mais humana de dizer: “eu não desisti de você”.

Yahzzir não tinha orgulho de ter sobrevivido.
Ele nunca teve.
O orgulho é coisa de quem saiu inteiro.
E ele sabia que não saiu.
Saiu vivo — o que é diferente.
Vivo e cheio de ausências.
Vivo e com uma espécie de cansaço moral que não aparece no espelho,
mas aparece no modo de olhar.

Ele tinha aprendido a não se sentir merecedor de coisas boas.
A guerra educa mal a esperança.
E o pós-guerra, muitas vezes, não reeduca.
Apenas cobra.
Cobra que você seja normal imediatamente,
como se normalidade fosse um botão.

————————-Momento 2————————-

Najillah percebeu isso cedo.
E fez uma coisa difícil:
parou de exigir o homem de antes.

Ela não romantizou o trauma dele.
Não transformou sofrimento em ornamento.
Ela apenas entendeu que amor, depois de certo ponto,
é menos sentimento e mais decisão.
Decisão repetida.
Decisão de ficar.
Decisão de não usar a dor do outro como acusação.
Decisão de reconstruir o cotidiano com as mãos.

E foi assim que eles envelheceram juntos:
não como nos livros,
mas como na vida.

Houve dias em que ela pensou:
“Eu perdi a juventude esperando”.
E imediatamente sentia culpa por pensar isso,
porque ele voltou.
Porque ele estava ali.
Porque ela tinha o direito de tê-lo.

Mas a culpa não apagava o fato:
ela esperou.
Esperou por cartas.
Esperou por notícias.
Esperou por uma paz que demorou mais do que o anúncio oficial.
Esperou por um abraço que voltasse a ser simples.
Esperou por uma espontaneidade que a guerra roubou dos dois.

Ela nunca disse isso em voz alta.
Não para ele.
Porque havia um cuidado delicado na forma como ela amava:
ela sabia que certas verdades, quando ditas,
não libertam — esmagam.

Yahzzir, por sua vez, carregava outra culpa:
a culpa de ter voltado diferente.

Ele percebia o esforço dela em criar rituais,
em propor passeios,
em tentar reerguer o mundo pelas bordas,
como se reerguesse um tecido rasgado.
Ele via.
E isso o comovia,
mas também o constrangia.
Porque havia dentro dele uma parte que não conseguia reagir com a mesma leveza.
Uma parte que ainda vivia em alerta,
como se alegria fosse uma distração perigosa.

————————-Momento 3————————-

Com o tempo, porém, aconteceu algo silencioso:
o amor deles mudou de função.

No começo, o amor foi promessa.
Depois, foi âncora.
Depois, foi sobrevivência.
Por fim, tornou-se transmissão.

Sem perceber, eles começaram a ensinar.
Não por discursos.
Por presença.

Quando jovens passavam pela casa,
eles viam duas pessoas que não tinham brilho teatral,
não tinham romance excessivo,
não tinham frases perfeitas.
Mas tinham algo raro:
um pacto que resistiu ao mundo.

E isso, para quem olha de fora,
pode parecer pouco.
Mas é enorme.

Porque o mundo ensina ruptura.
Ensina troca.
Ensina descarte.
Ensina pressa.
Ensina que tudo precisa ser novo para ser válido.

E eles eram o oposto disso:
eram prova de que o tempo pode ser suportado em dois.
E que a liberdade, quando proibida pelas circunstâncias,
pode existir por dentro,
na escolha diária de continuar.

Houve uma surpresa final que ninguém registrou em documentos oficiais.
Foi pequena.
E foi o suficiente para abalar tudo.

Numa tarde comum, anos depois,
Najillah encontrou, no fundo de uma gaveta,
um objeto que não lembrava mais ter guardado:
um broche antigo,
de metal gasto,
com a inscrição “BG” quase apagada.

Ela ficou olhando aquilo como quem olha uma palavra que já não usa.
Não era nostalgia simples.
Era uma espécie de choque:
“Eu ainda sou aquela pessoa que guardou isso?”

Ela chamou Yahzzir.
Ele veio devagar,
olhou o broche por tempo demais
e respirou fundo, como se o objeto tivesse peso real.

