Os Doze Cânticos da Permanência (12/12)

Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo

(Betto Gasparetto)

Cântico XII — O Último Capítulo Permanecia em Branco

Transitus Primus — O Manuscrito Inacabado

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Toda grande narrativa conhece o instante em que seus personagens compreendem que nenhuma história verdadeiramente nobre termina quando a última página é alcançada.
Os antigos cronistas sabiam disso.
Por essa razão deixavam sempre espaço suficiente para que o tempo acrescentasse aquilo que nenhuma pena poderia prever.
Não era descuido.
Era sabedoria.
Reconheciam que a existência possui uma capacidade inesgotável de ampliar aquilo que parecia concluído.
No interior da fortaleza existia um amplo salão reservado à preservação dos grandes registros da cidade.
Ali permaneciam reunidos mapas cuidadosamente desenhados, tratados elaborados por estudiosos, relatos de viajantes, correspondências diplomáticas, diários de expedições, projetos arquitetônicos e incontáveis manuscritos cuja importância havia atravessado muitas gerações.
Cada documento ocupava seu lugar com a mesma serenidade das pedras que sustentavam as muralhas.
Nada buscava superioridade.
Tudo contribuía para uma memória comum.
As estantes elevavam-se até próximo ao teto de madeira escura.
Escadas móveis deslizavam silenciosamente para alcançar os volumes mais altos.
As mesas largas permaneciam iluminadas pela claridade que atravessava as altas janelas arqueadas.
O ambiente inteiro parecia dedicado a proteger aquilo que somente o tempo consegue transformar em legado.

Transitus Secundus — O Legado da Convivência

Também os sentimentos mais elevados aspiram tornar-se legado.
Não desejam limitar-se ao entusiasmo dos primeiros encontros.
Buscam adquirir a estabilidade das obras destinadas a permanecer úteis muito depois de seu nascimento.
Esse era o verdadeiro privilégio da convivência paciente.
Cada dia acrescentava uma pequena linha ao grande manuscrito da memória.
Nenhuma parecia extraordinária quando observada isoladamente.
Entretanto, reunidas ao longo dos anos, transformavam-se em capítulos cuja beleza ultrapassava qualquer expectativa inicial.
As manhãs continuavam surgindo com admirável regularidade.
A luz percorria lentamente os jardins.
As fontes preservavam seu movimento constante.
Os artesãos abriam suas oficinas.
Os mercados acolhiam discretamente os primeiros visitantes.
Os escribas preparavam a tinta e organizavam novos pergaminhos.
Nada interrompia o delicado equilíbrio da cidade.
Essa continuidade não representava repetição.
Era aperfeiçoamento.
Cada amanhecer oferecia a oportunidade de realizar com ainda mais excelência aquilo que já havia sido iniciado.
Assim amadurecia o romance.
Jamais dependia da novidade para conservar seu encanto.
Encontrava beleza na permanência.
Descobria entusiasmo na constância.
Renovava-se através da atenção dedicada aos detalhes que somente a convivência prolongada consegue revelar.

Transitus Tertius — As Páginas do Futuro

As conversações permaneciam longas.
Ora percorriam antigos acontecimentos preservados pela memória.
Ora imaginavam projetos destinados ao futuro.
Nunca havia oposição entre recordar e sonhar.
Ambos pertenciam ao mesmo caminho.
Quem valoriza a memória compreende melhor aquilo que deseja construir.
Quem cultiva o futuro aprende a honrar ainda mais aquilo que recebeu do passado.
Os grandes salões acolhiam caminhadas tranquilas entre as estantes.
Cada livro retirado revelava uma nova perspectiva.
Cada mapa aberto ampliava a compreensão do mundo.
Cada relato antigo lembrava que nenhuma geração começa verdadeiramente do início.
Toda existência recebe uma herança invisível formada pelas experiências daqueles que vieram antes.
Também o afeto recebia semelhante herança.
Aprendia diariamente com cada gesto de respeito.
Fortalecia-se pela confiança acumulada.
Expandia-se através da admiração continuamente renovada.
As janelas permaneciam abertas para os jardins.
A brisa movimentava suavemente as páginas dos manuscritos.
O perfume das árvores aproximava o mundo exterior daquele espaço dedicado ao pensamento.
Era impossível separar completamente o conhecimento da contemplação.
Ambos pertenciam à mesma forma de sabedoria.
Conhecer sem admirar empobrece a inteligência.
Admirar sem compreender enfraquece a beleza.
Quando ambos caminham juntos, nasce uma serenidade capaz de atravessar o tempo.

