Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 2 – Cap 9/14)
Episódio 2 — A Varanda Sobre o Canal Silente
Sugestão musical: Hildegard von Bingen — O vis aeternitatis
(Betto Gasparetto)
Capítulo 9 — A Água Que Nada Esquece

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
A varanda era um dos lugares mais silenciosos da propriedade. Dali avistava-se o canal estreito, margeado por pedras antigas, juncos ressequidos pelo inverno e algumas árvores cujos galhos, quase nus, lançavam sobre a água reflexos finos e trêmulos. No verão, barcas pequenas costumavam passar lentamente; no outono, folhas boiavam em fileiras; no inverno, como agora, a superfície parecia um espelho cansado, imóvel demais para ser inteiramente vivo.
Havia sobre a varanda duas cadeiras de ferro trabalhado, uma pequena mesa redonda e vasos de terracota onde, apesar do frio, sobreviviam ervas miúdas e resistentes. O cheiro da manhã era uma mistura de água fria, pedra úmida, lavanda seca vinda do interior da casa e lenha distante.
Sentaram-se.
A proximidade física era pequena, mas suficiente para tornar impossível qualquer neutralidade. O que os separava não era mais a distância; era o que a distância fizera deles.
— Eu me lembrava deste canal mais largo — disse a visita.
— As coisas vistas na juventude parecem maiores — respondeu a outra voz. — Sobretudo quando ainda não conhecemos a medida das perdas.
O canal refletiu um rasgo de luz entre nuvens. Um pássaro passou rente à água e desapareceu entre os juncos.
— Voltei pela estrada do sul — disse a visita, depois de uma pausa. — Passei por pontes quebradas, pousos miseráveis, igrejas vazias, cidades onde ninguém conhece o rosto de ninguém. Em algumas achei que ficaria. Em nenhuma consegui respirar por muito tempo.
— E por que não escreveu com verdade? — veio a pergunta, firme, sem elevação.
A visita pousou as mãos sobre os joelhos.
— Porque a vergonha fala antes da coragem. Porque o fracasso, quando ainda está aberto, prefere o disfarce à confissão. Porque eu não queria voltar menor do que parti.
— E voltou?
O silêncio respondeu antes da boca.
— Sim.
A sinceridade, nua assim, não tinha beleza. Tinha peso. E justamente por isso começou a abrir um caminho que as desculpas jamais abririam.
(Betto Gasparetto – Iv-mcmcxviii)
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