Ele disse, sem teatro:
“Eu levei isso comigo quando parti.
Eu devolvi sem te contar.
Porque eu tive medo de que, se eu dissesse,
você percebesse o quanto eu tremia por dentro.”

Najillah segurou o broche e entendeu, de uma vez: ERA APENAS UMA SUPRESA!,
ele não tinha apenas sobrevivido a bombas e ordens —
tinha sobrevivido ao medo de não ser digno de voltar para ela.

————————-Momento 4————————-

E foi ali que o epílogo deles se tornou mais cruel e mais bonito:
não era sobre guerra,
era sobre a intimidade invisível do pós-guerra.

Sobre as coisas que não se contam para não ferir.
Sobre os medos que não se confessam para não parecer fraco.
Sobre a coragem de continuar sem garantias.

Najillah então fez algo que nunca tinha feito com facilidade:
ela falou de si sem se esconder.

Disse, com a voz baixa e firme:
“Eu não esperei para ser recompensada.
Eu esperei para não me trair.
Porque, se eu tivesse desistido,
a guerra teria vencido dentro de mim.”

Yahzzir não respondeu com frase bonita.
Ele apenas segurou a mão dela.
E segurou como se fosse a primeira vez,
mas com o peso de todas as outras.

A televisão continuou falando ao fundo.
Um anúncio qualquer.
Uma música qualquer.
Uma comédia sem importância.
O mundo sempre segue indiferente ao que é realmente grande.

E, naquele instante, a grandeza foi simples:
dois seres humanos em silêncio,
aceitando que não foram salvos pelo romance,
mas pela insistência.

Eles envelheceram juntos.
Não como planejado.
Mas como possível.

E o que restou não foi uma história perfeita.
Foi uma lição amarga e luminosa:

que amor não é apenas encontro —
é permanência.

Que liberdade não é sempre poder fazer —
às vezes é poder não abandonar.

E que o tempo, quando é longo,
não pergunta se você sente.
Pergunta se você fica.

E eles ficaram.

————————-Momento ??————————-

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)

Decassílabos em Notas Ausentes

Posted in Sem categoria on 8 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No velho couro, o corpo se reclina;
o blues ecoa dentro do cristal.
O vinho, qual navalha, me domina
no amargo desta noite de vendaval.

As gotas que a janela vão riscando
são lágrimas de um sangue tão rubro,
enquanto o disco as horas vai contando
no gosto morno que no peito nutro.

O olhar vagueia pela sala fria,
onde o meu eu se encontra anestesiado.
Não estou só, mas falta a companhia,
pois algo senta sempre ao meu lado.

Ocupa o espaço onde eu seria inteiro,
presença que me invade e me cativa.
Velha armadilha: o meu cativeiro,
numa memória que se mantém viva.

Aceita a taça que eu lhe ofereço,
no nevoeiro que a visão inunda.
No sono, enfim, de tudo me esqueço,
nesta penumbra mística e profunda.

(Brenda GG – viii-xxvi)

O Que Permanece Quando Tudo Passa (09/10)

Posted in Sem categoria on 8 de fevereiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Eles não foram exemplo histórico.
Foram exceção silenciosa.
Quando tudo ensinava a abandonar,
eles ficaram.
E isso, sem glória,
foi a maior vitória possível.

Capítulo IX — Depois e a Permanência

Najillah, a Musa — O Amor Sem Ilusão

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Anos passaram.
O mundo se reorganizou.
Ela não romantizava o passado.
Mas não o negava.
A guerra virou memória compartilhada.
Não fantasma constante.
Ela via nele marcas.
E aceitava.
Porque também carregava as suas.
O amor não era mais promessa.
Era presença.
Era rotina construída.
Era escolha reiterada.
Ela não precisava mais provar nada.
A vida seguia simples.
E isso era suficiente.


Yahzzir, o Menestrel— A Vida Possível

Ele aprendeu a rir novamente.
Não alto.
Mas verdadeiro.
Ele voltou a sentir prazer em coisas pequenas.
Caminhar.
Sentar.
Observar.
Ele não esqueceu.
Mas deixou de ser dominado.
O amor se transformou em território seguro.
Não perfeito.
Mas habitável.
Ele compreendeu que permanecer
foi o maior ato de coragem que realizou.

(Betto Gasparetto – vi-mcmixvii)