Os Doze Cânticos da Permanência (11/12)
Poemas em Prosa sobre o Amor, a Memória e a Nobreza do Tempo
(Betto Gasparetto)
Cântico XI — O Relógio Nunca Apressava as Horas
Transitus Primus — A Torre do Tempo

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Na torre mais elevada da antiga cidade havia um grande relógio cuja presença ultrapassava a simples função de anunciar a passagem das horas.
Seu mecanismo fora construído por mãos pacientes, capazes de compreender que a precisão não nasce da velocidade, mas da perfeita harmonia entre cada pequena engrenagem.
Nenhuma peça procurava destacar-se das demais.
Cada uma aceitava silenciosamente sua responsabilidade.
Era dessa discreta cooperação que surgia a exatidão admirada por toda a cidade.
Muito antes do amanhecer, quando os primeiros sinais de luz ainda repousavam além das colinas, o velho relógio já cumpria seu ofício com a mesma serenidade dos dias anteriores.
As ruas permaneciam silenciosas.
As janelas continuavam fechadas.
As praças aguardavam a chegada dos habitantes.
Entretanto, o tempo jamais permanecia imóvel.
Avançava com uma elegância impossível de perceber pelos olhos apressados.
As torres observavam os campos distantes.
As muralhas acolhiam a brisa suave que descia das montanhas.
Os jardins ainda conservavam o brilho delicado do orvalho.
Tudo parecia repousar em perfeita concordância com a lenta respiração da manhã.
Havia beleza naquela espera.
Nem toda grande transformação necessita ser imediatamente visível.
Algumas das mais profundas acontecem justamente enquanto o mundo acredita que nada está acontecendo.
Transitus Secundus — As Engrenagens da Convivência

Também o romance seguia esse mesmo princípio.
Não procurava modificar os dias através de acontecimentos extraordinários.
Preferia alterar lentamente a maneira como cada amanhecer era percebido.
Os caminhos continuavam os mesmos.
As casas permaneciam em seus lugares.
Os mercados conservavam sua rotina.
Entretanto, tudo adquiria nova luminosidade quando observado ao lado de quem aprendera a compartilhar a mesma direção.
A convivência revelava pequenas descobertas que anteriormente passavam despercebidas.
Uma janela aberta permitindo a entrada da luz da manhã.
O perfume discreto das árvores próximas aos jardins.
O som tranquilo da água percorrendo antigas fontes de pedra.
O brilho dos manuscritos repousando sobre grandes mesas de carvalho.
Nada possuía grandiosidade isoladamente.
Mas reunidos, esses detalhes compunham uma beleza impossível de ignorar.
As conversações atravessavam lentamente as horas.
Jamais demonstravam preocupação em alcançar rapidamente uma conclusão.
Cada assunto encontrava seu próprio ritmo.
Cada reflexão amadurecia naturalmente.
As perguntas não eram formuladas para desafiar.
Nasciam da curiosidade respeitosa.
As respostas não pretendiam encerrar o pensamento.
Apenas ofereciam novos caminhos para continuar caminhando.
Assim crescia a admiração.
Não como uma chama inquieta.
Mas como a luz constante de uma manhã que lentamente ocupa toda a paisagem.
Transitus Tertius — A Dança da Permanência

Os antigos relojoeiros ensinavam que o segredo da precisão repousa no equilíbrio entre todas as partes.
Nenhuma engrenagem pode trabalhar isoladamente.
Nenhuma mola suporta sozinha todo o mecanismo.
A perfeição depende da cooperação silenciosa.
Também os vínculos mais duradouros descobrem essa verdade.
O respeito fortalece a confiança.
A confiança amplia a liberdade.
A liberdade favorece a sinceridade.
A sinceridade aprofunda a convivência.
Cada virtude sustenta a seguinte.
Nenhuma existe plenamente sem a presença das demais.
As estações sucediam-se sobre a cidade.
Os jardins renovavam suas cores.
Os telhados recebiam diferentes tonalidades conforme a posição do sol.
Os campos amadureciam lentamente.
As colheitas sucediam-se com admirável regularidade.
Nada buscava interromper o curso natural do tempo.
A verdadeira sabedoria consistia justamente em acompanhá-lo.
Não existia qualquer desejo de antecipar o amanhã.
O presente possuía riqueza suficiente para ocupar plenamente o pensamento.
Cada encontro oferecia novas possibilidades de compreender.
Cada caminhada acrescentava uma lembrança à memória.
Cada silêncio fortalecia aquilo que as palavras haviam iniciado.
Transitus Quartus — Um Beijo no Espelho

As antigas oficinas continuavam produzindo suas obras.
Os artesãos aperfeiçoavam detalhes quase invisíveis.
Os encadernadores restauravam livros antigos.
Os arquitetos desenhavam novas construções respeitando a harmonia da cidade.
Toda criação dialogava respeitosamente com aquilo que já existia.
Também o romance compreendia que crescer não significa abandonar o passado.
Significa oferecer novos significados às experiências anteriormente vividas.
As tardes aproximavam-se com delicada serenidade.
A luz atravessava lentamente os vitrais dos grandes salões.
As sombras caminhavam sobre o piso de pedra como se também obedecessem ao velho relógio da torre.
Nada parecia deslocado.
Tudo encontrava naturalmente seu devido lugar.
Era justamente essa ordem silenciosa que tornava a cidade tão acolhedora.
Quando cada elemento aceita sua verdadeira medida, a convivência floresce sem esforço.
Ao cair da noite, pequenas luzes surgiam nas janelas espalhadas pelas ruas estreitas.
As fontes continuavam murmurando discretamente.
As árvores permaneciam imóveis sob o céu tranquilo.
O relógio seguia marcando as horas sem qualquer ansiedade.
Jamais procurava acelerar a chegada do amanhecer.
Jamais lamentava o desaparecimento do entardecer.
Limitava-se a cumprir com dignidade sua vocação.
Essa constância revelava uma profunda lição: um beijo no espelho.
Nem sempre a maior demonstração de amor consiste em transformar completamente a vida de alguém.
Às vezes, manifesta-se simplesmente na decisão firme de permanecer presente, oferecendo estabilidade, serenidade e confiança enquanto o tempo realiza silenciosamente sua própria obra.
Então compreendia-se que o mais precioso dos relógios não era aquele instalado na torre mais alta da cidade.
Existia outro, invisível, construído pela delicadeza compartilhada entre duas existências que aprenderam a medir os dias não pela quantidade de horas transcorridas, mas pela profundidade das conversações, pela elegância dos gestos cotidianos, pela fidelidade às pequenas virtudes e pela admirável capacidade de permitir que o tempo amadurecesse naturalmente aquilo que somente a paciência, a confiança e o respeito poderiam transformar em uma história destinada a permanecer luminosa muito além da memória das próprias gerações.
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(Betto Gasparetto – ii-mmxxii)
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