O Telefone Público

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Durante muitos anos, ele permaneceu firme na Praça Osório.

O velho orelhão ficava próximo ao ponto de ônibus, entre uma banca de jornais e um banco de madeira onde aposentados costumavam conversar sobre futebol, política e o preço do café.

Houve um tempo em que era impossível passar por ali sem vê-lo ocupado.

As pessoas faziam fila.

Alguns seguravam um punhado de fichas telefônicas.

Outros tinham moedas separadas no bolso.

Havia quem decorasse números de cor.

Havia quem anotasse em pedaços de papel.

Diante daquele aparelho, nasceram convites para casamentos, pedidos de emprego, notícias de nascimento, despedidas, desculpas e promessas.

O orelhão ouviu choros.

Ouviu gargalhadas.

Ouviu longos silêncios interrompidos apenas pela respiração de quem não sabia como começar uma conversa.

Depois chegaram os celulares.

Primeiro eram raros.

Depois caros.

Mais tarde, indispensáveis.

A fila desapareceu.

As fichas telefônicas viraram lembranças guardadas em gavetas.

As moedas já não tinham a mesma utilidade.

Mesmo assim, o velho telefone continuava ali.

Já ninguém telefonava.

Mas todos sabiam onde ele estava.

“Nos encontramos perto do orelhão.”

Era curioso.

O aparelho deixara de servir para ligar pessoas.

Agora servia para localizar encontros.

Com o tempo, a pintura perdeu o brilho.

O vidro ficou riscado.

Alguns botões deixaram de funcionar.

Mesmo assim, permanecia de pé.

Como um antigo funcionário que já não tinha tarefas, mas continuava sendo respeitado pelos colegas.

Numa manhã de terça-feira, um caminhão estacionou na praça.

Dois funcionários desparafusaram a base.

Desligaram os cabos.

Colocaram o velho orelhão sobre a carroceria.

Tudo durou menos de vinte minutos.

Quem passava apenas desviava o caminho.

Poucos perceberam.

Na semana seguinte, alguém marcou um encontro.

— Vamos nos encontrar perto…

Parou no meio da frase.

Olhou para a praça.

O espaço vazio pareceu estranho.

Como quando se muda um móvel antigo de lugar e a casa inteira parece diferente.

Meses depois, um estudante visitava um ferro-velho da cidade procurando peças para um trabalho escolar.

Entre postes antigos, placas de trânsito, bancos enferrujados e portões amassados, avistou uma estrutura conhecida.

Aproximou-se.

Era o velho orelhão da Praça Osório.

Agora estava deitado sobre um monte de sucata.

Coberto de poeira.

Sem cabos.

Sem telefone.

Sem voz.

Passou a mão sobre a carcaça metálica.

Ainda era possível ler parte da antiga identificação.

Por alguns instantes imaginou quantas histórias haviam começado exatamente ali.

Talvez nenhum museu registrasse aqueles momentos.

Nenhum arquivo guardasse aquelas conversas.

Nenhum jornal tivesse noticiado os reencontros, as reconciliações ou as despedidas que aquele aparelho testemunhou.

Mas elas existiram.

E talvez esse seja o destino de muitas coisas importantes.

Cumprirem sua missão discretamente.

Depois desaparecerem sem cerimônia.

As cidades costumam preservar monumentos.

Mas são os objetos comuns que, muitas vezes, guardam as lembranças mais humanas.

E, às vezes, um velho telefone desligado continua ligando pessoas à própria memória.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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