O Cartão de Visitas

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell + Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A gaveta emperrou duas vezes antes de abrir.

Henrique puxou com mais força e quase derrubou o criado-mudo.

— Era só o que faltava.

Estava tentando organizar o quarto havia três dias.

Na prática, “organizar” significava tirar objetos de um lugar, olhar para eles durante alguns segundos e colocá-los em outro.

Recibos antigos.

Canetas sem tinta.

Parafusos sem origem conhecida.

Uma fotografia três por quatro.

Duas chaves que já não abriam nada.

No fundo da gaveta, encontrou um cartão de visitas.

Papel grosso.

Um pouco amarelado nas bordas.

Na frente, um nome:

Eduardo Salles

Abaixo, um telefone fixo.

E uma frase escrita à mão:

“Quando quiser conversar sobre aquela ideia, me procure.”

Henrique ficou parado.

Lembrou-se imediatamente.

Quinze anos antes, trabalhava como auxiliar administrativo numa pequena empresa.

Salário apertado.

Ônibus lotado.

Almoço levado de casa.

Sonhava abrir um negócio próprio.

Tinha ideias demais e coragem de menos.

Eduardo era cliente da empresa.

Certa tarde, depois de ouvir Henrique explicar como reorganizaria o estoque e reduziria desperdícios, perguntou:

— Você já pensou em trabalhar por conta?

Henrique riu.

— Pensar é de graça.

— Ainda.

Conversaram por alguns minutos.

Antes de ir embora, Eduardo entregou o cartão.

— Me procure.

Naquela época, Henrique guardou o cartão no bolso.

Depois na carteira.

Depois numa gaveta.

Depois na vida.

Nunca ligou.

Primeiro porque achava que ainda não estava preparado.

Depois porque o trabalho apertou.

Depois veio o casamento.

A prestação do apartamento.

Os filhos.

As contas.

A pandemia.

Outros empregos.

Outras desculpas.

Quinze anos passaram com uma eficiência impressionante.

Sentado na beirada da cama, Henrique girou o cartão entre os dedos.

O telefone provavelmente nem existia mais.

Mesmo assim, pegou o celular.

Digitou o número.

Chamou.

Uma vez.

Duas.

Três.

Atenderam.

— Alô?

Henrique demorou um pouco.

— O senhor Eduardo Salles?

— Quem gostaria?

— Meu nome é Henrique. Trabalhei numa empresa de materiais de escritório muitos anos atrás.

Silêncio.

— Henrique… o rapaz do estoque?

Ele riu.

— Ainda lembra?

— Lembro de quem tinha boas ideias e nunca me telefonou.

Henrique olhou para o cartão.

— Demorei um pouco.

— Quinze anos é um pouco generoso.

Os dois riram.

Eduardo já estava aposentado.

A empresa que possuía havia sido vendida.

Morava em outra cidade.

A oportunidade que existira naquela época não existia mais.

Henrique sentiu uma pequena vergonha.

Talvez tivesse telefonado tarde demais.

Antes de desligar, porém, Eduardo perguntou:

— E aquela ideia? Você fez alguma coisa com ela?

— Não.

— Ainda acha boa?

Henrique olhou ao redor.

A gaveta continuava aberta.

A cama cheia de papéis.

A vida, mais ou menos do mesmo jeito.

— Acho.

— Então talvez você não tenha ligado para mim.

Talvez tenha ligado para ela.

Henrique ficou alguns segundos em silêncio.

Despediram-se.

Naquela noite, ele não abriu empresa nenhuma.

Não escreveu plano de negócios.

Não tomou nenhuma grande decisão.

Apenas colocou o velho cartão sobre a mesa, ao lado do computador.

Na manhã seguinte, antes de sair para o trabalho, escreveu numa folha:

“E se eu começasse agora?”

Dobrou o papel.

Guardou no bolso.

O cartão permaneceu sobre a mesa.

Desta vez, fora da gaveta.

(Betto Gasparetto – viii – mcmxciv)

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