Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 8/14)
Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente
Sugestão musical: Canto Ambrosiano — Veni Redemptor Gentium
(Betto Gasparetto)
Capítulo 8 — A Manhã Depois do Retorno

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
A manhã seguinte não trouxe paz; trouxe claridade.
E às vezes a claridade é mais severa do que a própria noite, porque obriga as coisas a mostrarem seus contornos verdadeiros.
A casa despertou lentamente, como se cada parede pressentisse que algo delicado se movia no interior de sua ordem antiga. Criados atravessaram os corredores em passos medidos, reacenderam brasas, abriram algumas janelas altas, recolheram a prata da ceia tardia e, sem dizer palavra sobre o hóspede inesperado, deixaram que o silêncio cumprisse a etiqueta que a surpresa exigia.
No grande salão, as cortinas de vinho já não pareciam tão densas. A luz pálida do inverno atravessava o tecido grosso e depositava no chão reflexos escurecidos, como se a manhã ainda hesitasse em entrar por completo. Sobre a mesa, algumas taças vazias permaneciam como testemunhas de um diálogo inacabado.
Quem passara a noite na casa, mas não no quarto outrora imaginado, levantou-se cedo demais. O aposento que lhe haviam preparado ficava voltado para o leste, e pela janela via-se o jardim endurecido pelo frio, os ciprestes rígidos e, além do muro, a linha distante de um canal estreito que durante anos servira mais à contemplação do que ao trajeto.
Vestiu-se com sobriedade. Casaco de lã escura, camisa clara, punhos austeros, botas limpas da lama da véspera. No espelho do quarto, o rosto pareceu mais cansado do que na noite anterior, porque o amanhecer tem o hábito cruel de retirar da emoção o véu da sombra.
No outro lado da casa, quem sempre ali permanecera também não dormira como deveria. Havia nos olhos um brilho de vigília e de cálculo, como se toda a alma houvesse passado a noite rearranjando lembranças, frases, culpas e cautelas. Um vestido de tom azul profundo substituíra o veludo escuro da noite anterior; os cabelos, presos com rigor, deixavam escapar apenas alguns fios junto à nuca, traindo o estado interior que a postura pretendia governar.
Desceram quase ao mesmo tempo, mas por escadas diferentes, e encontraram-se não no salão, mas na varanda voltada para o canal.
O ar era frio.
O céu, branco.
A água, quase imóvel.
Por um momento, nenhum dos dois falou. A paisagem parecia exigir uma solenidade própria, como se a manhã soubesse que a conversa daquele dia não podia mais esconder-se sob o amparo das velas.
— Não se vai embora cedo — disse a voz da casa, apoiando a mão na grade de ferro.
— Ainda não fui autorizado a partir — respondeu a visita, com uma gravidade discreta.
A resposta quase provocou um sorriso. Quase.
(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)
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Próximo Capítulo: 9
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