A SALA DE ESPERA
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Há lugares construídos para receber pessoas.
Outros, para fazê-las permanecer.
A sala de espera pertence à segunda espécie.
Ela começa a existir muito antes da primeira consulta.
Ainda está vazia quando a funcionária destranca a porta, acende as luzes e endireita, quase sem olhar, uma revista esquecida sobre a mesa de centro. Abre as persianas, liga o aparelho de ar-condicionado, enche o filtro de água e confirma, por hábito, que o relógio continua marcando a hora certa. Nunca pergunta se alguém o observa. Basta que esteja ali.
Lá fora, a cidade já decidiu começar o dia.
Os ônibus chegam aos pontos.
As vitrines despertam.
As padarias espalham cheiro de pão recém-saído do forno.
Os semáforos distribuem pressa.
Ali dentro, porém, a pressa perde a utilidade.
A primeira paciente entra antes das oito.
Cumprimenta a recepcionista com um sorriso discreto, entrega um documento e senta-se sempre na mesma cadeira, perto da janela. Faz isso há tantos anos que ninguém precisou lhe indicar o lugar. Enquanto espera, tricota. Não conversa. O movimento das agulhas parece medir um tempo diferente daquele marcado pelo relógio da parede.
Pouco depois chega um rapaz usando camisa social recém-passada. Carrega uma pasta fina e consulta o celular a cada minuto. Tenta parecer tranquilo, mas o pé direito insiste em bater no piso. Está ali para um exame admissional. Ainda não conseguiu o emprego. Trouxe consigo uma esperança que tenta esconder atrás da gravata.
Uma menina atravessa a sala segurando um dinossauro de plástico.
A mãe pede desculpas pelo barulho.
Ninguém se incomoda.
As crianças ainda não aprenderam que os adultos transformam o silêncio em regra justamente nos lugares onde mais precisam conversar.
O relógio marca oito e vinte.
Ninguém comenta.
Na sala de espera, os minutos nunca têm o mesmo tamanho.
Há quem atravesse meia hora sem levantar os olhos da revista.
Há quem viva uma eternidade entre um número chamado e outro.
Um senhor entra devagar.
Apoia a bengala ao lado da cadeira e olha ao redor antes de se sentar.
— Ainda bem que as cadeiras continuam mais novas do que eu.
A recepcionista sorri.
Ele também.
Faz a mesma brincadeira toda vez que aparece.
Há anos.
Talvez porque certas piadas envelheçam melhor do que as pessoas.
Enquanto espera, tira do bolso um pequeno pacote de balas de hortelã.
Desembrulha uma.
Guarda outra sobre a mesa.
Ninguém sabe para quem.
Ele também não explica.
Um menino entra logo depois.
Traz uma mochila maior do que as costas.
Enquanto a mãe conversa na recepção, aproxima-se da mesa de revistas. Não pega nenhuma.
Fica olhando o relógio.
Conta baixinho os segundos quando percebe que o ponteiro maior se move.
Ainda não sabe ler as horas.
Mas já descobriu que o tempo faz barulho.
Tac.
Tac.
Tac.
Quando a mãe o chama, ele aponta para o relógio.
— Ele nunca cansa?
Ela olha para cima.
Sorri.
Não responde.
Há perguntas que continuam crescendo mesmo depois da infância.
Uma porta se abre.
Um nome é chamado.
Uma cadeira fica vazia.
Outra pessoa ocupa o lugar poucos minutos depois.
Durante toda a manhã, esse movimento se repete sem nunca ser exatamente igual.
Um homem sai enxugando discretamente os olhos.
Logo depois, uma jovem deixa a mesma porta segurando um envelope e tentando esconder um sorriso.
A sala não pergunta.
Nunca perguntou.
Aprendeu que portas fechadas guardam notícias que pertencem apenas a quem as atravessa.
Perto das dez horas, falta energia.
O aparelho de ar-condicionado silencia.
A televisão apaga.
O relógio para.
Pela primeira vez naquela manhã, ninguém olha para o celular.
As pessoas levantam os olhos.
Olham umas para as outras.
Trocam pequenos sorrisos, como se o tempo, finalmente interrompido, lhes devolvesse aquilo que haviam esquecido desde cedo: a presença dos outros.
A luz retorna poucos minutos depois.
O relógio volta a funcionar.
As conversas desaparecem.
Cada um regressa ao próprio silêncio.
No fim da manhã, a sala começa a esvaziar-se.
A recepcionista organiza as revistas.
Recolhe um copo descartável.
Fecha uma persiana que o sol insistia em atravessar.
Sobre a mesa permanece uma bala de hortelã.
A mesma que o velho deixou antes de entrar.
Ele saiu.
Esqueceu-se dela.
Ou decidiu deixá-la.
Ninguém sabe.
A funcionária estende a mão para recolhê-la.
Pensa melhor.
Deixa-a onde está.
Pouco depois, outro menino entra acompanhado da avó.
Enquanto ela entrega os documentos, ele se aproxima da mesa.
Olha a bala.
Sorri.
Guarda-a no bolso.
Como se alguém a tivesse deixado exatamente para ele.
A sala de espera não percebe presentes.
Nem despedidas.
Conhece apenas uma verdade antiga.
As pessoas entram carregando perguntas.
Saem levando respostas.
Ou novas perguntas.
Ela continua ali.
Recebendo o intervalo entre umas e outras.
(Betto Gasparetto – viii- mcmxciv)
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