Transitus Quartus — A Página Que Ainda Espera

As estações continuavam alternando suas cores sobre os campos.
Os rios prosseguiam silenciosamente em direção ao horizonte.
As pontes permaneciam unindo margens.
As torres conservavam sua vigilância tranquila.
Nada parecia extraordinário.
Entretanto, exatamente nessa continuidade repousava o verdadeiro esplendor da existência.
As obras destinadas a permanecer não precisam reinventar-se diariamente.
Basta-lhes conservar a fidelidade àquilo que lhes concedeu identidade.
O romance alcançava então uma maturidade silenciosa.
Já não buscava explicar sua própria grandeza.
Ela manifestava-se naturalmente.
Na confiança que dispensava confirmações.
Na liberdade sustentada pelo respeito.
Na alegria tranquila de compartilhar o cotidiano.
Na disposição constante para continuar aprendendo.
Na certeza de que ainda existiam inúmeros capítulos por escrever.
Os antigos escribas encerravam seus manuscritos com caligrafia cuidadosa.
Jamais apressavam a última linha.
Sabiam que o encerramento merece a mesma atenção concedida ao primeiro parágrafo.
Contudo, alguns deles deixavam deliberadamente uma folha em branco ao final da obra.
Não era ausência de inspiração.
Era uma homenagem ao futuro.
Reconheciam que nenhuma inteligência consegue antecipar todas as possibilidades da existência.
Também aquele romance recusava qualquer conclusão definitiva.
Preferia conservar aberta a possibilidade de novas descobertas.
De novas caminhadas.
De novos jardins.
De novas bibliotecas.
De novos horizontes.
Cada amanhecer ainda possuía algo a ensinar.
Cada diálogo ainda escondia perguntas jamais formuladas.
Cada silêncio ainda continha significados que apenas o tempo revelaria.
Foi então que a última página deixou de representar um fim.
Transformou-se em convite.
Não para recomeçar aquilo que já havia sido vivido, mas para continuar ampliando uma história cuja verdadeira riqueza consistia precisamente em nunca considerar concluída a arte de conhecer, admirar e acompanhar a existência de quem caminhava ao lado.
Assim permaneceu o derradeiro capítulo, deliberadamente vazio de palavras, mas pleno de possibilidades, aguardando apenas que novas experiências, novas delicadezas, novos gestos de generosidade e novas manhãs viessem preencher, com a mesma elegância cultivada desde o primeiro encontro, a continuação de uma narrativa que jamais pertenceu ao encerramento, mas à inesgotável capacidade humana de transformar cada novo dia em mais uma página digna de ser preservada entre as obras mais nobres da memória.

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POST SCRIPTUM

Nenhum destes cânticos pretende encerrar uma verdade.
Cada um oferece apenas uma janela.
Uma estrada.
Uma biblioteca.
Um jardim.
Uma ponte.
Um horizonte.

As grandes obras não aspiram ao ruído.
Desejam apenas permanecer.
Que assim aconteça também com estes cânticos.
Que sejam revisitados em diferentes estações da vida.
Que encontrem novos significados a cada reencontro.
Que acompanhem momentos de contemplação, de esperança e de amadurecimento.
E que, ao fechar este conjunto de cânticos, o leitor descubra que a última página jamais representa um término, mas apenas a delicada passagem entre a história que foi lida e aquela que continuará sendo escrita, silenciosamente, pela própria existência.
Assim repousa este manuscrito.
Não como uma obra encerrada.
Mas como uma porta que permanece entreaberta, aguardando o instante em que um novo leitor, movido pela curiosidade, pela serenidade e pelo desejo de caminhar sem pressa, decida atravessá-la novamente.

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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)

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