Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 29/39)

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Franz Schubert — String Quintet in C Major, II. Adagio

(Betto Gasparetto)

Capítulo 29 — A Biblioteca dos Livros Sublinhados

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Na manhã seguinte, a tempestade engrossou.

O vento fechou os caminhos antes que o administrador das estradas pudesse enviar aviso formal. Ao meio-dia já se sabia que nenhuma carruagem desceria ao vale. À tarde, que nenhum automóvel partiria. Ao cair da noite, a notícia tornou-se sentença: os hóspedes permaneceriam no solar por tempo indefinido.

A biblioteca tornou-se refúgio.

Era um dos ambientes mais belos da casa. Dois andares de estantes, escada móvel, varandas internas, poltronas de couro, mesas de leitura, lareira monumental e janelas altas que agora revelavam apenas uma cortina branca de neve. Os livros vinham de muitos mundos: russos, franceses, alemães, árabes, latinos, italianos, tratados de botânica, memórias políticas, peças teatrais, sermões, romances proibidos, compêndios de medicina e genealogias encadernadas em couro.

Sophie estava sentada numa poltrona baixa, com Amélie ao lado. Nikola, que deveria estar na cozinha, surgira entre as estantes como pequeno fantasma doméstico.

— Você não deveria estar aqui — disse Sophie, sem repreensão.

Nikola respondeu:

— Eu sei.

Amélie sorriu.

— Isso nunca impediu ninguém de entrar em lugares interessantes.

Sophie gostou dela no mesmo instante.

Perto da lareira, Katarina Varga folheava um volume alemão quando encontrou uma frase sublinhada em tinta escura:

“Sanguis tacet, nomen clamat.”

Leu em silêncio.

Sangue cala, nome grita.

Fechou o livro devagar.

Do outro lado da sala, Helena Dubois percebeu o gesto.

Katarina percebeu que Helena percebeu.

E ambas compreenderam que uma simples frase latina podia pesar mais que uma confissão.

Mais tarde, quando quase todos haviam deixado a biblioteca, Matteo Ricci encontrou outra inscrição, desta vez num volume francês de memórias aristocráticas:

“Memoria custodit quod culpa recusat.”

A memória guarda aquilo que a culpa recusa.

Matteo não era supersticioso. Não gostava de símbolos excessivos. Era médico. Preferia sintomas, causas, evidências. Mas naquele solar havia sintomas demais e causas escondidas demais.

Clara apareceu à porta da biblioteca como se houvesse sido atraída não pelo livro, mas pelo silêncio ao redor dele.

Doutor Ricci — disse ela, com doçura cansada. — Continua procurando explicações para o que todos chamam de nervos?

Matteo fechou o livro.

— Procuro explicações para sofrimentos mal nomeados.

Clara sorriu.

— Então tenha cuidado. Aqui quase todos os sofrimentos receberam nomes convenientes.

A frase atingiu Helena Dubois, que chegara silenciosamente ao corredor.

Clara viu.

E acrescentou:

— Não é, Helena?

A governanta permaneceu ereta.

— A senhora precisa repousar.

Clara riu baixo.

— Essa é sempre a primeira resposta quando digo algo verdadeiro.

Matteo observou as duas.

E entendeu que o mal de Clara não era delírio.

Era lucidez cercada por pessoas interessadas em chamá-la de doença.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 30

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