Onde o Silêncio Aprende a Falar Mais Forte (Ep 4 – Cap 31/39)

Episódio 4 — O Solar dos Invernos Adormecidos

Trilha: Richard Wagner — Siegfried Idyll

 (Betto Gasparetto)

Capítulo 31 — A Sala das Armas

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O medalhão permaneceu sobre a mesa da estufa durante vários segundos.

Ninguém o tocou.

Porque certos objetos não chegam.

Retornam.

E retornos possuem a desagradável habilidade de reconhecer pessoas antes que as pessoas reconheçam a si mesmas.

O pequeno retrato escondido no interior do medalhão parecia antigo. Muito antigo. O tempo desgastara parte da pintura, mas ainda era possível perceber o rosto de uma mulher jovem.

Cabelos escuros.

Vestido azul profundo.

Luvas claras.

E um olhar que possuía aquela estranha mistura de orgulho e melancolia encontrada apenas em pessoas acostumadas a perder coisas importantes sem jamais admitir.

Marguerite Lefèvre empalidecera.

Clara também.

Mas Alaric

Alaric perdera algo muito raro:

o domínio da própria expressão.

Silêncio.

Nikola apertava a mão da mãe.

Anika permanecia à frente do filho como muralha.

E Helena Dubois observava tudo com o mesmo rosto de quem passa décadas impedindo terremotos em casas construídas sobre rachaduras.

Alaric aproximou-se.

Devagar.

Demais.

Os olhos permaneciam presos ao medalhão.

Depois:

— Onde encontrou isso?

Nikola olhou a mãe.

Anika respondeu antes:

— Próximo ao antigo celeiro.

Silêncio.

Alaric ergueu os olhos.

— Próximo ou dentro?

A pergunta foi rápida.

Rápida demais.

Porque homens realmente tranquilos não especificam lugares.

Silêncio.

Nikola respondeu:

— Atrás.

Silêncio.

Mais um.

— Havia uma madeira quebrada.

Helena Dubois fechou os olhos por um segundo.

Pequeno.

Mas Sophie percebeu.

Sophie sempre percebia.

Alaric tomou o medalhão.

Muito lentamente.

Virou.

Observou.

Na parte posterior: GY

E abaixo:

“Hiver Premier.”
Primeiro Inverno.

Silêncio absoluto.

Clara levantou-se.

O rosto perdera cor.

— Não.

Ninguém entendeu.

Ela aproximou-se.

Olhou o retrato.

Depois Alaric.

Depois Marguerite.

Depois outra vez Alaric.

Longo silêncio.

E então:

— Você mentiu.

Silêncio.

Ninguém respirou.

Ninguém.

Porque Clara não gritava.

E justamente por isso suas frases feriam.

Mais.

Muito mais.

Alaric ergueu os olhos.

— Clara—

Mas ela continuou:

— Durante anos.

Pausa.

— Durante décadas.

Mais silêncio.

A voz não aumentou.

Mas tornou-se pior.

Porque a dor, quando amadurece, aprende a falar baixo.

— Você me fez acreditar que determinadas coisas haviam morrido.

Olhou Marguerite.

Depois:

— Mas não morreram.

Silêncio absoluto.

Marguerite não se moveu.

Porque certas mulheres aprendem a sobreviver justamente permanecendo imóveis quando o passado finalmente abre a porta.

E naquela tarde, diante de todos, a primeira grande rachadura pública apareceu no Solar von Eichenwald.

(Betto Gasparetto – v-mcmcxviii)

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Próximo Capítulo: 32

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